Green Book: O Guia / Green Book

Nota: ★★★½

Green Book, premiada produção de 2018, é mesmo um belo filme. Faz uma forte, poderosa, contundente condenação do racismo, e as condenações do racismo são sempre muito bem-vindas. Mas não é só.

Ao mostrar o relacionamento, nos Estados Unidos do início dos anos 60, entre um trabalhador descendente de italianos, bronco, um tanto brutal, e um músico refinadíssimo, cultíssimo, rico e negro, Green Book faz uma maravilhosa elegia a esta que é uma das mais maravilhosas invenções do ser humano: a amizade, a solidariedade. Uma invenção que é ainda mais preciosa quando surge entre pessoas diferentes, díspares, quase antípodas, como esses Tony Lip interpretado por Viggo Mortensen e Donald Shirley, o papel de Mahershala Ali – os dois em atuações de se aplaudir de pé como na ópera.

Pessoas de meios sociais diversos, de visões do mundo distantes anos-luz uma da outra, de cor de pele diferentes, que passam a conviver intimamente, por qualquer motivo que seja, e, com o passar do tempo, vão se aproximando, vão rompendo as barreiras que poderiam parecer intransponíveis – que beleza de tema!

Já houve grandes filmes sobre ele. Fiquei pensando nisso depois que terminamos de ver Green Brook, e os exemplos foram vindo na minha cabeça. O cubano Morango e Chocolate (1993), de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío – a amizade entre um jovem universitário fidelíssimo aos ideais revolucionários e um sujeito que é a essência de tudo o que o regime comunista condena, homossexual assumidérrimo, inimigo do conceito de partido único, crítico do regime.

Intocáveis (2011), de Olivier Nakache e Éric Toledano – a amizade entre um milionário que ficou tetraplégico e seu cuidador, um jovem negro alegre, cabeça fresca.

Conversas com meu Jardineiro (2007), de Jean Becker – um pintor rico, famoso, em profunda crise pessoal, e um velho conhecido dos tempos da escola básica que reencontra depois de décadas e décadas, um jardineiro, tanto bronco, simplório, de coração imenso.

Minhas Tardes com Margueritte (2010), de Jean Becker – o encontro é entre um homem inculto, um tanto bronco, quase iletrado, com uma senhora nonagenária educada, culta (Gisèle Casadesus), que já leu milhares de livros que expressam as angústias e as alegrias dos homens.

Sejam Muito Bem-vindos (2012), ainda de Jean Becker – um encontro ainda mais estranho, improvável, insólito, do que os dos dois filmes anteriores, um homem de meia-idade que tem tudo para estar feliz mas naufragou na depressão e uma garota de 15 anos que vem de uma família desestruturada, destroçada.

Assumindo a Direção (2014), da espanhola Isabel Coixet – a inimaginável amizade entre uma americana Wasp – branca, anglo-saxã e de família protestante –, bem de vida, e um imigrante que veio da Índia, e mesmo na Índia pertencia a uma minoria, e uma minoria rebelde, em geral perseguida ou com problemas com o status quo, os sikhs.

Ou Conduzindo Miss Daisy (1989), de Bruce Beresford – a inimaginável amizade que vai surgindo entre uma senhorinha judia da Georgia de temperamento forte, irascível, em geral mal-humorada, brava, cabeça dura, fiel a seus princípios, segura de si, e o negro paciente, calmo, prestativo, quase obsequioso demais que o filho dela contrata para ser o motorista da mãe – contra a vontade dela.

Uma história real de fatos cruéis, desumanos, criminosos

Green Book tem a ver com todos esses belos filmes por se centrar no relacionamento entre duas pessoas profundamente diferentes que, ao contrário do que seria de se esperar, acabam se respeitando mutuamente – mas tem outras semelhanças com Conduzindo Miss Daisy. Quatro outros pontos de semelhança, na verdade.

O primeiro, claro, é o tema do racismo.

Outro é o onde, o local. Como no premiado filme de Bruce Beresford, a ação – boa parte dela – se passa no Sul dos Estados Unidos. A história de Green Book acontece em 1962, quando, em diversos Estados do Sul – os Estados escravagistas, que haviam lutado na Guerra Civil contra a União por se recusar a aceitar o fim da escravidão determinado pelo presidente Abraham Lincoln –, a segregação racial era garantida por leis, e o racismo institucionalizado, legalizado, era tão abjeto, nojento, quanto o da África do Sul do apartheid.

O terceiro ponto é que nos dois filmes os protagonistas são o patrão, o que manda e paga, e o motorista. A diferença é que neste Green Book o patrão é negro e motorista é branco – ao contrário do filme de 1989 e do que acontecia na imensa maioria dos casos.

O quarto ponto de semelhança entre os dois é o mais surpreendente e fascinante: os dois se baseiam em histórias reais.

Conduzindo Miss Daisy não faz questão de dizer isso, “baseado em uma história real”, de forma alguma. Mas sabe-se que o filme se baseia numa peça teatral de autoria de Alfred Fox Uhry, natural da mesma Atlanta retratada na peça e no filme, e a história da relação entre Miss Daisy e Hoke se baseia na relação entre sua bisavó Lena Fox e o chofer Will Coleman.

Green Book diz com todas as letras, de cara: “Inspirado em uma história real”. Os realizadores tiveram o cuidado de usar o termo “inspirado”, e não “baseado” – o que é uma forma de adiantar que não se procurou fazer um relato rigorosamente fiel, cópia exata dos fatos. É um jeito de deixar claro que foram tomadas algumas liberdades em relação ao factual – embora os fatos básicos tenham de fato acontecido.

Ou seja: de fato, o respeitado, famoso músico Don Shirley (o papel de Mahershala Ali, como já foi dito) fez uma turnê com seu trio, nos meses finais de 1962, pelos Estados do Sul profundo – o filme mostra sequências passadas na Georgia, Kentucky, Carolina do Norte, Tennessee, Arkansas, Alabama. De fato, o motorista que dirigiu o carrão alugado para o músico pela sua gravadora foi Tony Lip (no filme, Viggo Mortensen), um descendente de imigrantes italianos do Bronx, fortão – que serviu também de guarda-costas para proteger o músico de eventuais ataques de racistas.

E seguramente aconteceram, de fato, aquelas situações absolutamente constrangedoras, ridículas, e, muito pior do que isso, absurdas, cruéis, desumanas, criminosas, de Don Shirley ser muito bem tratado ao chegar aos locais em que se apresentaria – mas, ao mesmo tempo, ser impedido de usar o banheiro dos brancos, ou o restaurante dos bancos.

Aplaudidíssimo nos teatros, nos salões das mansões milionárias – mas impedido de se hospedar nos hotéis dos brancos.

No início da viagem, Tony Lip recebe um exemplar do Green Book que dá o nome do filme – e a simples existência desse Green Book é um absoluto crime de lesa-humanidade. Green Book era o nome de um guia para viajantes que iriam visitar o Sul, com as indicações dos hotéis e restaurantes que aceitavam negros, como eram muitos dos motoristas dos brancos.

Só que naquele caso específico o guia serviria para indicar os hotéis em que o grande músico teria que se hospedar, enquanto seu motorista, por ser branco, poderia ficar nos hotéis melhores.

O filme conta os fatos pela visão do motorista Tony

Chamava-se The Negro Motorist Green Book, o livro verde do motorista negro, e circulou entre 1936 e 1967, segundo informa matéria da BBC News. O autor, Victor Hugo Green, era um carteiro do Harlem, o bairro dos negros em Nova York, que reuniu informações de outros carteiros que trabalhavam com ele – primeiro de Nova York, depois de todo o país. O guia trazia informações sobre hotéis, garagens, nightclubs, barbearias – todo tipo de lugar de prestação de serviços que aceitava clientes negros.

O filme conta os fatos pela visão de Tony Lip.  O roteiro é assinado por Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e o diretor Peter Farrelly. Nick Vallelonga, também produtor do filme, vem a ser o filho de Tony Lip, cujo sobrenome, citado diversas vezes ao longo dos 130 minutos da narrativa, é esse, Vallelonga.

Green Book mostra Tony Lip como um tipo fortão, poderoso, bom de briga, com um apetite sem fim e uma sem fim disposição de partir pra porrada sempre que necessário. Trabalhava, naquele ano de 1962, no Copacabana, o elegante nightclub de Manhattan, como dublê de garçom e leão-de-chácara. Quando surgia algum problema, o proprietário ou o gerente chamavam Tony para dar um jeito.

Glutão, fortão, bom de briga. Bronco, um tanto tosco – embora seja carinhoso com a mulher, Dolores, e os dois filhos, garotos aí de uns sete e dez anos, talvez.

(Dolores é o papel de Linda Cardellini, uma jovem atriz bonitinha, simpática. Californiana, de 1975 como minha filha, 66 títulos na filmografia, inclusive a bela série Mad Man e Pesadelo Americano/American Gun.)

Carinhoso com a mulher e os filhos, mas fortão, bronco, um tanto tosco – e racista.

Há uma sequência, logo no início do filme, feita para mostrar isso. Dolores chama encanadores para resolver um problema na pia da cozinha, vão dois homens negros. Ela oferece água para eles. Assim que eles saem, o idiota do italianão pega os copos e joga no lixo.

Mas, quando Don Shirley oferece a ele o trabalho de motorista e guarda-costas para uma turnê que incluirá diversos Estados do Sul Profundo, por uma boa grana, ele topa. E vai passando a admirar aquele instrumentista virtuoso, brilhante, e, aos poucos, a respeitá-lo, a gostar dele.

Na verdade, por baixo daquela casca grossa de sujeito bronco, capaz até do crime de racismo, havia um sujeito que não era mau caráter, e tinha bom coração. Esse é o retrato que o filme faz de Tony Lip.

O Don Shirley que Green Book mostra é uma personalidade bastante complexa. Músico de extraordinário talento, tinha frequentado o Conservatório de Leningrado (o nome de São Petersburgo durante o regime comunista), após ter chamado a atenção de um mecenas. Sua paixão era pela música erudita – Chopin, Beethoven, Liszt –, mas os executivos de sua gravadora o haviam convencido a fazer jazz. O motivo: naquela época, boa parte do público americano não aceitaria um negro nas salas de concerto tocando música erudita.

O jazz que o Don Shirley Trio fazia – ele ao piano, mais contrabaixo e violoncelo – era cool, suave, elegante. Me fez lembrar muito o som do Modern Jazz Quartet, que era formado por negros e muitas vezes se aproximou demais da música erudita.

(O pianista que executa as músicas tocadas por Don Shirley no filme se chama Kris Bowers. Um excelente instrumentista. É jovem – nasceu em 1989 –, estudou na prestigiosíssima Juilliard, e venceu em 2011 a competição Thelonius Monk de piano. Kris Bowers assina também a trilha sonora do filme.)

Don Shirley era refinadíssimo, cultíssimo. Tinha o título de doutor – era doutorado em Psicologia, falava oito idiomas. No filme, fala russo com seu contrabaixista, o russo Oleg (Dimiter D. Marinov) e depois surpreende Tony Lip falando em italiano.

Era uma pessoa extremamente solitária. Essa é uma característica que o filme realça. Ele conta para Tony que havia sido casado, mas percebera que não era uma pessoa para viver um casamento. Perguntado por Tony sobre sua família, responde que tinha um irmão “por aí” – e indica que havia anos não falava com o irmão.

O filme mostra que ele tinha relações com Bob Kennedy, o irmão do então presidente John F. Kennedy e seu ministro da Justiça – e só. Não fala de sua amizade com o reverendo Martin Luther King, nem de seu envolvimento com a luta pelos direitos civis, que naquela época, 1962, estava no auge. (Em 1964 Lyndon B. Johnson, que era vice de Kennedy e assumiu a presidência após seu assassinato, promulgou a Lei dos Direitos Civis, a Civil Rights Act, que baniu definitivamente toda a legislação dos Estados sulistas que garantiam a segregação racial.)

A patrulha da negritude reclamou

É bastante surpreendente que esse drama forte, pesado, sério, tenha sido dirigido por Peter Farrelly, um realizador que, até então, só havia feito comédias, co-dirigidas com seu irmão Bobby. E comédias assim não propriamente finas, de humor elegante, sofisticado. Basta lembrar destes títulos: Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros, no original Dumber and Dumber (1994); Debi & Lóide 2/Dumb and Dumber To (2014); Antes Só do que Mal Casado (2007).

Não vi nenhum desses filmes, assim como não vi Quem Vai Ficar com Mary? (1994) – mas foi comentadíssimo na época que uma das piadas “finas” dessa comédia escrachada era que o cabelo louro de Cameron Diaz lá pelas tantas se enche de… sêmen.

O ator Mahershala Ali fez uma brincadeira sobre o fato de que este foi o primeiro drama da carreira de Peter Farrelly: definiu-o como “um realizador estreante com 25 anos de experiência”.

Green Book é a prova de que tudo – ou no mínimo quase tudo – pode melhorar.

O filme ganhou 58 prêmios, fora outras 120 indicações. Só ao Oscar, foram cinco indicações – e três vitórias. Levou as estatuetas de melhor filme, melhor ator coadjuvante para Mahershala Ali e melhor roteiro. (As duas outras indicações foram para Viggo Mortensen na categoria de melhor ator e para Patrick J. Don Vito na categoria de melhor montagem.)

Colocar Mahershala Ali – um dos dois protagonistas da história – na categoria de ator coadjuvante foi mais uma das esquisitices, para usar um termo suave, da vetusta Academia. O IMDb fez um comentário sarcástico sobre isso: “Com 1 hora, 6 minutos e 38 segundos (de tempo na tela), a atuação de Mahershala Ali neste filme é a mais longa a vencer o prêmio da Academia para melhor ator coadjuvante”.

Bizarrices do Oscar à parte, o filme foi um grande sucesso de bilheteria. Custou US$ 23 milhões – orçamento baixo para o padrão de Hollywood –, e rendeu no total, no cumulativo mundial, US$ 323 milhões.

Segundo o site Rotten Tomatoes, o filme obteve 77% de resenhas positivas, entre 355 pesquisadas. No voto popular, teve aprovação ainda maior: 91%, num total de mais de 10 mil votantes.

No entanto…

Pois é. Há um “no entanto”.

Houve muita gente, especialmente nos próprios Estados Unidos, criticando o filme por não ter retratado corretamente a questão racial.

Para o pessoal da patrulha da negritude, o filme é branco demais. Tem visão de branco.

Houve também muitas críticas ao filme feitas por dois parentes de Don Shirley – um irmão, Maurice Shirley, de 82 anos, e um sobrinho, Edwin Shirley III. Os dois deram entrevistas a vários veículos da imprensa para dizer que nunca foram procurados pela produção do filme e para apontar distorções na história.

O fato de Don Shirley dizer para Tony Lips que só tem um irmão, com quem não mantinha contato, é uma dessas distorções. Na verdade, Don tinha três irmãos, e – segundo a versão apresentada agora – estava sempre em contato com eles. Dois dos irmãos já morreram; esse Maurice é o único que estava vivo na época do lançamento do filme.

O IMDb conta que, segundo os tais dois parentes, Don Shirley nunca teve relação de amizade com Tony Vallelonga – era apenas uma relação de empregador-empregado. Logo em seguida, o IMDb registra que há uma entrevista gravada do próprio Don Shirley em que ele diz: “Eu confiava nele implicitamente… Veja… Não apenas ele foi meu motorista, nós nunca tivemos uma relação de patrão-empregado. Você não tem tempo para essa merda. Minha vida estava nas mãos desse homem! Então você tem que ser amigo um do outro.”

Registradas essas queixas, as da patrulha da negritude e as dos dois parentes, reafirmo: Green Book é uma beleza de filme.

Anotação em janeiro de 2021

Green Book: O Guia/Greenbook

De Peter Farrelly, EUA, 2018

Com Viggo Mortensen (Tony Vallelonga, o Tony Lip),

Mahershala Ali (Dr. Donald Shirley)

e Linda Cardellini (Dolores, a mulher de Tony), Sebastian Maniscalco (Johnny Venere), Dimiter D. Marinov (Oleg, o contrabaixista do Don Shirley Trio), Mike Hatton (George, o violoncelista do trio), P.J. Byrne (executivo da gravadora), Joe Cortese       (Gio Loscudo), Maggie Nixon (a moça da chapelaria do Copacabana), Von Lewis (Bobby Rydell), Jon Sortland (Band Leader), Don Stark (Jules Podell), Anthony Mangano (Danny). Paul Sloan (Maître D’ Carmine, do Copacabana), Quinn Duffy (Mikey Cerrone)

Roteiro Nick Vallelonga & Brian Hayes Currie & Peter Farrelly       

Fotografia Sean Porter

Música Kris Bowers

Montagem Patrick J. Don Vito

Casting Rick Montgomery

Direção de Arte Tim Galvin

Produção

Cor, 130 min (2h10)

13/1/2021, com Marynha.

Disponível no Prime Video em janeiro de 2021

***1/2

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