Anjos da Broadway / Angels Over Broadway

2.5 out of 5.0 stars

(Disponível no YouTube em 12/2025.)

A lógica que rege o título desta produção da Columbia de 1940, Angels Over Broadway, no Brasil Anjos da Broadway, é a mesma de Estamos Todos Bem/Stanno Tutti Bene (1990), Estão Todos Bem/Everybody’s Fine (2009), A Cidade Está Tranquila/La Ville est Tranquille (2009), Tudo Vai Ficar Bem/Every Thing Will Be Fine (2015). A da ironia, essa graça tristonha, amarga.

Assim como nos filmes citados não estão todos bem, nem vão ficar bem, e a cidade não está nada tranquila, não são exatamente angelicais aquelas três pessoas que – por puro acaso, ou quem sabe por uma trapaça do destino, ou por um desígnio divino, a rigor pela imaginação fértil de seu criador, Ben Hecht – se encontraram pela primeira vez na vida em uma noite chuvosa em Nova York, e resolveram ajudar um pobre coitado que estava decidido a se matar.

Eis um pouco sobre os três “anjos”:

* Bill O’Brien é um escroque, um sujeito que vive de golpes. Sua especialidade recente é levar homens ricos para partidas de pôquer com um poderoso gângster, Dutch Enright (Ralph Theodore), em que o convidado é esfolado e uma percentagem do lucro da noite vai para o intermediário…

Bill O’Brien é o papel de Douglas Fairbanks Jr., o ator que vinha de uma linhagem da aristocracia hollywoodiana. O pai, que era chamado de Rei de Hollywood, foi um dos fundadores da United Artists, ao lado de Charles Chaplin, D. W. Griffith e Mary Pickford – que, aliás, foi madrasta de Douglas Fairbanks Jr (1909-2000).

* Nina Barona se dizia russa, aspirante a bailarina – mas, na verdade, era uma call girl, como se costumava dizer, para evitar a palavra mais dura, prostitute. A rigor, dos três “anjos” do filme, Nina é a única que merece o título de anjo, sem aspas – porque tem um imenso coração, é pessoa de fato boa.

Nina Barona é a responsável pelo que o filme tem de mais belo e atraente, já que vem na pele de uma Rita Hayworth absolutamente resplandecente, luminosa, acachapante, aos 22 aninhos, apenas três anos após deixar para trás o nome Rita Cansino.

* Gene Gibbons é um dramaturgo em fase horrorosa da vida: suas últimas três peças foram monumentais fracassos de público e crítica. E, como se isso não bastasse, e como a vida vem em ondas como o mar, sua mulher, por quem ele era terrivelmente apaixonado, Sylvia (Constance Worth), havia pedido o divórcio e o expulsado de casa. No fundo do poço, Gene Gibbons bebia loucamente, tadinho.

Ele é interpretado pelo sempre bom Thomas Mitchell, o Tio Billy de A Felicidade Não Se Compra/It’s a Wonderful Life (1946), a maravilha de Frank Capra em que, por coincidência, um anjo (de verdade) é enviado do céu para ajudar um homem que está absolutamente desesperado, à beira do suicídio.

O pobre coitado é confundido com um ricaço

Bem, agora é preciso falar do personagem que queria se matar – e que acaba sendo ajudado pelo escroque O’Brien, pela puta Nina e pelo dramaturgo bêbado Gibbons.

Chama-se Charles Engle (o papel de John Qualen, ator com o physique du rôle perfeito, sentado, na foto abaixo) . É um homenzinho que parece pequeno, e não apenas fisicamente; uma daquelas pessoas um tanto cinzentas, quase invisíveis. Não é uma pessoa ruim, um mau caráter, um filho da puta – não, de forma alguma. É uma pessoa fraca, apenas. Em um momento difícil da vida, foi ajudado por um conhecido, um tal Hopper (George Watts, de pé, na foto abaixo), pequeno empresário, que deu a ele um emprego, e depois o colocou como seu segundo, vice-presidente da empresinha.

Para satisfazer às exigências, aos caprichos de sua mulher – que não aparece na tela hora alguma, mas do tipo que a gente bem pode imaginar –, Charles Engle fez uma das maiores besteiras da vida: roubou da empresa a pequena fortuna de US$ 3 mil. Hopper descobriu, é claro – e, assim que o filme começa, ele exige que Engle dê um jeito de arranjar o dinheiro para repor no caixa da empresa, ou então vai chamar a polícia e mandar prendê-lo.

Antes mesmo da ameaça, o pobre – literalmente, e em todos os sentidos possíveis – Engle já havia decidido se matar. Não via forma de escapar da enrascada grossa em que havia se metido. Redigiu uma carta destinada “a quem interessar possa”, declarando que ninguém deveria ser acusado pela sua morte, pois ele havia decidido se matar.

Depois de ser confrontado e ameaçado por Hopper, Engle sai da empresa, embaixo da chuva forte, e perambula até um dos rios que cercam a ilha de Manhattan. No momento em que ensaiava pular, aparece um policial. Fraco, pequeno, ínfimo, cinzento, sem ânimo para absolutamente nada, Engle acaba entrando em um restaurante-night club. Surge diante dela uma daquelas vendedoras de cigarros que a gente vê nos filmes americanos antigos – uma lourinha interpretada por Ethelreda Leopold, que, incrível, tem 225 títulos no currículo, numa carreira que se espalhou desde 1931 até 1989.

A cigarette girl-Ethelreda Leopold aparece na tela em apenas duas rápidas sequências, que juntas não chegam a ocupar mais de dois minutos de filme – mas é uma peça importante na trama criada por Ben Hecht.

Sem saber o que fazer, de pé ali na entrada do restaurante um tanto elegante, em que rolava um número de dança por alguma latina (Carmen D’Antonio é o nome da atriz que aparece na tela quanto a cigarette-girl), alheio ao mundo, Charles Engle tira do bolso uma nota de US$ 20,00, e, para o absoluto encanto da moça, diz a frase clichê, “Keep the change”, fique com o troco.

O cara ia se matar. Pra que ele iria querer o troco?

A moça fica impressionadíssima. O maître percebe a extrema “generosidade” do freguês. Um pouco distante, mas atento, o escroque Bill O’Brien, sempre à procura de um ricaço que pode virar vítima de seus esquemas, percebe.

O maître manda um garçom providenciar uma boa mesa para Engle. Dali a pouco Nina Barona, a moça de beleza arrasadora, senta-se à mesa em que ele foi colocado. E logo depois chega também o escroque Bill O’Brien.

O dramaturgo bola um plano para extorquir o gângster

E ainda tem Gene Gibbons, o dramaturgo famoso, mas ora em queda avassaladora, bêbado feito um gambá.

(Nunca entendi esse clichê, bêbado feito um gambá, mas adoro a imagem que não compreendo.)

Chega àquele mesmo restaurante a ainda esposa de Gibbons, agora quase ex, mas ainda não oficialmente ex, Sylvia, acompanhada de um sujeito bem mais novo que ela (o papel de Richard Bond). O bêbado quase provoca uma daquelas cenas desagradáveis que chamam a atenção de todos ao redor – quase. Sylvia e o jovem vão se sentar, e o bêbado Gibbons está de saída.

Aí o tal do acaso, ou o destino, ou o desígnio divino intervém novamente. Na chapelaria há um rapaz novo, inexperiente, que entrega para o volumoso Gibbons o capote de Charles Engle.

Enquanto vê que não cabe no casaco que lhe foi oferecido, o dramaturgo percebe que há em um dos bolsos um envelope – e então lê o bilhete do em breve suicida.

O sentido do drama, da cena teatral, ocorre imediatamente ao veterano dramaturgo. Pede ajuda ao maître para localizar o dono daquele capote que não é o dele. Vai até a mesa onde já estão o potencial suicida, a puta e o escroque que gostariam, cada um de sua maneira, de ganhar uma boa bolada do sujeito que parecia podre de rico.

Rapidamente, como se a Musa tivesse soprado em seus ouvidos uma bela trama, Gene Gibbons apresenta aos três – O’Brien, Nina e Engle – seu plano.

Para tirar uma fortuna de um ricaço – ninguém além deles quatro precisavam saber que Engle não era ricaço, e sim um pobretão, que precisava desesperadamente de US$ 3 mil para não ser preso por roubo –, em geral os gângsteres como aquele conhecido de O’Brien no começo faziam o pato, o sucker, ganhar algum dinheiro, para depois, sim, depená-lo. Pois então eles iriam fazer isso. O’Brien levaria o “milionário” Engle para o jogo secreto de pôquer do gângster Dutch Enright, que deixaria Engle ganhar algumas rodadas – e aí Engle daria uma desculpa qualquer, tipo ir ao banheiro, e fugiria dali com a grana para pagar o que devia a Hopper. E não precisaria mais se matar.

Três anjos voando sobre a Broadway. Cuidando de um fraco e oprimido, um humilhado e ofendido. O escroque, a puta e o velho bêbado – maravilhosos anjos.

É fundamental registrar: toda a ação se passa em uma única noite. Do início da noite até o finalzinho da madrugada.

Diacho, isto aqui não é um filme sério. É uma comédia, pô!

Houve momentos, vários momentos, enquanto via o filme, em que eu fiquei achando tudo aquilo um tanto bobo, um tanto teatral demais – no sentido de artificial, de longe demais da vida real. Talvez um pouquinho daquela síndrome do que Nelson Rodrigues chamava de idiota da objetividade.

Como muito bem diz Dame Pauline Kael, os personagens de Ben Hecht falam demais – e, sendo Gene Gibbons um dramaturgo, um escritor de histórias, exatamente como seu criador, seria natural de se esperar que o personagem interpretado pelo grande Thomas Mitchell falasse muito, demais da conta,, E falasse não do jeito com que os seres humanos ditos normais falam, e sim em uma linguagem verborrágica, empolada, metida a besta, literária… Não como se fala nas ruas, mas como se fala nos palcos.

Thomas Mitchell pronuncia de maneira maravilhosa as frases literariamente caprichadíssimas – como seria mesmo de se esperar de um dramaturgo. Sem dúvida alguma, como muitíssimo bem definiu Leonard Maltin, ele tem uma “bravura performance”.

Mas então o fato é que euzinho aqui, vendo o filme sozinho, Mary viajando, fiquei em vários momentos um tanto zonzo, pensando tipo mas meu Deus, que coisa boba, que coisa mais longe da vida de verdade…

Só mesmo depois que terminei de ver, passado um tempinho, foi que caiu a ficha. Diacho, aquilo não é a vida de verdade! Não é a vida de gente como a gente. É uma brincadeira, meu Deus do céu e também da Terra. It’s showtime, seu idiota da objetividade!

Em Estamos Todos Bem, Giuseppe Tornatore estava falando sério. Em Tudo Vai Ficar Bem, Wim Wenders estava falando sério. Robert Guédiguen nunca faz outra coisa a não ser falar muito sério, e então A Cidade Está Tranquila é um drama pesado.

Neste Angels Over Broadway aqui, Ben Hecht estava se divertindo. E por que raios o espectador não pode se divertir com essa história meio maluca?

Um “contador de histórias talentoso e prolífico”

Ben Hecht (1893-1964) era, ao que tudo indica, uma grande figura. E uma usina de talento. Aos 10 anos de idade, foi tido como uma boa promessa no violino; aos 12 foi acrobata de circo e aos 16 saiu de casa, no interior de Wisconsin, e foi para Chicago, onde arranjou emprego como repórter.

 Diz a Katz’s Film Encyclopedia: “Contador de histórias talentoso e prolífico, Hecht produziu alguns dos roteiros mais divertidos de Hollywood com uma facilidade incrível. Segundo ele próprio, na autobiografia de 1954, A Child of the Century, terminava a maior parte de seus roteiros em duas semanas, nunca mais de oito, e recebia de US$ 50 mil a US$ 125 mil a cada um. Nunca gostou de Hollywood, e via nos filmes apenas uma fonte confiável de dinheiro rápido, aceitando trabalhos em filmes apenas quando estava sem fundos, o que acontecia frequentemente.”

Segundo Pauline Kael, Hecht era um jogador compulsivo. Não é à toa, portanto, que o pôquer está presente neste Angels over Broadway.

A enciclopédia continua: “Por um período de 40 anos, Hecht recebeu crédito pela autoria de histórias ou roteiros, sozinho ou em colaboração com outros, de cerca de 70 filmes, mas sabe-se que ele colaborou em muitas outras produções creditadas a outros autores.”

Entre estes filmes em que ele trabalhou no roteiro mas não foi creditado, estão, segundo a enciclopédia Katz, Esquina do Pecado/Back Street (1932), Rainha Cristina/Queen Christina (1933), … E o Vento Levou/Gone With the Wind (1939), Correspondente Estrangeiro/Foreign Correspondent (1940), A Loja da Esquina/The Shop Around the Corner (1940), Um Barco e Nove Destinos/Lifeboat (1944), Gilda (1946), Agonia de Amore/ The Paradine Case (1948), Pacto Sinistro/Rope (1948) e A Preincesa e o Plebeu/Roman Holiday (1953).

Hecht foi o primeiro profissional a receber o Oscar de melhor história original, na cerimônia realizada em maio de 1929, pelo filme Paixão e Sangue/Underworld, de Josef von Sternberg. Ganharia de novo o Oscar de melhor história por O Energúmero/The Scoundel (1935). E teve outras quatro indicações ao Oscar, inclusive pelo roteiro original deste Angels Over Broadway aqui.

Ganharia de novo o Oscar de melhor história por O Energúmero/The Scoundel (1935). Teve outras quatro indicações ao Oscar, inclusive pelo roteiro original deste Angels Over Broadway aqui.

Ben Hecht foi também dramaturgo, novelista e produtor. Como diretor, no entanto, fez apenas oito filmes, entre 1934 e 1952 – este aqui é um deles.

Um filme fora do padrão demais, diz Maltin

Leonard Maltin deu 2.5 estrelas em 4 para este Angels Over Broadway: “Comédia de humor negro cáustica, à frente de seu tempo, em que o meliante Fairbanks decide fazer ‘uma boa ação’ – ajudar o contador suicida Qualen –, com a ajuda da call-gir Hayworth e do bêbado Mitchell, que declama rios de diálogos sarcásticos em uma bravura performance. Os fãs de Hecht certamente vão dar cotação maior, mas apesar da produção impecável, é fora do padrão demais (e muito convencido por ser assim) para a maior parte das pessoas.”

Achei melhor manter no original a bela definição da atuação de Thomas Mitchell. A interpretação dele e a beleza fulgurante de Rita Hayworth fazem valer a pena ver o filme.

E eis o que diz Pauline Kael: “Ben Hecht escreveu, produziu e, com o famoso diretor de fotografia Lee Garmes, dirigiu essa história de uma noite sobre um pobre funcionário que está indo se matar se não conseguir US$ 3 mil, e um dramaturgo bêbado (Thomas Mitchell) que cuida dele. (…) Os personagens de Hecht falam demais, mas ele próprio foi um jogador compulsivo, e há um espírito genial e original neste filme.”

Anotação em dezembro de 2023

Anjos da Broadway/Angels Over Broadway

De Ben Hecht e Lee Garmes, EUA, 1940

Com Douglas Fairbanks Jr. (Bill O’Brien).

Rita Hayworth (Nina Barona),

Thomas Mitchell (Gene Gibbons),

John Qualen (Charles Engle, o que fez um desfalque e quer se matar), George Watts (Hopper, o empresário de quem Engle roubou US$ 3 mil), Ralph Theodore (Dutch Enright, o gângster), Eddie Foster (Louie Artino, capanga do gângster), Jack Roper (Eddie Burns, capanga do gângster), Constance Worth (Sylvia Marbe, a ex de Gene Gibbons), Richard Bond (o jovem acompanhante de Sylvia), Frank Conlan (Joe), Walter Baldwin (Rennick), Jack Carr (Tony), Al Seymour (Jack), Ethelreda Leopold  (a vendedora de cigarros), Edward Earle (o maïtre), Catherine Courtney (Miss Karpin), Fred Sweeney (Hugo, o empresário do showbusiness), Carmen D’Antonio (a dançarina), Art Howard (o juiz)

Argumento e roteiro Ben Hecht

Fotografia Lee Garmes

Música George Antheil

Montagem Gene Havlick

Direção de arte Lionel Banks

Figurinos Ray Howell

Produção Ben Hecht, Columbia Pictures.

P&B, 79 min (1h19)

**1/2

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