Os Boas Vidas / I Vitelloni

Nota: ★★★★

Lançado em 1953, o ano em que se passa a ação – bem no início, vemos a festa do anúncio da Miss Sirena 1953 –, Os Boas Vidas/I Vitelloni foi o terceiro filme dirigido por Federico Fellini, depois de Mulheres e Luzes e Abismo de um Sonho, e logo antes de A Estrada da Vida, a obra que iniciou sua consagração como um dos maiores realizadores da História.

Em 1953, quando fez I Vitelloni, ainda não tinha a fama e a glória que ganharia logo depois. E já era bom demais. I Vitelloni é uma beleza de filme.

Mostra o dia-a-dia de cinco jovens amigos, os boas vidas do título, em uma pequena, humilde, provinciana cidadezinha – com graça, bom humor, leveza, mas também com seriedade, quando a situação exige. O filme ri daqueles pobres rapazes – e faz o espectador rir deles também –, de seus pequenos defeitos, seus pequenos sonhos, sua grande incapacidade de deixar para trás a vida de jovem e encarar a idade madura, as responsabilidades, o trabalho, o ganhar a vida. Ri deles, e também mostra sua face mais feia, irresponsável – mas tem por eles uma imensa simpatia.

É um filme bem humorado – e também profundamente caloroso.

Isso de ter imensa simpatia pelos seus personagens é uma característica importantíssima, que faz toda a diferença. Há realizadores que parecem detestar os personagens que retratam, ter desprezo por eles; Claude Chabrol é o protótipo desse tipo, na minha opinião.

O jovem Fellini tinha amor por esses pobres Alberto, Fausto, Riccardo, Leopoldo, Moraldo – sobretudo, em especial, por Moraldo, conforme vamos vendo, mas por todos eles, até mesmo por Fausto, esse sujeito que muitas vezes beira a falta de caráter.

E tinha mesmo que ter, uai! Porque aqueles moços da cidadezinha de Sirena, Norte da Itália, à beira do mar, eram, ao que tudo indica, e Fellini jamais pensou em negar, bastante parecidos com ele mesmo e seus amigos da cidadezinha de Rimini, Norte da Itália, à beira do mar, onde Federico nasceu em 1920, dois anos após o fim da Grande Guerra e apenas dois anos antes da ascensão do fascismo de Benito Mussolini ao poder.

Sim: I Vitelloni é um filme um tanto autobiográfico. Não de forma literal. Não que aconteça com um daqueles personagens fatos exatamente iguais aos que aconteceram na vida do cineasta. Mas é uma recriação do clima, da atmosfera da Rimini ali dos anos imediatamente posteriores à queda do fascismo e ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Assim, I Vitelloni pode ser visto como uma primeira versão das memórias da juventude de Fellini. Uma espécie de antecipação de Amarcord, que ele apresentaria, já absolutamente incensado no mundo inteiro, exatos 20 anos depois, em 1973.

Um exemplo de obra de grande artista quando jovem

Minhas anotações nos velhos cadernos mostram que eu tinha visto Os Boas Vidas em 1964, adolescente aprendiz de cineclubista, e depois em 1975, numa fase felliniana, entre Amarcord e Giulietta dos Espíritos. Ao rever o filme agora, percebi que não me lembrava de muitas coisas – muitas, muitas. Mas, de outras, me lembrava perfeitamente, como se tivesse visto o filme no mês passado.

Como esquecer a sensacional piada que aparece já quando o filme se aproxima do fim, Alberto (o personagem de Alberto Sordi, na foto abaixo) gozando os trabalhadores com uma banana ao passar de carro por eles – e logo em seguida, quando o carro pifa, e os lavorattori vêm em massa dar uma sova naqueles piccolo borghese de merda, e Alberto foge feito o diabo da cruz, enquanto Leopoldo (Leopoldo Trieste) tenta convencer a massa de que ele na verdade é socialista?

Mas, sobretudo, sobretudo, como esquecer a sequência final, aqueles travelling soberbos, encantadores, geniais, em que a câmara passa por cima das camas dos personagens, como se estivesse no trem que parte de Rimini, quer dizer, de Sirena?

(Não existe uma cidade italiana com este nome, Sirena. Mas Fellini não quis usar o nome da sua Rimini.)

Uma câmara que faz um travelling passando por cima das camas dos personagens, como se estivesse no trem que parte da cidadezinha acanhada, provinciana, que ficou pequena demais para um daqueles moços.

Que grande achado cinematográfico! Que maravilha, que beleza!

Me permito aqui uma rápida digressão. Tenho grande admiração pelos filmes das fases iniciais dos grandes cineastas. Outro dia revi As Amigas/Le Amiche, o quarto longa-metragem de Michelangelo Antonioni, de 1955; alguns meses atrás, vi dois filmes de Ingmar Bergman pré O Sétimo Selo, e está separadinho na sala o DVD de Sedução da Carne/Senso, o quarto filme de Luchino Visconti.

É uma maravilha ver o trabalho dos grandes artistas quando jovens, antes de virarem unanimidade internacional.

A glória, o sucesso absoluto, na minha opinião, subiram demais à cabeça de Fellini. Não há como negar a genialidade do sujeito, de forma alguma – mas tenho uma simpatia especial pelos filmes anteriores a La Dolce Vita (1960) e Oito e Meio (1963). Dos tempos em que ele não ainda não se achava o umbigo do mundo.

Mas isso é só um sentimento meu, não importa coisa alguma.

Fellini teve com Nino Rotta a união perfeita

Duas características me chamaram bastante a atenção ao rever agora I Vitelloni.

A primeira característica fascinante, absolutamente fascinante, que me encantou nesta revisão foi o fato de que a trilha sonora já era de Nino Rota. Era apenas o terceiro filme que Fellini dirigia – e o compositor já era Nino Rota.

Logo na abertura do filme, nos créditos iniciais, aos primeiros acordes, comentei com a Mary: “Nossa, será que já era o Nino Rota?” Sim, já era.

Houve (e há) belas duplas de realizadores e compositores, duplas que trabalharam juntas ao longo de vários anos e muitos filmes. Alfred Hirtchcock e Bernard Herrmann, por exemplo. Sergio Leone e Ennio Morricone. François Truffaut e Georges Delerue. Brian De Palma e Pino Donaggio. Steven Spielberg e John Williams talvez seja a única mais duradoura que Fellini & Rota.

Não que tenha sido uma união monogâmica. Muito ao contrário. Nino Rota, um sujeito tão prolífico quanto seu compatriota Ennio Morricone, compôs também para um grande número de outros diretores, de várias nacionalidades – e que diretores! Luchino Visconti, várias, várias vezes. Mario Monicelli. Henri Verneuil. King Vidor. Franco Zeffirelli. Sergei Bondarchuk. E Francis Ford Coppola.

Mas a verdade é que o cinema de Fellini tem o som, o ritmo, as harmonias, as melodias de Nino Rota. Nino Rota é a marca registrada dos filmes de Fellini.

Trabalharam juntos em 16 filmes, ao longo de 26 anos – desde Abismo de um Sonho, o segundo filme de Fellini, de 1952, o imediatamente anterior a este Os Boas Vidas, até Ensaio de Orquestra, de 1978. O compositor morreria em 1979, aos 67 anos. Depois de Ensaio de Orquestra, o cineasta faria apenas mais 5 filmes.

“O mais precioso colaborador que jamais tive, digo de uma vez, e sem hesitar, foi Nino Rota”, declarou o cineasta. “Entre nós, foi imediatamente uma harmonia completa, total. Ele tinha uma imaginação geométrica, uma abordagem musical digna das esferas celestes. Não precisava ver imagens dos meus filmes. Quando eu perguntava sobre as melodias que ele imaginava para comentar uma sequência ou outra, eu compreendia claramente que ele não estava de forma alguma preocupado com as imagens. Seu mundo era interior, dentro dele mesmo, e a realidade não tinha jeito de invadi-lo.”

É fascinante a forma com que Fellini usa o narrador

A segunda característica que me impressionou ao rever I Vitteloni agora foi a maravilhosa forma com que Fellini e seu co-roteirista Ennio Flaiano usaram a figura do narrador da história. O narrador – com a voz em off – fala com os espectadores em alguns momentos ao longo de todo o filme. Dá explicações, situa as pessoas, as coisas. Está presente já na primeira sequência do filme, logo após os créditos iniciais. Enquanto a câmara mostra uma festa no melhor clube da cidade, à noite, e ouvimos os últimos acordes da melodia de Nino Rota que tocou ao longo dos créditos, o narrador vai contando para nós:

– “Este é o Kursaal da nossa pequena cidade, e esta é a última festa da estação, a eleição de Miss Sirena 1953. Muita gente bonita, não? Forasteiros, estrangeiros, e até uma atriz de cinema vinda de Roma e faz parte do júri. Está todo mundo aqui. E naturalmente nós também, os boas vidas.”

Ao fundo, há a voz de um cantor, que apresenta, na festa, uma canção seguramente bem conhecida por todos ali.

A câmara se aproxima de uma mesa em que estão dois dos boas vidas.

– “Este é o Alberto. Este é Leopoldo, o intelectual. E ali está o Moraldo, o mais jovem do grupo. O tenor que está cantando é Riccardo. Como todos os anos, é a sua noite. E este é o Fausto, nosso chefe e guia espiritual.

Vemos Fausto com uma moça que ele está paquerando.

Alberto – o papel de Alberto Sordi, já então um grande astro, um dos maiores comediantes do cinema italiano.

Leopoldo Vannuci – o papel de Leopoldo Trieste, mais de 140 títulos na filmografia.

Moraldo – o de Franco Interlenghi, mais de 100 filmes, inclusive Vítimas da Tormenta, de Vittorio De Sica, e A Condessa Descalça, de Joseph L. Mankiewicz.

Riccardo – o de Riccardo Fellini. Irmão de Federico, um ano mais novo que ele.

E Fausto Moretti – interpretado por Franco Fabrizi, o galã do elenco, mais de 120 filmes no currículo, inclusive A Trapaça (1955) e Ginger & Fred (1986), ambos de Fellini, e As Amigas (1955), de Michelangelo Antonioni.

Alberto, Leopoldo, Moraldo, Riccardo e Fausto. Cinco boas vidas, os protagonistas da história.

O narrador, cuja voz ouvimos ao longo do filme, mas cujo rosto não vemos, se inclui no grupo. “Está todo mundo aqui. E naturalmente nós também, os boas vidas.”

Uma sacada fascinante: o narrador diz que é do grupo – mas não aparece. Só ouvimos sua voz.

Um  intelectual, um piadista, um canalha…

Alberto, Leopoldo, Moraldo, Riccardo e Fausto. São os boas vidas do título brasileiro, i vitteloni do título original – que, aliás, os exibidores franceses, ingleses e americanos não ousaram traduzir. Na França o filme se chamou Les Vitteloni e, no Reino Unido e nos Estados, I Vitteloni. Parece (não consegui encontrar uma tradução confiável e exata) que vitteloni é algo aproximado de preguiçosos.

Cinco – embora haja um sexto que ouvimos mas não vemos.

Entre os cinco, Riccardo é o de quem menos se fala. É um apaixonado por música – e pela sua própria voz.

Leopoldo é o intelectual. Um dramaturgo – inédito, é claro. Passa as noites a escrever suas peças, ao som de música erudita na radiola. Tem uma quedinha por uma bela moça que trabalha como empregada num apartamento pouco acima do dele – mas não vai à luta. No Rio de Janeiro se dizia que intelectual não vai à praia – intelectual bebe. Parece que na Rimini da juventude de Fellini intelectual não namorava – intelectual escrevia.

Alberto é o pândego, o piadista, o palhaço do grupo – e o papel serve como uma luva para Alberto Sordi. Alberto não quer saber de nada sério – quer se divertir. Mas há uma coisa que o deixa de cara amarrada, mal-humorado: o namoro de sua irmã, Olga (Claude Farell), com um sujeito casado.

A sequência em que Alberto é levado para casa por Moraldo, já de manhã, depois de uma noite inteira de carnaval, pra lá de bêbado, trêbado, é uma absoluta maravilha. É engraçada, é tristíssima, é de cortar o coração.

Fausto é possivelmente o vitteloni que mais tempo aparece na tela. Talvez como para demonstrar que há mais o que se dizer das pessoas de caráter fraco, vacilante, do que das pessoas de bom coração.

Fausto não é um bandido, não é o Mal Em Si – é apenas um canalha. Um miserável de um canalha. E o que ele faz chorar a moça mais bela da cidade, justamente a Miss Sirena 1953, Sandra (Leonora Ruffo), é uma grandeza, um absurdo. Sandra, que é irmã de Moraldo, é absolutamente apaixonada por Fausto – e Fausto até que gosta dela. O problema é que ele simplesmente não pode ver um rabo-de-saia que vai atrás.

E, finalmente, Moraldo.

Moraldo é o contrário do sujeito que faz sua irmã chorar. É um rapaz de bom coração. É de longe o mais sensível da turma – também o mais quieto, o menos expansivo.

Um filme feito com amor e melancolia

Era apenas o terceiro filme dirigido por Federico Fellini, e já foi aceito para participar da mostra competitiva do Festival de Veneza. Não apenas concorreu: Fellini ganhou por I Vitteloni o Leão de Prata em Veneza, creio que seu primeiro prêmio importante. O primeiro de um monte imenso.

O filme teve ainda uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original.

Fellini teria 17 indicações ao Oscar. Depois de tantas indicações, ganhou um Oscar honorário, em 1993, “em reconhecimento por suas realizações cinemáticas que emocionaram e divertiram audiências em todo o mundo”.

No total, Fellini ganhou 67 prêmios, fora outras 50 indicações.

Um detalhinho antes de passar para outras opiniões. Fui tentar entender o que é o Kursaal a que se refere o narrador logo em sua primeira frase – “Este é o Kursaal da nossa pequena cidade”. Chama-se Palácio de Congressos e Auditório Kursaal um complexo arquitetônico (grande auditório, grande sala de câmara, salas polivalentes, salas de exposições) em San Sebastián, na Espanha. O clube em que se realizava a festa para a eleição da Miss Sirena seria então o Kursaal da pequena cidade. Será que é isso? Pode ser. Tem lógica.

Leonard Maltin deu a cotação máxima de 4 estrelas ao filme: “Magnífica comédia-drama – talvez a obra-prima de Fellini – sobre cinco adolescentes indolentes numa pequena cidade junto ao Adriático que têm que enfrentar a idade adulta. A estrutura episódica do filme traz à mente American Graffiti (no Brasil Loucuras de Verão, o filme de George Lucas de 1973); seu amor pela humanidade antecipa Amarcord, do próprio diretor, em duas décadas. De qualquer forma, um filme encantador.”

Lá pelo meio de seu verbete sobre o filme, Pauline Kael diz, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema: “O diretor, Federico Fellini, observa sem condescendência a farsa dessas vidas; o tom é satírico, mas simpático e de aceitação – o tom característico de Fellini, em seu primeiro trabalho de direção plenamente confiante.”

Em seu Dicionário de Filmes, o historiador e crítico Georges Sadoul transcreve uma definição que o próprio Fellini faz de seus personagens e do nascimento de I Vitteloni: “Eles chegam à casa dos 30 fazendo discursos e reprisando suas piadas de moleques. Brilham durante a estação balneária, cuja espera os ocupa pelo resto do ano. São desempregados da burguesia, os queridinhos da mamãe. Mas são também amigos a quem quero bem. Flaiano, Pinelli e eu começamos a conversar sobre isso e, sendo todos ex-vitteloni, cada um tinha milhões de coisas para contar. Após toda uma série de histórias engraçadas fomos tomados por uma grande melancolia, e fizemos um filme.”

Fellini e seus amigos Ennio Flaiano e Tullio Pinelli, citados por ele, assinam o soggeto – o argumento, a história; o roteiro, sceneggiatura, é assinado por Fellini e Ennio Flaiano.

“São também amigos a quem quero bem.” “Todos ex-vitteloni.” E aí, tomados por uma grande melancolia, fizeram o filme.

Que beleza de definição. Bela como o filme.

Anotação em novembro de 2020

Os Boas Vidas/I Vitelloni

De Federico Fellini, Itália-França, 1953.

Com Franco Interlenghi (Moraldo Rubini),

Alberto Sordi (Alberto),

Franco Fabrizi (Fausto Moretti),

Leopoldo Trieste (Leopoldo Vannucci),

Riccardo Fellini (Riccardo)

e Leonora Ruffo (Sandra Rubini, a irmã de Moraldo, namorada e depois mulher de Fausto), Jean Brochard (Francesco Moretti, o pai de Fausto), Claude Farell (Olga), Carlo Romano (Michele Curti, o dono da loja), Enrico Viarisio (Signor Rubini, o pai de Moraldo e Sandra), Paola Borboni (Signora Rubini (a mãe de Moraldo e Sandra), Lída Baarová (Giulia Curti, a mulher de Michele), Arlette Sauvage (a desconhecida do cinema), Vira Silenti (Gisella), Maja Niles (Caterina)

Roteiro Federico Fellini & Ennio Flaiano

História de Federico Fellini & Ennio Flaiano & Tullio Pinelli

Fotografia Carlo Carlini, Otello Martelli, Luciano Trasatti

Música Nino Rota

Montagem Rolando Benedetti

Produção Cité Films, Peg-Films.

P&B, 109 min (1h49)

Disponível no Now em novembro de 2020

R, ****

Título na França: Les Vitteloni. Em Portugal: Os Inúteis.

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