
(Disponível na Netflix em 9/2025.)
Nonnas, produção dos EUA de 2025, é uma comedinha agradável, gostosa, calorosa como um jantar com os amigos no fim de semana em uma cantina italiana. Ou como um jantar em família, preparado pela mãe ou pela avó, regado a bebidinhas, histórias, risadas, carinho.
Esse aí é um jeito de ver o filme – uma leitura, como gostam de dizer os críticos de cinema. Há uma outra forma de avaliar, outra leitura:
Nonnas é um daqueles típicos filminhos de Hollywood, aquelas coisas cor-de-rosa, em que tudo dá certinho, os problemas todos se resolvem; não há surpresa alguma – o espectador já sabe o que vai rolar, tintim por tintim. Um filminho feito para agradar às platéias pouco exigentes, pouco atentas – um escapismo puro e simples. E ainda tem o defeito adicional de abusar dos estereótipos a respeito dos costumes do povo de um país, no caso os italianos.
Claro que pode haver várias outras leituras – mas essas duas aí seguramente são bem comuns. A segunda é de boa parte da crítica; a primeira é a minha, da Mary, da minha filha, que também viu e se divertiu muito.
É preciso de qualquer forma registrar, o quanto antes, que se trata de uma história real.

Nonnas é daquela farta estirpe de filmes sobre gourmandise
Nonnas é um filme sobre gastronomia, a paixão pelos sabores. Daqueles que têm várias sequências de pratos sendo preparados, os mais variados pratos possíveis. Aquelas tomadas rápidas, em montagem rápida, de alimentos sendo cortados, temperados, mexidos, indo ao fogão. Segue aquela farta, numerosa estirpe de filmes tão diferentes entre si mas que têm em comum o destaque para a gastronomia, o lado gourmet das pessoas, a gourmandise, como estes aqui, já comentados neste site:
A Festa de Babette (1987),
Tomates Verdes Fritos (1991),
Como Água Para Chocolate (1992),
As Férias da Minha Vida (2006),
Soul Kitchen (2009),
Julie & Julia (2009),
Bon Appétit (2010),
Os Sabores do Palácio (2012),
A 100 Passos de um Sonho (2014),
Chef (2014),
Uma Confeitaria para Sarah (2020).
(Gourmandise. Belo substantivo: “Goût de la nourriture”, como define Le Robert de Poche Plus – o gosto pelos alimentos. Hê hê: se eu fosse um gourmet, a tag com esses filmes se chamaria Gourmandise. Como sou um ogro, dei à tag o nome simples, grosseiro, rude de “Comida”.)
A ação começa nos anos 1980. Um salto, e estamos nos anos 2020
O filme abre com dois avisos, logo após a apresentação dos logotipos das companhias produtoras e do título Nonnas: “Baseado em uma história real…” e “Brooklyn, 40 anos atrás”.
No Brooklyn de 40 anos atrás, vemos um simpático, bonito garotinho de uns 10, 12 anos de idade – Joey Scaravella, interpretado por Theodore Helm – entrando, junto com um grande grupo de pessoas, em uma confeitaria que acabava de abrir. E já nessa primeira sequência do filme há tomadas em close-up de doces, acepipes. Joey olha para aquelas delícias com o sorriso de quem vê a fonte da felicidade e do prazer absoluto – e é reconhecido pelos vendedores, que sabem seu nome e que ele foi ali comprar alguma coisa para sua nonna. Ele pede dois pães e uma dúzia de zeppole.
No caminho de casa, Joey passa pelo grande amigo Bruno e o pai dele, ocupados em lustrar um carrão, já naquela época, anos 1980, uma relíquia, um daqueles rabos de peixe dos anos 1950. Cumprimentam-se alegremente.
Bruno (interpretado ali, garoto, por Jack Casey), continuará sendo o maior amigo de Joey para sempre, e um dos principais personagens da história.
A casa de Joey, em que ele mora com a mãe, Maria, e a nonna (os papéis, respectivamente, de Kate Eastman e Karen Giordano), vive sempre cheia de parentes e amigos. A mãe e a nonna são alegres, felizes, de bem com a vida e estão sempre preparando pratos deliciosos para a família e os muitos amigos – e Joey adora ver as duas cozinhando, provar cada pedacinho de acepipe, e demonstra ter um paladar de connoisseur, de gourmet.
Quando estamos chegando aos 5 minutos dos 111 que dura o filme, um amigo tira uma foto da mãe e da nonna de Joey.
É uma boa sacada dramática. A imagem das duas mulheres, rostos colados, congela. Corta, e aquela imagem é agora uma foto em uma bela moldura naquela mesma casa. Maria, a mãe, acaba de morrer. Estamos na despedida dela, e Joey – agora interpretado por Vince Vaughn – está chocado, abandonado, sozinho na vida.

Depois das cerimônias fúnebres, o grande amigo de sempre, Bruno (Joe Manganiello), e sua mulher, Stella (Drea de Matteo), uma força da natureza, uma pessoa sempre disposta a ir em frente, conversam com Joey, tentam animá-lo, fazê-lo reagir à dor, tocar a vida, talvez recomeçar, escolher uma nova atividade.
Joey, o espectador fica sabendo, é um mecânico, e um mecânico muito bom, com um emprego estável numa grande oficina. Bruno é um pequeno empreiteiro da construção civil, também competente, bastante bem-sucedido.
Numa ida a Staten Island, onde sua nonna costumava levá-lo para fazer compras em uma feira italiana, Joey bate o olho em um imóvel em que havia funcionado um restaurante, e agora estava à venda. Decide, então, mudar completamente de vida. Deixar o emprego muito bem pago e se aventurar: usar todo o dinheiro da herança da mãe para comprar o imóvel, reformá-lo e criar ali um restaurante que teria como chefs nonnas – senhoras comuns, descendentes de italianos, como a sua própria avó. Um restaurante com comida preparada por nonnas italianas, em que os fregueses se sentissem em casa, como se estivessem comendo em casa, com a família.
O nome que ele escolhe para o restaurante é Enoteca Maria – uma homenagem à sua mãe.

Muitas dívidas – mas Joey encontra quatro ótimas nonnas
A reforma do imóvel ficará a cargo do amigo Bruno, que, como já foi dito, é um empreiteiro da construção civil. Não será nada fácil. Joey vai se afundar em dívidas – e também Bruno.
Enquanto a reforma vai sendo tocada, Joey consegue reunir quatro senhoras para serem chefs da Enoteca Maria, todas elas descendentes de italianos, é claro – e ainda conta com a ajuda inestimável de uma quinta mulher, Olivia (o papel de Linda Cardellini, na foto acima).
Olivia e Joey tinham sido apaixonados no colégio, durante a adolescência; a família dela havia se mudado do Brooklyn para Staten Island, os dois nunca mais haviam se visto. Reencontram-se na tal feira italiana da ilha, por mero acaso – e os olhos de Joe e a câmara do diretor de fotografia Florian Ballhaus se fixam por um momento na aliança na mão esquerda da bela mulher.
Olivia estava com uma grande amiga, uma senhora vizinha dela, Antonella (Brenda Vaccaro, a segunda da esquerda para a direita na foto abaixo). Feitas as apresentações, Antonella conta para Joey, toda orgulhosa, que Olivia agora é advogada. Bem, na verdade – corrige a ex-namorada –, estudante de Direito; ainda não havia se formado. (Mas seus conhecimentos legais serão de grande ajuda para Joey mais tarde.)
Antonella será uma das chefs do restaurante. As outras chefs são:
* Roberta (o papel de Lorraine Bracco, a primeira à esquerda na foto abaixo) era a melhor amiga de Maria, a mãe de Joe;
* Teresa (Talia Shire, a última da foto da esquerda para a direita) é uma ex-freira, que, depois de velha, resolve mudar de vida. Sua fé em Deus e a crença em milagres será muito útil para Joey;
* E, finalmente, at last but not at least, há Gia – que vem na pele majestosa de Susan Sarandon, a maior estrela do elenco (a terceira da esquerda para a direita, é claro…),

Gia é uma figuraça – assim como a atriz que dá vida a ela. Quando jovem, trabalhou em salões de beleza; batalhou, batalhou, e agora tem o seu próprio. É uma cabeleireira e maquiadora de mão cheia – Maria, a mãe de Joey, era uma boa cliente e amiga. E, além desse talento, tem também outro: é uma doceira daquelas especialíssimas, perfeitas.
Assim como a ex-freira Teresa, Gia não é, tecnicamente, uma nonna: nunca se casou, nunca teve filhos, portanto nunca teve netos. Não que não gostasse de homens. Gostava, e muito – só não suportava a idéia de se casar e ser obrigada a ter um único homem na vida.
Bonita demais, vaidosa, sempre elegante, Gia era uma mulher de seios fartos – obviamente não naturais, e notoriamente fartos, porque ela estava sempre decotada. Há uma sequência em que ela bate algum ingrediente, e, à medida em que ela mexe com o braço, os peitões se mexem, e as outras três nonnas olham aquilo com o maior espanto.
Pronto. Relatei toda a trama básica de Nonnas – e, na verdade, até mais que apenas a trama básica. Está apresentado aí o enredo do filme. Só mesmo meu amigo Valdir Sanches – que acha que os comentários sobre filmes devem contar toda a história, mas toda, mas toda mesmo – poderia reclamar.

O homem retratado no filme é um dos produtores executivos
Susan Abigail Sarandon tem ascendência italiana por parte da mãe, Lenora Criscione. Também descendem de italianos, como indicam seus sobrenomes, Linda Casrdellini, Loraine Bracco, Brenda Vaccaro, Drea de Matteo, que faz a simpática mulher de Bruno, e ainda Talia Shire, nascida Talia Rose Coppola, neta do compositor Carmine, irmã de Francis Ford, tia de Sophia.
Vince Vaughn também descende de italianos, pelo lado da mãe, Sharon DePalmo.
Não tem ascendência italiana o diretor do filme, Stephen Chbosky, que é também escritor e roteirista. Nascido em Pittsburgh, em 1970, o ano em que comecei no jornalismo, admite ter sido influenciado por F. Scott Fitzgerald, Tennessee Williams e J.D. Salinger. Nonnas foi apenas o quinto filme que ele dirigiu.
Como os personagens do filme, Stephen Chbosky parece gostar de trabalhar em família: a autora do roteiro deste Nonnas, Liz Maccie, é mulher dele desde 2020 e mãe de seus dois filhos.
O roteiro de Liz Maccie se baseia na história de vida de Jody Scaravella, proprietário até 2025, quando foi lançado o filme, do restaurante Enoteca Maria em Staten Island, que tem como chefs senhoras que cozinham bem, nonnas… O Jody Scaravella da vida real tem uma participação especial, um cameo role, como um dos clientes do Enoteca Maria, lá pelo final da narrativa. Mais ainda: seu nome está entre os produtores executivos do filme. Ele aparece também em tomadas apresentadas junto dos créditos finais – ao lado do Bruno da vida real…
Uma festa de família!
Anotação em setembro de 2025
Nonnas
De Stephen Chbosky, EUA, 2025
Com Vince Vaughn (Joey Scaravella)
Lorraine Bracco (Roberta, a melhor amiga da mãe de Joey e chef da Enoteca Maria),
Talia Shire (Teresa, ex-freira e chef da Enoteca Maria),
Brenda Vaccaro (Antonella, amiga de Olivia e chef da Enoteca Maria),
Joe Manganiello (Bruno, o melhor amigo de Joey), Drea de Matteo (Stella, a mulher de Bruno), Linda Cardellini (Olivia, a ex-quase namorada de Joey na adolescência), Theodore Helm (Joey garoto), Jack Casey (Bruno garoto), Dee Roscioli (Roberta jovem), Kate Eastman (Maria, a mãe de Joey), Karen Giordano (a Nonna de Joey), Michael Rispoli (Al, o vendedor da feira italiana de Staten Island), Campbell Scott (Edward Durant, o crítico de restaurantes), Richie Moriarty (Dan McClane, o patrão de Joey na oficina)
e Susan Sarandon (Gia, dona de salão de beleza e doceira)
Roteiro Liz Maccie
Baseado na história real de Jody Scaravella
Fotografia Florian Ballhaus
Música Marcelo ZXarvos
Montagem Anne McCabe
Casting Lindsay Graham-Ahanonu, Mary Vernieu
Desenho de Produção Diane Lederman
Direção de arte Michael Simmons
Figurinos Brenda Abbandandolo
Produção Gigi Pritzker, Rachel Shane, Fifth Season
Madison Wells, Matador Content, One Community.
Cor, 111 min (1h51)
**1/2
