Boccaccio ’70

Nota: ★★★½

(Disponível em DVD Versátil.)

Boccaccio ’70 é, com toda certeza, um dos mais interessantes, mais fascinantes filmes de episódios que já foram feitos – essa forma que foi uma especialidade dos cinemas italiano e francês em especial nos anos 50 e 60.

Lançado em 1962, é uma co-produção Itália-França, como muitos, talvez a maioria tanto dos filmes italianos quanto dos franceses ali pelos anos 60. Mas de francês só tem parte do dinheiro investido – é italianíssimo, em tudo por tudo, naquela época em que o cinema italiano era o melhor do mundo.

Quatro episódios, todos muito livremente inspirados em histórias do Decameron do escritor Giovanni Boccaccio (1313-1375). Cada um deles dirigido por um cineasta diferente, cada um com sua própria equipe e seu próprio elenco. O único ponto em comum era a origem – a inspiração em novelas criadas seis séculos antes.

Poderia haver luxo maior do que um filme com episódios dirigidos por (na ordem dos segmentos) Mario Monicelli, Federico Fellini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica?

Poderia. Poderia haver um filme de episódios em que Fellini dirigisse Anita Ekberg, a voluptuosa sueca que ele havia botado dentro da Fontana di Trevi em uma das sequências mais espetaculares de toda a história do cinema, em La Dolce Vita, dois anos antes, em 1960. Em que Visconti dirigisse Romy Schneider, a austríaca de beleza luminosa que, depois dos três filmes da série Sissi e de uma boa carreira no cinema da Alemanha, começava a brilhar em produções de outros países europeus – e que voltaria a trabalhar com o mestre Visconti em Ludwig: A Paixão de um Rei (1973). Em que De Sica e Sophia Loren se divertissem em uma comédia escrachada, depois do tremendo sucesso mundial do drama pesado Duas Mulheres/La Ciocira (1960), que deu a ela o Oscar de melhor atriz, o primeiro Oscar jamais concedido a um/uma ator/atriz em filme de língua não-inglesa.

Pois é.

Um cartaz para exibição do filme nos Estados Unidos resumiu bem a fantástica soma de talentos de grandes diretores com maravilhosas divas.

Uma tradição na Itália e na França

No alto do cartaz, no entanto, há uma frase completamente sem sentido: “O primeiro filme em três atos jamais apresentado!”

Ridículo, imbecil, sem qualquer sentido – e absolutamente mentiroso.

Em 1953, nove anos antes, portanto, cinco diretores – Luchino Visconti, Roberto Rossellini, Luigi Zampa, Gianni Franciolini e Alfredo Guarini – haviam dirigido as grandes estrelas Ingrid Bergman, Anna Magnani e Alida Valli, entre outras atrizes, em Nós, as Mulheres/Siamo Donne (1953), um filme em cinco segmentos, esquetes, episódios, atos. A idéia original para o filme havia sido de um dos formuladores e criadores do neo-realismo italiano, Cesare Zavattini (1902-1989), e, entre os diversos roteiristas, estava uma das maiores de todas, a romana Suso Cecchi D’Amico (1914–2010). Não por coincidência, Suso e Zavattini estão entre os autores dos roteiros dos episódios de Boccaccio ’70.

Naquele mesmo ano de 1962, além de Boccaccio ’70 foram lançados pelo menos três outros filmes “em vários atos”, que desmentem a grotesca frase do cartaz americano:

* Os Sete Pecados Capitais/Les Septs Péchés Capitaux – sete diretores, um para cada pecado. Jacques Demy, Jean-Luc Godard, Philipe De Broca, Claude Chabrol, Roger Vadim, Édouard Molinaro.

* O Diabo e os 10 Mandamentos/Le Diable et les 10 Commandments – dez pecados mortais, e um único diretor, o eclético Julien Duvivier. No elenco, um monte de astros, uma Via Láctea, que incluía Alain Delon, Danielle Darrieux, Jean-Claude Brialy, Charles Aznavour, Fernandel, Micheline Presle, Mel Ferrer…

* O Amor aos 20 Anos/L’Amour à Vingts Ans, um projeto fantasticamente internacional, uma co-produção França-Itália-Japão-Polônia-Alemanha Ocidental, com episódios dirigidos por Shintarô Ishihara, Marcel Ophüls, Renzo Rossellini, Andrzej Wajda e François Truffaut. Foi para este filme que Truffaut trouxe de volta seu alter-ego, Antoine Doinel, que havia sido apresentado ao público em seu primeiro longa-metragem, Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups (1959).

Tradição na França e na Itália, e de volta mais recentemente em produções como Paris, Te Amo (2006), Nova York, Eu Te Amo (2009), Rio, Eu Te Amo (2014). o filme em episódios, ou “anthology film”, como se diz em inglês, nunca foi algo comum no cinema americano. Um dos poucos de que tenho notícia é obra do francês Jean Duvivier, em seu período de exílio nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, Mistérios da Vida/Flesh and Fantasy (1943).

Em 1952, houve um totalmente americano, Páginas da Vida/O’Henry’s Full House (1952), cinco episódios baseados em contos do escritor O’Henry (1862-1910), cada um dirigido por um realizador – Henry Hathaway, Howard Hawks, Henry King, Henry Koster e Jean Negulesco.

Em 1989, três gigantes – Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Woody Allen – se reuniram para fazer Contos de Nova York/New York Stories. Uma beleza de filme, um tremendo fracasso de bilheteria.

Ode aos pobres, pau nos ricos, uma louca fantasia…

Se eu tivesse o dom da síntese, acho que daria para dizer algo assim:

O episódio de Monicelli, Renzo e Luciana, tem bastante a ver com o neo-realismo, o movimento que surgiu após a Segunda Guerra Mundial. Retrata as dificuldades, a dureza da vida de um casal de jovens da classe trabalhadora – com algum bom humor e até com alguma esperança. Luciana e Renzo (os papéis de Marisa Solinas e Germano Gilioli, na foto acima) são fortes, aguentam o tranco, enfrentam toda a adversidade com fibra, coragem.

O episódio de Fellini tem muito de neo, e nada, nadica, nadinda de realismo. Foi a primeira obra em que o cineasta mergulhou na total ausência de preocupação com a realidade, no mais absoluto surreal. As Tentações do dr. Antonio são uma gozação implacável, uma sátira tão virulenta quanto gostosa de se ver, contra o moralismo, a caretice, os babacas, os idiotas que, em nome de Deus e da família, condenam tudo que tenha a ver com sexo. O tal dr. Antonio do título (Peppino De Filippo) se vê à beira de um ataque de nervos quando instalam, num grande terreno baldio em frente a seu apartamento, um gigantesco outdoor em que Anita Ekberg, com aqueles peitos todos dela, faz propaganda de… leite! Quando menos se espera, Anita sai do outdoor, um mulherão de uns cinco, seis metros de altura, pega o caretão e o coloca entre os dois seios. Ah, meu, que maravilha!

O episódio de Visconti, O Trabalho, se dedica a um dos temas preferidos pelo cinema italiano, ao lado da defesa da dignidade dos pobres (como Monicelli faz em Renzo e Luciana): o linchamento dos ricos. É uma tradição dos filmes italianos: se é rico – a rigor, se é de remediado para cima –, é ruim da cabeça e doente do pé. O nobre Luchino, conde de nascimento e comunista por opção, expõe o grotesco, o ridículo de seu personagem, o conde Ottavio (Tomas Milian, em uma interpretação caricatural e fraca), flagrado pelos jornais em seguidos casos com prostitutas. No papel da mulher dele, uma dondoca que, diante do escândalo, avisa ao marido que quer trabalhar, Romy Schneider dá um show – não apenas de beleza mas também de talento.

Uma ode aos pobres, à classe trabalhadora. Um pau nos ricos. Um pau surrealista e engraçadíssimo nos moralistas e caretas. E, para encerrar, uma comédia italiana típica daquela época – uma grande chanchada. No episódio de De Sica, uma Sopha Loren quase tão bastantosa quanto Anita Ekberg é rifada de tempos em tempos para reverter a renda para ajudar sua maior amiga. A homarada fica louca, mas absolutamente louca com aquele estupor de mulher. Todo o tom do episódio é farsesco, caricatural – diversão pura.

Os produtores tiraram o episódio de Monicelli

Os quatro episódios resultaram num filme de 205 minutos – 3 horas 25. Não muito mais que os 192 minutos de Cleópatra, menos que os 238 de … E o Vento Levou. E assim Boccaccio ’70 foi apresentado na Itália. No entanto, já para a apresentação no Festival de Cannes de 1962, o episódio de Monicelli havia sido cortado. E foi com três episódios, e não quatro, que o filme foi exibido mundo afora – inclusive no Brasil. (O adolescente Sérgio Vaz viu o filme no Cine Art-Palácio de Belo Horizonte, conforme consta do primeiro caderninho de cinema dele.)

O IMDb relata que, por solidariedade a Monicelli, os outros três diretores se recusaram a ir a Cannes para prestigiar a exibição no Palácio do Festival. O grande site enciclopédico conta ainda que, como compensação pela retirada do episódio Renzo e Luciana, o produtor Carlo Ponti – então um dos produtores mais poderosos da Itália e de toda a Europa, além de ser o marido de Sophia Loren – se ofereceu para financiar uma versão longa-metragem do episódio. Isso nunca chegou a ser feito.

O que o IMDb não traz (assim como a Wikipedia em inglês e em francês) é a informação de por que, exatamente, os produtores, Carlo Ponti e Tonino Cervi, resolveram cortar fora o episódio de Monicelli. Mas é claro que dá para a gente imaginar as razões. O conjunto ficou longo, os produtores entenderam que a duração do filme poderia afastar muita gente das bilheterias. E, tendo que cortar um, seria melhor, em termos de garantir venda de ingressos, tirar fora o de Monicelli e da bela, competente mas não estelar Marisa Solinas e manter os que tinham as famosérrimas Anita Ekberg, Romy Schneider e Sophia Loren.

Não dá para esquecer a canção “Bevete più latte”

Eis algumas informações que acho interessantes, gostosas, sobre o filme:

* No episódio de Fellini, o dr. Antonio uma hora lá passa por uma rua de Roma em que está sendo rodado um filme passado na Antiguidade, (a Itália produzia às pencas filmes com temas bíblicos e/ou mitológicos). O extra que, no filme dentro do filme, faz o papel de Hércules era… Giuliano Gemma.

Giuliano Gemma (1938-2013) tem uma história fantástica, que merecia virar filme. Naquele começo de carreira, em papéis pequeninos, micro, apareceu em grandes filmes – Ben-Hur (1959), o épico dos 11 Oscars, no papel de um oficial romano, e O Leopardo (1963), a obra-prima de Visconti, como um general de Garibaldi. Passou por coisas como O Califa de Bagdá e Golias e os Pecadores da Babilônia, ambos de 1963, e Hércules Contra o Filho do Sol, de 1964.

Em 1965, com o surgimento do western spaghetti, virou astro: foi o Ringo em Uma Pistola para Ringo e Ringo Não Discute… Mata, e estrelou o icônico O Dólar Furado, com o nome de Montgomery Wood. Sua última aparição no cinema, no título número 104 da filmografia, foi em 2012, numa ponta como um gerente de hotel em Para Roma Com Amor. Woody Allen, um cinéfilo apaixonado, seguramente quis homenagear o velho Montgomery Wood, o maior ator do western spaghetti até a chegada de um tal de Clint Eastwood.

* É em boa parte por causa do episódio neste Boccaccio ’70 que o filme seguinte de Fellini se chamaria Oito e Meio, ou . Seu filme anterior, A Doce Vida (1960), tinha sido seu sétimo filme como diretor. O seguinte seria o oitavo – ou oitavo e meio, considerando como meio este o  episódio Le Tentazioni del Dottor Antonio.

Há tempos eu já havia feito esse raciocínio – mas na realidade há um elemento complicador: em 1953, Fellini já havia dirigido um segmento de um filme em episódios, Amores na Cidade, ao lado de Michelangelo Antonioni, Alberto Lattuada, Dino Risi, Cesare Zavattini, Carlo Lizzani e Francesco Maselli. Portanto, Oito e Meio deveria, a rigor, se chamar Oito e Dois Meios. Bem, Fellini deve ter considerado que dois segmentos são iguais a meio filme. Tudo bem.

Ele voltaria a dirigir um episódio de filme dividido com outros diretores em 1968 – Histórias Extraordinárias, com base em contos de Edgar Allan Poe. Os outros diretores eram Louis Malle e Roger Vadim.

* As Tentações do dr. Antonio foi o primeiro filme de Fellini em cores. Ele voltaria ao preto-e-branco em Oito e Meio, mas adotaria as cores definitivamente a partir de Julieta dos Espíritos (1965).

* Há três canções memoráveis no filme. Uma delas é “Legata a un granello di sabbia”, de e com Nico Fidenco, que fez um sucesso estrondoso na época – inclusive no Brasil. Tocou muito nas rádios de Belo Horizonte – e toca no bar onde Renzo e Luciana vão dançar.

Outra é “Soldi Soldi Soldi” (Gorni Kramer-Pietro Garinei-Sandro Giovannini), que parece ter sido escrita especialmente para ser cantada por Zoe, a personagem de Sophia Loren no segmento A Rifa. A maravilhosa atriz não foi dublada por cantora profissional – a voz é dela mesma.

Mas a canção que fica na cabeça do espectador, que gruda na cabeça da gente que nem chiclete, é a que foi de fato composta para o filme, pelo grande Nino Rota, o compositor que acompanhou Fellini ao longo de praticamente toda a sua carreira. Não dá para esquecer de “Bevete più latte”, cantada por um corinho de crianças, enquanto os operários vão montando o gigantesco outdoor em que Anita Ekberg segura um copo de leite: “Bevete più latte, / Il latte fa bene, / Il latte conviene / A tutte le età. / Bevete più latte, / Prodotto italiano, / Rimedio sovrano / Di tutte le età”.

Os americanos Leonard Maltin e Pauline Kael gostaram 

Leonard Maltin deu ao filme 3 estrelas em quatro, e soube fazer as sinopses sintéticas, curtíssimas, que eu jamais vou aprender como escrever:

“Trio de episódios. A Rifa – alma tímida ganha uma ligação com uma garota como prêmio. O Trabalho – a mulher de um aristocrata arranja um emprego como (aqui eu corto a informação que me parece spoiler). As Tentações do dr. Antonio – fantasia de um fanático puritano e uma imagem voluptuosa de um cartaz que ganha vida. Um quarto episódio, dirigido por Mario Monicelli, foi tirado fora para o lançamento nos EUA.”

Maltin conseguiu fazer sinopses curtíssimas – embora dando um spoiler sobre o episódio de Visconti. O fantástico é que o verbete dele sobre o filme não fala que os episódios foram dirigidos por Fellini, Visconti e De Sica…

Eis o que diz Pauline Kael, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileiras do livro 5001 Nights at the Movies, aqui reduzida a 1001 Noites no Cinema:

“Famoso filme em três partes, dirigido pelos três diretores (italianos) reinantes da época. A parte de Fellini mostra Anita Ekberg como uma lourona num gigantesco anúncio de leite; a caricatura é tão carnuda quanto ela. A parte de Visconti é um elegante, embora alongado, sketch apresentando Romy Schneider num desempenho atraente, como a esposa que segura seu marido (Tomas Milian) fazendo-o (aqui corto fora o que considero spoiler). A parte de De Sica – a mais alegre e a única com sabor de Boccaccio – mostra Sophia Loren como uma garota que trabalha num parque de diversões itinerante; em cada cidade, ela é o prêmio de uma rifa nas noites de sábado. Com aquela estampa, todo mundo compraria um bilhete. Produzido por Carlo Ponti e Antonio Cervi. Em italiano, cor.”

Dame Kael é cricri, mas a verdade é que tem muito bom gosto.

Boccaccio ’70 é uma delícia.

Anotação em maio de 2022

Boccaccio ‘70

De Mario Monicelli, Federico Fellini, Luchino Visconti e Vittorio De Sica, Itália-França, 1962

Episódio Renzo e Luciana

De Mario Monicelli

Com Marisa Solinas (Luciana)

Germano Gilioli (Renzo)

Roteiro Giovanni Arpino & Suso Cecchi D’Amico e Italo Calvino e

Mario Monicelli

Fotografia Armando Nannuzzi

Música Piero Umiliani

Montagem Adriana Novelli

Episódio As Tentações do dr. Antonio/Le Tentazioni del Dottor Antonio

De Federico Fellini

Com Anita Ekberg (Anita),

Peppino De Filippo (Dr. Antonio Mazzuolo),

Donatella Della Nora (Donatella, a irmã do dr. Antonio Mazzuolo)

Isa Di Marzio (voz da narradora),

Giuliano Gemma (Hércules no set de filmagem)

Roteiro Ennio Flaiano & Tullio Pinelli & Federico Fellini. Com a colaboração de Goffredo Parise & Brunello Rondi

Fotografia Otello Martelli

Música Nino Rota

Montagem Leo Catozzo

Episódio O Trabalho/Il Lavoro

De Luchino Visconti

Com Romy Schneider (Pupe),

Tomas Milian (conde Ottavio),

Romolo Valli (advogado Zacchi)

Roteiro Suso Cecchi D’Amico  & Luchino Visconti

Baseado no conto “Au bord du lit”, de Guy de Maupassant     

Fotografia Giuseppe Rotunno

Música Nino Rota

Montagem

Episódio A Rifa/La Riffa

De Vittorio De Sica

Com Sophia Loren (Zoe)

Luigi Giuliani (Gaetano)

Alfio Vita (Cuspet, o sacristão que ganha a rifa)

Roteiro Cesare Zavattini

Fotografia Otello Martelli

Música Armando Trovajoli

Montagem Adriana Novelli

Todas as histórias são inspiradas em contos de Giovanni Boccaccio

Produção Carlo Ponti, Tonino Cervi, Cineriz, Concordia Compagnia Cinematografica, Francinex, Gray-Film

205 min (3h25) a versão integral. Versão exibida fora da Itália tem 165 min (2h45)

***1/2

5 Comentários para “Boccaccio ’70”

  1. Um filme que tem três das mais belas mulheres que o cinema mundial já viu, Sophia Loren, Anita Ekberg e Romy Schneider, já vale uma bela olhada. Uma pequena pérola do cinema.

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