Alta Ansiedade / High Anxiety

Nota: ★★★☆

Mel Brooks já havia satirizado o nazismo, a revolução comunista russa, o western, os filmes de terror e a indústria de cinema quando, em 1977, em seu sexto filme como diretor, resolveu satirizar a obra de Alfred Hitchcock.

Alta Ansiedade, sua gozação dos filmes do mestre do suspense – e sua elegia a eles – é, como os anteriores, e os que viriam depois, engraçadíssimos, hilariantes, fantasticamente divertidos.

Tudo o que Mel Brooks realizou é exatamente assim. Engraçadíssimo, hilariante, fantasticamente divertido. Ahn… Não é fino nem chique. Não é assim para agradar às platéias mais, digamos, intelectualizadas. De forma alguma. O humor de Mel Brooks é – vamos dizer com todas as letras – tosco. Grosseiro, mesmo.

Vixe, acho que usei termos que podem ser mal interpretados.

O humor de Mel Brooks é tosco e grosseiro no melhor sentido que esses termos podem ter. Pelo amor de Deus, não queira o eventual leitor pensar naquela figura trágica que se abateu sobre o destino dos brasileiros, por um grande equívoco, na segunda década do século XXI.

Não, não, não: o humor de Brooks é tosco, grosseiro, no sentido de que suas piadas são muitas vezes pesadas, sujas. É um humor que beira o ginasiano, ou talvez mergulhe nele – aquele bem raso, bem pouco de salão. Aquele humor de bar, ou de festa quando o pessoal já bebeu bastante, e começa a falar um pouco mais de asneira do que seria conveniente, educado.

Por exemplo: numa conferência nacional de psiquiatras, os doutos doutores começam a se referir aos órgãos sexuais com os termos usados pelos adultos babacas com crianças pequenas, já que há crianças na audiência. Imagine o eventual leitor um bando de velhos psiquiatras usando termos como pintinho ou popota.

Outro exemplo: a enfermeira Diesel parece uma sargentona nazista – e quer nome mais apropriado para uma enfermeira doida que parece uma sargentona nazista do que Diesel? Ela é interpretada pela maravilhosa Cloris Leachman (na foto acima), com uns sutiãs que deixam seus peitos pontudos como se fossem dois revólveres. É a bandida da história, juntamente com o dr. Montague (Harvey Korman). Juntos, eles na verdade administram a bela clínica situada em Los Angeles que tem o nome de Psycho-Neurotic Institute for the Very, Very Nervous. Não é necessário, mas vamos lá: instituto psico-neurótico para os muito, muito nervosos.

Administram criminosamente: mantém na ala dos louco-varridos os doentes mais ricos, para extrair muito dinheiro de suas famílias e não permitir jamais que eles melhorem e tenham alta.

Mantêm uma relação sado-masoquista – que Mel Brooks mostra da maneira mais absolutamente engraçada (e ginasiana) possível.

Um humor nada fino. Muito antes ao contrário. Um tanto grosseiro, tosco – mas irremediavelmente, fantasticamente, irrepreensivelmente engraçado.

Alta Ansiedade tem 94 minutos. Durante uns 80 minutos do filme o espectador ri, gargalha, soluça de tanto rir. Nos outros 14, ele dá uma respiradinha entre uma gargalhada e outra – e sorri.

Nem havia pensado nisso, quando peguei o DVD do filme para rever, mas a verdade é que Alta Ansiedade, assim como os demais filmes de Mel Brooks, são altamente recomendados nestes tempos tenebrosos que estamos vivendo.

Durante uma hora e meia, você morre de rir, se diverte, se esquece das tragédias em que estamos mergulhados.

Uma história criada a oito mãos

Hum… Me entusiasmei, fui atacado por alta ansiedade e avancei um tanto sobre a trama do filme.

A rigor, a rigor, a trama nem importa tanto. A história é só um pretexto para apresentar situações engraçadas – piadas verbais, piadas visuais, gags, piadas, gags, piadas – que façam lembrar algum dos filmes de Hitchcock.

Mas é sempre necessário fazer um resumo da história. Sou péssimo para fazer resumos, porque sempre me estendo demais, mas vamos lá:

Depois que o diretor do Psycho-Neurotic Institute for the Very, Very Nervous morre em circunstâncias um tanto suspeitas, o famoso psiquiatra Richard Thorndyke (o papel dele mesmo, Mel Brooks), um bambambã de Harvard ou de alguma outra das universidades da Ivy League, é convidado para assumir o posto.

O dr. Thorndykre é um sujeito que sofre da mais pavorosa alta ansiedade do universo: tem vertigem, acessos de pânico, todo tipo de paranóia possível; muitas vezes, apesar de todo o currículo brilhante, é burro feito uma mula e demora a perceber as coisas mais absolutamente óbvias.

A imensa clínica para loucos é na prática dirigida, como já foi dito, pela dupla enfermeira Diesel-dr. Montague, que são bandidos cruéis.

Entre os doidos internados há o milionário Arthur Brisbane (Albert J. Whitlock).

Em uma viagem a San Francisco para participar da tal conferência nacional de psiquiatras, o dr. Thorndyke a) conhece a filha do milionário Brisbaine, Victoria, que vem na pele da ótima Madeline Khan (na foto abaixo), uma das atrizes mais engraçadas do cinema americano; b) vira suspeito de um assassinato, que na verdade é cometido pelo assassino de aluguel contratado pelo casal Diesel-Montague; e c) quase vira vítima, ele mesmo, do tal assassino de aluguel.

Reuniram-se para produzir essa história o próprio Mel Brooks, é claro, Ron Clark, Rudy DeLuca e Barry Levinson. Ron Clark e Rudy DeLuca não faço idéia de quem sejam, mas achei interessantíssimo que Barry Levinson tenha participado dessa brincadeira.

Barry Levinson é um grande diretor. Realizou, entre muitos outros, os bons e importantes Rain Man (1988), Bugsy (1991) e Mera Coincidência (1997) – um drama sério sobre autismo, uma biografia do gângster que inventou Las Vegas e uma danada de uma sátira política inteligente pra cacete.

Barry Levinson gostou tanto da brincadeira que fez uma participação especial, um cameo role, como dizem os americanos, como um mensageiro de hotel.

Há citações a 20 filmes de Hitchcock!

A rigor – repito -, a história, a trama não tem grande importância.

O que interessa é que role na tela alguma coisa que faça lembrar um filme de Alfred Hitchcock – e que faça o espectador rir.

Não interessa a lógica, qualquer tipo de semelhança com a vida real, com a plausibilidade, a verossimilhança. O que interessa é fazer lembrar um filme de Hitch – e fazer graça.

Assim, por exemplo, volta e meia há uma situação em que o dr. Thorndyke tem que olhar para baixo, de algum lugar alto – e aí tem um ataque de ansiedade. A vertigem – mal que ataca o ex-detetive Scottie Fergusson vivido por James Stewart em Um Corpo Que Cai – é pretexto para excelentes piadas. Aquela imagem de um homem caindo em um desenho estilizado de um redemoinho – criada pelo mestre Saul Bass para o filme de Hitch – é imitada várias vezes ao longo de Alta Ansiedade.

Há, é claro, uma reprodução fiel, fidelíssima – só que em cores – da cena do assassinato de Marion Crane-Janet Leigh na banheira do Bates Motel.

Quando o dr. Thorndyke vai ao Golden Gate Park, onde havia combinado de se encontrar com a bela Victoria Brisbane, é atacado por milhares de pássaros, que não só o aterrorizam como enchem de cocô todos os milímetros quadrados de seu terno.

Há uma tomada em que o dr. Thorndyke surge e se aproxima da câmara, a Golden Gate ao fundo – exatamente como uma tomada de Scottie Fergusson-James Stewart em Um Corpo Que Cai.

A chegada de um novo médico para dirigir uma clínica de psiquiatria, obviamente, é uma referência a Quando Fala o Coração/Spellbound, em que o personagem de Gregory Peck, John Ballantyne, chega à clínica em que trabalha a dra. Constance Petersen-Ingrid Bergman após a morte do antigo diretor.

O velho médico de origem alemã, que foi professor da dra. Constance, é substituído aqui pelo engraçadíssimo professor Lillolman (Howard Morris), que foi um dos mestres mais admirados pelo dr. Thorndyke.

E por aí vai.

Fãs de Hitchcock podem fazer torneios entre amigos para ver quem mais consegue identificar citações a filmes do mestre nos 94 minutos de Alta Ansiedade.

Segundo o IMDb, há citações de nada menos de 20 filmes de Hitchcock. Pela ordem cronológica:

O Pensionista (1927),

O Ring (1927),

O Homem que Sabia Demais (1934),

Os 39 Degraus (1935),

Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940),

Suspeita (1941),

A Sombra de uma Dúvida (1943),

Interlúdio (1946),

Quando Fala o Coração (1945),

Sob o Signo de Capricórnio (1949),

Disque M para Matar (1954),

O Homem que Sabia Demais (1956),

O Homem Errado (1956).

Um Corpo que Cai (1958)

Intriga Internacional (1959),

Psicose (1960),

Os Pássaros (1963),

Cortina Rasgada (1966),

Frenesi (1972),

Trama Macabra (1976).

Confesso que não identifiquei os momentos que citam diversos dos filmes da lista aí.

Hitch gostou do filme. Mas fez uma observação

Alfred Hitchcock já havia feito Trama Macabra/Family Plot, de 1976, o último de seus 53 longa-metragens, quando Mel Brooks terminou de fazer este filme que o homenageia.

Ele foi chamado por Brooks para uma exibição privada do filme, antes da estréia – que aconteceu no dia de Natal de 1977. Os relatos são de que o velhinho inglês doido gostou da homenagem. Fez apenas uma observação: na cena do chuveiro de Alta Ansiedade, a cortina de plástico era segura por 13 ganchos, enquanto em Psicose eram 10 ganchos,

Uma observação absolutamente típica de Alfred Hitchcock!

Dias depois, mandou entregar para Brooks uma caixa de vinhos com um cartão que dizia: “Esplêndido! Gostaria de ter feito eu mesmo.”

Algumas informações e curiosidades, a maioria tirada da página de Trívia do IMDb sobre o filme, com pitacos meus, é claro:

* Mel Brooks contratou os serviços do mesmo criador de pássaros que havia trabalhado para Hitchcock nas filmagens de Os Pássaros.

* Era para Gene Wilder, um dos atores preferidos de Brooks, para não dizer o preferido, fazer o papel do dr. Thorndyke. Wilder, no entanto, tinha outros compromissos já agendados, e por isso o próprio diretor assumiu o papel do protagonista da história.

* Lembrando: Gene Wilder trabalhou sob a direção de Brooks em Primavera para Hitler (1967), Banzé no Oeste (1974) e O Jovem Frankenstein (1974).

* Mel Brooks, assim como Ingmar Bergman e Woody Allen, era fiel a um grupo de atores, presentes em diversos de seus filmes. Madeline Kahn foi dirigida por ele em Banzé no Oeste (1974), O Jovem Frankenstein (1974), este Alta Ansiedade aqui e A História do Mundo – Parte 1 (1981),

* A escolha de Albert Whitlock para o papel de Arthur Brisbane, o milionário pai da personagem interpretada por Madeline Kahn, é mais uma homenagem a Hitchcock: Whitlock foi o responsável pelos efeitos especiais de vários filmes do mestre.

Como não gostar de um filme em que a câmara faz piada?

Tanto Leonard Maltin quanto Roger Ebert deram ao filme 2.5 estrelas em 4.

Maltin diz o seguinte: “Afetuosa, bem feita porém irregular paródia dos filmes de Hitchcock com Brooks interpretando um psiquiatra que enfrenta problemas como o novo chefe de um sanatório. Momentos isolados de grande comédia seguram um filme assim assim. O futuro diretor de Rain Man Barry Levinson, que co-escreveu o roteiro, aparece como um mensageiro de hotel hostil.”

Ebert começa seu texto assim: “Um dos problemas de High Anxiety de Mel Brooks é que ele escolheu uma tarefa arriscada: é uma paródia do trabalho de Alfred Hitchcock, mas os filmes de Hitchcock são eles mesmos muitas vezes engraçados. E a sátira funciona bem quando seu alvo é algo que se considera importante.”

E bem mais adiante:

“Brooks se especializou em filmes que são sátiras: Blazing Saddles (Banzé no Oeste), Young Frankenstein e Silent Movie (A Última Loucura de Mel Brooks). Mas eles tinham alvos bem escolhidos. Uma coisa é gozar a seriedade pretensiosa de um western ou um filme de terror. Outra coisa é pegar como tema um diretor de tamanha sofisticação que metade da audiência não vai entender as piadas para público interno das quais a outra metade está rindo.”

É raro, mas às vezes acontece de eu discordar do grande Roger Ebert.

Um detalhe:

Em vários filmes de Hitch, como, por exemplo, em uma maravilhosa tomada de Frenesi, a câmara vai vindo bem de longe até ir se aproximando, se aproximando, se aproximando de uma determinada casa. Em parte é um zoom da lente, é parte é um travelling, a câmara sendo levada para a frente. Pois bem. Há um momento em Alta Ansiedade em que a câmara do diretor de fotografia de Paul Lohmann vai se aproximando, se aproximando, se aproximando de uma janela – até que bate contra o vidro da janela e o estraçalha.

Meu, como não gostar de um filme que tem uma sacada como esta?

Anotação em março de 2021

Alta Ansiedade/High Anxiety

De Mel Brooks, EUA, 1977

Com Mel Brooks (Richard Thorndyke)

e Madeline Kahn (Victoria Brisbane),

Cloris Leachman (enfermeira Diesel),

Harvey Korman (Dr. Montague), Ron Carey (Brophy), Howard Morris (professor Lillolman), Dick Van Patten (Dr. Wentworth), Jack Riley (funcionário), Charlie Callas (o doente que acha que é cocker spaniel), Ron Clark (Zachary Cartwright), Rudy DeLuca (o assassino), Barry Levinson (o mensageiro de hotel), Lee Delano (Norton), Richard Stahl (Dr. Baxter), Darrell Zwerling (Dr. Eckhardt), Murphy Dunne (o pianista do bar), Al Hopson (o homem que é atingido pela bala), Albert J. Whitlock (Arthur Brisbane, o rico pai de Victoria)

Argumento e roteiro Mel Brooks, Ron Clark, Rudy DeLuca, Barry Levinson

Fotografia Paul Lohmann

Música John Morris

Montagem John C. Howard

Direção de arte Peter Wooley

Figurinos Patricia Morris

Produção Mel Brooks, Crossbow Productions. Distribuição 20th Century Fox.

Cor, 94 min

Disponível em DVD.

***

Título na França: Le Grand Frisson.

2 Comentários para “Alta Ansiedade / High Anxiety”

  1. Fui ver o filme (vi aqui que tinha postado High Anxiety e fiquei interessado) e achei divertido. Muito boa resenha, parabéns! Eu detetei poucos filmes de Hitchcock mas diria que a parte do flashback (em que ele vê os pais a discutir) é uma referência a Marnie.

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