Assassinato por Morte / Murder by Death

Nota: ★★★☆

(Disponível em DVD.)

Assassinato por Morte, de 1976, a criação do grande dramaturgo e roteirista Neil Simon, é uma das mais deliciosas bobagens que o cinema de Hollywood já cometeu.

E olha que Hollywood já cometeu muita, mas muita, mas muita bobagem deliciosa.

É uma homenagem às novelas policiais, aos brilhantes detetives da ficção que resolvem todos os crimes misteriosos. Uma homenagem, sim, claro – mas também uma danada de uma gozação sobre as novelas e seus protagonistas.

A base da trama já é uma citação de uma das 74 novelas policiais de Dame Agatha Christie. Em E Não Sobrou Nenhum/And Then There Were None (lançado originalmente como Ten Little Niggers, aqui O Caso dos Dez Negrinhos), um sujeito misterioso convida diversas pessoas para um fim de semana em uma mansão numa ilha remota.

Na história de Neil Simon, um sujeito misterioso convida diversas pessoas para um jantar em sua mansão num local remoto no campo.

O diferencial é que cinco dos convidados são alguns dos mais famosos detetives das novelas de mistério:

* Hercule Poirot, o detetive belga de grande apetite e cuidadosos bigodes criado por Agatha Christie, aqui chamado de Milo Perrier. (Os nomes de todos os detetives foram alterados para outros similares aos originais – provavelmente para evitar eventuais disputas por direitos autorais.) É o papel de James Coco.

Ele vai à mansão do misterioso anfitrião acompanhado pelo seu motorista Marcel – o papel de um James Crowell com aparência de jovem demais.

* Miss Marple, a simpática senhorinha do interior inglês que se revela uma espertíssima detetive, outra criação de Dame Agatha Christie, aqui chamada de Jessica Marbles. É interpretada por Elsa Lanchester, a atriz inglesa que interpretou o papel título em A Noiva de Frankenstein (1935), de James Whale, e foi casada por mais de 30 anos com Charles Laughton – ao lado de quem trabalhou em Testemunha de Acusação (1957), de Billy Wilder, baseado em uma peça escrita por Agatha Christie.

Miss Marple chega à mansão acompanhada por sua enfermeira bastante idosa, interpretada por Estelle Winwood.

* Charlie Chan, no filme chamado de Sidney Wang, o detetive chinês criado por Earl Derr Biggers, que fez um tremendo sucesso em uma série de TV que teve 39 episódios entre 1957 e 1958. Charlie Chan no filme é interpretado – maravilhosa, deliciosamente – por um Peter Sellers em momento especialíssimo.

Como nas histórias de Charlie Chan, em que ele está sempre acompanhado pelo seu filho número 1, aqui ele chega à mansão com um de seus filhos – só que um filho adotado, e não chinês, e sim japonês! Willie Wang é o papel de Richard Narita.

* Sam Spade, o detetive hard-boiled, durão, em geral sem grana, chegado a uma booze, cachaça, de San Francisco, criado por Dashiell Hammett. Aqui ele se chama Sam Diamond, e vem na pele do ótimo Peter Falk – o que o faz muito mais parecido com o detetive Columbo da famosa série de TV lançada em 1971 que teve 68 episódios do que com o Sam Spade interpretado por Humphrey Bogart em Relíquia Macabra/The Maltese Falcon (1941), de John Huston.

Sam fala demais, e fala muita asneira, com um linguajar de pobre malandrão. Trata a dame, a doll que o acompanha, Tess Skeffington, muito pior do um sujeito que não gosta de cachorros trataria um cachorro. É impressionante. Tess é o papel da sempre ótima Eileen Brennan.

* Dick Charles, outro detetive criado por Dashiell Hammett, é em muitos aspectos o exato oposto do Sam Spade do filme. É um sujeito rico-fino-e-chique – e o ator escolhido, David Niven, é absolutamente perfeito para o papel. David Niven é uma daquelas figuras que muito provavelmente se vestia impecavelmente para jantar em casa só com a mulher num dia de semana qualquer.

Aqui Dick Charles se chama Dick Charleston, e sua mulher Dora virou Nora. É o papel de uma elegante e muito bela Maggie Smith (na foto abaixo), com um rosto bem jovem do qual a gente acaba se esquecendo de tanto vê-la já velhinha em filmes e/ou séries tão diferentes quanto Assassinato em Gosford Park (2001), Harry Potter e a Pedra Filosofal (2001) e o resto da saga, O Exótico Hotel Marigold (2011), Downton Abbey (2010-2015) e A Senhora da Van (2015).

Piadas impagáveis – e que hoje seriam proibidas

 Os cinco detetives e seus acompanhantes têm problemas para chegar até a mansão, situada num lugar bem remoto, distante das grandes estradas, distante de tudo. O carro de Sam, por exemplo, fica sem gasolina – e o machistíssimo sujeito manda a pobre Tess, de salto alto, ir buscar o combustível no posto pelo qual haviam passado alguns quilômetros atrás!

No caminho há uma ponte que parece podre, pronta para desabar a qualquer momento.

Diante da porta da mansão, quando cada dupla chega e aguarda que atendam à companhia, alguém derruba do teto uma estátua de cimento. Por absoluto milagre da ficção, todos escapam da morte – só Marcel, o motorista de Poirot/Perrier, acaba sendo atingido.

Quando tocam a campainha, o som que ela produz é o de um grito de pavor de uma mulher.

(O grito que foi usado no filme é da atriz Fay Wray, num momento de grande susto na primeira versão de King Kong, de 1933…)

Exatamente como na novela de Agatha Christie E Não Sobrou Nenhum, quando os convidados chegam não está ali para recebê-los o anfitrião. Aqui, quem os recebe é o mordomo, que é… cego!

Um mordomo cego! É piada garantida – e há um monte de boas piadas com a figura do mordomo Bensonmum, interpretado pelo grande e eclético Alec Guinness.

Entrará em cena uma cozinheira, contratada especialmente para preparar o jantar daquela noite. A cozinheira, interpretada por Nancy Walker, é surda e muda. Os “diálogos” entre o mordomo cego e a cozinheira surda e muda serão, é claro, engraçadíssimos.

Sim, é verdade. Esse é um tipo de humor, um tipo de piada que não seria possível, nestes tempos do politicamente correto. Que maravilha que em 1976 ainda se podia fazer um filme assim.

O anfitrião, o milionário que convidou os cinco famosérrimos detetives – e o convite especificava que era para um jantar e um assassinato – só vai aparecer depois de uns 25, 30 minutos de filme. E é interpretado não por um ator, mas pelo escritor Truman Capote, em seu único papel no cinema.

Truman Capote está exageradamente veado e louco como o milionário excêntrico e louco que promete brindar os cinco detetives com um assassinato em sua mansão. De novo: em 1976 ainda se podia rir de figuras exageradamente veadas – e a palavra não era ofensiva, nem proibida pelo politicamente correto.

Entre os 13 atores, seis são britânicos

Dez convidados, um anfitrião, o mordomo, a cozinheira. Treze personagens, com atores maravilhosamente bem escolhidas para seus papéis. E é fascinante notar que, dos 13 atores desta produção americana, (incluindo Truman Capote na conta), nada menos de seis são britânicoa. Em ordem alfabética, Alec Guinness, David Niven, Elsa Lanchester, Estelle Winwood, Maggie Smith e Peter Sellers. Nada como ser o maior celeiro de bons atores de todo o mundo.

Os nomes dos atores aparecem, nos créditos iniciais, em ordem alfabética do sobrenome, com Eileen Brennan em primeiro lugar e Estelle Winwood por último.

E os créditos iniciais são maravilhosos, sensacionais. Um baú é aberto por alguém de quem só vemos as mãos – e lá dentro está uma fantástica ilustração que mostra os personagens da história, desenhados tendo os rostos dos atores como base. Assim, no momento em que aparece o nome de Eileen Brennan, a câmara focaliza a parte do desenho que mostra o rosto da atriz – e assim sucessivamente. De vez em quando, os olhinhos dos personagens dão uma mexidinha – como se houvesse alguém atrás do desenho, como se o desenho fosse uma espécie de máscara. O que remete a uma brincadeira que percorre toda a narrativa: volta e meia, vemos que há alguém observando o que os convidados estão fazendo – vemos olhos de uma pessoa, seguramente do anfitrião misterioso, no lugar dos olhos de um dos muitos animais empalhados que adornam as paredes, ou de uma figura de um dos muitos grandes quadros.

Essa bela arte que abre o filme é de autoria do artista gráfico e cartunista Charles Addams, o criador dos personagens da Família Addams!

Este Murder by Death foi o primeiro filme dirigido por Robert Moore, mas ele não era um novato. Estava com 49 anos em 1976; chegou ao cinema depois de muitos anos como diretor de teatro; foi indicado nada menos que cinco vezes ao Tony de melhor diretor, o Oscar do teatro americano.

Ele iria dirigir também O Detetive Desastrado/The Cheap Detective, de 1978, uma espécie de continuação deste Assassinato Por Morte aqui, também escrito por Neil Simon, com Peter Falk como o personagem-título e um grande elenco, com Eileen Brennan, Ann-Margret, Stockard Channing.

“Vocês enganaram seus leitores!”

Há no filme um monte de diálogos engraçadíssimos, inteligentes, espertos – um atrás do outro, sem parar. Aqui vão uns poucos:

Dick para a mulher: – “Veja só, Dora – um mordomo cego.”

Dora: – “Não deixe que ele estacione o carro, Dickie.”

Outro:

Lionel Twain, o anfitrião: – “Eu sou o maior! Eu sou o número um!”

Sam, o grosso: – “Pra mim, você parece o número dois, entende o que eu quero dizer?”

Dora, a fina e chique: – “O que é que ele quer dizer, Miss Skeffington?”

Tess Skeffington: – “Te conto depois. É nojento.”

Outro:

Dick. o fino e chique: – “Outra distração. Ele nos dá pistas que não significam nada para nos confundir, balança pistas falsas diante dos nossos olhos, nos fascina com banalidades bizarras, enquanto simultaneamente segundos preciosos estão se esvaindo em direção a um verdadeiramente terrível crime que ainda está para ser cometido.”

Sam, o grosso: – “Você é bom, cara. Você não é meu tipo de detetive, mas você é inteligente e cheira bem. Você não é boiola, eu sei, mas o que diabo você é?”

Dick, o fino e chique: – “Classudo, eu acho.”

Mas a melhor fala deste filme cheio de boas falas é esta que vai aqui agora. É do anfitrião louco, doidão, Lionel Twain, o sujeito que queria provar que era mais inteligente do que aqueles cinco famosérrimos detetives de novelas policiais:

“Vocês enganaram seus leitores, fizeram seus leitores de tolos durante anos! Vocês nos torturaram com finais surpreendentes que não fazia sentido. Vocês apareceram com personagens nas cinco últimas páginas que não apareceram ao longo do livro inteiro. Vocês ocultaram pistas e informações de modo a tornar impossível que nós descobríssemos quem foi que matou. Mas agora tudo muda. Milhões de furiosos leitores de novelas de mistério agora estão se vingando. Quando o mundo souber que eu fui mais esperto que vocês, os seus livros vão ser vendidos por uns poucos centavos.”

“Gostosa comédia com grandes astros”

Leonard Maltin deu ao filme 3.0 estrelas em 4: “Capote convida os maiores detetives do mundo para irem à sua casa e os envolve em um desconcertante quem-foi-que-matou. Neil Simon parodia personagens como Charlie Chan, Miss Marple e Sam Spade nesta gostosa comédia com grandes astros, com maravilhosos cenários de Stephen Grimes. Simon continuou esse filme com The Cheap Detective.”

O Guide des Films de Jean Tulard diz o seguinte sobre Un Cadavre au Dessert, um cadáver à sobremesa: “Paródia dos romances policiais: Poirot, Spade, Charlie Chan, Nick Charles e Miss Marple são assim ridicularizados. Dá para pensar o que Blake Edwards teria conseguido tirar desse tema.”

Jean Tulard adora Blake Edwards. Bem, Blake Edwards é excelente. Mas não concordo com a esnobada que o mestre francês deu no filme, e no diretor Robert Moore. Assassinato por Morte é uma deliciosa diversão.

Anotação em novembro de 2021

Assassinato por Morte/Murder by Death

De Robert Moore, EUA, 1976.

Com Eileen Brennan (Tess Skeffington, a companheira de Sam Diamond), Truman Capote (Lionel Twain, o milionário anfitrião), James Coco (detetive Milo Perrier), Peter Falk (detetive Sam Diamond), Alec Guinness (Bensonmum, o mordomo), Elsa Lanchester (detetive Jessica Marbles), David Niven (detetive Dick Charleston), Peter Sellers (detetive Sidney Wang), Maggie Smith (Dora Charleston, a mulher de Dick), Nancy Walker (a cozinheira), Estelle Winwood (a enfermeira de Jessica Marbles), James Cromwell (Marcel, o motorista de Milo Perrier), Richard Narita (Willie Wang, o filho de Sidney)

Argumento e roteiro Neil Simon

Fotografia David M. Walsh

Música Dave Grusin

Montagem Margaret Booth, John F. Burnett

Direção de arte Stephen Grimes

Figurinos Ann Roth

Produção Ray Stark, Rastar Pictures, Columbia Pictures.

Cor, 94 min (1h34)

R, ***

Título na França: Un Cadavre au Dessert.

3 Comentários para “Assassinato por Morte / Murder by Death”

  1. Peter Falk é o que há. Eu amo esse homem.
    Gregory Peck no céu, Peter Falk na terra e Chespirito na TV.

    Como fã de Agatha, nesse filme realizei o sonho de ver Poirot e Miss Marple juntos.

    PS: Eu acho, pelo que eu me lembro com os filmes que eu assistia pra ver o Asta, que o casal se chama Nick e Nora no original.

  2. Sabe, há cenas deletadas com o detetive Sherlock Holmes… que acabou ficando de fora do filme…

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