O “W” da Questão / W jak Morderstwo

Nota: ★★½☆

(Disponível na Netflix em 11/2022.)

O “W” da Questão, produção polonesa de 2021, é um filmezinho simpático, gostoso e descompromissado como um chopinho com amigos num fim de tarde. Não é e obviamente não pretende ser um grande filme – e isso é parte de seu encanto.

É uma trama de mistério-thriller-policial contada com muito bom humor. Uma comedinha – não daquelas de fazer a gente gargalhar a cada momento, mas de nos deixar um tanto sorridentes durante boa parte de seus 105 minutos. A trama é gostosa, esperta, bem engendrada – e a forma com que ela é contada é exatamente assim também. Gostosa, esperta, bem engendrada.

A maior qualidade do filme, na minha opinião, é a atriz que faz o papel central, a protagonista, que está presente praticamente em todas as sequências. Chama-se Anna Smolowik (nas fotos abaixo), nasceu em 1985 e estava, portanto, com 36 anos quando o filme foi lançado; começou a carreira em 2008, e neste período de 13 atuou em 60 filmes e/ou séries para a TV polonesa.

É uma bela mulher – não uma beldade extraordinária, mas uma bela mulher, com expressivos olhos verdes e um jeitinho de moça comum, simpática, a vizinha do lado, tipo Sandra Bullock.

Anna Smolowik faz o papel de Magda Borowska, uma mulher de bem com a vida, sempre sorridente, sempre bem humorada. Mora num belo bairro de Podkowa Lesna, cidade próxima a Varsóvia que o filme mostra como se fosse da rica Suécia, do rico Massachusetts. Tem dois filhos lindos, uma garota de uns 14 anos, Nika (Maja Mularuk), e um menino aí de uns 11 ou 12, Kuba (Kacper Dyka).

Como tantas mulheres de classe média em confortável situação de vida, Magda parou de trabalhar para cuidar dos filhos. Não é dito explicitamente, mas tudo indica que ela havia sido veterinária.

É uma pessoa tão tranquila, tão cuca fresca, que parece não perceber que o marido, Tomasz (Przemyslaw Stippa), é um danado de um pentelho, um chato de galocha.

Magda tem um hobby, quase uma mania, e uma tristeza forte, quase um trauma. O hobby: adora ler histórias policiais, é uma devoradora dos livros de Agatha Christie. A tristeza: sua maior amiga, a amiga-irmã, Weronika, desapareceu misteriosamente quando elas estavam aí com uns 18 anos, e nunca mais foi vista.

Na época, Magda havia pedido a ajuda do médium e vidente da cidade, Robert Mazur (Piotr Adamczyk). Vemos a sequência em flashback em que a garota Magda foi pedir a Mazur para ajudá-la a encontrar a amiga desaparecida. O sujeito se recusou a atender ao pedido da moça – e Magda guardou aquela decepção para sempre, certa de que ele se negou a ajudá-la porque ela tinha pouco dinheiro a pagar pelos serviços.

Magda e Weronika haviam comprado juntas dois pingentes quase idênticos, feitos pelo mesmo ourives – cada um com a inicial de uma delas, um M e um W. Magda jamais deixou de usar o M dela.

Uma noite, bem no início da narrativa, Magda está passeando de noite com seu grande cachorro quando encontra, perto de um parque, o corpo de uma mulher morta – uma desconhecida, uma pessoa que seguramente não era ali daquela cidade. Ela ainda estava sangrando, o que deu à leitora de romances policiais a certeza de que o assassinato havia acontecido pouco antes.

Era o primeiro assassinato na calma cidade de Podkowa Lesna em décadas e décadas. Algo para que o inspetor de polícia do lugar, Jacek Sikora (Pawel Domagala, nas fotos mais abaixo), não estava de forma alguma preparado.

Jacek, um sujeito bem atrapalhado, mas boa gente, tinha estudado junto com Magda na adolescência. Na verdade, sempre tivera uma quedinha por ela. O espectador percebe isso facilmente; Elka (Olga Sarzynska), grande de Magda e irmã do inspetor Jacek, está cansada de saber disso. Só a própria Magda, meio sonsa, que não percebe que o marido é um chato de galocha, não percebe da mesma forma que o policial gosta dela.

O inspetor Jacek está perdidão diante do primeiro assassinato que cai em suas mãos – e o fato de sua amiga Magda estar sempre percebendo detalhes, fios da história antes dele só serve para deixá-lo mais atrapalhado.

A coisa fica muito mais séria para Magda quando se descobre que a morta usava o W na corrente que havia sido da desaparecida Weronika.

Uma história com muitos, muitos personagens

Vão surgir mais personagens – esta é uma daquelas histórias com muitos personagens.

Há o milionário Jaroslaw Czerwinski (Szymon Bobrowski), vizinho de Tomasz e Magda, e sua nova mulher, uma garotinha toda linda e gostosa, Zuza (interpretada por Magdalena Gawecka, jovem modelo em seu segundo filme). Magda já havia reparado que os peitos da lourinha eram de plástico – mas, sonsa, tadinha, ainda não tinha percebido que o marido chato pegava sempre naqueles peitos de plástico.

Esse milionário cornudo, Jaroslaw, financiava a campanha ao Senado de um tal Bruno Szeliga (Rafal Królikowski). O interesse em que esse Bruno fosse eleito para o Senado, naturalmente, não tinha nada a ver com o bem-estar do povo polonês – e sim com a grana preta que daria para roubar com o apoio de um político.

O espectador percebe de cara que esse Bruno candidato ao Senado não é flor que se cheire – muitíssimo ao contrário. Mais tarde se verá que a mulher dele, Barbara (Dorota Segda) é ainda muito pior.

Foi ao sair de uma festa na casa do casal Bruno e Barbara que a tal moça foi assassinada – a moça que usava uma corrente com um W como pingente, o W que havia sido de Weronica, a amiga desaparecida de Magda. O espectador vê Weronika em flashbacks, interpretada por Emma Giegzno.

E há ainda o dr. Walezak (Jacek Knap), um veterinário bonitão, que ainda bem no começo da narrativa convida Magda para trabalhar com ele em seu consultório. Desde aquele momento, o espectador percebe que entre o veterinário bonitão e a heroína da história, essa Magda tão simpática casada com um sujeito tão babaca, vai acabar rolando alguma coisa.

No título original, um jogo com as letras W e M

Como se vê, o W, o pingente em forma de W, é peça fundamental na trama – e por isso não erraram os exibidores brasileiros ao escolher o título O “W” da Questão. Imagino que eles esperavam que o leitor fizesse a ligação com o x do problema da canção de Noel Rosa, a expressão muito usada o x da questão.

Sou curioso com essa coisa dos títulos, e fui xeretar nos títulos escolhidos em outros países. O W está presente no título francês,

L’Affaire W, e também no português, O Misterioso Caso W. Nos EUA na Grã-Bretanha, escolheram In for a Murder, o que me parece um tanto difícil, um tanto Mandrake.

Uma tentativa no tradutor do Google para o título original polonês W jak Morderstwo leva a “w para assassinato”. “Morderstwo”, portanto, é assassinato. O que demonstra que o polonês não é assim tão grego ou sânscrito assim: morderstwo não é muito distante do inglês murder, do alemão mord ou do sueco morda.

Uma brincadeira gráfica nos créditos iniciais indica o que os realizadores pretenderam: a letra M da palavra Morderswo é cortada ao meio, como que por uma faca, e cai de cabeça para baixo, virando W. Parece, portanto, que Katarzyna Gacek e Piotr Mularuk quiseram fazer um jogo de palavras, ou de letras, para ser mais exato: W de Morderstwo – W de assassinato.

Os exibidores espanhóis cravaram o título “A” de Asesinato.

Perdão por me alongar um pouco nisso, mas é que de fato adoro essa coisa dos diversos títulos escolhidos para cada filme mundo afora.

Um filme propositalmente “fácil”, “popular”

Katarzyna Gacek e Piotr Mularuk. Os dois assinam o roteiro do filme – que se baseou no livro escrito por ela, W jak Morderstwo. Não encontrei muitas informações sobre Katarzyna Gacek, a não ser que é jovem (pelas fotos que há na internet, eu diria que é uma mulher de 40 e tantos anos hoje) e assinou também o roteiro de uma série exibida na TV polonesa entre 2008 e 2009, Przeznaczenie.

Além de assinar o roteiro junto com a autora do livro em que o filme se baseia, Piotr Mularuk foi também o diretor. Não é propriamente um garoto: nasceu em Varsóvia em 1966. Estudou cinema em Nova York e é dono de uma produtora independente, a Yeti Films, mas dirige bem pouco. Entre 2000, quando fez um filme para a TV, e 2021, quando lançou este W jak Morderstwo aqui, realizou apenas seis filmes. O quinto deles, o que veio antes desta comedinha leve aqui, foi um documentário, Just Like Us, sobre o Levante de Varsóvia – o episódio de 1944 em que a resistência polonesa tentou libertar a capital do domínio nazista. As estimativas são de que entre 150 e 200 mil pessoas morreram durante a revolta.

Ou seja: este não é um contumaz realizador de comedinhas, não.

O “W” da Questão me deixou com diferentes sensações. Por um lado, ele parece todo feito sob medida para ser um sucesso de público. Tenta ser o mais “popular” possível, no sentido de despojado de qualquer pretensão séria. É diversão pura, divertissement sem a menor vergonha de ser divertissement.

Tem assim – diabo, vou usar um termo pretensioso – uma estética televisiva. É tudo limpinho demais, tudo acabando de sair do costureiro, do trabalho da equipe do decorador de interiores. Parece coisa de novela da Globo, sacumé? Limpinho demais – e portanto com jeito de falso.

Até mesmo as interpretações são levemente, suavemente televisivas, com um jeitinho que pretende ser natural demais e acaba soando um tiquinho falso…

E no entanto… Pois é. No entanto, fiquei com uma pulguinha atrás da orelha, uma sensação de que os realizadores optaram muito conscientemente por tudo aquilo. Que na verdade são gente de talento – mas fizeram um esforço para fazer um filme que agradasse ao maior número de pessoas possível. Um filme, digamos, “fácil”.

Não sei se conseguiram um tremendo sucesso na Polônia. Não tenho idéia. Mas eu me diverti bastante com o filme.

Anotação em novembro de 2021

O “W” da Questão/W jak Morderstwo

De Piotr Mularuk, Polônia, 2021

Com Anna Smolowik (Magda Borowska)

e Pawel Domagala (inspetor Jacek Sikora), Przemyslaw Stippa (Tomasz Borowski, o marido de Magda), Szymon Bobrowski (Jaroslaw Czerwinski, o milionário), Piotr Adamczyk (Robert Mazur, o vidente), Dorota Segda (Barbara Szeliga), Rafal Królikowski (Bruno Szeliga), Jacek Knap (dr., Walczak, o veterinário), lga Sarzynska (Elka, a irmã do inspetor Jacek), Emma Giegzno (Weronika Bielecka), Sandra Herbich (Joanna Maj), Przemyslaw Bluszcz (Bodzio), Jakub Kamienski (Cieslak), Jowita Budnik (Ilona Czerwinska), Grazyna Laszczyk (Wanda Bielecka), Stefan Knothe (Mr. Bielecki), Maria Kowalik (a tia de Joanna), Maja Mularuk (Nika Borowska, a filha de Magda), Kacper Dyka (Kuba Borowski, o filho de Magda), Magdalena Gawecka (Zuza Czerwinska, a nova mulher do milionário), Artur Tusinski (o prefeito de Podkowa Lesna)

Roteiro Katarzyna Gacek e Piotr Mularuk

Baseado no livro de Katarzyna Gacek

Fotografia Adam Bajerski

Música Pawel Lucewicz

Montagem Agnieszka Glinska

Casting Nadia Lebik      

Direção de arte Natalia Giza   

Figurinos Dorota Roqueplo

Produção Agnieszka Sieradzka, Yeti Films, Telewizja Kino Polska, Black Photon, Rosco Polska, Dreamsound Studio, Polski Instytut Sztuki Filmowej.

Cor, 105 min (1h45)

**1/2

Título na França: L’Affaire W. Em Portugal: O Misterioso Caso W. Nos EUA: In for a Murder.

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