Quem Vai Ficar com Mário?

Nota: ★★½☆

(Disponível no Prime Vídeo em julho de 2021.)

Como não gostar de uma comédia “com energia positiva, enredo alto astral”, contra a homofobia?

No site Estação Nerd, Tabatha Oliveira escreveu: “O filme traz uma energia positiva, com um enredo alto astral, tratando de temas importantes como homofobia, machismo e representatividade LGBTQIA+ de uma forma leve, didática e divertida.”

Janda Montenegro, do site Cine Pop, escreveu: “O legal de Quem Vai Ficar com Mário? é a forma como o filme aponta como a homofobia e o preconceito são culturalmente passados em nossa sociedade – não à toa, o longa é situado na região Sul do país, tão preocupada em passar uma aparência de macheza. (…) Quem Vai Ficar com Mário? é uma deliciosa comédia romântica para todos os gêneros.”

Quem Vai Ficar com Mário?, lançado em 2021, tem sido bem recebido – e tem várias qualidades. A principal, claro, é a postura anti-homofóbica, pró-liberdade de opção sexual, qualquer maneira de amor vale a pena, como dizem Milton e Caetano em “Paula e Bebeto”. Mas há várias outras. Nos quesitos técnicos, é um bom filme: fotografia impecável, direção de arte bem correta, algumas sacadas espertas com a câmara. Os atores estão bem, na maior parte do tempo.

Me pareceu que o diretor Hsu Chien tem talento, tem futuro. Nunca tinha ouvido falar dele. Nasceu em Taiwan, em 1967, e é profissional experiente. Há 67 títulos em que ele trabalhou como assistente de direção e/ou diretor de segunda unidade – e alguns deles são filmes dirigidos por nomes importantíssimos, como Tizuka Yamasaki, Murilo Salles, Daniel FIlho, Paulo Cesar Sarraceni, Oswaldo Caldeira.

Hsu Chien dirigiu mais de uma dúzia de curtas e, em 2019, co-dirigiu, com Miguel Falabella, Veneza, drama-comédia com Dira Paes e a almodovariana Carmen Maura. Este aqui é seu segundo longa-metragem solo, depois de Ninguém Entra, Ninguém Sai, uma comédia romântica.

O roteiro é assinado a seis mãos, por Stella Miranda, Luís Salém e Rafael Campos Rocha. Paulista, Stella é atriz e diretora veterana, experiente. Luís Salém, carioca, também experiente, é ator, humorista, autor e professor de interpretação. Rafael, o mais jovem do trio, que está aí na faixa dos 50 anos, atua em diversas áreas – é professor de história da arte, cenógrafo, artista plástico, cartunista e ilustrador e escritor.

Um título que cita um filme e um especial de TV

É muito interessante ver que os realizadores não pretenderam, de forma alguma, ser originais. Demonstram isso a partir do título que escolheram para o filme: Quem Vai Ficar com Mário? parece, evidentemente, uma citação de Quem Vai Ficar com Mary?, o título que os exibidores brasileiros escolheram para There’s Something About Mary, a comédia romântica de 1998 dos irmãos Peter e Bobby Farrelly, com Cameron Diaz, Matt Dillon e Ben Stiller que fez grande sucesso.

O título é também uma citação clara de Quem Vai Ficar com Mário?, o especial de fim de ano da Rede Globo que teve duas partes, uma nas vésperas do Natal de 2004 e a outra, a continuação, em dezembro de 2005. Aquele Quem Vai Ficar com Mário? em duas partes teve direção geral de Jorge Fernando e um grande elenco de astros e estrelas globais, com Thiago Lacerda no papel principal.

O papel principal aqui, o Mário do título, é de Daniel Rocha, o ator dos sucessos globais Avenida Brasil, Império, Totalmente Demais, A Lei do Amor.

Ele aparece já na primeira sequência do filme, em que rolam, calmamente, os créditos iniciais – e é uma primeira sequência muitíssimo bem realizada, de grande beleza visual, fotografia e coreografia excelentes. Estamos num belo cabaré, night club, boate, em que se apresentam dois rapazes e uma mulher, Kiko, Xande e Lana de Holanda (os papéis, respectivamente, de Victor Maia, Nando Brandão e Nany People, esta na foto na abaixo). Veremos que Kiko e Xande são homossexuais assumidérrimos, cheios de trejeitos, o que antes do politicamente correto a gente podia chamar de viados sem que nos chamassem de homofóbicos; Lana é uma drag – parece trans, mas não é bem trans, porque lá pelas tantas será dito, e depois repetido, que ela carrega um troço, e grande, entre as pernas.

É um show em Porto Alegre de uma trupe do Rio de Janeiro. Ao final do número musical, o diretor do espetáculo, Fernando (Felipe Abib, na foto abaixo, à esquerda), entra no palco, faz um rápido discurso e pede para que se junte a eles o autor, Mário – e, quando Mário sobe ao palco, Fernando tasca-lhe um beijo na boca.

São namorados já há quatro anos, o diretor de teatro Fernando e o escritor Mário. Mas Mário ainda não saiu do armário.

Fernando, e também Lana de Holanda, Kiko e Xande, todos incentivam Mário a visitar sua cidade, no interior do Rio Grande do Sul, e afinal de contas anunciar à sua família a sua opção sexual, as escolhas que fez na vida – inclusive o fato de não estar fazendo MBA na área de administração de empresas coisa nenhuma, e sim estar escrevendo roteiros de espetáculos teatrais e um romance que está pelo meio.

Mário se prepara para anunciar que é gay

Mário então embarca para sua cidade – cujo nome não é dito hora alguma, o jeito mais inteligente de dizer que poderia ser qualquer cidade gaúcha de porte médio. Não necessariamente Bagé, a terra do analista machão criado por Luis Fernando Verissimo, nem necessariamente Pelotas, a terra que – dizem os machistas homofóbicos e também personalidades públicas como aquele nordestino de Garanhuns que foi presidente da República – é cheia de viados.

Sua intenção é sair do armário, contar toda a verdade para o pai, o severo, rígido, conservador e escancaradamente homofóbico Antônio Brüderlich (José Victor Castiel), dono da cervejaria Brüderlich, uma tradição ali da região.

Claro que, como dizem Ruy Guerra e Chico Buarque, há imensa distância entre intenção e gesto. E é compreensível que Mário precise de muita coragem para fazer as revelações para o pai. O Brüderlich patriarca, além de toda sua severidade, macheza, homofobia, contava com a experiência do filho formado e pós-graduado em administração de empresas para assumir a direção da cervejaria, que vinha sendo tocada pelo filho primogênito mas não predileto, Vicente (Rômulo Arantes Neto).

Mesmo antes de saber da visita do irmão, Vicente havia contratado uma especialista de São Paulo, uma coach, que viria para a cidade gaúcha para ajudar a impulsionar os negócios da cervejaria, modernizar, expandir.

Coincide então que vai haver um almoço festivo, especial, na grande casa dos Brüderlich, com a presença da recém-chegada coach, uma jovem bonita, atraente, Ana Melo (Letícia Lima, nas fotos abaixo), e do também recém-chegado filho pródigo, Mário.

Antes do almoço, Mário conversa com o irmão Vicente. E antecipa para ele que, durante o almoço, irá anunciar três coisas. Não está cursando MBA no Rio de Janeiro, nestes últimos anos. Está escrevendo para o teatro e preparando um romance; quer ser escritor na vida, não quer trabalhar na empresa familiar. E é gay, homossexual, veado.

Ah, mas eu já vi este filme!

A trama recria a do filme O Primeiro Que Disse

Claro que já vi este filme, falei com Mary – creio que até um pouco antes dessa sequência da conversa entre os irmãos Mário e Vicente, antes do almoço festivo mas formal que seria realizado dali a pouco.

Mine Vacanti, no original italiano. O Primeiro Que Disse – esse foi o título no Brasil para o filme de 2010 de Ferzan Ozpetek, o autor também dos belos Um Amor Quase Perfeito/Le Fate Ignoranti, de 2001, e A Janela de Frente/La Finestra di Fronte, de 2003.

“Mais um belo filme do diretor Ferzan Ozpetek, o terceiro que vejo dele”, escrevi sobre O Primeiro Que Disse/Mine Vacanti. “Uma sensível mistura de comédia e drama, uma história de vida em família, homossexualidade, as escolhas que se fazem, os segredos que se escondem, a eterna lição de que é preciso lutar pelas coisas que se quer.”

Contei os fatos básicos da história:

“O chefe da família (estamos no Sul da Itália, sociedade machista) é Vincenzo (Ennio Fantastichini). Vincenzo dirige a fábrica de massas que havia sido criada por sua mãe e por seu tio Nicola (Giorgio Marchesi). Ele e a mulher Stefania (Lunetta Savino) têm dois filhos: o mais velho é Antonio (Alessandro Preziosi), que toca a fábrica no dia-a-dia. O mais novo é Tommaso (Riccardo Scamarcio), que está chegando de uma longa temporada em Roma quando a ação começa. A família vive em Lecce, bem no Sul da Itália.

“Antonio e Tommaso têm ainda uma irmã, Elena (Bianca Nappi), casada com Salvatore (Massimiliano Gallo). Numa conversa com Antonio, o irmão mais velho, Tommaso revela três segredos. O primeiro: em Roma, ao contrário do que fez crer à família, não cursou Administração, e sim Letras. O segundo: não quer saber de administrar a fábrica de massas da família, não quer saber de nada daquilo; quer ser escritor. Já escreveu um romance, que enviou para uma editora, e está aguardando a resposta deles. E o terceiro: é gay.”

Vários detalhes deixam claro que é uma refilmagem

Os realizadores de Quem Vai Ficar com Mário? não escondem que a história que contam repete muito da trama criada por Ivan Cotroneo e Ferzan Ozpetek diretamente para o filme O Primeiro Que Disse/Mine Vacanti. Não há qualquer tipo de desonestidade aqui. Assim que a narrativa termina e começam a rolar os créditos finais, está lá, com todas as letras: “Baseada na obra original ‘Mine Vaganti’ de Fernzan Ozpeteck” – e acrescenta: “Argumento adaptado Aluizio Abranches e Fernando São Thiago”.

Acho especialmente interessante que os realizadores fizeram questão de usar nomes do filme original. Antonio é o nome do filho mais velho no filme italiano, e do pai aqui. Vincenzo é o nome do patriarca italiano, e Vicente é o nome do primogênito aqui.

Tanto no original quanto no filme brasileiro, a família é composta por dois irmãos e uma irmã. No filme italiano, a irmã se chama Elena, e é interpretada por Bianca Nappi; o marido dela se chama Salvatore. Na refilmagem brasileira, a irmã de Mário e Vicente se chama Bianca, e o marido dela, Salvador.

Uma fantástica, deliberada opção por mostrar que é uma refilmagem.

A excelente atriz-cantora se chama Lana de Holanda. Eu seria capaz de apostar que a escolha tem a ver com a Ana de Amsterdã de Calabar, a peça de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra.

No filme original, há a presença forte da mãe do chefe da família, Vincenzo. No brasileiro, existe também a mãe de Antõnio Brüderlich – mas é um erro de casting terrível, porque a atriz que interpreta a mãe parece ter a mesma idade do filho.

No filme italiano, há uma mulher jovem, de caráter forte, poderoso, que irrompe na vida da família Cantone. Os Cantone se associam a uma família rica, os Brunetti, para ter uma injeção de capital e fazer crescer a fábrica de massas. A filha do comendador Brunetti, Alba, é uma mulher forte, determinada, absolutamente segura de si, e acaba tomando as rédeas do negócio.

No filme brasileiro, a mulher forte, determinada, é Ana, a coach contratada pelo irmão mais velho de Mário que chega à cidade gaúcha no mesmo dia que ele.

E aqui os realizadores inovaram. Introduziram um ponto – importantíssimo – que não está no original italiano: o gay Mário sente, de imediato, uma forte atração pela moça. E vai descobrir as maravilhas da bissexualidade.

(Não que isso seja propriamente original; uma comédia alemã recente, cujo nome infelizmente não me lembro, tem também essa história de um gay assumidérrimo se engraçar por uma mulher.)

Depois da metade, um monte de baixarias

Ali pela metade dos 111 minutos de Quem Vai Ficar com Mário? acontece de Fernando, o namorado do protagonista, ficar com ciúme de Ana – e então, de repente, ele desembarca na cidade gaúcha. E atrás dele vem o trio de atores da trupe, a drag Lana e os gays Xande e Kiko.

Aí o filme, infelizmente, cai, durante algum tempo, numa baixaria horrorosa – aquele tipo de humor mais grosseiro, rasteiro, pobre, com um monte de piada besta sobre gostar de linguiça, salsichão, esse tipo de coisa.

Um absoluto horror.

E uma pena, porque o filme de fato tem várias qualidades, como falei lá no início deste texto.

E, afinal, defende tudo o que é certo: que qualquer maneira de amor vale a pena, que todas as opções sexuais são boas, corretas, que o machismo, a homofobia, a caretice são tudo o que pode haver de ruim.

E que as mulheres – ali estão Ana e, ao fim da narrativa, também Bianca, a irmã de Mário, para provar – têm absolutamente todos os mesmos direitos que os homens, e são tão competentes quanto eles em tudo o que resolveram fazer.

Como não gostar de um filme que diz isso?

Anotação em julho de 2021

Quem Vai Ficar Com Mário?

De Hsu Chien Hsin, Brasil, 2021.

Com Daniel Rocha (Mário Brüderlich), Felipe Abib (Fernando, o namorado de Mário), Letícia Lima (Ana Melo, a coach contratada por Vicente), Rômulo Arantes Neto (Vicente Brüderlich, o irmão de Mário), Elisa Pinheiro (Bianca, a irmã de Mário), José Victor Castiel (Antônio Brüderlich, o pai), Nany People (Lana de Holanda, a atriz-cantora-dançarina trans), Victor Maia (Kiko, ator-cantor-dançarino), Nando Brandão (Xande, ator-cantor-dançarino), Alice Borges (Janaína, a empregada dos Brüderlich), Marcos Breda (Salvador, o marido de Bianca), Nicole Meire (Camilinha, a filha de Bianca e Salvador), Luís Távora (Bellboy)

Roteiro Stella Miranda, Luís Salém, Rafael Campos Rocha

Inspirado no filme “O Primeiro Que Disse/Mine Vaganti”, roteiro original de Ivan Cotroneo e Ferzan Ozpetek

Adaptação de argumento Aluízio Abranches e Fernando São Thiago

Fotografia Kika Cunha

Música Plínio Profeta

Montagem Leonardo Gouvea

Coreografia Victor Maia

Casting Cibele Santa Cruz

Direção de arte Valéria Costa

Figurinos Pilar Salgado

Produção Virgínia Limberger, Sincrocine, Tietê Produções, Downtown Filmes. Distribuição Paris Filmes, Warner.

Cor, 111 min (1h51)

**1/2

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