Meus Dois Carinhos / Pal Joey

Nota: ★☆☆☆

Meus Dois Carinhos/Pal Joey, de 1957, reúne duas das mais lindas atrizes de Hollywood, Rita Hayworth e Kim Novak, uma das figuras mais carismáticas, lendárias, do showbusiness, Frank Sinatra, e diversas das mais belas canções da dupla Rodgers & Hart, o que significa que são das mais belas da Grande Música Americana. E é uma porcaria.

Porcaria, abacaxi – mas uma produção de primeira. O realizador é George Sidney (1916-2002), experiente, respeitado diretor de musicais, comédias, aventuras com grandes astros entre os anos 1940 e 1960.

O coreógrafo é o consagrado Hermes Pan (1909-1990), “o diretor de dança vencedor do Oscar responsável por coreografar várias dúzias dos mais memoráveis musicais de Hollywood, inclusive cada uma das nove pérolas com Fred Astaire e Ginger Rogers dos anos 1930”, como bem define o IMDb. (O Oscar ele levou por Cativa e Cativante/A Damsel in Distress, de 1937; foi indicado ao prêmio duas outras vezes, por O Picolino/Top Hat, de 1935, e Ritmo Louco/Swing Time, de 1936.)

A trilha sonora é do maestro Nelson Riddle, que dirigiu as orquestras que acompanharam Frank Sinatra em diversos de seus discos, compôs as trilhas de mais de cem filmes, foi indicado cinco vezes ao Oscar e levou a estatueta pela trilha da versão 1974 de O Grande Gatsby, a com Robert Redford e Mia Farrow.

Os figurinos são assinados por Jean Louis, essa espécie assim de Edith Head de calças compridas, com 179 filmes em seu currículo como figurinista, 12 indicações ao Oscar, uma estatueta – por O Cadillac de Ouro (1956).

O filme chegou a ter quatro indicações ao Oscar, nas categorias de melhor figurino, melhor direção de arte/decoração de interiores, melhor som e melhor montagem.

E, at last but not at least, o roteiro é assinado por Dorothy Kingsley, uma expert no gênero musical, autora dos roteiros de, entre outros, Dá-me Um Beijo/Kiss Me, Kate (1953) e Sete Noivas para Sete Irmãos (1954). E o roteiro é a adaptação para o cinema do musical que havia feito sucesso na Broadway, de autoria John O’Hara e a dupla de compositores Richard Rodgers & Lorenz Hart. Pal Joey, a peça, estreou no Ethel Barrymore Theater de Nova York City no dia de Natal de 1940 e teve 374 apresentações. Joey Evans era interpretado por um jovem ator, dançarino e cantor chamado… Gene Kelly!

Dois anos depois, em 1942, Gene Kelly começou sua fantástica, sensacional carreira em Hollywood.

Uma trama ridícula – e um filme machista, preconceituoso

Tanto talento, tantos astros, tantos grandes nomes…

Vi o filme pela primeira vez aos 14 anos – e dei a ele 4 estrelas em 5. (Só mais tarde adotaria o esquema de 4 estrelas como a cotação máxima.) Já via bons filmes naquela época – poucos dias depois veria O Processo, de Orson Welles, baseado em Kafka, que ganhou 5 estrelas do adolescente Sérgio Vaz. Mas, diabo, era adolescente – e é compreensível que babasse diante de Rita Hayworth, Frank Sinatra e Kim Novak.

Claro que só sei disso aí porque anotei no meu caderno de cinema, o primeiro, que comecei aos 12 anos. Se não tivesse anotado, não lembraria. Também não me lembrava, quando peguei o DVD para vermos agora, de que tínhamos visto juntos, Mary e eu, em 2000. Quando, agora, Mary disse que gostaria de ver um filme leve, peguei o DVD de Pal Joey. Ela ainda tentou argumentar: queria um filme leve, mas não daquelas bobagens danadas que eu gosto de ver.

Então vimos.

E só depois fui às minhas anotações, que mostram que havíamos assistido ao filme em 2000. Eis o que escrevi 20 anos atrás:

* Uma imensa bobagem, mas imensa mesmo, descomunal; OK, não se exige que o filmusical seja sério, conte uma história congruente; mas este aqui, além de ter uma história absolutamente risível, é preconceituoso, a mocinha pura x a mulher vivida, experiente. Credo em cruz.

A anotação foi feita evidentemente às pressas e com má vontade; não me detive para justificar as afirmações, explicar. Mas, sim, é exatamente isso. As duas coisas. As duas características básicas de Pal Joey são: a) a trama é ridícula; a rigor, aquilo sequer pode ser chamado de trama; e b) é um filme machista, preconceituoso, babaca.

Não é preciso ser uma feminista militante para ver que o filme é machista. Basta ter um pouco de discernimento.

O machismo fica claro já nos diálogos iniciais, antes mesmo dos créditos: dois policiais cercam o protagonista da história, o Joey do título original, Joey Evans – o papel de Frank Sinatra:

Joey: – “Esperem um pouco, amigos. Vocês entenderam tudo errado. Eu não encostei a mão nela.”

Policial: – “Sim, porque chegamos a tempo.”

Detetive: – “Esse é o problema com vocês, gente dos nightclubs. Vocês são todos iguais. Vocês acham que todas as mulheres do país pertencem a vocês.”

Joey: – “Esperem um pouco. Me mostrem uma lei que diz que você não pode pagar uma simples bebida para uma gata.”

Detetive: – “Lei não tem. É só você não pagar uma bebida no seu quarto de hotel para uma gata menor de idade.”

Joey: – “Esperem um pouco. Como eu podia saber que ela era uma isca pra eu ser preso? Ela parecia ter mais de 35. Eu tinha que ter pedido pra ela me mostrar um documento?”

Policial: – “Se você tivesse pedido, teria descoberto que ela era a filha do prefeito.”

E os policiais enfiam Joey Evans num ônibus intermunicipal.

Ao que Mary comentou de bate-pronto: – “Quer dizer que se não fosse a filha do prefeito, tudo bem?”

Lindas canções, lindérrimas atrizes. Mas…

Expulso daquela cidade, Joey Evans vai parar em San Francisco. Num nightclub, reconhece o band leader, um antigo conhecido seu, Ned Galvin (Bobby Sherwood) – e dá um jeito de arranjar emprego lá como cantor e mestre-de-cerimônias.

Todas as bailarinas e cantoras vão ficar caidinhas por ele; vão adulá-lo, lavar e passar a roupa dele, enchê-lo de mimos – uma coisa grotesta, babaca, sem sentido.

Todas, menos a mais bela, Linda English – o papel de Kim Novak, então na flor dos 24 aninhos de idade e já famosa, depois de filmes importantes e/ou de grande sucesso, A Morte Espera no 322 (1954), Férias de Amor/Picnic (1955), O Homem do Braço de Ouro (1955), Melodia Imortal (1956).

Linda vem sendo paquerada pelo band leador Ned – mas caráter não é o forte de Joey Evans, e assim ele vai dar de cima da moça usando todos os truques possíveis e imagináveis.

É claro que, com o tempo, Linda vai se apaixonar pelo sujeito por quem parece que todas as mulheres do mundo babam, rastejam.

Joey também vai se apaixonar por ela, é óbvio – só que surge no pedaço um mulherão que além de mulherão é milionária: Vera Prentice-Simpson, que no passado havia sido do show business também, mas havia se casado com um ricaço que, dois anos antes da época da ação havia batido as botas deixando para a viúva uma fortuna gigantesca.

Vera, a mulher mais velha, experiente, rodada, é o papel de Rita Hayworth – que não era velha coisíssima nenhuma, aos 39 anos de idade.

E esta é a trama de Pal Joey. Como foi dito acima, mal dá para chamar isso de trama.

Entre uma sequência e outra Frank canta “The Lady is a Tramp”, Rita canta “Bewitched, Bothered, and Bewildered”, Kim Novak canta “My Funny Valentine”, e aí a gente até esquece que o filme não tem trama.

Bem, não são exatamente Rita e Kim que cantam. Rita até que canta a introdução de “Bewitched” – mas a canção quem canta mesmo é Jo Ann Greer. E Trudy Stevens dubla Kim Novak. Mas é claro que é um colírio ver aquelas duas mulheres enquanto ouvimos as belas canções.

O duro é aguentar o machismo e o tom preconceituoso de tudo.

O maior absurdo vem quando, por uma determinada eventualidade lá, a mocinha Linda English é obrigada a fazer o número de strip-tease normalmente feito pela sua colega de elenco do nightclub Gladys (Barbara Nichols).

É como se o mundo tivesse caído num precipício. Grande, imenso drama: como assim, uma mocinha toda virtuosa, mais virgem que Doris Day nas comedinhas do início dos anos 60 na Universal, vinda de Albuquerque, queridinha da mamãe, tirar a roupa em público? Não pode, de forma alguma.

Gladys pode. A mocinha não pode – o mundo cai!

Ah, vá…

O personagem de Joey foi “pasteurizado”

Leonard Maltin deu à porcaria machista e preconceituosa 3 estrelas em 4: “Sujeito mau caráter do musical de John O’Hara/Rodgers & Hart vira um irreverente cara legal que tenta montar um nightclub em San Francisco. Hayworth e Novak batalham por Frank com resultados divertidos. Canções: ‘Bewitched, Bothered, and Bewildered’ (com letra higienizada), ‘Small Hotel’, ‘My Funny Valentine’, ‘The Lady Is a Tramp’, etc.”

Sim, tem isso: o Joey da peça – é que todos dizem – era um sujeito imoral, quase chegado no mau-caratismo. Sinatra, com o poder do astro que era, exigiu que se mexesse na história original, transformando Joey, seu personagem, em apenas um canalhinha comedor de tudo quanto é mulher – mas até que boa gente.

Pauline Kael também fala dessa transmutação de Joey em um sujeito que no fundo é legal. Eis o verbete da prima donna da crítica americana, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira do livro 1001 Noites no Cinema:

“Hollywoodização frustrada do musical de John O’Hara, Richard Rodgers e Larenz Hart, com a partitura pasteurizada, juntamente com a personagem de Joey. O herói safado – um sapateador da Broadway – virou um crooner, mais condizente com os talentos de Frank Sinatra. Seu canto ajuda um pouco, e ele também faz a única interpretação, embora a vacuidade de Kim Novak seja meio comovente e não tão trabalhada quanto a atuação de Rita Hayworth. (Dizem que o estúdio estava a fim de acabar com Hayworth; e ela sem dúvida não merecia este tratamento.) Esta triste chatice foi dirigida por George Sidney, coreografada por Hermes Pan.”

“Esta triste chatice”, segundo La Kael, esta porcaria, segundo este fã de musicais de Hollywood aqui, agradou aos franceses que escreveram, sob a direção de Jean Tulard, o monumental Guide des Films. Eis o que diz o Guide sobre La Blonde ou la Rousse, a loura ou a ruiva:

“Excelente comédia musical com muitas, muitas, muitas boas canções: ‘Small Hotel’, ‘Bewitched, Bothered, and Bewildered’, ‘Zip’, ‘My Funny Valentine’ e sobretudo ‘The Lady Is a Tramp’, que Sinatra canta, com muita provocação, para Rita Hayworth.”

Cada cabeça, uma sentença.

As histórias em torno do filme são melhores que a trama

Leonard Maltin fala em “letra higienizada” da canção “Bewitched”. Pauline Kael fala em “partitura pasteurizada”.

Nunca tinha ouvido falar nisso, embora ouça a bela canção praticamente desde criancinha – ou seja: faz tempo… Só no meu iPod há cinco gravações da música, com Anita O’Day, Carly Simon, Doris Day, Peggy Lee e Rosemary Clooney, mas nos meus discos que não passei para o iTunes deve seguramente haver outras.

Está na Wikipedia: quando, no musical da Broadway, Vera Prentice-Simpson (interpretada por Vivienne Segal) canta a canção, ela inclui os seguintes versos – que foram removidos no filme:

Horizontally speaking, he’s at his very best

e

Vexed again, Perplexed again, Thank God I can be oversexed again

De maneira bem literal, é algo do tipo “horizontalmente falando, ele está na sua melhor forma” e “vexada de novo, perplexa de novo, graças a Deus posso ser super-sexuada de novo”.

Parece que as histórias em torno de Pal Joey são bem melhores do que a história do filme.

A página de Trivia sobre Pal Joey no IMDb conta, por exemplo, que este é um dos poucos filmes de Frank Sinatra pós A Um Passo da Eternidade – a obra que o elevou de novo aos píncaros da fama, depois de uma fase ruim – em que seu nome não é o primeiro nos créditos iniciais e nos cartazes.

Essa coisa de o nome aparecer acima dos outros, em primeiro lugar, o top billing, é importantíssima em Hollywood. Os atores dão tremenda importância a isso. E o nome de Sinatra deveria aparecer em primeiro lugar porque, afinal de contas, ele é o personagem central da coisa; ele é o Pal Joey do título, que fica entre carinhos, como diz o título brasileiro, entre la blonde et la rousse, como diz o título francês. Em termos de tempo de permanência na tela, creio até que Kim Novak aparece mais que Rita Hayworth. Mas, nos créditos iniciais e nos cartazes, a ordem é Rita Hayworth, Frank Sinatra e Kim Novak.

Perguntado sobre por que não teve o top billing, o vaidosérrimo Sinatra respondeu: “Ladies first”. As damas primeiro, é claro. Em outra entrevista, ele disse que, como era um filme da Columbia Pictures, era natural que Rita tivesse o top billing: – “Durante anos ela era a Columbia Pictures”. E mais: – “Este é um sanduíche em que eu não acho ruim de ficar no meio”.

E o IMDb acrescenta que, como a maior estrela da Columbia, Rita foi top billing em todos os filmes que fez a partir de Modelos/Cover Girl, de 1944, até Heróis de Barro/They Came to Cordura (1959), em que perdeu o posto para Gary Cooper.

Modelos/Cover Girl tinha sido um grande sucesso; o parceiro de Rita era exatamente aquele dançarino que havia brilhado no palco em Nova York como Joey Evans no musical Pal Joey, Gene Kelly. Logo após Cover Girl – conta o livro The Columbia Story –, Harry Cohn, o chefão do estúdio, comprou os direitos da peça; com toda lógica, queria usar a mesma dupla de Cover Girl na versão hollywoodiana do musical. Mas o chefão da MGM, Louis B. Mayer, que então tinha Gene Kelly sob contrato, exigiu dinheiro demais para emprestar seu astro em ascensão, e o projeto de filmar Pal Joey foi posto de lado.

Quando finalmente o projeto foi tocado, 17 anos depois das apresentações da peça na Broadway, Joey ficou muito mais bonzinho e – segundo conta o livro The Columbia Story – várias das letras de Lorenz Hart foram “higienizadas” de suas conotações sexuais, e não apenas “Bewitched”.

Na minha opinião, “esta triste chatice”, esta “excelente comédia musical”, dependendo da opinião de cada um, tem um momento absolutamente belo, belo de doer. É quando Kim Novak está cantando, perdão, dublando “My Funny Valentine”, e a câmara do diretor de fotografia Harold Lipstein faz um super big close-up de seu rosto.

Eta troço bonito, siô.

Anotação em dezembro de 2020

Meus Dois Carinhos/Pal Joey

De George Sidney, EUA, 1957

Com Rita Hayworth (Vera Prentice-Simpson),
Frank Sinatra (Joey Evans),
Kim Novak (Linda English)
e Barbara Nichols (Gladys, a stripper), Bobby Sherwood (Ned Galvin, o band leader), Hank Henry (Mike Miggins, o dono do nightclub), Elizabeth Patterson (Mrs. Casey, que aluga quartos), Robin Morse (bartender), Ellie Kent (Carol), Mara McAfee (Sabrina), Betty Utey (Patsy), Bek Nelson (Lola), Hermes Pan (o coreógrafo), Ernesto Molinari (chef Tony)
Roteiro Dorothy Kingsley
Baseado no musical de John O’Hara, Richard Rodgers & Lorenz Hart.

Por sua vez baseado em reportagens de John O’Hara na revista New Yorker

Fotografia Harold Lipstein
Música Nelson Riddle

Canções por Richard Rodgers-Lorenz Hart.
Montagem Viola Lawrence, Jerome Thoms
Coreografia Hermes Pan
Figurinos Jean Louis
Produção Fred Kohlmar, Columbia Pictures. DVD Columbia.

Cor, 111 min (1h51)

Disponível em DVD

R, *

Título em Portugal: O Querido Joey. Na França: La Blonde ou la Rousse.

3 Comentários para “Meus Dois Carinhos / Pal Joey”

  1. Estou contente por o Sérgio ter comentado um dos filmes que eu mais ansiava. Pal Joey é um dos filmes da minha vida e é o filme onde eu mais gosto da Rita Hayworth juntamente com Gilda. Ainda assim, estou um pouco triste pelo Sérgio não o ter apreciado. Para mim, é um musical cheio de charme, sensual. Como fã da Rita (para mim a mulher mais bonita do cinema), eu preferiria que ela tivesse o papel de Kim Novak pois esta aparece mais tempo. Ainda assim, a Rita, que sofreu um envelhecimento precoce devido ao Alzheimer, mostra-se bem no seu papel ligeiramente matrono. E a cena em que canta Bewitched, com o seu iconico cabelo ruivo e ondulado solto, é um vislumbre dos tempos de Gilda e da foto da revista Life que, em neglige, fez dela a segunda maior pin up (só perdendo para a simpática Betty Grable). Não acho a Kim Novak particularmente bonita. Não gosto da parte da boca. Não estou a dizer que seja feia mas acho a Rita bem mais linda.
    Apesar do Sérgio não ter gostado, escreveu uma bela resenha! parabéns!

  2. Que delícia seu comentário, caríssimo Miguel! E que bom que o amigo gostou da minha anotação, mesmo eu não tendo gostado muito do filme!
    Estava com saudade de seus comentários! Escreva mais!
    Um grande abraço!
    Sérgio

  3. Obrigado pelas amáveis palavras. Desculpe Sérgio. O meu problema é que sou um pouco preguiçoso para escrever. Mas acompanho o seu site com bastante regularidade. Acho que o Sérgio iria gostar de COVER GIRL. A história é uma bobagem mas é um filme agradavel e com bons números musicais
    Um grande abraço!

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