Morangos Silvestres / Smultronstället


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Quem gosta de cinema deveria rever Morangos Silvestres de tempos em tempos. É de uma beleza, de uma genialidade poderosas demais, que não param de surpreender, encantar, de nos deixar boquiabertos, mesmerizados. É um dos mais belos filmes da história – tive essa certeza de novo, ao revê-lo agora.

Não sei quantas vezes já vi Morangos Silvestres. Por uma grande coincidência, no mesmo dia em que o revi, estava digitando parte das anotações do caderninho de adolescente e lá está que a primeira vez foi no Cine Guarani, em Belo Horizonte, no dia 21 de abril de 1963; tinha 13 anos, e não tenho, evidentemente, a menor lembrança do que entendi do filme, mas está lá a nota 4 (em cinco; na época eu usava até 5). Anotei também que vi o filme de novo em 2002, mas há um período conturbado nos anos 70 e 80 em que deixei de anotar muitos filmes que vi e revi, e seguramente passei por Morangos Silvestres de novo naquela época. De qualquer forma, sabe lá Deus por quê, aos 13 anos, dei 4 estrelas para o filme.

Deus, ou a falta dele, está presente em vários dos diálogos de Morangos Silvestres, assim como está, é claro, na maior parte da obra de Bergman, um dos maiores cineastas da história – se não for o maior. Há os velhos mestres, os que estabeleceram as regras da linguagem, a gramática da nova arte – Eisenstein, Griffith, Chaplin. Há os grandes criadores, autores de obra pessoal, grande e intransferível – Visconti, Ford, Capra, Buñuel, Hitchcock, Wilder, David Lean, Resnais, Fellini – e há os excepcionais que vieram depois deles, aprenderam com eles todos – Truffaut, Spielberg, Scorsese, Arthur Penn, Woody Allen, Clint Eastwood. Mas não há ninguém como Ingmar Bergman.

amorangosvictorOs maiores cineastas souberam contar belas histórias com belas imagens, nos fizeram sonhar, recordar, ter medo, sentir profunda tristeza, profunda alegria, chorar, gargalhar. Bergman, como nenhum outro, fez tudo isso – ao mesmo tempo em que nos fez pensar, refletir, pesar, ponderar. Ninguém foi tão fundo na alma humana como Ingmar Bergman.

Bergman usou o cinema para fazer o que antes só se fazia em texto preto no branco: botou em imagens não apenas histórias, mas todas as grandes questões que assombram a humanidade desde que ela existe – “todas aquelas perguntas que não tem sentido fazer, e no entanto fazemos o tempo todo” (*), todos os porquês, o quem somos, onde estamos, para onde vamos.

Registro tudo isso aqui talvez como um ato de contrição pelo fato de que, com mais de 1.100 filmes comentados, este site ainda não tinha se aventurado, ainda não tinha tido a coragem de falar sobre um de Bergman.

         A realidade misturada aos sonhos e recordações

Morangos Silvestres abre com um pequeno intróito antes dos créditos iniciais – e me peguei pensando que isso, que hoje todo mundo faz, até as mais bobas e vazias comedinhas de Hollywood, não era, absolutamente, uma coisa comum, em 1957, quando Bergman fez esta obra-prima.

Maravilha de intróito. Um senhor idoso faz anotações em um bloco de papel, no belo escritório de sua casa. Apresenta-se ao espectador:

“Nossa relação com as pessoas consiste em discutir com elas e criticá-las. Isso que me afastou, por vontade própria, de toda minha vida social. Tornou minha velhice solitária. Sempre trabalhei muito, e sou grato por isso. Tenho um filho que também é médico e mora em Lund. Foi casado durante anos mas não teve filhos. Minha mãe ainda vive e, apesar da idade, é uma pessoa ativa. Minha esposa Karin morreu há muitos anos. Talvez devesse acrescentar que sou uma pessoa meticulosa, e isso cria problemas com as pessoas ao meu redor e comigo mesmo. Meu nome é Eberhard Isak Borg, e tenho 78 anos. Amanhã receberei o título honorário na Catedral de Lund.”

Temos em seguida os letreiros, os créditos iniciais – e, depois, acompanharemos Isak Borg em sua viagem de Estocolmo, onde mora, até Lund, durante a qual ele fará um inventário de sua longa vida. É um road movie, um filme sobre relações familiares, relações com as outras pessoas, um balanço de vida, um emaranhado de questionamentos, é um conciso e brilhante estudo filosófico e teosófico – é um dos filmes mais geniais que já foram feitos, com perdão pela repetição. 

amorangosrelogioNa noite que antecede a viagem para receber o prêmio de reconhecimento por seu trabalho ao longo de uma vida inteira, Isak Borg (Victor Sjöstrom) tem um pesadelo terrível. É a primeira seqüência do filme após os créditos iniciais – e, meu Deus do céu e também da terra, é uma das seqüências mais belas do cinema. Ele se vê andando por um trecho desconhecido da cidade, onde os relógios não têm ponteiros, e uma carruagem carrega o caixão onde ele mesmo está deitado.

Sua intenção era fazer a viagem de avião; mas, ao acordar muito cedo, depois do pesadelo, decide ir de carro. Viaja com a nora, Marianne, interpretada por Ingrid Thulin. Na primeira fase da viagem, há uma seqüência de diálogos cortantes, apavorantes, entre os dois; ele diz que teve um sonho horroroso, e ela o corta dizendo que não se interessa por sonhos. Marianne diz que o filho dele o odeia, e que ela acha que ele é um velho egoísta, que não tem consideração pelos outros e só ouve a si mesmo.

amorangoscarroIsak faz uma primeira parada, para mostrar a Marianne (na foto ao lado) a casa em que sua família passava as férias de verão. Marianne aproveita para nadar no lago próximo à casa; deixado sozinho, junto de pés de morangos silvestres, Isak viaja ao passado, à infância distante.

A viagem de Isak ao passado é de um brilho descomunal. Ele vai como está hoje – nós nos lembramos dos outros como eram no passado, mas não conseguimos nos ver mais jovens. Testemunha de perto cenas de mais de meio século atrás – sua prima Sara (Bibi Andersson), o grande amor de sua vida, colhe morangos para presentear o tio Aron (Yngve Nordwall); chega então um dos dez irmãos dele, Sigfrid, e começa a paquerar Sara. Sara namora Isak, um jovem calmo, sério, estudioso, mas tem atração por Sigfrid, sujeito tolo, mas sensual – e Isak presencia a paquera, fica ali olhando o momento em que foi traído por Sara.

Depois ele entra na casa, e vê a grande família, a mãe, o tio e a penca de filhos almoçando, as irmãs gêmeas contando que viram Sigfrid no mato com Sara, Sara fugindo da mesa envergonhada, sendo consolada por uma prima, contando que não quer magoar Isak, mas que gosta de Sigfrid.

É uma seqüência monumental.

Woody Allen prestaria homenagem a essa seqüência em Desconstruindo Harry; ali, o personagem central, interpretado pelo próprio cineasta, vai ser homenageado com um título honorário – exatamente como Isak Borg; durante a viagem ao local da homenagem, ele entra na casa da irmã, e assiste a uma reunião familiar; tenta falar com os parentes, e é advertido de que aquelas pessoas do passado não podem vê-lo.

amorangosbibi2Isak Borg é despertado de sua viagem ao passado por uma garotinha que aparece ali junto da casa de campo; chama-se Sara, e é interpretada pela mesma Bibi Andersson (foto ao lado) que faz a Sara do passado. Sara está viajando com dois amigos rumo à Itália, e os três pegarão uma carona com Isak e Marianne.

Dezesseis anos antes de Morangos Silvestres, em 1941, Orson Welles havia revolucionado a linguagem do cinema ao misturar diferentes épocas e diferentes versões dos fatos, em Cidadão Kane. Em Morangos Silvestres, Bergman misturou diferentes épocas da vida e mixou realidade e sonhos, recordações, imaginação. Nas décadas seguintes, centenas, milhares de filmes imitariam, ou tentariam imitar isso.

Bergman influenciaria fortemente diversos cineastas, no mundo inteiro, como, por exemplo, o próprio Woody Allen (que chegou até a filmar com Sven Nykvist, o diretor de fotografia de várias obras do mestre sueco) e o brasileiro Walter Hugo Khoury. Infelizmente, muita gente sem talento tentou imitar o estilo único de Bergman, e fez, como diz muito bem dito a Mary, um monte de filmes papo-cabeça sem pé nem cabeça.

         Maravilhosos atores

Victor Sjöström, o ator que faz com absoluto brilhantismo esse Isak Borg, foi o maior diretor sueco da primeira metade do século XX, um dos maiores da era do cinema mudo. “Com Terje Vigen (de 1916), Sjöström acabou com o domínio teatral que pesava sobre a arte cinematográfica, dando à câmara um papel preponderante”, escreve Jean Tulard no seu Dicionário de Cinema.

Sua interpretação em Morangos Silvestres é apaixonante. Bergman foi um dos melhores diretores de atores de todos os tempos, e sempre usou o mesmo grupo de pessoas em seus filmes; todas as interpretações são primorosas.

A Marianne de Ingrid Thulin é uma personagem marcante, impressionante, em sua infinita tristeza. Ingrid Thulin trabalhou com Bergman em sete outros filmes: No Limite da Vida, O Rosto, Luz de Inverno, O Rito, O Silêncio, A Hora do Lobo e Gritos e Sussurros. Fez o principal papel feminino em Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, um filme, na minha opinião, muito subestimado, de 1962, de Vincente Minelli, e em A Guerra Acabou, de Alain Resnais, de 1966, e estrelou Os Deuses Malditos, de 1969, de Luchino Visonti. Trabalhou, assim, com grandes cineastas de diferentes nacionalidades. Atriz excepcional, é uma mulher de beleza estranha, forte, com os olhos mais lindos que possam existir. Seus olhos são tão fortes e poderosos quanto o diálogo que tem o marido (Gunnar Björnstrand), o filho de Isak Borg (com o pai na foto abaixo) quando revela a ele que está grávida, e ele rejeita a idéia de ter um filho porque detesta a vida e não vê nela qualquer sentido.

         Outros falam do filme

amorangosfilhoMorangos Silvestres é “o melhor Bergman dos anos 50”, segundo o estudioso Georges Sadoul; “alcança melhor o nível de tragédia filosófica que seu mais ambicioso O Sétimo Selo”.

“Possivelmente a mais terna das obras-primas de Bergman, Morangos Silvestres acompanha a odisséia geográfica e espiritual traçada pelo idoso professor Isak Borg (cujo nome em sueco significa, aproximadamente, ‘fortaleza de gelo’), interpretado por Victor Sjöström”, diz o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer. “Este filme extraordinário e muito imitado possui uma honestidade emocional completamente em harmonia com a viagem feita por seu protagonista.”

Como não há unanimidade na vida, Pauline Kael diz que o filme, “primeiro grande sucesso de Ingmar Bergman nos Estados Unidos”, é “muito irregular”, “com flashbacks singularmente não convincentes e diálogo demasiado explícito”. Endoidou, a Dona Pauline – não são flashbacks, são sonhos, imaginações de cenas que poderiam ter acontecido no passado. É claro que Isak Borg não estava lá para ver o namoro de Sara com Sigfrid, ou para ouvir a confissão de Sara à prima sobre sua tração pelo irmão do namorado.

Bem, mas Dona Pauline reconhece: “Quem consegue esquecer o rosto de Sjöström, ou o casal briguento que se odeia e se fere mutuamente no banco traseiro de um carro, ou a grande máscara da bela Ingrid Thulin, como a nora infeliz do médico? Poucos filmes nos dão imagens tão memoráveis e cheias de emoção”.

         Bergman fala do filme

amorangosbibiBergman estava com 39 anos quando fez o filme – a idade de Evald, o filho de Isak Borg. Já septuagenário, como Isak Borg, ele escreveria no seu livro Imagens, lançado em 1990 (a edição brasileira, da Martins Fontes, é de 1996), que, por meio de Morangos Silvestres, estava “implorando a seus pais que o vissem, o compreendessem e, se possível, o perdoassem”:

“O desquite da terceira esposa ainda me fazia sofrer muito. Foi uma experiência estranha aquela de amar alguém com quem não era possível viver. Também a vida em comum com Bibi Andersson (na foto, como a Sara da juventude), uma vida branda e criativa, havia começado a ruir, já não me recordo por que motivo. Com meus pais mantinha uma guerra aberta. Com meu pai não queria ou não podia falar, com minha mãe tentei repetidas vezes uma reconciliação temporária, mas, como dizemos em sueco, ‘havia demasiados cadáveres no guarda-roupa’, demasiados mal-entendidos ainda frescos.”

“Suponho que um dos motivos mais fortes que se esconde atrás de Morangos Silvestres está justamente nisso. Eu fazia uma idéia da minha pessoa a partir da pessoa que meu pai era e procurava uma explicação para os conflitos acérrimos que tinha com minha mãe. Percebia que eu fora um filho não desejado, parido durante uma crise física e psíquica de minha mãe.”

“Eu criara uma personagem (a de Isak Borg) que se assemelhava a meu pai, mas que no fundo era eu, inteiramente. Eu com 37 anos, privado de relações humanas, com necessidade de me impor, introvertido, e não apenas relativamente, mas sim bastante fracassado. Apesar dos sucessos, de ser bom profissional, cumpridor e disciplinado. Procurava meu pai e minha mãe, mas não podia encontrá-los.”

Credo em cruz. Piradinho, o cara.

Doido, mas gênio. Ingmar Bergman é o cineasta que transformou sua profunda angústia pessoal em obras de arte. 

 

(*) Para dar o devido crédito: a frase entre aspas lá em cima é uma citação que fiz de um trecho da letra de Here in California, uma canção de Kate Wolf, que por sua vez cita a letra de Turn! Turn! Turn!, escrita por Pete Seeger com base em trecho do Livro do Eclesiástico da Bíblia. A estrofe inteira é assim:  

“There’s a old familiar story
An old familiar rhyme
To everything there is a season
To every purpose there’s a time
A time to love and come together
A time when love longs for a name
A time for questions we can’t answer
Though we ask them just the same”

Para ler a letra inteira, clique aqui

 Morangos Silvestres/Smultronstället

De Ingmar Bergman, Suécia, 1957

Com Victor Sjöström, Ingrid Thulin, Bibi Andersson, Gunnar Björnstrand, Max von Sydow

Argumento e roteiro Ingmar Bergman

Fotografia Gunnar Fischer

Música Erik Nordgren

Produção Svensk Filmindustri

P&B, 91 min

R, ****

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