Lída Baarová

Nota: ★★★☆

– ”Eu amei um criminoso. Mas isso não é um crime.”

Fortes, marcantes, de imenso impacto, estas são as primeiras frases ditas em Lída Baarová, co-produção de 2016 dos dois países que formaram a Checoslováquia, a República Checa e a Eslováquia.

Ficam ainda muito mais fortes, marcantes porque o criminoso não é qualquer um – é um dos maiores criminosos que já passaram por este planeta, Joseph Goebbels, o todo-poderoso ministro de Propaganda do regime nazista, um dos braços direitos de Adolf Hitler.

Quem pronuncia as frases, uma senhora de mais de 80 anos, é a protagonista da história, a mulher que dá título ao filme. Lída Baarová foi, nos anos 30, a atriz mais popular da então Checoslováquia, a tal ponto de ser importada pela UFA, a gigantesca, poderosa produtora alemã. Fez uma série de filmes de sucesso na Alemanha nazista – e se tornou amante de Goebbels.

Por volta de 1936, 1937, foi procurada por um agente da MGM, com um contrato que garantiria a ela fazer quatro filmes por ano em Hollywood – onde, naquela época, brilhavam a sueca Greta Garbo, a alemã Marlene Dietrich, a austríaca Hedy Lamarr, para citar só três gigantescas estrelas.

Preferiu ficar na Alemanha nazista.

Pagaria caríssimo por tamanha insanidade.

Lída Baarová não é propriamente uma cinebiografia da malfadada atriz. Focaliza apenas uma parte de sua vida, a que vai entre 1934, o ano em que ela se muda para a Alemanha, e 1946, um ano após o final da Segunda Guerra Mundial.

Mas que história de vida, meu Deus do céu e também da Terra. Que coisa absolutamente impressionante.

Aos 20 anos, já havia feito 18 filmes

O roteirista Ivan Hubac – experiente, nascido em Praga em 1953, 16 títulos em carreira iniciada em 1977 – escolheu contar a história como se Lída Baarová, em 2000, então morando em Salzburgo, na Suíça, estivesse narrando sua vida para uma jornalista checa, uma jovem cujo nome não é mencionado. A jornalista é interpretada por Hana Vagnerová, e a atriz já bem idosa, por Zdenka Procházková.

Essa Zdenka Procházková tem uma presença forte, marcante. Sua filmografia tem mais de 50 títulos, numa carreira iniciada em 1947. Nasceu em Praga, em 1926 – 12 anos depois da mulher que representa. Lída Baarová também é de Praga, nascida em 1914.

Em 2000, entrevistada pela jornalista sua conterrânea, Lída estava portanto com 86 anos. Foi o ano em que morreu, em Salzburgo.

O roteiro de Ivan Hubac usa então aquele esquema bastante tradicional: abre com a velha senhora diante de uma jornalista, e vai mostrando os eventos do passado longínquo que ela relata. De tempos em tempos, a ação volta para o ano de 2000, para uma rápida sequência da dama conversando com a moça que grava seu relato.

Não é com grande frequência que a narrativa vem para 2000; creio que deva haver no total umas cinco ou seis sequências ali no apartamento de Lida idosa, não mais que isso.

A imensa maior parte dos 106 minutos do filme se passa nos anos 30 e 40 – e para o papel da jovem Lída Baarová os realizadores escolheram Tatiana Pauhofová, atriz experiente, mais de 50 títulos na filmografia.

O roteirista Ivan Hubac e o diretor Filip Renč facilitam – e muito – a vida do espectador colocando letreiros com a data e o local dos fatos, ao longo de todo o filme. O que vemos na tela, a vida da jovem Lída Baarová, é mostrado a partir de 1934 – quando a atriz estava, portanto, com apenas 20 anos de idade. Seu amigo Milos Havel (Matei Dudák), fundador e dono dos estúdios Barrandov, de Praga, havia arranjado com executivos da UFA para recebê-la em Berlim.

O filme passa bem rapidamente por esse tempo da jovem atriz em Praga; é mostrado em poucos minutos que o produtor Havel era muito amigo da jovem estrela, e queria que ela tivesse fama internacional. A mãe dela, sra. Babková (Simona Stasová), tinha o mesmo objetivo na vida – e viaja junto com a filha, de carro, para Berlim, em 1934.

Adolf Hitler havia assumido o cargo de chanceler da Alemanha em janeiro de 1933.

O filme, repito, passa bem rapidamente pelo período de Lida como atriz na Checoslováquia – bem rapidamente já a vemos chegando ao famoso estúdio Babelsberg, da UFA.

É impressionante constatar que, antes se aventurar na Alemanha em 1934, Lída Baarová já havia feito nada menos que 18 filmes no seu país Natal! Entre 1931 e 1934, entre portanto os 17 e os 20 anos de idade, a moça fez 18 filmes!

A moça conquista o galã e depois o ministro

É tudo muito depressa, tudo muito intenso: pouco depois de chegar a Berlim, e ter tido problemas com a pronúncia do Alemão, Lída Baarová já estava filmando ao lado de Gustav Fröhlich (1902-1987), um dos mais famosos atores do cinema alemão da época, protagonista, só para dar um único exemplo, do Metropolis de Fritz Lang, o filme de 1927 que já era considerado um dos maiores clássicos da História do cinema.

Gustav Fröhlich era casado – mas Lída Baarová passa feito uma macadame por cima da mulher dele, e bem rapidamente estão vivendo numa mansão de sonhos, à la Hollywood. Vizinha – o mundo às vezes é pequeno demais – de uma das muitas propriedades de Joseph Goebbels.

Goebbels, sujeito feio feito a fome, e manco (tinha um problema em um dos pés), mas poderoso demais, traçava todas as mulheres que queria. Já havia conhecido a jovem estrela então recém-chegada da Checoslováquia. O próprio Adolf Hitler já havia conhecido a moça, e a convidado para um chá na Chancelaria do Reich.

Adolf Hitler é interpretado por Pavel Kríz. Gustav Fröhlich, por Gedeon Burkhard. E Goebbels, por Karl Markovics. A semelhança física dos atores com os personagens históricos é impressionante.

Goebbels vai fazendo a corte à jovem Lida – e ela vai sendo envolvida pelo que diz ser a inteligência dele. Seguramente ficou deslumbrada por ser cortejada por um dos homens mais poderosos da Alemanha.

Na sequência em que enfim a moça dá para ele, toca, bem alto, a “Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner. Há uma lareira acesa no lugar em que acontece a trepada. O diretor Filip Renč se permite a obviedade cafona, kitsch, de mostrar os atores que fazem Lída e Goebbels envoltos em fogo.

Ao fim da guerra, Lída é vítima de crimes infames

– ”Eu amei um criminoso. Mas isso não é um crime.”

Cada espectador poderá, é claro, fazer a sua avaliação sobre se a segunda frase é verdadeira ou não.

Há uma outra frase impressionante que Lída Baarová diz, ao relatar para a jornalista sobre um baile em que dançaria com o ator Gustav Fröhlich:

– “O baile para mim era mais importante do que o que acontecia na Alemanha.”

O espectador pode levar em consideração que ela era apenas uma menina deslumbrada, ainda sem consciência de absolutamente nada que acontecesse a mais de meio metro de seu nariz. Uma menininha deslumbrada, inocente, jovem demais, coitadinha.

Ou pode achar que não dá para considerar coitadinha uma pessoa que, ali por 1935, 1936, não percebia nada do que significava o nazismo.

Cada pessoa poderá, é claro, ter a sua opinião.

Mas o que o filme mostra que acontece na vida de Lída Baarová – e na de sua família – depois de 1945, com o fim da Segunda Guerra, com a saída dos derrotados nazistas da Checoslováquia e demais países do Leste Europeu, e a chegada dos soviéticos, é escancaradamente, violentamente, absurdamente criminoso.

Como são fatos narrados aí nos 20 minutos finais do filme, falar sobre eles é spoiler. Quem não viu o filme e poderá querer ver – e este é um filme que merece ser visto – precisa ser avisado claramente de que o que virá a seguir é spoiler.

Então aqui vai o aviso.

Atenção: spoiler. Fala-se aqui de fatos do final do filme

Com a imposição de um governo comunista na Checoslováquia, logo após o final da guerra, com o Exército Vermelho ocupando o país e seus vizinhos no Leste Europeu, Lída Baarová foi presa, acusada de traição ao país e colaboração com o inimigo invasor. Sua família foi perseguida. Zorka, sua irmã mais nova, ela também atriz, que lutava por um espaço na cena teatral de Praga, foi banida dos palcos pelos novos donos do poder: – “Uma irmã da amante de Goebbels não pode trabalhar na nova Checoslováquia”, diz um borra-botas da nova ditadura. A mãe foi presa, submetida a dolorosos interrogatórios para confessar as traições da filha à pátria.

Alguns filmes do mestre Andrzej Wajda (1926–2016) mostram com clareza absoluta como foi essa passagem da sua Polônia natal do domínio nazista para o domínio soviético. São obras-primas: Kanal (1957), Cinzas e Diamantes (1958).

Esta co-produção República Checa e Eslováquia está longe de ser uma obra-prima, mas mostra esse pavor que os países do Leste Europeu viveram a partir do final da Segunda Guerra, com o início do jugo soviético. O horror da dominação nazista substituído pelo horror da dominação comunista.

Como acontece geralmente nos filmes baseados em histórias reais, ao final da narrativa de Lida Baarova letreiros dão algumas informações básicas sobre o que aconteceu na vida dela após o que é mostrado no filme.

Já que foi dado o aviso de spoiler, registro o que dizem os letreiros finais: “A carreira cinematográfica de Lída Baarová continuou depois de 1948. Ela fez vários filmes na Itália e depois na Espanha. Deixou o cinema em 1958 e dedicou sua vida ao teatro. Morreu sozinha, na amargura e privada de capacidade legal, em 27 de outubro de 2000, em Salzuburgo.”

Fez pelo menos 14 filmes no pós-guerra

Lída Baarová fez filmes na Itália a partir de 1943, como o próprio filme mostra: seu amigo, o produtor Milos Havel, a ajudou a conseguir contratos na Itália após a fuga da Alemanha, quando Goebbels foi obrigado por Hitler a encerrar o caso com a atriz checa. Voltou a filmar na Itália do pós-guerra. Há pelo menos 14 filmes em que trabalhou depois de 1946. Entre vários títulos que não me dizem absolutamente nada, há Os Boas Vidas/I Vitelloni, o belíssimo filme do então jovem Federico Fellini de 1953.

Lída Baarová está em Os Boas Vidas! Ela interpreta Giulia, a mulher de Michele, dono da loja em que vai trabalhar um dos boas-vidas do título, o mais safado deles, Fausto (o papel de Franco Fabrizi, com ela na foto acima). Fausto dá em cima da senhora do patrão!

Revi I Vitelloni alguns meses atrás para escrever sobre ele e ter o filme aqui no + de 50 Anos de Filmes. Nunca tinha ouvido falar em Lída Baarová, não tinha a menor idéia da sua trágica história de vida, mas me lembro de ter achado que era uma bela mulher.

Estava, então, 1953, com apenas 39 anos, mas parecia mais velha, pelo que me lembro. Não era para menos. Aos 39 anos, Lída Baarová já havia vivido muito mais que muita gente de mais de 80.

Uma bela mulher.

Pelas fotos na internet, dá para ver. Era uma mulher lindíssima.

Tatiana Pauhofová, a atriz escolhida para interpretá-la quando jovem, não é uma mulher lindíssima. Nem me pareceu propriamente uma ótima atriz. É uma mulher bonita, uma atriz razoável – não mais que isso.

Lída Baarová, o filme, tem o grande trunfo de contar uma história fantástica, riquíssima, impressionante, importante. Artesanalmente, quanto aos aspectos técnicos todos – fotografia, direção de arte, figurinos –, é um esplendor, uma perfeição. Mas me pareceu um filme razoável – não mais que isso.

E eu não saberia dizer com clareza, com afirmações simples, o que torna o filme apenas razoável.

Creio que é tudo, o conjunto da obra – tanto o roteiro quanto a direção de atores, a direção em geral, a forma de encenar. O filme dá a sensação de uma coisa feita para a TV – no sentido que a gente usava feito para a TV uns 20 anos atrás, antes de produções para a TV ficarem tão absolutamente bem feitas quanto as do cinema.

Dá a sensação de que é uma novela não especialmente bem encenada, bem dirigida.

Mas merece ser visto. É uma história impressionantemente demais. Quem gosta de cinema e de História seguramente gostará de ver.

Anotação em março de 2021

Lída Baarová

De Filip Renč, Eslováquia-República Checa, 2016

Com Tatiana Pauhofová (Lída Baarová jovem)

e Karl Markovics (Joseph Goebbels), Gedeon Burkhard (Gustav Fröhlich), Zdenka Procházková (Lída Baarová aos 80 anos), Simona Stasová (sra. Babková, a mãe de Lída), Martin Huba (sr. Babka, o pai de Lída), Anna Fialová (Zorka, a irmã mais nova de Lída), Pavel Kríz (Adolf Hitler), Lenka Vlasáková (Magda Goebbels), Hana Vagnerová (a jornalista), Jirí Mádl (Hans Fischer, assistente do diretor no estúdio Babelsberg, da UFA), Karel Dobrý (Gerhard Lamprecht, o diretor de cinema alemão), David Novotný (Ernst Hugo Correll, produtor na UFA), Matej Dadák (Milos Havel, dono dos Barrandov Film Studios), Evzenie Pfeifferová (Ljuba Hermannová, atriz checa), Timothy Otis (Robert George Ritchie, agente da MGM), Jan Révai (Diether von Wedel, o secretário de Goebbels)

Roteiro Ivn Hubac

Fotografia Petr Hojda

Música Ondrej Soukup

Montagem Ludek Hudec

Casting Daniel Severa, Sona Tichácková

Direção de arte Zdenek Flemming

Fgurinos Jan Ruzicka

Produção Jirí Jurtin, Peter Kovarcík, NOGUP Agency, Arina, Daniel Severa Production.

Cor, 106 min (1h46)

Disponível na Netflix em março de 2021.

***

Título para distribuição internacional: The Devil’s Mistress

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