Harry Potter e a Câmara Secreta / Harry Potter and the Chamber of Secrets

Nota: ★★★★

O cerne de Harry Potter e a Câmara Secreta (2002), o segundo dos oito filmes baseados nos sete livros de J.K. Rowling com o personagem, é a luta contra um bruxo do mal que defende o supremacismo. É possível a gente não se encantar com um filme extraordinariamente bem realizado em absolutamente todos os quesitos, divertido, gostoso, inteligente – e que é um panfleto contra o supremacismo, o racismo, a xenofobia?

Não dá para saber, é óbvio, até que ponto as crianças e adolescentes compreendem que este Câmara Secreta é uma defesa clara, forte, segura, firme da convivência entre pessoas de diferentes estratos, origens – e portanto, por extensão, diferentes cores de pele, religiões, etnias, hábitos, crenças. Que é errado, que é coisa do Mal em Si defender raça pura, superioridade de alguma etnia sobre as outras, supremacia, preconceito.

Não sei o quanto Marina, minha neta, que me fez ler os livros e ver os filmes de Harry Potter, compreendeu dessa belíssima lição que o Harry Potter 2 dá (e que, de resto, é um dos valores fundamentais que a mãe e o pai passam para ela dia após dia).

Mas creio que de alguma maneira Marina entendeu o recado. Marina e os milhões e milhões e milhões de crianças e adolescentes ao redor do mundo.

E isso é uma absoluta maravilha.

Junto com o prazer imenso de ver essa história fascinante, esses personagens interessantíssimos, essas sequências lindas, envolventes, Harry Potter e a Câmara Secreta vai injetando na mente das crianças e adolescentes dos 8 aos 80 anos o maravilhoso vírus do respeito à diversidade, à convivência entre os diferentes.

De novo, imensa fidelidade ao livro

Assim como o primeiro filme da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal, este aqui é maravilhosamente fiel ao livro de J.K. Rowlings. O que é sensacional, porque a escritora inglesa imaginou as coisas mais fantásticas, incríveis, que acontecem num mundo mágico de bruxos – e o cinema conseguiu transformar em imagens perfeitas todas aquelas criaturas, engenhos e eventos criados pela imaginação sem limites da autora.

Como, logo no início, a visita ao quarto de Harry Potter na casa de seus tios intragáveis, horrendos, do elfo Dobby (que fala com a voz do excelente Toby Jones, que interpretou Truman Capote em Confidencial, de 2006, e Alfred Hitchcock em A Garota, de 2012). Eram as férias de verão, e, enquanto aguardava, impaciente, o começo das aulas do segundo ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Harry era obrigado a conviver novamente com os horrorosos tios que sempre o trataram como a madrasta da Cinderela tratava a garotinha. Naquela noite específica, os tios Vernon/Válter e Petúnia Dursley (Richard Griffiths e Fiona Shaw) estavam recebendo a importantíssima visita de um rico empresário, prestes a fechar um vultoso contrato com a fábrica de brocas do sr. Dursley, e sua esposa. E haviam dado ordens expressas para que Harry ficasse trancado em seu quarto, não aparecesse hora alguma na sala de visitas e não fizesse barulho.

Pois o tal elfo Dobby de repente aparece no quarto, e logo começa a fazer um barulho danado. Como tudo que é ruim pode piorar, Dobby saiu do quarto, foi para a sala e deu um jeito de lançar sobre a cabeça da visitante ilustre o belo bolo que a tia Petúnia havia feito para oferecer às visitas.

Nem se passaram 10 minutos depois dessa sequência fantástica e acontece, exatamente como descreve o livro, a total surpresa que é Harry e seu grande amigo Rony não conseguirem entrar na plataforma 9 ½ da Estação de Kings Cross para pegar o Expresso de Hogwarts. Em pânico com a perspectiva de não chegar à escola a tempo, Rony tem, então, a idéia de pegar o carro de seu pai, o sr. Arthur Weasley (Mark Williams), o chefe da Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas do Ministério da Magia – e voar nele com Harry seguindo do alto o Expresso.

Para a equipe que realizou os filmes de Harry Potter, botar dentro de uma casa um elfo que faz um bolo voar até cair na cabeça da visitante, e fazer um carro voar sobre Londres e depois sobre o campo inglês, até chocar-se com um imenso salgueiro junto do castelo onde funciona Hogwarts, tudo isso aí é absoluta moleza.

É só o começo de um filme destinado ao público infanto-juvenil que tem nada menos de 161 minutos – mais de duas horas e 20 de duração, muito tempo além do padrão para os filmes comerciais, mesmo os dirigidos apenas a adultos.

E isso – ser muito longo, e não deixar cansados seus espectadores, mesmo os de apenas oito anos de idade, como minha netinha – é apenas uma das mágicas deste Harry Potter número 2.

Não poderia haver moral da história melhor

A trama central deste A Câmara Secreta envolve uma dissensão entre os quatro bruxos que fundaram Hogwarts, cerca de mil anos atrás – Godric Gryffindor, Helga Hufflepuff, Rowena Ravenclaw e Salazar Slytherin. Este último, o patrono da casa que leva seu nome (no Brasil, Sensorina), diferentemente dos outros três, defendia que só deveriam ser admitidos em Hogwarts bruxos filhos de bruxos, “puro-sangues”. Nunca deveriam ser admitidos filhos de não bruxos, ou trouxas.

E começam a surgir sinais de que alguém, algum herdeiro de Slytherin e de suas idéias supremacistas, está agora em Hogwarts, e vai liberar o monstro que habita a Câmara Secreta para atacar os alunos de “sangue ruim”.

Hermione Granger, a grande amiga de Harry e Rony, a estudante mais brilhante da turma – que está agora no segundo ano –, uma bruxinha que já demonstra talento descomunal, é filha de trouxas. O próprio Harry é filho de um bruxo com uma descendente de trouxas – o pai e a mãe do garoto haviam sido assassinados por um bruxo do Mal, Valdemort, quando Harry era bebê; só ele havia resistido ao ataque do bruxo cujo nome ninguém gosta de pronunciar – e então o diretor de Hogwarts, Albus/Alvo Dumbledore (Richard Harris), havia providenciado para que o bebê fosse deixado diante da porta da casa de seus únicos parentes, os tios Valter e Petúnia.

Rony, o outro grande amigo, era filho de bruxa e bruxa – “puro-sangue”, no dizer dos bruxos supremacistas, como Draco e seu pai, Lucius Malfoy (respectivamente Tom Felton e Jason Isaacs). Mas o próprio Rony, seus pais e seus irmãos nunca usam essa expressão – e nem se importam se os outros bruxos são “puro-sangue” ou “sangue ruim”, como Draco chama Hermione, para a fúria dos três amigos.

Três grandes amigos. Um “puro-sangue”, uma “sangue-ruim”, um meio a meio – mas quem é bom não dá qualquer importância a essas classificações.

Ao contrário dos que são herdeiros do Mal em Si.

Não poderia haver moral da história melhor que essa.

O diretor certo, o roteirista certo, os atores certos

Foi uma imensa sorte de todos os milhões dos leitores das aventuras de Harry Potter, Hermione e Rony que elas virassem filmes nas mãos desse excelso grupo de profissionais – a começar por Chris Columbus e Steve Kloves.

Chris Columbus, que dirigiu o primeiro e este segundo filme da saga Harry Potter, é um dos maiores experts em narrativas voltadas para o público infanto-juvenil. Roteirista, produtor, diretor, ele botou suas digitais em diversos dos mais aplaudidos filmes para esse público, como, só para dar uns poucos exemplos, Gremlims, Os Goonies, O Enigma da Pirâmide e Esqueceram de Mim I e II.

Steve Kloves é bom nos filmes para adultos (Susie e os Baker Boys, de 1989, Garotos Incríveis, de 2000) assim como nestes para as crianças e adolescentes dos 8 aos 80 anos – e é impressionante como ele conseguiu escrever, tanto no primeiro Harry Potter quanto neste segundo aqui, roteiros que são absolutamente fiéis aos livros de J.K. Rowlings. Ao espírito, às idéias, mas também aos eventos que o livro cria e descreve. Disse isso sobre Harry Potter e a Pedra Filosofal e repito aqui: é fantástica, fabulosa a adaptação que Steve Kloves fez do livro. É coisa para ser ensinada em escolas de cinema, em cursos para roteiristas.

Mas há ainda uma outra grande característica dos filmes da série que os tornam muito especiais: o imenso talento e a sorte grande que o pessoal do casting teve para escolher os três garotinhos que iriam interpretar Harry, Hermione e Rony ao longo de oito filmes, realizados entre 2001 e 2011 – esses ótimos, sensacionais Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint.

Eles são os astros principais – e, como coadjuvantes, estão neste A Câmara Secreta aqui alguns dos melhores atores em atuação no cinema inglês naquele ano de 2002, como Maggie Smith (a professora Minerva McGonagall), Richard Harris (o professor Albus Dumbledore), Alan Rickman (o professor Severo/Severus Snape), John Cleese (Nearly Headless Nick/Nick Quase Sem Cabeça), Julie Walters (a sra. Weasley).

Esses aí participaram também do primeiro, e estarão também nos seguintes. A atração-sensação neste Harry Potter número 2, no quesito grandes atores ingleses, é Kenneth Branagh. Ele está mais que perfeito, deliciosamente engraçado como o escritor Gilderoy Lockhart, que o professor Dumbledore – na única ação errada de sua vida, creio – convida para ser professor em Hogwarts.

Gilderoy Lockhart é um personagem fantástico. É o narcisismo em pessoa, o Narciso com o Rei na Barriga. Comete todo tipo de idiotice imaginável – e o grande Branagh, shakespeareano e pop, parece ter se divertido imensamente ao interpretá-lo. Um imenso prazer para a platéia.

A atriz que faz a Murta é adulta, me conta Marina

Nas nossas telenetadas, de vez em quando – entre uma brincadeira e outra em que Marina é Hermione, Mary é Gina Weasley, o Érolti ursão de pelúcia é Rony e eu sou Harry –, falamos um pouco dos livros e dos filmes. Marina está sempre à nossa frente nos livros. Quando ela e mãe terminam, o livro passa para Mary e depois para mim – e então conversamos sobre uma ou outra coisa das histórias.

Ela adorou o professor Lockhart – achou a figura dela engraçadíssima. E de fato ele é hilário.

Teve um dia em que Marina nos contou que a atriz que faz a Murta Que Geme (Moaning Myrtle, no original) é adulta, não tem nada de criança ou de adolescente. Sei lá qual foi a fonte de informação de uma criança de oito anos sobre o casting deste Harry Potter e a Câmara Secreta, mas vejo agora que foi uma fonte confiável. Segundo informa a página de Trivia do IMDb sobre o filme, Shirley Henderson, que faz a Moaning Myrtle, a fantasma que fica no banheiro feminino de onde se chega até a Câmara Secreta, tinha 37 anos, é a mais velha atriz a representar uma estudante de Hogwarts na série.

A página de Trivia tem mais de 140 itens. Nem vou ter ânimo para ler tudo, mas registro algumas das curiosidades aqui (com pitacos meus, é claro):

* O livro Harry Potter and the Chamber of Secrets é o segundo mais curto dos sete da série. Apesar disso, o filme baseado nele, com seus 161 minutos, foi o mais longo dos oito. Já o filme Harry Potter e a Ordem da Fênix (2007), que se baseia no livro mais longo, é o segundo mais curto, com 138 minutos.

* O carro do mundo dos trouxas que o sr. Weasley adapta com poderes mágicos para voar é um Ford Anglia. É o mesmo modelo do carro em que a J.K. Rowling e sua melhor amiga de escola passeavam quando jovens. Para fazer a sequência em que Rony dirige o carro adaptado para voar que se choca com o grande salgueiro foram usados – e destruídos – 14 Ford Anglias!

* Rupert Grint tem medo de aranhas mesmo. A aracnofobia é tão grande que, durante muitos anos, o jovem ator não conseguiu ver inteira a sequência em que seu personagem, Rony, entra com Harry no buraco da aranha monstruosa, gigantesca, Aragog. Não foi difícil para o diretor Chris Columbus conseguir do garoto aquele olhar apavorado que vemos na sequência em que Aragog aparece.

* Richard Harris, que fez o professor Albus Dumbledore no primeiro filme e neste aqui, morreu poucas semanas depois do lançamento. A partir do terceiro filme, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, o personagem passou a ser interpretado por Michael Gambon.

* O diretor e produtor executivo Chris Columbus instruiu o diretor de fotografia Roger Prat para dar um ar mais sombrio ao filme, refletindo o tema pesado, dark, da história. Os locais de filmagem tiveram iluminação menos forte do que no primeiro filme, e as cores ficaram menos vívidas.

* As filmagens começaram apenas três dias depois da estréia do primeiro filme, Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001).

* O filme se tornou o primeiro a vender um milhão de cópias de DVD no Reino Unido na primeira semana do lançamento.

“Uma profusão de atraentes sequências de ação”

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em 4 para o filme: “A saga de J.K. Rowlings de bruxaria e magia continua, num tom mais sombrio, no segundo ano letivo de Harry, Ron e Hermione em Hogwarts, em que eles batalham contra misteriosa força do mal que ameaça a própria existência da escola. Segundo tomo, bastante parecido com o primeiro, com uma profusão de atraentes sequências de ação (incluindo um outro jogo de Quidditch, um carro voador, em elfo de imagens geradas por computador chamado Dobby, aranhas falantes e uma épica batalha contra uma formidável serpente), mas o filme sofre com a longa duração e uma transcrição sem inspiração das páginas para a tela. Novos membros do elenco, Branagh (como um pomposo professor) e Isaacs (o pai malévolo de Draco) adicionam algumas fagulhas.”

Cada cabeça uma sentença. O que para mim é uma maravilhosa, fiel adaptação cinematográfica de um livro para Maltin parece uma “transcrição sem inspiração”. Então tá.

Quidditch, é claro, é o fantástico jogo aéreo, jogadores sobre suas vassouras, que J.K. Rowlings inventou e no Brasil se chamou quadribol.

O Petit Larousse des Films não faz apreciação alguma sobre Harry Porter et la Chambre des Secrets – apenas apresenta uma sinopse. O bom é que ficamos sabendo como se traduziu para o Francês as palavras Hogwarts (que a tradução brasileira simplesmente manteve igual) e Slytherin (no Brasil Sensorina):

“Harry retorna a Poudlard a fim de prosseguir seus estudos. Desta vez, ele deverá resolver o enigma da Câmara dos Segredos e parar o herdeiro de Serpentard, que está decidido a espalhar o terror na escola.”

Bem, agora é terminar de ler o livro 3, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, que comecei outro dia, para então poder ver o filme. Marina e a mãe já estão chegando ao meio do livro 4, Harry Potter e o Cálice de Fogo.

Anotação em abril de 2021

Harry Potter e a Câmara Secreta/Harry Potter and the Chamber of Secrets

De Chris Columbus, Inglaterra-EUA, 2002

Com Daniel Radcliffe (Harry Potter),

Rupert Grint (Ron Weasley),

Emma Watson (Hermione Granger),

(em Hogwarts e no Beco Diagonal) Maggie Smith (professora Minerva McGonagall), Richard Harris (diretor Albus Dumbledore). Robbie Coltrane (Rubeus Hagrid), Alan Rickman (professor Severus Snape), Miriam Margolyes (professora Sprout), Warwick Davis (professor Flitwick), Gemma Jones (Madame Pomfrey, a médica da ala hospitalar), Chris Rankin (Percy Weasley), James Phelps (Fred Weasley), Oliver Phelps (George Weasley), Julie Walters (Mrs. Weasley), Mark Williams (Mr. Weasley), Bonnie Wright (Ginny Weasley), Matthew Lewis (Neville Longbottom), Tom Felton (Draco Malfoy), Jason Isaacs (Lucius Malfoy, o pai de Draco), Jamie Waylett (Crabbe), Josh Herdman (Goyle), Devon Murray (Seamus Finnigan), Alfred Enoch (Dean Thomas), Luke Youngblood (Lee Jordan), Sean Biggerstaff (Oliver Wood), Eleanor Columbus (Susan Bones), Hugh Mitchell (Colin Creevey), Leslie Phillips (a voz do Chapéu Seletor), David Bradley (Mr. Filch, o bedel), Toby Jones (a voz de Dobby, o elfo), Shirley Henderson (Moaning Myrtle – a Murta Que Geme), John Cleese (Nearly Headless Nick), Nina Young    (The Grey Lady), Adrian Rawlins (James Potter), Robert Hardy (Cornelius Fudge, o ministro da Magia), Julian Glover (a voz de Aragog, a aranha monstro),

(no mundo dos trouxas) Richard Griffiths (tio Vernon Dursley), Fiona Shaw (tia Petunia Dursley), Harry Melling (Dudley Dursley), Tom Knight (Mr. Granger, o pai de Hermione), Heather Bleasdale (Mrs. Granger, a mãe de Hermione), Jim Norton (Mr. Mason), Veronica Clifford (Mrs. Mason)

Roteiro Steve Kloves

Baseado no livro de J.K. Rowlings

Fotografia Roger Pratt

Música John Williams

Montagem Peter Honess

Casting Karen Lindsay-Stewart

Direção de arte Stuart Craig

Produção David Heryman, Warner Bros., Heyday Films, 1492 Pictures, Miracle Productions GmbH & Co. KG

Cor, 161 min (2h41)

Disponível no Now em abril de 2021

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