Nova York, Eu Te Amo / New York, I Love You

Nota: ★★★½

Anotação em 2011: Nas outras coisas, as opiniões podem variar muito. No quesito filme declaração de amor da nascente franquia Megalópe, Te Amo, Nova York, embora lhe faltem alguns mil anos de civilização em comparação com a concorrente, dá de dez a zero em Paris. New York, I Love You é uma beleza de filme. Muitíssimo melhor do que Paris, Je t’Aime.

Como os dois filmes são assim primos-irmãos, fazem parte do mesmo projeto (já se anuncia que o próximo da série será Xangai, Eu Te Amo), fica difícil não fazer a comparação entre eles.

Claro: nos dois filmes há momentos muito melhores que outros. Os dois filmes são necessariamente irregulares – não haveria como não ser assim, em obras com diversos autores. O filme tem 10 segmentos, ou episódios, ou esquetes, e 11 diretores – um, Randall Balsmeyer, se encarregou das transições entre um segmento e outro. Já o de Paris teve 20 segmentos, 21 diretores (considerando Joel e Ethan Coen como uma entidade só).

É uma diferença e tanto. Com menos segmentos, cada um deles pode ser um pouco mais longo, o que permite que cada um seja mais estruturado.

Além de muito mais entrecortado, o filme sobre Paris ficou necessariamente mais irregular. É, de novo, o óbvio: há mais diferenças de tom, e de talento, num grupo de 21 diretores do que num grupo de 11.

E há uma diferença ainda mais importante. O filme sobre Paris é formado por 20 segmentos isolados entre si. Este New York, I Love You procurou uma unidade que o Paris, Je t’Aime não tinha. Os segmentos não são isolados – vários deles se interpenetram nos outros. Os personagens de um reaparecem em outros, reaparecem nas transições entre um segmento e outro. Fica muito mais coerente – fica muito mais perto de uma obra única, embora feita por 11 diferentes diretores, dos mais diferentes estilos e nacionalidades.

É quase um mosaico, ou estrutura multiplot, à la Short Cuts e tantos outros que têm sido feitos nos últimos anos.

Mas a diferença fundamental, me parece, foi apontada por Mary, ainda enquanto víamos o filme: o de Nova York é muito mais para cima, muito mais alegre que o de Paris. Claro, há episódios duros, tristes, amargos – mas o tom geral, o que predomina é um clima mais para cima. O de Paris acabou sendo muito depressivo. (Na foto, Julie Christie e Shia LaBeouf,n episódio de Shekhar Kapur.)

E, finalmente: por tudo o que foi dito acima, mas especialmente por causa da diferença do tom, New York, I Love You acaba sendo um retrato muito mais fiel da metrópole focalizada do que Paris, Je t’Aime. Afinal de contas, Paris é uma festa, como dizia Hemingway, e continua sendo – não é aquela coisa soturna que acaba sobressaindo na maior parte do filme. E Nova York não é apenas a violência absurda que Martin Scorsese retrata em seus grandes filmes, nem a coisa iluminada, linda, florida, que Woody Allen mostra nos seus – é a mistura gigantesca de riqueza e miséria, tanto material quanto espiritual, moral. Se São Paulo já é o mundo todo, Nova York é mais ainda. Muito provavelmente Nova York é a única cidade do mundo que consegue reunir o mundo todo mais ainda do que São Paulo. OK, há ainda no páreo Londres e Los Angeles – mas São Paulo e Nova York são maiores que essas outras duas, e portanto têm mais mundo todo dentro delas.

          Uma beleza de criação coletiva, algo só possível no cinema

Tudo bem. Como introito, até que não está mau. A comparação entre os dois filmes está feita – mas e o filme em si?

Acho que a melhor característica do filme já foi citada. É exatamente a coisa de não ser formado por episódios esparsos, cada um fechado em si mesmo, e ser, ao contrário, quase um filme mosaico, um filme de estrutura multiplot – embora seja feito por 11 diretores diferentes.

Um filme que acaba tendo uma fantástica unidade, apesar de todas as diferenças de estilo de cada segmento, dirigido por 11 diretores, criado por nem sei quantos roteiristas, é algo diante do qual é preciso tirar o chapéu.

O cinema é certamente a arte mais coletiva que a humanidade já concebeu.

Um poema, uma canção, um quarteto de cordas, uma sinfonia, uma natureza morta numa tela de 30 centímetros, um afresco que ocupa uma dezena de metros, um romance, uma escultura, uma peça de teatro – tudo sai da cabeça e dos sentimentos de uma única pessoa. Tudo bem: para ser executado diante do público, um espetáculo de dança, uma peça de teatro, uma sinfonia, todos eles requerem também um trabalho de um grupo, às vezes de um grupo grande. Uma orquestra tem o quê, uns 50 membros? Legal – um filme precisa muitas vezes de mil pessoas.

Agora, uma única sinfonia criada por 11 compositores, apresentada por uma orquestra regida por 11 maestros?

Algo assim, só no cinema.

Criação de fato coletiva é isso. Neste ponto, New York, I Love You é um filme para ser aplaudido de pé, como na ópera.

          Muitos detalhes – um filme para ser visto mais de uma vez

Para quem gosta de cinema, este é um filme para ser visto mais de uma vez. Tem que, precisa ser visto mais de uma vez. Porque é muita informação demais, da primeira vez; são diretores demais, são atores demais, personagens demais, histórias demais. Não há letreiro, legenda, crédito inicial identificando quem é quem, quem fez qual segmento. Confesso que gastei muita energia, muita atenção tentando identificar os nomes dos atores, que vão surgindo aos borbotões.

Bobagem, isso.

Nos créditos finais, vem tudo explicadinho, didaticamente, quem faz o quê. (Na foto, Cloris Leachman e Eli Wallach, no episódio de Joshua Marston.)

Quero ver uma segunda vez já despreocupado, não tendo que pensar sobre o que vou escrever sobre o filme – mas tendo na mão a relação impressa dos diretores e dos atores e personagens. Só por curtição.

          Muitos destaques, muita coisa bela

Alguns pontos que mais me impressionaram na primeira vez – além do encadeamento de uma história na outra, os personagens que a gente achava que não voltariam reaparecendo, a coisa de interligar as diversas histórias:

O episódio da joalheria. A extraordinária beleza, tão grande quanto o talento, de Natalie Portman, no papel de Rifka, a judia hassídica que conversa com o joalheiro indiano, hinduísta, Mansukhbhai (Irrfan Khan). Duas pessoas de fés absolutamente distintas, de civilizações tão distantes, vivendo na mesma cidade, falando ao mesmo tempo da coisa material menos importante que existe, numa escala de valores correta – jóias – e das coisas mais imanentes que possa haver – fé, crença. Este segmento é dirigido pela indiana Mira Nair.

O episódio do garoto no parque e da moça na cadeira de rodas. O garoto no parque é interpretado por Anton Yelchin, um menino que tem mostrado grande talento; a moça, por Olivia Thirlby (na foto abaixo). O dono da farmácia que apresenta o garoto à garota é interpretado por James Caan. O segmento é belíssimo, transmite um imenso amor por aquela metrópole maluca, dá uma imensa alegria ao espectador – e a idéia de encerrar com Simon & Garfunkel cantando “The Only Living Boy in New York” é simplesmente brilhante. O diretor deste episódio é Brett Ratner, jovem americano de Miami.

O episódio do jovem de pele escura (Carlos Acosta) com a garotinha de pele branquinha (Taylor Geare). Simples, direto, curto e grosso – um show de talento. É de cair o queixo verificar, ao final, que aquela lição de humanismo foi escrita e dirigida por Natalie Portman – ela outra vez, atriz em um episódio, diretora em outro –, essa criatura nascida em Israel, cidadã do mundo, brilhante desde sempre, que tinha ridículos 28 anos de idade quando o filme foi feito.

O episódio da cantora madura que vai se hospedar no hotel. Não entendi muito bem o que o autor quis dizer com aquilo – como em todos os outros episódios, só fui saber a autoria nos créditos finais. O episódio é dirigido por Shekhar Kapur, nascido no Punjab, hoje Paquistão, sobre roteiro do inglês Anthony Minghella. A mensagem é aberta demais, cada espectador que faça a sua, mas a fotografia, o visual é acachapantemente belo. Uma coisa clara, muito perto do branco da superexposição, as cortinas brancas que esvoaçam no limite entre a vida e a morte. E o prazer de reencontrar Dame Julie Christie, quatro décadas depois da Lara de Doutor Jivago, do papel duplo de Fahrenheit 451, da Bathsheba de Longe Deste Insensato Mundo. Que gloriosa forma de envelhecer, que mulher esplendorosa. E que bela interpretação do garotinho Shia LaBeouf como o empregado aleijado do hotel que a serve.

O episódio do casal de velhinhos andando por Conney Island, um implicando com o outro, discutindo por bobagens, cada pequena besteira, amando-se imensamente. Eli Wallach, 94 anos de idade, mais de 160 títulos na filmografia, e mais Cloris Leachman, 83 anos, mais de 200 filmes e/ou episódios, que já era mais velha quando seduzia um garotinho em A Última Sessão de Cinema, de 1971, hoje firme e forte e até mais cheinha do que nos anos 70. O episódio é dirigido por Joshua Marston, outro garotão americano, nascido na Califórnia.

Orra, meu – cinco destaques em um filme de dez segmentos!

Ah, sim, e destaque também para toda a trilha sonora, rica, variada, eclética como as grandes metrópoles, como Nova York. Mas, em especial, destaque para a música que abre e fecha o filme, de uma tal de The Budos Band – um genial cruzamento de Philip Glass, Thomas Newman e Django Reihhardt.

Quero rever Nova York, Eu Te Amo.

Nova York, Eu Te Amo/New York, I Love You

De Fatih Akin, Yvan Attal, Randall Balsmeyer, Allen Hughes, Shunji Iwai, Wen Jiang, Shekhar Kapur, Joshua Marston, Mira Nair, Natalie Portman, Brett Ratner, EUA, 2009

Com Bradley Cooper (Gus), Justin Bartha (Justin), Andy Garcia (Garry), Hayden Christensen (Ben), Rachel Bilson (Molly), Natalie Portman (Rifka), Irrfan Khan (Mansukhbhai), Emilie Ohana (Zoe), Orlando Bloom (David), Christina Ricci (Camille), Maggie Q (call girl), Ethan Hawke (o escritor), Anton Yelchin (o garoto no parque), James Caan (Mr. Riccoli), Olivia Thirlby (a atriz), Blake Lively (a ex-namorada), Drea de Matteo (Lydia), Julie Christie (Isabelle), John Hurt (Bellhop), Shia LaBeouf (Jacob), Ugur Yücel (o pintor), Taylor Geare (Teya), Carlos Acosta (Dante), Jacinda Barrett (Maggie), Qi Shu (chinesa das ervas), Burt Young (locador), Chris Cooper (Alex), Robin Wright Penn (Anna), Eva Amurri (Sarah), Eli Wallach (Abe), Cloris Leachman (Mitzie)

Produção Vivendi Entertainment, Ever So Close, Visitor Pictures, Sherazade Film Development. DVD Califórnia Filmes.

Cor, 103 min

***1/2

4 Comentários

  1. Postado em 2 Março 2011 às 2:58 pm | Permalink

    Vai pra lista do Carnaval, tomara que tenha na locadora daqui. Eu tenho um plano: nunca vou a Nova Iork. E a culpa é do Woody Allen. Porque seus (dele, WA) filmes são embriagadores e mágicos e eu tenho medo de não ser possível tanta beleza. E, agora, este parece que será a cereja, o plus, a pá de cal na viagem que nunca farei. Faz mal não, eu vi Paris, Eu te amo, não gostei tanto assim e pude visitar o Louvre. Foi bom.

    PS. Ontem vi no Telecine: Paris, do Cédric Klapisch (nome devidamente copiado, não conheço) com a Binoche. Gostei mesmo. (http://www.youtube.com/watch?v=cGBsx7nNiss&feature=player_embedded)

    PS2. Viu meu mail?

  2. Postado em 2 Março 2011 às 8:35 pm | Permalink

    Concordo com tudo, e também amo os segmentos que você citou acima, especialmente o do Shekhar Kapur, que é muito estranho mas extremamente envolvente; acrescentaria aos meus preferidos o do pintor que fixa-se na asiática, episódio que não me lembro a direção. Porém, anda pela internet que o próximo filme a ser feito é “Rio de Janeiro, Eu te amo”, tanto que o filme tem páginas no wikipédia e no IMDB, mas ainda em fase de produção.

    http://www.imdb.com/title/tt1456606/

    http://en.wikipedia.org/wiki/Rio,_Eu_Te_Amo

    De qualquer modo, acho que São Paulo merecia mais um filme destes, espero que se o filme sobre o Rio sair que pelo menos Santa Teresa tenha um segmento, acho aquele local incrível.

  3. Jussara
    Postado em 9 Março 2011 às 10:20 pm | Permalink

    Não vi o “Paris, Je t’Aime” pq “Paris, Je t’Aime” é algo que nunca vou dizer, em sã consciência. Como as críticas não foram boas, desanimei.

    Tb gostei dos episódios que vc destacou , com exceção do que fala da cantora madura que se hospeda no hotel. Se vc não entendeu muito bem o que o autor quis dizer, eu não entendi nada.
    No lugar deste eu coloco o episódio do casal no restaurante, como meu outro preferido.

    Era legal ir reconhecendo os atores à medida em que iam aparecendo (não conhecia todos), e o reaparecimento dos personagens tb me pegou de surpresa.
    Gostei de ter reconhecido a Eva Amurri mesmo que num pequeno papel (rolou uma identificação imediata com a personagem dela, exceto que nunca fui levada para meu lugar preferido).

    Foi engraçado ver o Burt Young num papel que não o do eterno Paulie, dos filmes Rocky Balboa.

    Fiquei impressionada com a dança e o corpo super definido do Carlos Acosta, e me perguntei se ele era bailarino profissional. Não deu outra. E tem uma história de vida incrível (achei linda a música que toca na performance dele, no filme).

    O episódio dos velhinhos acho que é o meu preferido. Quem nunca sonhou em envelhecer ao lado da pessoa amada, por mais que inexoravelmente, um vá implicar com o outro na mesma proporção em que ama? Mas tb gostei muitomuito do episódio dirigido e escrito pela Natalie Portman; ela conseguiu colocar ali vários elementos, e ainda por cima, de forma tocante.
    Realmente, é informação demais, e como vc disse, é um filme para ser visto mais de uma vez.

  4. Raiza
    Postado em 7 Maio 2012 às 2:10 pm | Permalink

    Assisti Nova York, Te Amo cinco vezes (ao passo que Paris, Te Amo, vi apenas uma vez).
    NY Te Amo é belíssimo, denso, gosto de quase todas as histórias.
    Em Paris, Te Amo, me tocou especialmente a crônica estrelada pela Marianne Faithfull (que está bem amadurecida desde sua aparição como namorada do Mick Jagger interpretando insosamente As Tears Goes By); o episódio de Marianne é d euma solidão que dói.
    A idéia desse projeto é bárbara, que nos mostra a cidade sob óticas tão variadas, como é característica de todos nós.
    Nova York, Te Amo é uma obra de delicadeza que vale ser vista muitas vezes.

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