O Vingador Invisível / And Then There Were None

Nota: ★★½☆

(Disponível no Cine Antiqua do YouTube em 11/2021.)

And Then There Were None, no Brasil O Vingador Invisível, de 1945, o último filme de René Clair em Hollywood, antes de voltar para a França após o fim da Segunda Guerra Mundial, é sem dúvida alguma gostoso de se ver.

A trama que Dame Agatha Christie criou em seu livro de 1939 é interessante, tem aquele humor britânico diante dos assassinatos que é a especialidade tanto da velha senhora quanto do outro velhinho inglês doido por corpses, dead bodies, Alfred Hitchcock.

E há mortos, cadáveres, de sobra. Dizer assim de cara quantos são a rigor seria um spoiler para quem não conhece a história. Acho que dá para contar que há, em média, uma morte a cada 12 minutos de filme. Para quem gosta de histórias de mistério com muitos corpses, dead bodiess, é um prato cheio.

Não devem ser muitas as pessoas que não conhecem a história de Agatha Christie que a toda hora faz referência a uma canção infantil inglesa contando que eram dez negrinhos, um morreu e então ficaram nove, mais um morreu e então ficaram oito, até que não sobrou nenhum, como diz o título, And Then There Were None.

Mas tem necessariamente que haver uma sinopse, e então me aproprio de uma escrita no IMDb por um espectador que se assina yusufpiskin:

Dez pessoas que não se conheciam são reunidas numa ilha remota, a convite de um desconhecido, para passar um fim de semana. Enquanto os visitantes aguardam a chegada do misterioso anfitrião, o mordomo põe para tocar um disco em que são enumeradas sérias acusações contra cada um dos convidados. E logo eles começam a ser mortos, um a um. Enquanto os sobreviventes tentam compreender o que está acontecendo, eles chegam à conclusão de que um deles deve ser o assassino.

Uma sequência de abertura bem engenhosa

O roteiro, de Dudley Nichols, é esperto, ágil, divertido. Já parte de uma sequência de abertura engenhosa, em que vemos um barco navegando sob a direção de um sujeito bonachão, que controla o leme e a marcha do motor de popa, com oito pessoas a bordo – e ninguém fala nada com ninguém, porque não se conhecem, não foram apresentados um ao outro.

A sequência em que vamos vendo pela primeira vez os personagens é de fato engenhosa, e já dá todo o tom do filme – aquele humor de que só os caras daquelas ilhas à esquerda do continente europeu são capazes. Há um senhor idoso que fuma cachimbo, cuja fumaça incomoda uma senhora, que então se vira para o outro lado – mas do outro lado há um homem que dormita virado para ela, com o rosto bem próximo do seu. Há um outro homem que evidentemente não está passando muito bem naquele passeio de bote num mar não propriamente calmo – e está sentado bem perto do capitão e único tripulante do barco, o cara grandalhão e bonachão que naquele momento está mandando ver um imenso sanduíche, o que aumenta, claro, o mal estar do passageiro ao lado… E por aí vai.

Um barco no mar, com várias pessoas a bordo – oito passageiros e o marinheiro. Não uma lancha, ou um pequeno iate. Não, um barco, barco de madeira. Impossível o espectador que gosta de filmes não se lembrar de Um Barco e Nove Destinos/Lifeboat, que o mestre Alfred Hitchcock fez um ano antes, em 1944, o mais abertamente político de seus filmes, um dos poucos em que não há humor algum, porque o tema – o nazismo – é sério demais.

Embora a rigor os dois tenham estilos bem diferentes, eu sempre associo os dois velhinhos ingleses, Agatha Christie e Alfred Hitchcock. Em parte porque me parece que os dois já nasceram velhinhos. Em parte porque foram, além de conterrâneos, também contemporâneos, e são mestres em um campo comum, as histórias de mistério e assassinatos. Embora uma se divirta em esconder até o último momento o nome do assassino, e o outro se divirta, ao contrário, em muitas vezes revelar de cara quem é o assassino…

Perdão pela digressão. Vamos em frente.

Os oito passageiros desembarcam na ilha – que não é grande, e na qual existe apenas uma edificação, uma mansão muito ampla. São recebidos pelos dois únicos empregados da imensa propriedade, um casal – ele, o mordomo, ela, a cozinheira-arrumadeira.

E é só aí, quando o filme está chegando a 5 minutos, que ouvimos os primeiros diálogos. É uma característica interessante do filme de René Clair: não são muitos os filmes feitos depois de 1927, o ano em que o cinema aprendeu a falar, que começam com 5 minutos sem uma palavra sequer.

Chegados ao seu destino, o casarão em que vão passar o fim de semana, os oito começam a se apresentar uns aos outros – e todos ao espectador, é claro. Perguntam ao casal de empregados quando chegará o anfitrião, o sr. U. N. Owen – e o casal não sabe responder. O mordomo, Thomas Rogers (Richard Haydn), explica que ele sua mulher, Ethel Rogers (Queenie Leonard), receberam todas as instruções do sr. Owen por escrito, e não tiveram contato direto, pessoal.

Nenhum dos oito convidados havia tido contato direto, pessoal, com o sr. Owen. Todos eles haviam recebido, através de amigos, um convite por escrito do sr. e da sra. Owen para passarem o fim de semana naquela mansão.

Apenas 11 pessoas aparecem na tela

Ora, poderá argumentar o espectador que gosta das coisas lógicas, verossímeis, semelhantes ao que acontece na vida real… Mas isso tudo é muito estranho. Como assim? Neguinho recebe um convite de um desconhecido para passar um fim de semana numa ilha remota e aceita o convite? Para quê? Por quê?

Bem… Nada nesta história tem lógica, tem a ver com a vida real. É literatura pura, invencionice, ficção a 20 anos-luz do que acontece no mundo. É tudo artificial como plástico, não tem nada a ver com qualquer coisa natural.

Se o prezado espectador for, como dizia Nelson Rodrigues, um idiota da objetividade, não deverá passar nem perto deste And Then There Were None,

Se essa premissa – oito pessoas aceitam o convite de um desconhecido para passar um fim de semana numa ilha remota com um grupo de gente que nunca haviam visto antes – já parece artificial, pouco lógica, pouco verossímil, o que vem daí em diante é muito, mas muito pior.

Mas não vou ficar relatando o que vem depois desse iniciozinho do filme. Só gostaria de falar um pouquinho dos personagens e de alguns dos atores – para depois falar sobre as histórias em torno do livro de Agatha Christie que deu origem à obra de René Clair, e em seguida seria refilmada um monte, mas um monte de vezes.

São 11 personagens, 11 atores ao todo: oito convidados, os dois serviçais e o marinheiro (este último interpretado por Fred Narracott). Todo o elenco está muito bem, dentro do espírito da coisa, dentro do que René Clair se propôs a fazer com a história de Agatha Christie. As interpretações não são realistas – são, decididamente, propositadamente, estudadamente artificiais, um tanto emproadas demais, exageradas demais, para obter mais graça, mais humor.

Há três atores mais famosos, mais amplamente conhecidos na época: Barry Fitzgerald, Walter Huston e Judith Anderson. Nos créditos iniciais – em que o destaque maior é dado para quem é mais famoso, tem mais apelo nas bilheterias –, aparecem pela ordem os nomes de Barry Fitzgerald, Walter Huston e Lewis Hayward. Os nomes dos demais atores aparecem juntos em um único letreiro – em uma ordem que não consigo entender. Se fosse um filme mais recente, feito nas últimas décadas, seguramente os créditos trariam os nomes dos atores considerados secundários em ordem alfabética. Mas não. Aqui eles aparecem numa ordem cuja lógica parece ser a mesma da história, ou seja, nenhuma.

Barry Fitzgerald (1888-1961), o irlandês baixinho, de cara feia, que trabalhou várias vezes com John Ford, e sob a direção do mestre fez Michaleen Flynn, um dos personagens mais inesquecíveis do cinema, em Depois do Vendaval/The Quiet Man (1952), interpreta um juiz, o juiz Francis J. Quincannon.

O grande Walter Huston (1883-1950), quatro indicações ao Oscar, vencedor por O Tesouro de Sierra Madre (1948), dirigido por seu filho John, faz um médico veterano, experiente – mas com uma quedinha perigosa pelo álcool. É bom mesmo que haja ali no grupo um médico, já que tanta gente vai morrer. Os espectadores mais atentos seguramente vão notar como os movimentos da boca do dr. Edward G. Armstrong são parecidos demais com os de John Huston em seus trabalhos como ator…

Eu não conhecia esse Louis Hayward (na foto abaixo), cujo nome aparece em destaque nos créditos iniciais e nos cartazes do filme. Louis Hayward (1909-1985), nascido na África do Sul e criado na Inglaterra, tem 69 títulos na filmografia, dos quais os de maior sucesso são este filme aqui e a versão de 1939 de O Homem da Máscara de Ferro, em que interpreta o rei Louis XIV. Ele é o galã do elenco – seu personagem, Philip Lombard, é um dos mais jovens do grupo, aí faixa dos 30 e tantos anos. E vai se interessar logo pela convidada feminina bonita, atraente e jovem, Vera Claythorne.

Vera Claythorne a rigor não foi convidada para passar o fim de semana descansando na mansão da ilha remota: ela recebeu, por carta, a proposta de se apresentar lá para trabalhar como secretária particular da sra. Owen. Mas participará das refeições à grande mesa da sala de jantar ao lado dos sete convidados. Eu também não conhecia a atriz que faz Vera. Chama-se June Duprez (1918-1984, na foto acima), nasceu em Londres, filha de um ator americano de vaudeville que se radicou na Inglaterra. June Duprez ganhou status de estrela com O Ladrão de Bagdá de 1940, o que a levou para Hollywood. Mas acabou não tendo boas oportunidades lá, e sua filmografia não é muito ampla – tem apenas 19 títulos.

Judith Anderson (1897-1992) é daquele tipo de ator que é escalado sempre para o mesmo tipo de papel – no caso dela, de mulher severa, sisuda, nada simpática e muitas vezes abertamente má, cruel. Havia sido perfeita, cinco anos antes, como Mrs. Danvers, a governanta da mansão de Manderley que inferniza a vida da heroína em Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock (olha ele aí de novo…).

Aqui Judith Anderson faz o papel de uma tal de Emily Brent, uma mulher fechada em si mesma, antipática, sempre de maus bofes.

Os outros personagens são menos importantes. William Henry Blore (Roland Young) é um investigador, um detetive particular. O mais velho do grupo é um general já bastante surdo, Sir John Mandrake (o papel de C. Aubrey Smith). E finalmente há um príncipe russo, Nikita Starloff (Mischa Auer), um sujeito que bebe demais e é o primeiro a morrer, se não me engano – mas antes de partir desta para melhor canta para os companheiros de fim de semana (e para o espectador, é claro) a tal canção infantil sobre os dez negrinhos que vão morrendo um a um até que não sobra ninguém.

Cada um dos convidados – repito – foi acusado de ter cometido algum tipo de crime no passado. Mas todos foram inocentados pela Justiça.

E a esta altura é necessário registrar que, nesta sua história aqui, Dame Agatha Christie faz a defesa do justiçamento, da justiça feita com as próprias mãos, deixando de lado a Lei, as instituições da Justiça. A Lei do Talião, o olho-por-olho, dente-por-dente – a barbárie, a anti-civilização. E ela é useira e vezeira nisso. Esse é também o pano de fundo de outra de suas histórias mais consagradas, O Assassinato no Expresso Oriente, que já rendeu dois bons filmes, cada um com elenco multi-estelar de sua época, o de Sidney Lumet, de 1974, e o de Kenneth Branagh, de 2017.

Mas é bem possível que muitos espectadores sequer prestem atenção a isso. É uma trama divertida, engraçadinha, e pronto.

E não sobrará palavra alguma

Dez negrinhos ou dez indiozinhos?

O livro foi o 40º romance dos 74 lançados por Agatha Christie, e saiu em 1939, o ano em que ela estava com 49 dos 85 que viveria. Foi publicado pela primeira pela editora William Collins & Sons, na série Collins Crime Club, com o título de Ten Little Niggers, “como nos versos infantis e na canção, que é usada como um importante elemento da trama”, segundo conta a Wikipedia em inglês. E transcrevo mais da grande enciclopédia: “Uma edição americana foi lançada em janeiro de 1940 com o título And Then There Were None, que é tirado das cinco últimas palavras da canção. Todos as sucessivas novas edições e adaptações americanas usam esse título, exceto as edições como Livros de Bolso publicadas entre 1964 e 1986, que apareceram com o título de Ten Little Indians. As edições do Reino Unido continuaram a usar o título original até que o atual título definitivo apareceu em uma nova tiragem em 1985 da edição da Fontana Paper de 1963.”

A questão aí, obviamente, é a palavra “niggers”, negros. Décadas e décadas antes da onda do politicamente correto, essa palavra era a mais politicamente incorreta de todas as palavras politicamente incorretas da língua inglesa nos Estados Unidos, onde em vários Estados do Sul vigoraram até meados dos anos 60 leis tão segregacionistas quanto as do apartheid da África do Sul.

O IMDb informa, na página de Trivia sobre o filme:

“O título original do romance era Ten Little Niggers quando ele foi lançado em 1939 no Reino Unido. Quando Christie estava negociando com seus editores americanos em 1940, foi dito a ela claramente que o livro não serias publicado com aquele título. Isso precipitou a mudança para Ten Little Indians. Durante os anos 1970, And Then There Were None tornou-se o título preferido para o romance, mas nos versinhos continuou a ser usada a palavra ‘índians’.”

Bem. Como a palavra “indians” nos últimos anos também virou politicamente incorreta, se não tivessem ido para And Then There Were None, os editores teriam que ter passado a chamar o romance de Ten Little Native Americans

No Brasil, o politicamente correto também atacou, e o livro que foi no passado O Caso dos Dez Negrinhos virou E Não Sobrou Nenhum.

Sobrará alguma palavra que os politicamente corretos permitirão? Ou não sobrará nenhuma?

Bem. Deixada de lado essa questão, vem agora a parte mais interessante.

Informa no mesmo verbete a Wikipedia em inglês que o livro, no conjunto de suas edições, com um título e outro, é o romance de mistério mais vendido do mundo. São mais de 100 milhões de cópias, o que o coloca como um dos livros mais vendidos de todos os tempos. “O romance já foi colocado como o sexto título mais vendido em qualquer língua, incluindo livros de referência.”

A própria Agatha Christie criou uma adaptação do seu romance para o teatro, em 1943. E fez mudanças fundamentais: em vez do final absolutamente duro, trágico, horripilante do livro, na peça há, depois de tantas mortes, um sopro de alegria.

Este filme aqui, lançado apenas seis anos depois do livro, foi a primeira das adaptações da história para as telas. O roteirista Dudley Nichols seguiu o final da peça, e não do livro.

Depois desta adaptação de Dudley Nichols filmada por René Clair, houve outras nove versões da história para o cinema e duas vezes para a televisão, segundo contou o IMDb. Foi o trabalho de Agatha Christie que teve mais adaptações para a tela.

Uma das mais recentes adaptações da história foi uma série britânica de 2015, em três episódios de cerca de uma hora cada. Miranda Richardson fez o papel de Emily Brent, o australiano Sam Neill fez o general John MacArthur; Charles Dance fez o juiz, cujo nome foi mudado para Lawrence Wargrave, e a jovem e bela Maeve Dermody fez Vera Claythorne.

Não só de refilmagens é feita a história de Ten Little Niggers, perdão, Ten Little Indians, perdão, And Then There Were None. Há também as citações, as homenagens. O IMDb enumera mais de uma dúzia – entre elas é citado Os Oito Odiados, já que Quentin Tarantino, em entrevista, disse que a história de Agatha Christie foi uma de suas influências.

Provavelmente a homenagem mais divertida de todas é Assassinato Por Morte/Murder by Death, de 1976. Na trama criada pelo aclamado dramaturgo e roteirista Neil Simon, cinco famosos detetives da ficção são convidados, juntamente com seus companheiros, para se reunir em uma estranha mansão e tentar resolver um mistério. Os detetives têm nomes diferentes dos originais, mas qualquer um sabe que eles são Nick Charles, Sam Spade (criações de Dashiell Hammett), Charlie Chan (criação de Earl Derr Biggers), Hercule Poirot e Miss Marple (criações dela mesma, a velhinha inglesa doida por um assassinato).

Putz, deu vontade de rever Assassinato por Morte!

Anotação em novembro de 2021

O Vingador Invisível/And Then There Were None

De René Clair, EUA, 1945

Com Barry Fitzgerald (juiz Francis J. Quincannon), Walter Huston (Dr. Edward G. Armstrong), Louis Hayward (Philip Lombard), Roland Young (detetive William Henry Blore), June Duprez (Vera Claythorne), Mischa Auer (príncipe Nikita Starloff), C. Aubrey Smith (general Sir John Mandrake), Judith Anderson (Emily Brent), Richard Haydn (Thomas Rogers), Queenie Leonard (Ethel Rogers), Harry Thurston (Fred Narracott)

Roteiro Dudley Nichols

Baseado no romance e na peça de Agatha Christie

Fotografia Lucien N. Andriot

Música Mario Castenuovo Tedesco

Montagem Harvey Manger

Direção de arte Ernst Fegté

Produção Popular Pictures Inc. (René Clair Productions)

P&B, 97 min (1h37)

**1/2

 

2 Comentários para “O Vingador Invisível / And Then There Were None”

  1. Nunca fui com a cara desse filme (acho que é por ser o final da peça… ótimo para quem leu o livro e foi ao teatro sem saber que ganharia um plot twist diferente… rs).
    Gosto mesmo é da versão russa, a que mais ficou parecida com o livro, e recomendo.

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