Maid

Nota: ★★★★

No primeiro episódio, a série Maid faz o espectador se apaixonar pela protagonista, e morrer de pena dela. Alex (o papel de Margaret Qualley, essa menina que chegou com o brilho de uma supernova) sofre feito uma condenada, come o pão que o diabo amassou, tem vida mais dura do que escravo remador nas galés romanas.

Na primeira sequência do primeiro episódio, toma coragem, pega a filhinha Maddy, que ainda não completou sequer três anos, e foge do trailer em que vivia com Sean, entra em seu carro e foge dali o mais rápido que consegue. Não sabe para onde vai, não tem muito para onde ir, mas vai embora para longe do marido bêbado, violento, abusador.

Até então Sean (o papel de Nick Robinson) nunca havia dado uma porrada em Alex – e, em algum momento, a moça até terá vontade de que ele tivesse cometido a agressão física. Explicar ao sistema judiciário, às entidades do Estado, que você fugiu do sujeito que fazia agressões violentas – embora ainda não físicas – é mais difícil do que mostrar as marcas da brutalidade no corpo.

No segundo episódio, a série Maid amplia o escopo. Faz um gigantesco zoom, mas um zoom contrário ao de tantos extraordinários, do grande para o pequeno, como o da abertura de West Side Story (1961), que começa mostrando do alto toda a ilha de Manhattan e vai se aproximando, se aproximando, se aproximando do chão – até focalizar a quadra de basquete/vôlei em que a gangue dos Sharks está reunida.

No segundo episódio, é como se a série Maid saísse daquele microcosmo, a vida de Alex, e desse um zoom bem para o alto, para mostrar o quadro geral – o caso de Alex é apenas um de milhares, de centenas e centenas de milhares.

E mostra que, naquele que é o país mais rico que já houve na História, há um porrilhão de gente absolutamente pobre demais da conta, e há um porrilhão de mulheres que sofrem abuso dos maridos.

Alex é apenas uma de centenas e centenas de milhares.

E não é só isso. É ainda pior.

Em geral, as mulheres abusadas, espancadas voltam a seus maridos abusadores, espancadores. Voltam uma vez, duas, três, várias vezes. Não por culpa delas, de forma alguma. Voltam porque é dificílimo romper com as amarras, mudar a vida, recomeçar – por uma quantidade imensa de motivos.

Sair da relação com o marido abusador, espancador, é tão difícil quanto sair da pobreza, da quase miséria.

É o que vai nos mostrando, ao longo de nada menos de dez episódios de 50 minutos cada, esta série extraordinária, esplêndida, magnífica.

Muita pobreza, muita dureza – mas há, sim, alguma luz

Extraordinária, esplêndida, magnífica – e corajosa. O retrato que a série traça da sociedade americana não é nada agradável, nada positivo, nada róseo. Muito antes ao contrário. Os personagens não pertencem às minorias tradicionalmente deixadas de lado pelo tão cantado Sonho Americano, os negros, os chicanos, os latinos de maneira geral, os imigrantes ilegais. Não, não. São todos Wasps – white, anglo-saxons, protestants.

Há porrilhões de brancos, anglo-saxões, protestantes que não foram contemplados pelo Sonho Americano, mostra a série, insistentemente, ao longo de dez episódios de 50 minutos cada. Pobres, pobres demais, mesmo se se dispõem a trabalhar muito, em trabalho duro, pesado, como faxina – o trabalho que existe para essa infeliz Alex tentar ganhar o mínimo para sobreviver.

Há porrilhões de brancos, anglo-saxões, protestantes que se afundam no vício, na dependência. E há porrilhões deles que são abusadores, espancadores.

Apesar de mostrar tudo isso, de forma insistente e dura, crua, Maid não é um retrato desesperançado do país em que foi feito. Não é assim um obra que não mostre saída alguma, que não enxergue luz alguma no fim do túnel, como são, só para dar três grandes exemplos, Uma Tragédia Americana, de Theodore Dreiser (muito mais que o filme baseado nele, Um Lugar ao Sol/A Place in the Sun, de George Stevens, 1951), Mas Não se Mata Cavalo?/They Shoot Horses, Don’t They? (tanto o livro de Horace McCoy quanto o filme baseado nele, no Brasil A Noite dos Desesperados, de Sydney Pollack, 1969), e Caçada Humana/The Chase, de Arthur Penn, 1966.

Não, não é um retrato absolutamente desesperançado daquele país que, como diz o canadense Leonard Cohen, é o berço do melhor e do pior, o lugar em que existe a variedade e o maquinário para a mudança.

(O trecho da letra de “Democracy” a que me refiro é este: The cradle of the best and of the worst / It’s here they got the range / And the machinery for change / And it’s here they got the spiritual thirst / It’s here the family’s broken / And it’s here the lonely say / That the heart has got to open / In a fundamental way / Democracy is coming to the U.S.A.)

“It’s here the family’s broken.” Credo, como há famílias quebradas, despedaçadas, nesta série.

Os realizadores de Maid enfiam o espectador nas dificuldades terríveis, horrorosas, medonhas que a garota Alex tem que enfrentar durante oito episódios e meio – para, ali pela metade do nono episódio, mostrar que pode haver, afinal de contas, luz no fim do túnel.

Duas pessoas mal saídas da adolescência – e pobres

Em algum momento da série é dito que Alex, a protagonista da história, está com 25 anos – e essa é exatamente a idade da atriz que a interpreta, essa moça Margaret Qualey, no ano do lançamento da série, 2021. Ela é de 1994.

Qaundo a série começa, está para completar três anos a filhinha de Alex, Maddy (o papel de Rylea Nevaeh Whittet, uma criança absolutamente linda e fofa, quase tão linda e fofa quanto foram, quando novinhas assim, minha filha e minha neta) Nasceu, portanto, quanto Alex estava com 22.

Ter filho aos 22 anos, hoje em dia, é um absoluto absurdo. É cedo demais, meu Deus do céu e também da Terra! A pessoa mal chegou à mínima maturidade…

O que impressiona mais ainda o espectador é que essa moça Margaret Qualey parece mis nova ainda do que é. Não sei o eventual leitor, mas eu olho para ela e penso que Alex, seu personagem, tem aí pouco mais de 18 anos…

O ator que faz Sean, Nick Robinson (na foto acima), também parece novinho demais da conta. Ele é jovem mesmo – é de 1995, e portanto estava com 24 quando a série foi filmada.

Insisto nisso porque é um ponto muito importante. A gente vê aqueles dois meninos, tão absolutamente recém saídos da adolescência, e imediatamente tem a sensação de que não estavam preparados para ter filho. Não tem sentido algum ter filho tão jovem, hoje em dia, com tanta informação e tantas maneiras de evitar, diabo!

Mesmo que não fossem tão pobres, que fossem remediados, classe média. Mesmo que viessem de famílias estáveis, sem grandes problemas.

Tudo bem: eu tinha 25 anos quando minha filha nasceu, e Suely tinha só 22 – éramos crianças… Mas a gente ao menos tinha uma situação material confortável. Mas o mais importante é que as coisas vão evoluindo, e minha filha soube optar por ser mãe aos 37, uma opção que tem sido a de grande, imenso número de mulheres atualmente.

Alex e Sean eram pobres de marré de cy – e vinham, ambos, de famílias inteiramente disfuncionais.

A mãe de Sean era alcoólatra; o próprio Sean – Alex só perceberia isso tarde demais, é claro – era alcoólatra.

A mãe de Alex, Paula (o papel de Andie MacDowell, a mãe de Margaret Qualley na vida real, numa interpretação impressionante, fantástica), era louca. Sim, louca naquele sentido gostoso, positivo da palavra: anticonvencional, anti-careta, anti-quadrada, uma artista plástica muito feliz da vida sempre, uma hippie après-la-lettre, cheia de amor pra dar, paz, amor, compreensão, sexo, drogas e rock’n’roll. Mas também louca no sentido psiquiátrico do termo; doida, sem juízo, lelé da cuca. Incapaz de enxergar a realidade dos fatos, habitante do mundo da Lua.

Quando a série já passou bem da metade, há um momento em que Alex diz que desde que tinha seis anos de idade sempre cuidou da mãe.

Alex nunca havia sido próxima do pai, Hank (Billy Burke), de quem a mãe havia fugido, e fugido para longe, para o Alasca, quando a garota era criancinha.

É só depois que foge com Maddy do trailer em que vivia com Sean, e acaba encontrando refúgio em um abrigo para vítimas de violência doméstica, que Alex vai conseguir se lembrar dos eventos de sua infância mais distante – memórias de que havia conseguido escapar até então – e perceber, finalmente, que o pai batia na mãe. Da mesma forma com que Sean passaria inevitavelmente a bater nela, caso ela não tivesse cascado fora.

Hank, o pai, havia sido um alcoólatra. Com a ajuda dos AA, estava limpo havia muitos anos – tinha casado de novo, tido duas gêmeas com a nova mulher, tinha se estabelecido, tinha emprego e uma vida com os confortos básicos que faltavam à ex-mulher Paula e à filha mais velha Alex.

Como viviam todos numa cidade média, não grande demais, Hank havia acabado se tornando um amigo de Sean, e um companheiro dele nos AA, um incentivador para que o jovem se mantivesse longe do vício.

Essas informações todas vão sendo passados para o espectador aos poucos, ao longo dos primeiros episódios da série.

O que a série vai dizendo ao espectador é que aqueles dois homens, o pai e o marido de Alex, não são propriamente monstros. No fundo, no fundo, no fundo, são até boas pessoas. O que os torna abusadores, espancadores, é o vício, a droga.

O que transforma em monstros pessoas no fundo no fundo boas, mas fracas, infelizes desde o berço, é o vício, a droga. A série diz e repete isso da forma mais clara que pode haver.

Se o espectador tiver sensibilidade, perceberá, é claro, que não é apenas o vício, a droga.

É também a pobreza – a pobreza material.

Um antigo dito estabelece que o ócio é o pai de todos os vícios.

Pode ser. Mas o que vida ensina é que a pobreza é o pai e a mãe de quase tudo que pode haver de ruim na face deste planeta em que nos puseram, sem que tivéssemos pedido coisa alguma.

Um roteiro bem construído, personagens interessantes

Todo o roteiro de Maid é muitíssimo bem construído. A narrativa é fluente, bem engedrada, bem bolada; o uso de flashbacks é inteligente, certeiro, sem exageros, sempre nas horas corretas. Há várias sequências de boas invencionices, fogos de artifício muito bem feitos, como nos momentos em que Alex tem ataques de pânico, de ansiedade, e sai da órbita, Há uma sacada especialmente brilhante, quando Alex parece ter chegado ao fundo do fundo do fundo do poço, e é literalmente engolida pelo sofá no qual desabou e do qual não tem forças para se levantar.

Há uma bela invencione que volta e meia aparece no alto da tela, à direita: a quantidade de dinheiro que Alex tem naquele determinado momento, e o valor que ela está gastando, no supermercado, no posto de gasolina, no caixa da balsa que toma para ir à Fischer Island fazer uma faxina… Vemos a subtração ali, óbvia, o número de dólares disponíveis diminuindo, rumando para perto do zero, e nossa pena da moça aumenta mais um pouco. Uma sacada simples, inteligente, que funciona.

Mas as melhores conquistas do belo roteiro não são as formais – são as de fundo.

Chama-se Molly Smith Metzler a criadora da série, a pessoa que bolou a história, e, pelo que dá para entender, coordenou o trabalho dos vários roteiristas que assinam cada um dos episódios. (São quatro roteiristas, além da própria Molly Smith Metzler: Bekah Brunstetter, Marcus Gardley, Colin McKenna, Michelle Denise Jackson.)

Essa moça, dramaturga e roteirista, uma das autoras da aclamada série Orange is the New Black (2017), soube construir uma série de eventos que não deixam o espectador despregar os olhos da tela. E criou uma meia dúzia de personagens interessantíssimos, fortes, tridimensionais, como gostam de dizer os críticos de língua inglesa.
Talento e sorte: os realizadores foram excepcionalmente felizes na escolha dos atores para interpretar esses belos personagens.

Destaco quatro mulheres.

Yolanda (Tracy Vilar) é a dona da agência de faxineiras onde Alex, desesperadamente necessitada de dinheiro, vai trabalhar. É uma mulher de origem humilde, isso é muito óbvio, que conseguiu montar um negócio claramente lucrativo – à custa da existência de muitas mulheres que, exatamente como Alex, precisam desesperadamente de dinheiro e não encontram outra ocupação a não ser a faxina. E à custa da exploração daquelas mulheres. Yolanda é a típica pessoa pobre que explora as mais pobres que ela – e explora o máximo que pode. Para que fosse exatamente uma feitora de escravas falta apenas o chicote.

A autora Molly Smith Metzler colocou na boca de Yolanda uma fala duríssima, cruel – e tragicamente verdadeira. Ela argumenta com Alex que faxineira não deve jamais imaginar que pode conversar com a dona da casa que está pagando por seu trabalho: – “As patroas não enxergam você, não acham que você é gente, pessoa. Não há papo possível entre uma faxineira e a patroa.” O que ela diz é melhor que isso; não anotei na hora, mas basicamente é isso aí, o sentido é esse.

Regina (Anika Noni Rose, na foto acima) é a patroa que em boa parte desmente isso que Yolanda diz – ou é a exceção que confirma a regra. É uma personagem interessantíssima, Advogada competente, especializada na área empresarial, é muito rica, mora numa casa maravilhosa de frente para o mar na tal Fisher Island. Bem sucedida materialmente, é uma mulher sofrida, triste: fez de absolutamente tudo para engravidar, porque o marido queria demais ter filhos, muito mais do que ela mesma; quando finalmente conseguiu organizar um esquema de barriga de aluguel, o marido a abandonou.

A relação entre ela e Alex começa da pior maneira possível; Nas suas anotações (Alex anota em caderninhos tudo que vive, vê e sente, e tem imenso talento para escrever), a menina chama Regina de Bitch – o insulto pesado que para nós seria cadela, vaca, puta. O espectador, que é levado a torcer sempre por Alex, tem todo o direito de, inicialmente, ficar com muita raiva daquela mulher. De bitch, no entanto, Regina vai demonstrando com o tempo que não tem nada – e vai ajudar Alex de forma inestimável.

Ajuda maior que a de Regina, a pobre moça só recebe de Denise (a excelente BJ Harrison, na foto abaixo), diretora do abrigo para mulheres vítimas de DV – domestic violence. Denise é idosa, sofreu violência doméstica quando hem jovem, faz décadas que ajuda companheiras de infortúnio. É sábia, paciente, forte, firme – é daquele tipo raro de gente que mais parece anjo.

Danielle (o papel de Aimee Carrero) é muito provavelmente a personagem mais triste desta história de tanta tristeza.

O espectador a vê como uma moça forte, decidida, cheia de energia, vitalidade – e alegria. Ela se aproxima de Alex assim que a moça chega ao abrigo – a típica veterana que está ali para ajudar a novata recém-chegada. Dá a maior força, dá conselhos, dicas, mostra o caminho das pedras, como ela deve proceder daí adiante, que tipo de ajuda do Estado procurar, o que fazer.

De repente, um belo dia, Alex bate à porta do apartamento que Danielle ocupa no abrigo, e ninguém responde. A moça não estava mais lá.

O anjo Denise conta para Alex (e para o espectador): em geral, as mulheres vítimas de violência voltam para o marido abusador. Voltam uma, duas, três, muitas vezes, antes de, finalmente, tomarem a decisão definitiva.

Mãe e filha em interpretações magistrais

Maid merece entrar para a História como a obra que apresenta as atuações mais fantásticas, mais brilhantes, de mãe e filha que interpretam mãe e filha.

Andie MacDowell, aquela mulher de beleza faiscante, tinha 36 anos em 1994 quando nasceu Margaret, a terceira de seus três filhos, depois de um garoto, Justin, e uma menina, Rainey – todos batizados com o sobrenome do pai, Paul Qualley. Um ano antes ela havia estrelado Feitiço do Tempo/Groundhog Day, de Harold Ramis, aquela comédia gostosa sobre o dia da marmota que fez imenso sucesso, e, no ano em que Margaret nasceu, foi lançado Quatro Casamentos e um Funeral, de Mike Newell, aquela comédia romântica que toda comédia romântica gostaria de ser quando crescesse.

Fico imaginando como terá sido para Andie e para Margaret, mãe e filha, interpretarem a louca Paula e a infeliz Alex, duas mulheres de homens violentos e alcoólatras. Que imenso orgulho da filha deve ter sentido essa senhora Andie MacDowell, meu Deus…

Mary e eu vimos Maid imediatamente após termos visto Um Ano em Nova York/My Salinger Year, um belo filme baseado em uma história real. É impressionante como Margaret Qualley chegou com tudo, de fato com o brilho de uma supernova: em 2020, o papel principal de um filme em que o segundo papel mais importante era da deusa Sigourney Weaver. E, em 2021, o papel principal em uma série dramática importante, impactante, em que contracena com outra grande atriz de Hollywood – que por acaso é sua própria mãe.

Neste mês em que escrevo, outubro de 2021, ela está em nada menos que quatro títulos em pré-produção e/ou em filmagens. Em um deles, Fred & Ginger, a garota vai interpretar Ginger Rogers, seguramente quando a estrela era jovem.

Uau, meu!

O céu é o limite para Margaret Qualley

São fundamentais ainda três registros. O primeiro é curto e grosso: que eu saiba – e é preciso realçar bem isso: não é uma informação segura, é apenas que eu saiba –, Maid é primeira produção de um dos grandes estúdios de Hollywood, a Warner Bros., através da Warner Bros, Television, a ser distribuída pela Netflix.

O segundo registro é que a série não explicita, em momento algum, o nome da cidade em que se passa a ação – o que é o melhor jeito de deixar claro que aqueles fatos mostrados ali poderiam acontecer em qualquer cidade do país.

É, no entanto, uma cidade média, de média para grande, no litoral. Por algumas indicações, dá para deduzir que fica no noroeste dos Estados Unidos, bem em cima, perto do Canadá. Duas das indicações: boa parte da série se passa no inverno, e o inverno ali é bem rigoroso. E o lugar está a uns 900 km de Montana – o nome desse Estado, no qual por coincidência nasceu Margaret Qualley, é citado várias vezes.

O nome Fisher Island parece fictício. A Fisher Island que pode ser encontrada no Google fica na Flórida – e, definitivamente, aquilo ali que vemos não tem nada a ver com Flórida.

Costa Oeste, bem ao Norte – poderia ser Oregon, ou Washington, o Estado que faz fronteira com o Canadá – as filmagens foram do lado de lá da fronteira, na British Columbia.

A série é inspirada em livro autobiográfico

O outro registro: Maid é inspirada em personagens e eventos reais.

Nos créditos de cada episódio, está lá: “Inspired by the book by Stephanie Land”.

Nos créditos finais, há aquele aviso bem comum, que parece ter sido inscrito pelos advogados da companhia produtora para evitar ações na Justiça: “Os personagens e incidentes desta série, embora inspirados por eventos reais, foram ficionalizados com propósitos dramáticos, e não pretendem retratar pessoas ou eventos reais.”

Certo, mas então há uma Stephanie Land, que escreveu um livro no qual Molly Smith Metzler, a criadora da série, se inspirou. Muito provavelmente Stephanie Land viveu situações semelhantes às vividas por Alex. Provavelmente Alex tem muito dessa Stephanie Land – inclusive o gosto pela escrita, o talento para escrever.

Uma rápida busca revela tudo. Sim, Stephanie Land (na foto), “que escreve sobre pobreza nos Estados Unidos”, segundo a Wikipedia, nasceu em 1978, e, exatamente como Alex, cresceu no Estado de Washington com uma temporada em Anchorage, no Alasca. “Quando estava na faixa dos 20 e tantos anos, viveu em Port Townsend, Washington, onde teve seu primeiro filho como mãe solteira que trabalhava como criada para se sustentar. Embora não tivesse crescido na pobreza (vinha de família de classe média), passou vários anos vivendo abaixo da linha da pobreza e teve que recorrer a vários programas de assistência social para cobrir suas despesas”, diz a Wikipedia.

E prossegue: “Após seis anos trabalhando como faxineira em Washington e Missoula (em Montana), ela conseguiu usar crédito estudantil e bolsas de estudo para obter um diploma de bacharel em Artes em Inglês e Escrita Criativa da Universidade de Montana.”

Uma trajetória bastante parecida, mas bastante parecida mesmo, com a de Alex.

Depois de formada, Stephanie Land passou a escrever em blogs, primeiro o seu próprio, depois em blogs nacionalmente conhecidos, como

The Huffington Post. Em 2021, estava casada e tinha quatro filhos.

O livro em que a série se baseia foi lançado em 2019, e tem um título longo: Maid: Hard Work, Low Pay and a Mother’s Will to Survive – criada: trabalho duro, pagamento pequeno e a vontade de uma mãe de sobreviver. Chegou ao terceiro lugar n lista dos mais vendidos do New York Times, e foi bem recebido pela crítica.

Martha Medeiros fez uma bela crônica sobre a série

Eu estava escrevendo esta anotação quando saiu na revista Ela do jornal O Globo, no domingo, 10 de outubro de 2021, a crônica de Martha Medeiros sobre a série. Há vários anos Martha Medeiros (na foto) é a cronista que mais admiro, um dos mais brilhantes textos da imprensa brasileira.

É impossível não transcrever a crônica dela sobre a série, que tem como título apenas a palavra Maid:

“Não resumirei superficialmente a série Maid, da Netflix. O que importa: é urgente assisti-la, ainda mais se você é mulher. Os 10 episódios, com cerca de 50 minutos cada um, foram a terapia que me valeu na vida. Levei 60 anos para esclarecer zonas nebulosas dentro de mim. Você pode levar menos tempo.

Maid é sobre abuso. Nem físico, nem sexual. O assunto é mais entranhado. A personagem principal, Alex (Margaret Qualley), tem 25 anos e sofre abuso psicológico. Não o assédio moral, tão comum em relações de trabalho, e sim a violência emocional que acontece entre pessoas do círculo íntimo. Dentro da família e dentro de casamentos.

É sobre feridas que não ficam visíveis através de hematomas. Que são abertas na alma e sulcadas lentamente, dia após dia, sem chance de cicatrização, e tão triviais se tornam que a gente acaba se acostumando, achando que é assim mesmo, faz parte da vida.

Não é sobre paixão, esta palavra romântica usada para justificar desatinos. A mãe de Alex (vivida por Andie MacDowell, que é mãe de verdade de Margaret Qualley) também sofre abusos de seus parceiros, mas prefere se autoenganar, acreditando que eles fazem isso por amor. Tão mais conveniente. Não obriga ninguém a fugir. Mas a alienação cobra seu preço: pira.

Maid é sobre cortar o laço com a dor psíquica. É sobre ter coragem de se afastar em definitivo de quem nos faz mal.

Não é sobre o que eles fazem, mas sobre como nos sentimos. Se nos sentimos inferiores, acuadas, fragilizadas, presas, impotentes, estamos sofrendo agressão emocional, e nesse aspecto a atuação de Margaret Qualley é perfeita. Só de olhar para ela, reconhecemos o dano. Sua coragem para interromper o ciclo e ir em busca de sua integridade é inspiradora e comovente.

Maid é sobre a dificuldade dessa busca. De como não existe heroísmo, e sim uma sequência de derrotas à nossa frente e o quanto precisamos de ajuda. Mais do que tratadas, temos que ser socorridas — por terapeutas e também pela vizinha, pela patroa, pela colega, por qualquer outra pessoa que não julgue, simplesmente estenda a mão.

É sobre manipuladores, mesmo que pareçam sujeitos bacanas, e sobre homens que não reproduzem o machismo decadente, os bacanas de verdade.

Maid não é sobre exagero e frescura (palavras que tentam minimizar a gravidade do assunto), mas sobre a beleza de se libertar de intimidações, usando o combustível que nos leva para fora do buraco: o amor por nós mesmos e por nossos filhos. Alegar que é por amor que também ficamos é uma mentira que não se sustenta em pé.

Trilha sonora excelente, roteiro amarradíssimo, episódios cheios de ação, elenco exato: nem precisava, mas ainda tem tudo isso. Vai emocionar e vai doer, mas sem dor não há ganho.”

Sim. É uma beleza de série.

Anotação em outubro de 2021

Maid

De Molly Smith Metzler, criadora, roteirista, EUA, 2021

Direção John Wells, Helen Shaver, Nzingha Stewart, Lila Neugebauer, Quyen Tran      

Com Margaret Qualley (Alex),

Andie MacDowell (Paula, a mãe de Alex)

e Nick Robinson (Sean), Rylea Nevaeh Whittet (Maddy, a filhinha de Alex e Sean), Anika Noni Rose (Regina, a advogada rica), Tracy Vilar (Yolanda, a dona da agência de faxinas), Billy Burke (Hank, o pai de Alex), BJ Harrison (Denise, a diretora do abrigo), Raymond Ablack (Nate, o bom amigo de Alex), Toby Levins (Basil Desmond, o namorado de Paula), Aimee Carrero (Danielle, a moça do abrigo), Christie Burke (Tania), Amy Reid (Jody), Anthony Scardera (Cal), Sook Hexamer (Mrs. Kim), Mozhan Marnò (Tara), Jessica Steen (Doreen), Hilaria Larriva (Brandi), Steve Bacic (Micah, um dos namorados de Paula), Moon Hee Suk (Phyllis), Erin Karpluk (Sharlene), Zolan Arneja (Brady), Tim Perez (Luis), Gillian Barber (Melody), Alessandro Juliani (John Marshall), Nathan Mayes (Shane), Jessie Liang (Frankie), Théodore Pellerin (Wayne), Kayt Roth (Chantal)

Roteiro Molly Smith Metzler, criadora, Bekah Brunstetter, Marcus Gardley, Colin McKenna, Michelle Denise Jackson

Inspirado no livro de Stephanie Land

Fotografia Guy Godfree, Vincent De Paula, Quyen Tran

Música Este Haim

Montagem Annette Davey, Annie Eifrig,

Casting Rachel Tenner

Direção de arte Renee Read    

Produção John Wells Productions, LuckyChap Entertainment,

Warner Bros. Television.

Disponível na Netflix em 10/2021

****

Um comentário para “Maid”

  1. Gostei muito desta série especialmente das interpretações de Margaret Qualley e de Andie MacDowell.
    O argumento não me entusiasmou mas com isto não quero dizer que é fraco, apenas que não me fez emocionar excepto nalguns momentos.
    Concordo que a pobreza é a razão de muito do que há de mau no mundo.
    Cá em Portugal a Netflix deu um título em português – “Criada” – que é o que faz a protagonista,

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