Vovó Saiu do Armário / Salir del Ropero

Nota: ½☆☆☆

(Disponível na Netflix em 10/2021.)

A intenção é a melhor do mundo. Não que seja nova, ousada, mas é a melhor do mundo: afirmar que toda maneira de amor vale a pena, no amor vale tudo, homem com mulher, homem com homem, mulher com mulher, o que aparecer. Porque, diabo, gente é pra brilhar e ser feliz, não pra morrer de fome.

No primeiro longa-metragem da jovem espanhola Ángeles Reiné, Vovó Saiu do Armário (2019), Sofia e Celia, duas senhorinhas na plenitude da terceira idade, resolvem se casar – e, cacete, por que não?

Defender o direito de duas mulheres se casar, seja de que idade forem, é uma beleza. Defender esses princípios básicos é sempre bom – mesmo que isso não seja novo. Não importa que a moral da história já tenha sido cantada em prosa e verso como nas canções citadas aí em cima, de Caetano Veloso a Tim Maia, entre tantas outras. Não importa que as espanholas Elisa e Marcela já tenham tentado se casar há mais de um século, como mostra o drama baseado em história real Elisa & Marcela, de Isabel Coixet, de 2019. Não importa que outra comédia, também espanhola, Minha Mãe Gosta de Mulher/A Mi Madre le Gustan las Mujeres, de Daniela Féjerman e Inês Paris, de 2002, já tenha feito as pessoas rirem com as piadas que surgem quando, para total surpresa da família, personagens femininas resolvem sair do armário depois de maduras.

Defender bons princípios é coisa que não cansa. Muito ao contrário. Quanto mais filmes afirmando que toda maneira de amor vale a pena, melhor. Que sejam bem-vindos sempre, como, só para dar dois exemplos  recentes, o brasileiro Quem Vai Ficar com Mário? (2021) e o americano Festa de Formatura/The Prom (2020).

O problema é que este Vovó Saiu do Armário/Salir del Ropero é um filme ruim. E não é pouco ruim, não. É péssimo. É um horror.

Celia e Sofia resolvem oficializar sua união

A diretora Ángeles Reiné é jovem e bonita. Dá para saber disso pelas fotos disponíveis na internet, mas não se fica sabendo quando ela nasceu; é do tipo que não divulga data do nascimento. A biografia em sua página da internet conta que nasceu em Cádiz, em 1992 estudou na London Film School e em 2010 mudou-se para Los Angeles, onde escreveu, dirigiu e produziu dois curta-metragens, Way of Love e Ready to Talk.

Dirigiu dois episódios de uma série de TV, Doctor Mateo, em 2009 – e estreou no longa-metragem com este Salir del Ropero – história criada por ela, roteiro escrito por ela.

A história que ela bolou é daquelas que têm um grande número de personagens. Os mais importantes são três mulheres – o casal Celia e Sofia e Eva, a jovem neta de Sofia.

Celia é o papel de Rosa Maria Sardà (à esquerda na foto acima), a única pessoa do elenco que eu conhecia – por coincidência, ou não, a atriz que interpretou a mãe que, já bem na maturidade, descobriu que gosta de mulheres na deliciosa comédia A Mi Madre le Gustan las Mujeres, feita 17 anos antes desta aqui. Rosa Maria, quase cem títulos na filmografia, entre eles o ótimo Anita Não Perde a Chance (2001), de Ventura Pons, e Tudo Sobre Minha Mãe, o Pedro Almodóvar de 1999, morreria alguns meses após as filmagens deste Vovó Saiu do Armário, em 11 de junho de 2020.

Sofia é o papel Verónica Forqué, ela também veterana, também beirando a centena de títulos na filmografia, que inclui também dois Almodóvar – Matador, de 1986, e Kika, de 1993.

E a atriz que faz Eva se chama Ingrid Garcia Jonsson (na foto abaixo); nasceu na Suécia, cresceu na Espanha, começou a carreira em 2011, com 20 aninhos – e, ao longo destes últimos dez anos, botou seu nome em 60 títulos, entre filmes e séries.

Celia e Sofia, um casal. Eva, neta de Sofia.

Eva está noiva, prestes a casar, e é com um escocês de uma família riquíssima – tão milionária quanto tradicional, careta, de direita furibunda. O rapaz, Stuart (Leander Vyvey), parece só bobo, tadinho, e a mãe dele, Camila (Liz Lobato), parece boba e bem perua – mas o pai, Sebastian McDonald (Tony Madigan), este é um perigo para a humanidade. É pró-Brexit, pró-Trump e absolutamente, furiosamente contra qualquer coisa que tenha a ver com homossexualidade.

Assim que fica sabendo dessa característica do futuro sogro, Eva recebe a notícia de que a avó que a criou e que ela adora está para se casar, oficialmente, com a mulher com quem vive há anos, Celia.

As duas, Sofia e Celia, já vivem juntas em uma bela casa com uma vista espetacular, maravilhosa, para o mar, em Lançarote, uma das Ilhas Canárias – e o fato de serem duas amigas viúvas que vivem na mesma casa jamais havia despertado falatório, problema. Mas, depois de anos e anos, depois de velhas, Sofia e Celia haviam decidido sair do armário, assumir o amor – e se casar. E não só no civil: Celia havia entendido, pelas falas progressistas do progressista Papa Francisco, que ela chama com a maior naturalidade de Papa Paco, como se fossem bem íntimos, que a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana estava para admitir oficialmente o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Diante da perspectiva de o casamento da avó atrapalhar o seu próprio, Eva viaja para ver a avó – e tentar fazer com que ela deixasse de lado aquela idéia besta de oficializar a união com Celia.

Em torno dessas três mulheres, há um monte de outros personagens, como, por exemplo, Jorge (David Verdaguer,  na foto abaixo), o filho de Celia, que também reaparece na casa das duas senhoras após muitos anos fora, e Perla, a sobrinha de Sofia que é doidinha de tudo. E mais Said (Pol Monen), meio-irmão de Eva, que havia se convertido ao islamismo e mudado de nome para se casar com Salima (Maria Caballero), que parece 200 mil vezes mais pra-frentex e descolada do que a própria Eva. E, claro, Natasha (Mónica López), a mãe de Eva e de Said, uma atriz performática que tivera a filha ainda adolescente, a deixara para ser criada pela avó e sumira no mundo.

Os atores estão péssimos. E o filme não tem graça

E então é isso. Um casal de senhorinhas que vivia feliz até que a neta de uma e o filho da outra resolveram baixar lá para tentar demovê-las da idéia de oficializarem a união.

Há duas questões gravíssimas. A primeira: os atores, das veteranas Rosa Maria Sardà e Verónica Forqué, até os jovens Ingrid García Jonsson e David Verdaguer, passando por todos, absolutamente todos os demais, estão péssimos.

Mas não é que estejam péssimos assim como, vamos dizer… Victor Mature, tido como um dos maiores canastrões da História do Cinema.

Não, não, não. Comparado com qualquer um dos atores neste Salir del Ropero da jovem diretora Ángeles Reiné, Victor Mature é um Laurence Olivier, um Max Von Sydow, um Anthony Hopkins, um Daniel Day-Lewis.

Os atores todos estão pavorosamente, tetricamente, assustadoramente, inacreditavelmente horrorosos.

Ed Wood, o cara que passou para a História como o pior diretor de todos os tempos, teria vergonha de ter atuações daquelas em seus filmes.

Com aquelas atuações, esse povo não seria aceito nem para trabalhar na Escolinha do Professor Raimundo. Nem nos circos mambembes em que atuava, no interior de São Paulo, Rio e Minas, no final dos anos 40, o jovem Amácio Mazzaropi.

Ah, sim, a segunda questão gravíssima.

A segunda questão é que esta comédia não tem graça.

Vou dizer: eu adoro comédia. Sou do tipo que ri de tudo.

Devo ter dado umas três risadinhas, ao longo dos 94 minutos de duração deste filme – que, claro, custam demais a passar.

Os atores são tão ruins, é tudo tão grotescamente horroroso que não dá pra rir.

Então por que eu simplesmente desliguei quando, com cinco minutos de filme, já dava pra ver que aquilo era um danado de um abacaxi?

Sei lá. Quis ver até onde ia. E aí, já tendo investido nele algum tempinho, veio aquela coisa pragmática: eu tenho um site de filmes, cacete, então vamos ver até o fim pra poder escrever sobre ele.

E chega, né? Já perdi muito tempo com essa porcaria. Só queria registrar que não estou sozinho. No site chamado Esquina da Cultura, Matheus Mans escreveu: “Vovó Saiu do Armário já é um dos piores filmes da Netflix em 2021”.

Matheus Mans começa seu texto assim:

“Que bobagem mais sem graça é esse Vovó Saiu do Armário, longa-metragem de coprodução espanhola e portuguesa da Netflix.. Dirigido e roteirizado por Ángeles Reiné (Ready to Talk), o filme é uma vergonha alheia atrás da outra, um absurdo atrás do outro: a temática LGBTQ+ não é respeitada em momento algum, as piadas são sem graça e a técnica é fraca.”

É bom não falar mal de um filme sozinho.

Mas me sinto na obrigação de fazer dois registros:

O filme não é apenas espanhol, e sim uma co-produção Espanha-Portugal. E, na abertura, há uma sequência de tomadas aéreas do Porto, a segunda maior cidade portuguesa, que é belíssima, de tirar o fôlego.

O segundo registro tem a ver com esse primeiro. A fotografia do filme é muito, mas muito competente. O diretor de fotografia José Luis Alcaine usa e abusa daqueles super plongées, as tomadas aéreas feitas com a câmara em drones bem no alto, voltadas diretamente para baixo. Belas, muito belas tomadas. A única coisa que presta nesta porcaria.

Anotação em outubro de 2021

Vovó Saiu do Armário/Salir del Ropero

De Ángeles Reiné, Espanha-Portugal, 2019

Com Rosa Maria Sardà (Celia), Verónica Forqué (Sofía), Ingrid García Jonsson (Eva, a neta de Sofia), David Verdaguer (Jorge, o filho de Celia), Candela Peña (Perla, a sobrinha de Sofia), Mónica López (Natasha, a filha de Sofia, mãe de Eva), Pol Monen (Said, o filho de Natasha, meio-irmão de Eva), Maria Caballero (Salima, a mulher de Said), Alex O’Dogherty (Bienvenido, o padre do lugar), Leander Vyvey (Stuart MacDonald, o escocês noivo de Eva), Liz Lobato (Camila McDonald, a mãe de Stuart), Tony Madigan (Sebastian McDonald, o pai de Stuart), Marta Martín (Susana, a repórter da TV), Griselda Ponce (Olvido), Malcolm Treviño-Sitté (Tom), Estela Perdomo (a neuriologista), Alejandro Casaseca (Benito), Jacobo Cáceres (Olvido, o cameraman), George Michael Leggett (o mordomo dos McDonald), Thi Thanh Loan Ho (camareira), César Matallana Manrique (o primo de Camila)

Fotografia José Luis Alcaine   

Música Lucas Vidal

Montagem Teresa Font 

Direção de arte Natalia Llopis 

Figurinos Ana López Cobos

Produção Andrés Santana, Airam Films, Salir del Ropero, Take 2000, Televisión Española (TVE), Yaiza Films.

Cor, 94 min (1h34)

½

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