Gente que Vai e Volta / Gente que Viene y Bah

Nota: ★★½☆

O adjetivo “previsível” é usado em ao menos dois dos comentários de leitores no IMDb sobre Gente que Vai e Volta, produção espanhola de 2019 que foi distribuída pela Neflix. Claro que é previsível. É uma comedinha romântica, diabo!

Queriam o quê? Mistério, suspense? Reviravoltas mirabolantes? É uma comedinha romântica, uai!

Quando faltavam, sei lá, entre 20 e 15 minutos para o final deste Gente que Viene y Bah, pedi para Mary dar uma parada no filme e cantei o que iria acontecer. Claro que aconteceu exatamente o que cantei. E qual é o problema? É assim mesmo, é assim que tem que ser. Comédia romântica é a coisa mais previsível que existe. É assim mesmo. É uma das características básicas da comédia romântica.

Um outro leitor do IMDb, sujeito – ou sujeita, não dá para saber pelo pseudônimo que usa, litsababis – mal humorado/a, escreveu o seguinte: “Um típico roteiro americano. Deixem Hollywood dirigir esses filmes”.

Ô louco, siô! Quem foi que decretou que só Hollywood pode fazer comedinhas românticas?

Povo chato, meu…

Há boas comédias românticas hollywoodianas, sim, é claro – assim como há boas comédias românticas francesas, inglesas, italianas, mexicanas, argentinas, brasileiras, dinamarquesas, suecas.

Gente que Viene y Bah é uma comedinha romântica gostosa, divertida, bem humorada, que qualquer pessoa de bem com a vida e sem narizinho empinado de quem diz que só gosta de “filme de arte” pode curtir.

Sim, é previsível, obviamente. Tem momentos do mais puro clichê, é bem verdade. Mas, além de ser gostosa, divertida, bem humorada, tem também belas sacadas, situações interessantes, personagens bem construídos – e uma visão da vida e do mundo admirável mesmo, sem preconceitos, aberta, simpática, cheia de carinho pelas pessoas.

Os homens, a rigor, são coadjuvantes na história

É um filme feminino, com um espírito, um ar feminino. Os roteiristas são dois homens, Darío Madrona e Carlos Montero, mas a diretora é uma mulher, Patricia Font, assim como a autora do livro em que o filme se baseia, Laura Norton. A protagonista da história é Bea (o papel de Clara Lago, na foto abaixo), moça aí na faixa de uns 30 anos, e as demais principais personagens são a mãe dela e seus três irmãos – duas delas mulheres.

A mãe, Ángela, é o papel de Carmen Maura, essa grande dama do cinema espanhol – o único nome do elenco que eu conhecia. A irmã mais velha de Bea, Irene (Alexandra Jiménez), é a prefeita da pequena cidade em que a família mora desde sempre; não há menção ao marido dela.

Há pouquíssimas menções ao marido de Ángela, o pai das três mulheres e um homem. Era um marinheiro, que passava a maior parte do ano no mar – e, na época em que rola a imensa maior parte da ação, ele simplesmente não existe. Já deveria estar morto, provavelmente, mas isso sequer é mencionado (a não ser que eu esteja enganado).

A irmã mais jovem de Bea, Débora, uma moça um tanto atrapalhada na vida, tem um filho bebê, e vive muito bem com o marido Juan (Eduardo Ferrés). Juan é uma boa pessoa, dá para o espectador perceber, mas a rigor ele é um coadjuvante na história toda.

Bea tem um namorado firme, Victor (Fernando Guallar), colega dela no grande escritório de arquitetura em que trabalham em Barcelona. E depois surgirá um outro homem na vida dela, Diego (Álex García), um jovem viúvo de uma mulher de família muito rica. São, ambos, boas pessoas, tanto Victor quanto Diego, e têm importância na história, claro – mas, a rigor, a rigor, a rigor mesmo, são coadjuvantes.

Quem manda na história são Bea, sua mãe Ãngela e suas irmãs Irene e Déborah.

O namorado de Bea aparece na TV beijando outra

Gente que Viene y Bah tem um intróito, um prólogo. Ficamos conhecendo Ángela e suas três filhas – e vemos a chegada do caçula, o primeiro filho homem.

Nesse intróito, a Ángela jovem, aí dos 35 anos, é interpretada por Eva Ugarte. Irene, a filha mais velha, que parece ter uns 15 anos, é o papel de Júlia Gibert; Carla Pujol faz Débora garota, e Carla Castañé faz Bea, que funciona como a narradora da história. Ela vai nos falando sobre sua família, sobre as coisas de que gosta – e, enquanto isso, vão rolando os créditos iniciais.

Desde o início da adolescência, Bea gostava de construir casas de boneca, casas de madeira – e aí, numa bela sacada de montagem, a câmara faz um close-up de seu rosto, corta e vemos Bea adulta, interpretada por Clara Lago.

Havia saído da pequena cidade onde crescera, havia se radicado na metrópole. É interessante, mas o filme, que tem entre os financiadores tanto o governo federal da Espanha quanto do governo regional da Catalunha, não faz referência explícita a Barcelona, a metrópole catalã.

Bem rapidamente, o roteiro de Darío Madrona e Carlos Montero chega ao primeiro grande fato da trama, o fato que desencadeia a sequência de eventos que veremos ao longo do filme.

É assim: num bar com o namorado Victor e a grande amiga do escritório de arquitetura, Bea, um tanto bebinha, vê que está ali também Rebeca Ramos (Marta Belmonte), uma famosa, badalada, bela repórter de TV, de quem Victor era declaradamente fã. Na alegria de quem está bebinha, aproxima-se de Rebeca, diz que seu namorado é fá declarado dela, e chama Vitor para fazer a apresentação dos dois.

No dia seguinte, Bea acorda tarde, de ressaca horrorosa. Chega tarde ao trabalho, sem ter visto o que todo mundo no escritório já havia visto: um programa da TV havia mostrado a famosa e badalada Rebeca Ramos num amasso bem amassado com um jovem arquiteto.

Bea faz um gigantesco, fantástico papelão no momento da apresentação de um projeto do escritório para uma rede hoteleira, estapeia Victor no meio da apresentação – e, além de perder o namorado, perde também o emprego.

Sem ter para onde ir – ela vinha morando no apartamento do namorado –, faz uma mala gigantesca e vai para a cidade natal. De volta para a casa da mãe.

Quer tentar botar a cabeça no lugar, se reencontrar, saber o que fazer da vida. Todos na família – e na cidadezinha – só falam da história da moça que foi traída pelo namorado com a famosa repórter de TV.

Até que, quando o filme de 97 minutos de duração está com 25, Ángela, a mãe – na pele dessa maravilhosa Carmen Maura – anuncia que tem apenas um ano de vida.

Um gostoso tom anti-caretice, anti-preconceitos

A trama que vem a seguir tem coisas previsíveis, é óbvio, é claro: Gente que Viene e Bah tem momentos de drama familiar sério, mas é basicamente uma comedinha romântica. Tem também, no entanto, interessantes sacadas, rolos, complicações. Tem espaço para situações bem engraçadas, outras que dá para o espectador pensar, ponderar sobre a vida o amor a morte.

Tem um gostoso tom anti-caretice, anti-preconceitos, anti-forma mesquinha de ver a vida. Para simplificar: não é um filme indicado para bolsonaristas, trumpistas, reacionários de qualquer quilate.

Vejo que Laura Norton é um pseudônimo de uma escritora espanhola que, aparentemente, não quer ter sua identidade revelada – à maneira da italiana Elena Ferrante. Ela estreou em 2014 com um romance chamado No culpes al karma de lo que te pasa por gilipollas, que virou filme em 2016, com o mesmo título original – no Brasil, A Culpa Não é do Carma.

Gente que viene y ¡bah! – assim, com o ponto de exclamação antes e depois, como se usa em Espanhol – foi o segundo romance da moça, lançado em 2015. E em 2017 ela lançou seu terceiro, Ante todo, mucho karma, em que retoma os personagens do primeiro.

Este foi o primeiro longa-metragem dirigido por Patricia Font, uma jovem nascida em 1978 que, antes, havia dirigido apenas dois curta-metragens e episódios de duas séries de TV. Acho que é um nome para se guardar.

Então é isto: não é um grande filme, nem de longe pretende ser. É uma comedinha romântica agradável, gostosa – com pitadas de boas observações sobre a vida, e um tom deliciosamente anti-caretice.

Anotação em janeiro de 2021

Gente que Vai e Volta/Gente que Viene y Bah

De Patricia Font, Espanha, 2019

Com Clara Lago (Bea),

Carmen Maura (Ángela, a mãe),

Alexandra Jiménez (Irene, a irmã mais velha), Paula Malia (Débora, a irmã mais nova), Carlos Cuevas (León, o irmão caçula), Álex García (Diego, o jovem viúvo ricaço), Fernando Guallar (Víctor, o namorado de Bea), Eduardo Ferrés (Juan, o marido de Débora), Marta Belmonte (Rebeca Ramos, a repórter famosa da TV), Núria Gago (Chavela), Ferran Vilajosana (Manel, o policial), León Martínez (Fin, o filho de Irene), Sergio Dorado (Teodoro), Joaquín Gómez (Julián), Eva Ugarte (Ángela Joven), Carla Castañé (Bea garota), Júlia Gibert (Irene garota), Carla Pujol (Débora garota), Víctor Vidal (o marido de Ángela), Lluís Altés (o chefe do escritório de arquitetura), Nerea Mendía (a moça da bar da estação), Julio Alonso (o sogro de Diego), Pepi Molla (a sogra de Diego)

Roteiro Darío Madrona e Carlos Montero  

Baseado no romance de Laura Norton

Fotografia David Valldepérez

Música Arnau Bataller

Montagem Liana Artigal

Casting Ana Sainz-Trápaga e Patricia Álvarez de Miranda

Direção de arte Sylvia Steinbrecht

Produção Atresmedia Cine, Generalitat de Catalunya,

Instituto de la Cinematografía y de las Artes Audiovisuales (ICAA), Mogambo, Netflix

Cor, 97 min (1h37)

Disponível na Netflix em janeiro e 2021

**1/2

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