Harrry Potter e as Relíquias da Morte – Partes 1 e 2

Nota: ★★★½

(Disponível no HBO Max em 7/2022.)

Os dois filmes Harry Potter e as Relíquias da Morte, Partes 1 e 2, lançados com um rápido intervalo de meio ano entre eles, em novembro de 2010 e julho de 2011, encerram a saga do jovem bruxo e seus amigos Rony e Hermione com o mesmo brilho dos seus seis antecessores.

É tudo, tudo, tudo uma maravilha.

Que extraordinário conjunto de filmes essa equipe teve a coragem e o talento de criar.

Porque, diabo, era mesmo preciso ter coragem e talento em doses amazônicas, jupiterianas, para passar para a tela esse mundo mágico, enlouquecedoramente cheio de criaturas, eventos e situações fantásticas que saíram da cabeça de J.K. Rowling, meu Deus do céu e também da Terra.

Elfos, duendes, viagens mágicas, fantasmas, dragões, bruxos e bruxarias de todos os tipos…

E eventos que vão se dando ao longo de um amplo período, desde que Harry Potter, Hermione Granger e Rony Weasley tinham 11 anos de idade até quando eles estão com 17, 18. (Isso sem falar do epílogo, os 3 ou 4 minutos do epílogo, é claro.)

Nesse quesito fundamental, a escolha dos garotos para fazer os papéis centrais de uma série de filmes que levaria 11 anos para ser produzida, os realizadores da saga tiveram o talento da equipe de casting – mas puderam também contar com a sorte. E, diabo, foi uma quantidade abissal de sorte eles terem encontrado Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint para os três papéis centrais.

Diacho: Daniel, de 1989, tinha 12 anos em 2001, o lançamento do primeiro filme da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal, e 22 em 2011, o ano da segunda parte deste Harry Potter e as Relíquias da Morte. Emma Watson é do ano seguinte ao dele, 1990, e Rupert é de 1988.

Manter os três protagonistas ao longo de dez anos já seria uma sorte imensa – mas os realizadores tiveram ainda a felicidade de manter nos papéis dos coleguinhas de Harry, Hermione e Rony os mesmos atores, que foram crescendo junto com os personagens – como, para citar só alguns, Bonnie Wright (Ginny Weasley), Chris Rankin (Percy Weasley), James Phelps (Fred Weasley), Oliver Phelps (George Weasley), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Tom Felton (Draco Malfoy), Jamie Waylett (Crabbe), Josh Herdman (Goyle), Devon Murray (Seamus Finnigan), Alfred Enoch (Dean Thomas).

Os principais personagens adultos foram, da mesma forma, interpretados pelos mesmos atores, ao longo dos dez anos em que foram lançados os filmes da série. Com a grande exceção justamente do diretor da Escola de Bruxaria e Mágica de Hogwarts. A figura imponente do grande, idoso mago, com sua aura de extremas competência e bondade, foi interpretada, nos dois primeiros filmes, por Richard Harris. O veterano ator irlandês de 76 títulos, 11 prêmios, fora outras 19 indicações, inclusive duas ao Oscar, morreria em outubro de 2002, aos 72 anos. Foi substituído a partir do filme 3, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, por outro respeitado veterano, Michael Gambon.

Os atores adultos são assunto à parte. Fala-se deles mais adiante.

Uma incrível unidade entre os filmes da saga

Claro: a manutenção dos atores em seus papéis ao longo de uma década dá à série uma unidade fantástica, sensacional. É o elemento mais visível, mais claramente visível da unidade dos oito filmes baseados nos sete romances escritos por J.K. Rowling e lançados entre 1997 e 2007. Mas o elenco é apenas um dos elementos que garantem a incrível unidade que os filmes da saga apresentam.

Outro deles, creio que dá para apontar com segurança, é a própria J.K. Rowling, que acompanhou de perto toda a produção dos oito filmes. A escritora deu palpites na escolha dos atores; muito provavelmente deve ter conversado bastante com os diretores, os roteiristas. Nestes dois últimos filmes da saga ela atuou também como produtora.

Uma das muitas qualidades dos filmes da saga Harry Potter é a fidelidade aos livros de J.K. Rowling – esse fenômeno extraordinário, o maior sucesso literário das últimas décadas no mundo todo, com 450 milhões de exemplares vendidos. Dá para dizer com toda certeza, agora, depois de ver todos os oito, que um dos grandes responsáveis pela unidade dos filmes, e pela sua qualidade, é Steve Kloves, esse texano nascido em 1960 que assinou sozinho os roteiros de sete dos oito filmes da saga. Ele de fato fez um trabalho excepcional, fantástico, na adaptação das histórias da escritora inglesa para a linguagem cinematográfica.

Kloves – que, antes de mergulhar neste mundo fantástico destinado ao público juvenil dos 8 aos 80 anos, havia feito os roteiros de belos filmes para gente adulta, madura, como Susie e os Baker Boys (1989) e Garotos Incríveis (2000) – conseguiu a façanha dificílima de ser fiel, extremamente fiel a livros que, além de histórias da mais delirante fantasia, são grandes, volumosos, cartapácios, catataus, e absolutamente cheios de personagens e tramas e subtramas e mais subtramas.

Há diversas, diversas ocasiões, ao longo dos oito filmes da saga, em que vemos na tela exatamente o que está escrito nos livros. Exatamente! Igualinho que nem! É extraordinário.

Steve Kloves, e também Michael Goldenberg, que fez o roteiro do filme 5, Harry Potter e a Ordem da Fênix, conseguiram a proeza de botar dentro de cada filme toda a intrincada trama de cada um dos primeiros seis livros de J.K. Rowling. É verdade que para isso os filmes tiveram que ser bem mais longos do que a imensa maioria dos exibidos nos cinemas mundo afora – em geral, os filmes do circuito comercial variam entre os 90 e os 110 minutos. Os seis primeiros da saga Harry Potter oscilaram entre 142 e 157 minutos. Um tanto longos demais, em especial para o público mais bem jovem. Mas não creio que a duração tenha sido um grande empecilho – e tenho o exemplo da minha neta, que viu todos os oito, cada um depois de ter lido com a mãe o livro correspondente, entre os oito e os nove anos de idade.

Os roteiristas conseguiram a proeza com relação aos seis primeiros livros da saga. Diante do sétimo e último, Harry Potter e as Relíquias da Morte, 36 capítulos mais o epílogo, 638 páginas na edição capa dura brasileira da Rocco de 2020, com tradução de Lia Wyler, não foi possível. Tiveram que fazer dois filmes diferentes, parte 1 e parte 2, um com 146 minutos, outro com 130.

Para realçar esses pontos – a manutenção do mesmo roteirista ao longo de quase toda a saga, o nome dos vários diretores e o tempo de duração dos filmes – resolvi fazer uma tabela. Virou uma marca: em cada anotação sobre os filmes Harry Potter, uma tabela. Ou duas…

1 – Harry Potter e a Pedra Filosofal / Harry Potter and the Philosopher’s Stone (2001) De Chris Columbus,

roteiro Steve Cloves

152 min
2 – Harry Potter e a Câmara Secreta / Harry Potter and the Chamber of Secrets (2002) De Chris Columbus,

roteiro Steve Cloves

161 min
3 – Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban / Harry Potter and the Prisioner of Azkaban (2004) De Alfonso Cuarón,

roteiro Steve Kloves

142 min
4 – Harry Potter e o Cálice de Fogo / Harry Potter and the Goblet of Fire (2005) De Mike Newell,

roteiro Steve Kloves

157 min
5 – Harry Potter e a Ordem da Fênix / Harry Potter and the Order of the Phoenix (2007) De David Yates,

roteiro Michael Goldenberg

138 min
6 – Harry Potter e o Enigma do Príncipe / Harry Potter and the Half-Blood Prince (2009) De David Yates,

roteiro Steve Kloves

153 min
7 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 / Harry Potter and the Deathly Hollow: Part 1 (2010)

 

De David Yates,

roteiro Steve Kloves

146 min
8 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 / Harry Potter and the Deathly Hollow: Part 2 (2011) De David Yates,

roteiro Steve Kloves

130 min

Quatro diferentes diretores em oito filmes

Os mesmos atores, ao longo de uma década inteira. O mesmo roteirista praticamente o tempo todo. E o mesmo produtor: David Heyman, com sua Heyday Films, foi o responsável por todos os oito filmes da saga juntamente com a Warner Bros.

E foram quatro diferentes diretores!

Primeiro, o americano da Pensilvânia e da classe de 1958 Chris Columbus, um dos grandes especialistas em filmes para o público infanto-juvenil de toda a História, o cara que fez Esqueceram de Mim (1990). Depois, o mexicano da capital e da classe 1961 Alfonso Cuarón, realizador absolutamente eclético, que fez desde a adaptação moderna de um clássico de Charles Dickens, Grandes Esperanças (1998) à ficção científica Gravidade (2013) passando pela distopia Filhos da Esperança (2006) e a recriação da época de sua infância no maravilhoso Roma (2018).

Em seguida, um filme dirigido pelo inglês de Hertfordshire, veterano da classe de 1942 Mike Newell, o cara que conseguiu transformar O Amor nos Tempos do Cólera de Gabriel García Márquez numa porcaria de filme, mas ao mesmo tempo fez uma das mais maravilhosas comédias românticas de todos os tempos, Quatro Casamentos e um Funeral (1994).

E aí veio David Yates, para completar o ciclo, nos quatro últimos filmes. Inglês da região de Merseyside, nascido em 1963, é o mais jovem dos quatro diretores que fizeram os filmes Harry Potter. Parece ter se dado bem com o universo mágico criado por J.K. Rowling, porque foi o diretor dos três filmes que viriam depois do fim da saga do bruxinho – Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016), Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (2018) e Animais Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore (2022). Esses três aí são o que a língua inglesa, aquela maravilha que sabe rapidamente inventar palavras, chama de prequels – “uma história ou filme contendo eventos que precederam aqueles de um trabalho existente”. Uma sequência que se passa no passado. Uma sequência prévia, que vem antes. Diabo: a Última Flor do Lácio é uma maravilha, mas o inglês inventa palavras com uma facilidade que nós não temos…

O Lorde das Trevas venceu, e tudo é o horror

Harry Potter e as Relíquias da Morte Partes 1 e 2 são filmes barra-pesada. O próprio título, diabo, já mostra isso.

Bem, quase tudo, ao longo de toda a saga Harry Potter, é barra-pesada – mas a trama deste Harry Potter and the Death Hollows é especialmente, essencialmente barra-pesada. Dark, sombria, sinistra.

Se eu tivesse o dom da síntese, conseguiria dizer que…

Bem. Vou tentar resumir aqui o que acontece nos filmes anteriores – o que significa que é absoluto spoiler para quem ainda não viu os filmes nem leu os livros. Claro: não haveria sentido alguém que não viu os filmes anteriores estar lendo este texto, mas, se por acaso isso aconteceu, aviso com todas as letras: o que vem agora é spoiler para quem não conhece a saga Harry Potter!

Se eu tivesse o dom da síntese, conseguiria dizer que…

No finalzinho do tomo 4 da saga, Harry Potter e o Cálice de Fogo, Você-Sabe-Quem, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, o Lorde das Trevas, o bruxo do Mal em Si (o papel de Ralph Fiennes, na foto acima), havia conseguido recuperar um corpo. Ao longo dos 13 anos anteriores – desde que havia sido derrotado numa luta contra bruxos do bem, tendo assassinado James e Lily Potter, mas não conseguido matar o filhinho deles, Harry, então bebê – o Lorde das Trevas conseguira sobreviver como algo próximo de uma fumaça, um poderosíssimo espírito do Mal sem corpo físico para agir.

Mas aí, no finalzinho do livro e filme 4, ele havia conseguido recuperar um corpo.

E, nos dois tomos seguintes, livros e filmes 5 e 6, Harry Potter e a Ordem da Fênix e Harry Potter e o Enigma do Príncipe, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado vai ficando cada vez mais forte, acumulando mais e mais seguidores.

No finalzinho do livro e do filme 6, o maior representante do lado do Bem, o professor Alvo Dumbledore (Michael Gambon, como já foi dito), o diretor da Escola de Bruxaria e Magia de Hogwarts, é assassinado pelo professor Severo Snape (Alan Rickman, na foto abaixo).

Quando o livro 7 e último começa, Você-Sabe-Quem já tomou o poder. Um discípulo seu ocupa o Ministério da Magia. Severo Snape é o novo diretor de Hogwarts. Os membros da Ordem da Fênix – os do bem, os que apoiavam Dumbledore – estão sendo duramente perseguidos.

Está tudo um absoluto horror.

O mundo dos bruxos está vivendo, no livro 7 e portanto nos dois filmes Harry Potter e as Relíquias da Morte, um clima de Alemanha e de Itália nos anos 1930.

Um clima de Brasil neste 2022 pavoroso, com os Comensais da Morte no poder, com dementadores sugando todo o sopro vital, destruindo qualquer tipo de vida, alegria, alento, esperança.

Diversas sequências de beleza incrível

A quantidade de sequências extraordinárias, de tirar o fôlego do espectador, é impressionante. Meu, como são fantásticas, na Parte 1, as sequências que mostram

* Os vários bruxos da Ordem da Fênix transportando Harry da casa de seus tios trouxas até A Toca – e os Comensais da Morte, chefiados pelo próprio Você-Sabe-Quem, atacando;

* A invasão do Ministério por Harry, Hermione e Rony, os três transmutados em outros bruxos adultos que trabalham lá.

E, na parte 2,

* O assalto ao banco de Gringotes, seguido pela sensacional fuga no lombo do dragão que sobrevoa Londres e viaja até o interiorzão da ilha:

* O momento em que Harry entra na Penseira e vê as lembranças de Severo Snape – e o entendimento dele, e do espectador, a respeito dos fatos acontecidos no final do tomo 6 muda completamente;

* E, é claro, a grande batalha final de Hogwarts.

Não daria mesmo, de forma alguma, botar isso tudo (e o muitíssimo mais que há na trama) dentro de um único filme. Um item da página de Trivia sobre o filme Parte 1 no IMDb resume com perfeição a coisa. O roteiro inicial – disse o produtor David Heyman – tinha cerca de 500 páginas. A previsão era de que ele resultaria em um filme de 5 horas e meia. Ou seja: impossível. Diante disso, não tinha outro jeito a não ser dividir o filme em duas partes diferentes.

Entre tantas sequências longas e maravilhosas, como essas que citei logo aí acima, há, quando a Parte 1 já está bem após a metade, uma que me impressionou tremendamente: a cena em que Harry e Hermione, no fundo do poço do desespero, sem saber o que fazer para encontrar as horcruxes que precisavam desesperadamente achar, de repente… Dançam.

É uma beleza de sequência – mas, estranhamente, foge do clima do livro. Não existe nada parecido no romance.

Naquele momento ali, as coisas estavam tão mal, tão absolutamente sem saída, que, após uma duríssima confrontação, Rony havia desistido de prosseguir com os dois grandes amigos, Harry e Hermione, tentando cumprir o que Dumbledore havia pedido a Harry – encontrar as horcruxes e destruí-las todas, o que permitiria enfim que o Lorde das Trevas, se derrotado numa luta direta, morresse, finalmente. Desaparecesse da face da Terra.

Harry e Hermione haviam ficado sozinhos. Andavam pelo país, tendo sempre que se esconder dos Comensais da Morte e dos dementadores. A cada momento em que chegavam a um lugar, tinham que erguer todo tipo de feitiço protetor para não serem encontrados.

No livro, os dois amigos nessa ocasião quase não estão se falando. Hermione sentia uma tremenda falta de Rony, por quem estava apaixonada – embora os dois ainda não tivessem finalmente assumido que se amavam.

Não havia nenhum envolvimento amoroso entre Harry e Hermione. De forma alguma. Jamais houve. Nessa altura aí, Harry estava apaixonado por Gina, a irmã caçula de Rony (o papel de Bonnie Wright), e Hermione por Rony.

Pois é.

Mas então, de repente, ali pelos, sei lá, 100 minutos dos 146 de duração de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1, Harry e Hermione estão dentro da barraca em que acampam, e começa a tocar uma música no rádio.

E aí Harry vai lá e envolve Hermione e os dois começam a dançar.

Diacho: é uma sequência linda, maravilhosa!

A música que está tocando (e eu não conhecia) é “Oh Children”, de e com Nick Cave.

Não sei por que essa música especificamente foi escolhida, e acho que a sequência não tem muito a ver com a história, com o momento que os personagens estão vivendo – mas, diabo, é linda.

Me fez lembrar a sequência – também linda, impressionante – de A Testemunha, em que, no celeiro da fazenda dos quakers em que o personagem de Harrison Ford estacionou seu carro, o rádio começa a tocar a deliciosa “(What a) Wonderful World”, de Sam Cooke-Herb Alpert-Lou Adler, e, embora proibida de dançar pela religião rígida, a personagem de Kelly McGillis, linda (meu Deus, como aquela moça era linda!), desajeitada, envergonhada, vai tentando acompanhar os movimentos do sujeito.

Mas talvez a sequência mais brilhante de todas destes dois filmes que encerram a série seja mesmo aquela em que o velho fabricante de varinhas mágicas, Ollivander, no Brasil Olivaras (o papel do grande John Hurt), conta para os três garotos a história dos três irmãos que, diante de um rio, encontraram a Morte, e conversaram com ela. A história é fundamental na trama do livro 7 e dos filmes 7 e 8: é nela que se explica a origem das relíquias da morte que dão o título ao último tomo da saga Harry Potter.

Quem leu os livros aproveita muito mais

Ao longo deste texto já foram citados Richard Harris, Michael Gambon, Ralph Fiennes, Alan Rickman e agora há pouco John Hurt. O texto já está longo, mas não dá para deixar de falar um pouco que seja sobre a quantidade absurda de grandes nomes do cinema das Ilhas Britânicas que participaram da saga Harry Potter.

Creio que pouquíssimas vezes foram reunidos tantos talentos em um único projeto quanto aqui. Talvez o único filme que tenha mais grandes nomes seja O Mais Longo dos Dias/The Longest Day (1962), a produção de Darryl F. Zanuck reconstituindo o Dia D da Segunda Guerra Mundial.

É impressionante demais.

Além desses citados acima, estão nos filmes da saga Maggie Smith, Emma Thompson, Kenneth Branagh, Gary Oldman, Helena Bonham Carter, Julie Christie, Timothy Spall, Imelda Staunton, Brendan Gleeson, David Thewlis, Julie Walters, Jim Broadbent, Ciarán Hinds, Gemma Jones, Bill Nighy, Kelly Macdonald, Miranda Richardson, Fiona Shaw, Ian Hart, John Cleese, Toby Jones.

É muito luxo. É chique demais.

Nestes dois filmes finais, alguns desses grandes atores aparecem rapidissimamente. Miranda Richardson, por exemplo, que faz Rita Skeeter, a repórter sensacionalista, irresponsável, surge em apenas uma sequência, na contracapa do seu livro cheio de mentiras sobre Alvo Dumbledore. A esplendorosa Emma Thompson, que faz a professora Sybil Trelawney, a gente nem vê direito, entre a multidão de professores e alunos de Hogwarts na sequência da batalha entre o Bem e o Mal. Bill Nighy aparece em duas sequências, como o novo ministro da Magia.

Bem. Gostaria de fazer uma consideração final que se aplica a esses dois filmes Harry Potter e as Relíquias da Morte e também a toda a saga – e é uma consideração que pode talvez parecer um tanto contraditória com o que escrevi antes.

Ao longo de todos os oito filmes, mas especialmente nestas duas partes das Relíquias da Morte, fiquei pensando se um espectador que não leu os livros conseguiria compreender plenamente toda a grande história criada por J.K.Rowling, com todas as suas muitas subtramas.

Há, nos livros, como pano de fundo para as aventuras e desventuras de Harry, Hermione e Rony, toda uma identificação do Mal, dos representantes do Mal – o Lorde da Trevas e seus seguidores, os Comensais da Morte – com o racismo, o supremacismo. Abrindo o escopo, com as ditaduras de extrema direita – com o nazismo, em última forma.

Os seguidores do Lorde das Trevas defendem a supremacia absoluta dos bruxos que são filhos de bruxos com bruxas, que têm o “sangue bom” – a raça pura.

Quem é mestiço, miscigenado, half-blood, descendente de bruxo/a com trouxa, é inferior. Draco Malfoy e seus amigos xingam Hermione – a aluna mais brilhante da Escola de Bruxaria e Magia de Hogwarts – de “sangue ruim” o tempo todo. O que deixa absolutamente enfurecidos Harry e Rony.

Todas as pessoas de bem, de bom caráter, Alvo Dumbledore e sua principal aliada, a professora Minerva McGonagall (o papel de Maggie Smith) à frente, são virulentamente anti-racistas. A favor da convivência tranquila, pacífica, enriquecedora entre os “puro sangue” e os mestiços. A favor da absoluta igualdade de direitos entre todos.

O exato oposto de todos os personagens associados ao Mal.

Quando o Mal assume o poder, no finalzinho do tomo 6, Harry Potter e o Enigma do Príncipe / Harry Potter and the Half-Blood Prince, e ao longo de todo este tomo final, As Relíquias da Morte, há uma perseguição aos “sangue ruim”, aos que têm um trouxa como ascendente. Exatamente como defendem os supremacistas – exatamente como os nazistas fizeram com judeus, ciganos, homossexuais, deficientes físicos.

Pois então. Não sei se esse pano de fundo – que é importantíssimo nos livros – é passado com grande clareza para os espectadores dos filmes.

Assim como muitos dos detalhes da trama. O que são as horcruzes e quem são os dementadores, por exemplo. Ou como funciona a Penseira.

E aí é que viria a aparente contradição. Fiz os maiores elogios à adaptação dos livros, disse que os roteiros conseguiram ser absolutamente fiéis aos livros.

A adaptação é excelente mesmo, os filmes conseguem ser extremamente fiéis.

Mas… Mas porém todavia contudo, as tramas criadas por J.K. Rowling são complexas demais, cheias de detalhes demais da conta.

Eu de fato não sei (e Mary acha exatamente a mesma coisa) se um espectador que não leu os livros consegue compreender tudo que os filmes mostram – mas às vezes mostram apenas en passant, sem aprofundar muito, já que há eventos demais a serem relatados.

Não quero com isso diminuir a importância e a qualidade dos filmes. De maneira alguma. Apenas faço a constatação: para quem leu os livros antes, seguramente é muito mais gostoso ver os filmes. Aproveita-se muito mais.

Anotação em julho de 2022

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1/Harry Potter and the Deathly Hollow: Part 1

De David Yates, Inglaterra-EUA, 2010

Cor, 146 min (2h26)

***1/2

Harrry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2/Harry Potter and the Deathly Hollow: Part 2

De David Yates, Inglaterra-EUA, 2011

Cor, 130 min (2h10)

***1/2

Com Daniel Radcliffe (Harry Potter),

Rupert Grint (Ron Weasley),

Emma Watson (Hermione Granger),

(no lado do Bem – a Ordem da Fênix e Hogwarts) Maggie Smith (professora Minerva McGonagall), Bonnie Wright (Gina Weasley),

Evanna Lynch (Luna Lovegood), Robbie Coltrane (Rubeo Hagrid), Brendan Gleeson (Alastor Olho-Tonto Moody), David Thewlis (Remo Lupin), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Julie Walters (Molly Weasley), Domhnall Gleeson (Gui Weasley), James Phelps (Fred Weasley), Oliver Phelps (George Weasley), Mark Williams (Arthur Weasley), Domhnall Gleeson (Bill Weasley), Clémence Poésy (Fleur Delacour, a noiva de Gui Weasley), Natalia Tena (Ninfadora Tonks), Jim Broadbent (professor Horace Slughor), Michael Gambon (Alvo Dumbledore), Ciarán Hinds (Aberforth Dumbledore), Hebe Beardsall (Ariana Dumbledore), George Harris (Kingsley Shacklebolt), Devon Murray (Seamus Finnigan), William Melling (Nigel), Katie Leung (Cho Chang), Miriam Margolyes (professora Pomona Sprout), Gemma Jones (Madame Pomfrey), Emma Thompson (professora Sybil Trelawney), Geraldine Somerville (Lily Potter, a mãe de Harry), Adrian Rawlins (James Potter, o pai de Hary), Gary Oldman (Sirius Black), Ellie Darcey-Alden (Lily Potter garota), Ariella Paradise Petunia Dursley garota), Benedict Clarke (Severus Snape garoto), Alfie McIlwain (James Potter garoto), Rohan Gotobed (Sirius Black garoto),

(nas Trevas) Ralph Fiennes (Lord Voldemort), Helena Bonham Carter (Bellatrix Lestrange), Timothy Spall (Peter Pettigrew, Wormtail, o Rabicho), Jason Isaacs (Lucio Malfoy), Tom Felton (Draco Malfoy), Helen McCrory (Narcisa Malfoy), Imelda Staunton (Dolores Umbridge), Peter Mullan (Yaxley), Guy Henry (Pius Thicknesse, o novo ministro da Magia), Arben Bajraktaraj (Antonin Dolohov), Rod Hunt (Thorfinn Rowle), Suzanne Toase (Alecto Carrow), Ralph Ineson (Amycus Carrow)

(outros no mundo dos bruxos) Alan Rickman (Severo Snape), John Hurt (Ollivander/Olivaras, o fabricante de varinhas), Rhys Ifans (Xenofílio Lovegood, o pai de Luna), Bill Nighy (Rufo Scrimgeour, ministro da Magia), Warwick Davis (Grampo/Griphook, o duende de Gringotes), David Ryall (Elphias Doge), Frances de la Tour (Madame Maxime), Matyelok Gibbs (tia Muriel Weasley), Andy Linden (Mundungus Fletcher), Kelly Macdonald (Helena Ravenclaw), Miranda Richardson (Rita Skeeter)

(no mundo dos trouxas) Richard Griffiths (o tio de Válter Dursley), Fiona Shaw (a tia de Harry), Harry Melling (Dudley Dursley, o primo), Ian Kelly (Mr. Granger), Michelle Fairley (Mrs. Granger),

Roteiro Steve Koves

Baseado no romance de J.K. Rowling

Fotografia Eduardo Serra

Música Alexandre Desplat

Montagem Mark Day

Casting Fiona Weir

Desenho de produção Stuart Craig

Figurinos Jany Temime

Produção David Barron, David Heyman, J.K. Rowling,

Warner Bros., Heyday Films

***1/2

3 Comentários para “Harrry Potter e as Relíquias da Morte – Partes 1 e 2”

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *