
(Disponível na Netflix em 7/2025.)
O Quarto ao Lado/The Room Next Door, o Pedro Almodóvar safra 2024, é o filme mais delicado, suave, quase até mesmo doce, que já foi feito sobre este que é um tema tão amargo quanto fundamental para todos nós, e que a ignorância, o apego cego a crenças religiosas e a má fé tratam como pecado e/ou crime: a proximidade da morte e a decisão de acabar com a agonia de sofrer horrivelmente até que ela resolva dar o golpe final.
“O mais que já foi feito…” Por princípio, a gente deveria evitar os superlativos absolutos. A forma “um dos mais” é sempre aconselhável – até porque, diacho, não vi todos os filmes que já foram feitos sobre o direito à morte com alguma dignidade. Não vi sequer o filme que já diz tudo no título, Whose Life is This Anyway?, no Brasil De Quem é a Vida Afinal?, que o inglês John Badham teve a coragem de fazer em 1981.
OK, então. Refaço a afirmação:
Não pode haver filme mais delicado, suave, quase até mesmo doce, sobre o direito à morte com alguma dignidade do que este maravilhoso, lindíssimo The Room Next Door.
O filme conta a história de duas amigas desde a juventude, Martha, paciente terminal de câncer, e Ingrid, uma escritora que tem um absoluto pavor da morte, e até acaba de lançar um novo romance exatamente sobre isso. Reencontram-se depois de muitos anos sem se verem, reaproximam-se fortemente – e Martha pede a Ingrid para ficar com ela no quarto ao lado quando ela se decidir a tomar um comprimido mortal.
Almodóvar teve a sabedoria de escolher Tilda Swinton para o papel de Martha e Julianne Moore para o de Ingrid – e o diretor e as duas atrizes nos deram de presente a sorte de vê-las em atuações fantásticas, incríveis, acachapantemente belas.
O cineasta do tapa na cara mostra-se um mestre da ternura
Uma das muitas sensações que o filme me deixou tem a ver com superlativos. Se ainda houvesse alguma dúvida de que Pedro Almodóvar é um dos melhores diretores da História do Cinema, The Room Next Door acaba com ela. Definitivamente, o cara é um dos maiores de todos.
E me parece fascinante que esse filme de fantástica delicadeza venha exatamente desse cineasta cuja obra é marcada pelo escândalo, pelo exagero, pelo tapa na cara do espectador, pelo prazer de épater les bourgeois.
Não que seja uma novidade absoluta, uma mudança de rumo, uma reviravolta. De forma alguma. Já faz um bom tempo que Almodóvar, à medida em que fica com a barba e o cabelo mais brancos, vem deixando de lado a virulência, o encantamento pelo choque, a opção pela tal da estética da agressão, e optando por um tom mais suave, mais doce.
A forma de ver a vida, a escala de valores básicos, isso não mudou, não, de forma alguma – e como prova disso está aí a opção de fazer um filme defendendo abertamente o que pouquíssimos países já se tornaram tão civilizados a ponto de admitir em suas legislações. E em um momento – com fenômenos monstruosos como Trump, Bolsonaro, Putin, Erdoğan, Orbán – em que boa parte da humanidade abandona a civilização, o avanço, o progresso, e ruma para a Idade Média, as trevas, as cavernas.
Pedro Almodóvar não mudou seus valores – mudou o tom.
Aos 75 anos de idade, ao fazer seu primeiro filme em língua não espanhola, o cara que já foi o cineasta do tapa na cara mostra-se um mestre da ternura, da delicadeza.
Logo na abertura o filme mostra qual é seu tema
O primeiro filme em língua não espanhola – e um dos poucos de sua filmografia de 43 títulos até agora que não conta uma história saída da sua própria imaginação maravilhosa, fervilhante, inesgotável. A imensa maior parte de seus filmes tem roteiros originais dele mesmo, ou seja, roteiros baseados em histórias escritas por ele diretamente para o filme. Uns poucos exemplos de roteiros dele baseados em obras de outras pessoas são Julieta (2016), tirado der contos da escritora canadense Alice Munro, Carne Trêmula (1997), de romance de Ruth Rendell – e, agora, este O Quarto ao Lado, adaptado do romance What Are You Going Through, de Sigrid Nunez.
Confesso que, enquanto via o filme, desconhecia que O Quarto ao Lado não era uma história original de Pedro Almodóvar. Achei belíssima a história– com muitas subtramas que se enrolam, se ligam umas às outras, exatamente como nas criadas pelo genial cineasta. Só nos créditos finais fiquei sabendo que o roteiro se baseia em um romance.
Volto mais adiante ao livro que a nova-iorquina Sigrid Nunez lançou em 2020.
O roteiro escrito por Almodóvar mostra de cara, já no primeiro diálogo, no primeiro minuto da narrativa – literalmente -, o tema da história.
O filme abre com uma sequência que mostra o lançamento do novo livro de Ingrid-Julianne Moore, em uma bela livraria de Nova York. Há uma fila grande de pessoas à espera de um autógrafo da romancista. Uma jovem bonitinha, simpática, “Bobbi com i”, como ela se identifica para Ingrid, comenta: – “No prólogo, você diz que escreveu o livro para entender e aceitar a morte”. Ingrid termina a dedicatória e responde: “É. Para mim, não é uma coisa natural. Não aceito que algo vivo tenha que morrer.”
Bobbi (quem faz essa ponta é a jovem atriz Bobbi Salvör Menuez) pega o livro, agradece e se distancia. A mulher sentada ao lado da escritora – que organiza ali o lançamento – diz a Ingrid que o tempo combinado já acabou. A escritora diz que ainda há muitas pessoas na fila – e combina que a organizadora avisará a quem chegar a partir daquele momento que está encerrado.
Uma mulher se aproxima de Ingrid – é uma velha amiga, Stella (Sarah Demeestere), e Ingrid se levanta para abraçá-la. Conversam um
pouquinho, rapidamente – e Stella pergunta se ela está sabendo de Martha, com câncer grave, internada no Manhattan Memorial.
O filme não chegou ainda a 5 dos seus preciosos 107 minutos quando Stella chega ao quarto de Martha-Tilda Swinton no hospital.
O filme é a história da convivência de duas amigas díspares
Martha é jornalista; havia sido correspondente de guerra do New York Time nos Bálcãs, no Iraque. Está com câncer cervical, estágio 3, o mais grave. Não é possível operar. – “Eu me tornei cobaia de um tratamento experimental.”
Durante a visita, Stella promete à amiga que voltará sempre para vê-la. E cumpre o prometido.
Nas conversas das duas – e em flashbacks que mostram o que Martha vai contando para Ingrid –, ficamos sabendo da filha de Martha, Michelle. Nunca haviam se dado bem as duas, mãe e filha. Michelle sempre insistia em saber sobre o pai que não chegou a conhecer. O pai, Fred, havia voltado da guerra do Vietnã completamente transtornado, emocionalmente em frangalhos. Michelle nasceu de uma trepada que os dois namorados deram antes de ele se mudar para San Diego, no outro lado do país. Martha criou a filha inteiramente sozinha. Ela ficou sabendo que Fred havia se casado lá na Califórnia, e que morreu em um incêndio.
(A Martha adolescente é interpretada por Esther McGregor: Fred, por Alex Høgh Andersen.)
O trabalho de Martha como jornalista, as constantes viagens, tudo fez com que ela e a filha passassem muito tempo longe uma da outra. Michelle culpava a mãe por tudo de ruim que acontecia em sua vida.
Já Ingrid não tinha tido filhos. Solteira, independente, havia passado em longo tempo em Paris. Voltara para Nova York, estava bem, seus livros faziam sucesso, este último estava sendo muito bem recebido.
As duas amigas tinham tido um homem em comum, ao longo da vida – Damian, um professor, um acadêmico, que primeiro tivera um namoro com Martha, e mais tarde com Ingrid. Na verdade, Ingrid e Damian ainda se viam, mantinham a amizade – mas ela não fica à vontade de contar isso para Martha, com medo de que ela ficasse um pouco chateada, triste. E tudo que Ingrid não queria fazer era aborrecer a amiga.
Damian é interpretado por John Turturro, um John Turturro de cabelo e barba bem grisalhos, o que até me assustou um pouco.
Uma ex-correspondente de guerra, com tinha convivido com a morte bem de perto em guerras. Uma romancista que tem pavor da idéia da morte.
O Quarto ao Lado é a história da convivência dessas duas mulheres.
Lá pelas tantas, Martha fica sabendo que o tratamento alternativo a que estava sendo submetida não estava dando resultado, tinha havido metástase. As dores eram terríveis, apesar de todo o medicamento. Sentia constantemente enjôos, mal-estar generalizado. Não conseguia se concentrar em nada, nem para escrever, nem para ler. Fuçou na dark web, achou um fornecedor de uma pílula que dava fim a tudo de maneira rápida e indolor.
Achou uma casa para alugar num lugar lindo, Upstate, ao Norte de Nova York, perto de Woodstock. Só precisaria ter uma companhia, uma amiga para estar com ela no quarto ao lado na noite em que decidisse tomar a pílula.
Almodóvar deixou de lado personagens do livro. Fez bem
No romance What Are You Going Through (que foi lançado em 2021 no Brasil pela Editora Instante com o título de O Que Você Está Enfrentando), há diversos outros personagens, segundo mostra a sinopse publicada no site da Amazon. (Faz tempo que me impressionam como são boas as sinopses dos livros feitas pela Amazon…) Eis o resumo da trama do romance de Sigrid Nunez:
“A narrativa se estrutura a partir da voz de uma mulher que, exercitando sua capacidade de escuta e acolhimento, reúne relatos de episódios dolorosos que seus interlocutores estão enfrentando. Entre eles, o filho de uma vizinha descreve a perda progressiva da sanidade da mãe idosa; uma frequentadora de academia lamenta a inevitabilidade do envelhecimento; um ex-gato de abrigo, em uma cena kafkiana, compartilha sua comovente trajetória. Nessa costura de vivências, emerge o que a própria narradora está enfrentando: uma amiga com câncer terminal demonstra autocontrole ao encarar seu diagnóstico e lhe pede um favor incomum. Sem transbordar emoções nem recorrer a lições edificantes, estabelece-se entre elas uma rara cumplicidade na tentativa de lidar, de maneira racional e até mesmo cômica, com o processo de morrer.”
Deve ser sem dúvida bem interessante o livro de Sigrid Nunez, mas me pareceu bem acertada a decisão de Almodóvar de deixar de lado o filho da vizinha, a frequentadora de academia, o ex-gato de abrigo, e se concentrar nas duas mulheres, amigas desde a juventude, que ficaram sem se ver durante anos e se reaproximam de maneira fortíssima nos momentos finais da vida de uma delas.
Uma beleza de decisão.
Há duas características que me atraíram muito no roteiro de Almodóvar. Como é uma história de duas mulheres que vivem das palavras, do ato de escrever, há diversas, diversas, diversas referências a livros, textos, escritores, artistas. As duas amigas falam de Virginia Wolf, por exemplo – e muito, muito, sobre o conto “The Dead”, que fecha o livro Dubliners, de James Joyce. Martha sabe de cor as palavras finais do conto, que John Huston filmou em 1987, com o mesmo título do conto, The Dead, no Brasil Os Vivos e os Mortos, e as duas revêem o filme no DVD na belíssima casa alugada perto de Woodstock:
“A neve era geral em toda a Irlanda. Caía por todas as partes da sombria planície central, nas montanhas sem árvores, tombando mansa sobre o Bog of Allen e, mais para o oeste, nas ondas escuras e revoltas do Shannon. E também em todos os recantos do cemitério abandonado onde jazia Michael Furey. Amontoava-se nas cruzes tortas e nas lápides, nas hastes do pequeno portão, nos espinhos estéreis. Sua alma desmaiava lentamente ouvindo a neve caindo suave através do universo, caindo brandamente, como a queda final, sobre todos os vivos, sobre todos os mortos.” (Esta tradução é obra de Hamilton Trevisan, na edição brasileira de Dublinenses, da Editora Civilização Brasileira, de 1964.)
Essa, na verdade, é uma característica sempre presente nos filmes de Almodóvar – referências a artes, artistas. Almodóvar gosta de incrustar nas suas narrativas momentos das outras artes, como Caetano Veloso cantando “Cucurucu Paloma” em Fale com Ela (2002), ou um trecho de uma peça de teatro ou de espetáculo de dança que alguns dos personagens vão ver.
A outra característica que tem a ver com a escrita, as palavras, a literatura é a beleza dos diálogos.
O cara caprichou demais nos diálogos. São lindíssimos, sonoros, agradáveis, às vezes um tanto complexos, um tanto… literários. É uma maravilha.
Não encontrei a informação sobre quem teria passado do espanhol para o inglês os diálogos do filme. Não acredito que Almodóvar – por mais perfeito que seja seu inglês – tenha escrito diretamente em uma língua que não é a sua. Acho que ninguém conseguiria escrever tão bem em uma língua que não é a sua desde o berço. Mas não fiz uma pesquisa extensa sobre esse detalhe, e, como o cara é genial mesmo, pode ser que tenha escrito todas aquelas maravilhas que Tilda Swinton e Julianne Moore pronunciam.
O Oscar ignorou solenemente esta beleza de filme
The Room Next Door é uma co-produção EUA-Espanha-França, e a história se passa inteiramente nos Estados Unidos – na cidade de Nova York e em uma área rural ao norte da metrópole. Algumas sequências foram filmadas em New York e Echo Lake Park, no vizinho estado de New Jersey – mas boa parte das filmagens foi mesmo na Espanha. Todas as sequências na casa alugada por Martha foram rodadas na Casa Szoke, localizada perto do Monte Abvvantos, em San Lorenzo del Escorial, a uma hora de carro da Madri de Almodóvar.
Segundo o IMDb, o local foi escolhido porque a região tem um visual parecido com o entorno de Woodstock. Não há por que duvidar – mas dá para imaginar que outro motivo para a escolha daquele lugar tenha sido o fato de que, terminadas as filmagens, Don Pedro podia dormir em casa…
O IMDb também notou outro detalhe que revela que este filme passado em Nova York foi filmado na Espanha. São espanhóis os atores que fazem os dois freis carmelitas que a correspondente de guerra Martha encontra no Iraque, o fotógrafo parceiro de Martha, o personal trainer da academia onde Ingrid vai se exercitar…
Juan Diego Botto faz o fotógrafo. Raúl Arévalo faz o frei Bernardo; Paolo Luka-Noé, o outro frei; Alvise Rigo, o personal trainer.
The Room Next Door recebeu 15 prêmios e teve 34 indicações. Exibido no Festival de Veneza, levou o Leão de Ouro de melhor filme e o Prêmio Brian de melhor diretor. No Goya, o prêmio mais importante do cinema espanhol, foi indicado em dez categoriais, e levou os prêmios de melhor roteiro adaptado, melhor trilha sonora para Alberto Iglesias e melhor fotografia para Eduard Grau.
Estranhissimamente, no entanto, esta obra-prima foi esnobada nos Estados Unidos: não teve uma única indicação ao Oscar, e, ao Globo de Ouro, teve apenas uma, a de Tilda Swinton como atriz em filme-drama.
No Rotten Tomatoes, o filme estava, em julho de 2025, com 80% da aprovação dos críticos e 76% na dos leitores.
Anotação em julho de 2025
O Quarto ao Lado/The Room Next Door
De Pedro Almodóvar, Espanha-EUA-França, 2024.
Com Julianne Moore (Ingrid),
Tilda Swinton (Martha – e Michelle)
e John Turturro (Damian), Juan Diego Botto (o fotógrafo, parceiro de Martha no Iraque). Raúl Arévalo (Bernardo, o frei espanhol no Iraque), Esther McGregor (Martha adolescente), Alex Høgh Andersen (Fred, o namorado de Martha na adolescência), Victoria Luengo (a mulher de Fred), Alessandro Nivola (o policial), Alvise Rigo (Jonah, o personal trainer na academia), Melina Matthews (a advogada), Sarah Demeestere (Stella, a amiga de Ingrid no lançamento do livro), Paolo Luka-Noé (o segundo frei espanhol no Iraque), Bobbi Salvör Menuez (Bobbi, a garota que pede autógrafo)
Roteiro Pedro Almodóvar
Baseado no romance “What Are You Going Through”, de Sigrid Nunez
Fotografia Eduardo Grau
Musica Alberto Iglesias
Montagem Teresa Font
Desenho de produção Inbal Weinberg
Direção de arte Gabriel Liste
Figurinos Bina Daigeler
Produção Agustín Almodóvar, El Deseo, Crea SGR,
Instituto de Crédito Oficial (ICO), Instituto de la Cinematografía y de las Artes Audiovisuales (ICAA), Movistar Plus+.
Cor, 107 min (1h47)
****
