Atlantic City

Nota: ★★★★

(Disponível em DVD.)

Atlantic City é um dos mais belos e mais tristes filmes sobre os excluídos do Sonho Americano. Poucas vezes o cinema mostrou um encontro de duas pessoas tão apavorantemente infelizes quanto esse Lou de Burt Lancaster já velho e essa Sally de Susan Sarandon jovem e lindíssima.

Meu Deus, que personagens – e que interpretações!

Lançado em 1980, foi o segundo filme consecutivo de Louis Malle nos Estados Unidos, após Menina Bonita/Pretty Baby, de 1978, outro drama sobre tema pesado, a prostituição na Nova Orleans do início do século XX. Diferentemente do anterior, que foi uma produção dos Estados Unidos, este Atlantic City foi bancado por empresas da França e do Canadá.

Apesar de ser um drama denso, pesado – ou quem sabe também por isso mesmo –, Atlantic City foi um grande sucesso de público e crítica. Teve cinco indicações ao Oscar, nas categorias de melhor filme, melhor diretor para Louis Malle, melhor ator para Burt Lancaster, melhor atriz para Susan Sarandon e melhor roteiro original, escrito diretamente para o cinema, para John Guare.

Ao Bafta, o maior prêmio britânico, teve quatro indicações, como melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro e melhor ator. Louis Malle e Burt Lancaster levaram os troféus. No total, foram 25 prêmios, fora outras 22 indicações.

No site agregador de opiniões Rotten Tomatoes, o filme tem a fantástica aprovação de 100% das 37 críticas recolhidas. E tem 77% da aprovação dos leitores, um belo número. Semelhante ao que obtém entre os leitores do IMDb, o mais enciclopédico site sobre filmes que existe: 7,3 de média da votação de 17 mil leitores.

Uma abertura soberba: uma mulher, um voyeur

Lou e Sally, os dois personagens centrais da bela história criada por John Guare, moram no mesmo prédio – um edifício de apartamentos decadente na cidade que havia sido muito rica e, após um período de imensa decadência, começava a renascer, com a recente legalização do jogo.

(Os eleitores do Estado de Nova Jersey aprovaram a legalização do jogo e a instalação de cassinos na cidade em 1976; mais adiante, registro informações básicas sobre Atlantic City.)

A primeira sequência do filme é maravilhosa, impressionante, soberba.

A primeira tomada é um close-up de limões sendo cortados. A segunda é também um close-up – a mão feminina que cortava os limões agora aperta o play de um rádio-gravador, e ouvimos a voz de uma cantora lírica. Claro que o espectador não precisa saber disso, mas a voz é de Elizabeth Harwood, acompanhada pela London Philharmonic, cantando “Casta Diva”, da ópera Norma, de Vincenzo Bellini, libretto de Felice Romani. Mais tarde o personagem interpretado por Michel Piccoli vai se referir a essa ópera.

A terceira tomada é um close-up de Susan Sarandon, diante da pia da cozinha de seu apartamento, sem blusa, usando apenas um sutiã, espremendo os limões na mão e passando o suco em sua pele, os braços, os ombros, os seios.

Muito suavemente, a câmara do diretor de fotografia Richard Ciupka vai fazendo um zoom para trás, vai se distanciando um pouco do rosto de Sally-Susan Sarandon, até vermos que, do apartamento ao lado, de luzes apagadas, um homem observa cada movimento da bela mulher.

Vemos Lou-Burt Lancaster, o voyeur, o que fica observando a bela vizinha, sem ser visto, sem ser notado.

Corta, e há uma sequência que parece não ter a ver com aquela primeira. Um rapaz observa uma daquelas cabines telefônicas de vidro numa calçada; um homem entra, finge que dá um telefonema, e rapidamente coloca alguma coisa acima da altura da cabeça das pessoas, num ponto no alto da cabine.

Quando o sujeito sai da cabine, o rapaz vai até lá, finge fazer uma ligação, tateia o alto da cabine, encontra o que acabara de ser deixado ali e sai muito depressa levando o pacote com uma boa quantidade de cocaína – que, fica bem evidente, não havia sido deixada ali para ele.

Logo depois o traficante a quem o pacote era endereçado chega àquela cabine telefônica, procura, procura, procura pelo pacote – e fica a absolutamente furioso.

         De repente, ele confessa: – “Eu observo você”

Isso aí acima é a abertura do filme. Quando estamos com 67 dos 104 minutos de grande cinema, e os dois já se conheceram, em boa parte graças ao dinheiro que Lou obteve com a venda daquela cocaína do pacote deixado em uma cabine telefônica da Filadélfia, ele conta para Sally: – “Eu observo você”.

Sally faz um “Ahn?” de quem não entendeu o que ele quis dizer.

Lou: – “No lugar em que nós moramos. Eu observo você.”

Sally: – “Pela minha janela?”

Lou: – “Você me viu?”

Sally: – “Eu imaginei que talvez houvesse alguém.”

Lou: – “Você sabia que era eu?”

Sally: – “Você era apenas o cara do meu andar.”

Lou: – “Por que você usa limões?”

O espectador já sabe muito bem que Sally trabalha no balcão de ostras de um dos grandes cassinos de Atlantic City.

Sally: – “O cheiro de peixe. Eu fico com vergonha.”

Lou: – “Ah… Pensei que talvez fosse por outras razões. Eu não entendia. Até fui a um supermercado olhar os limões.”

Sally: – “É só pra tirar o cheiro. Não tem nada de esquisito. (E, depois de uma pausa:) O que você faz quando me observa?”

Lou: – “Eu olho para você. Você tira sua blusa, e aí abre a torneira. Então você pega uma garrafa de perfume e põe na pia. Você corta os limões. Você abre uma caixa de sabão azul. Você põe suas mãos embaixo da água para sentir a temperatura. E aí você pega o sabão nas suas mãos e…”

O diálogo termina aí – a sequência ainda não. Sally nesse momento se aproxima de Lou.

Fui checar. Burt Lancaster estava com 66 anos em 1979, quando as filmagens foram feitas. Susan Sarandon, com 33. Interessante: ele parecia ter bem mais. Ela, bem menos.

Uma recém-chegada, um veterano

Sally veio de muito longe. De um lugar chamado Moose Jaw, em Saskatchewan, a imensa província gelada no centro do Canadá. Segundo a Wikipedia, Moose Jaw tinha 33.890 habitantes em 2016. A própria Sally diz, uma hora qualquer, que faria qualquer coisa para sair de Moose Jaw, Saskatchewan. O que acabou fazendo, para conseguir sair de lá, foi se casar com o primeiro que apareceu – e quem apareceu foi Dave Matthews (Robert Joy, na foto acima), aquele rapazinho que no começo do filme passou a perna no traficante e conseguiu pegar o pacote de cocaína.

Um traste, um postema, Dave tirou Sally daquele fim de mundo e a levou para os Estados Unidos da América, a Terra dos Sonhos – para depois sumir com a irmã mais nova de sua própria mulher, Chrissie (Hollis McLaren, na foto acima).

Essa Chrissie, por sua vez, é uma hippyzinha um tanto fora de época, que adora drogas, está certa de que se Jesus Cristo existisse hoje seria um Hare Krishna, e não acredita na lei da gravidade. Não acredita também em meios para evitar a gravidez: está com uma barriga imensa quando ela e o amante delinquentezinho entram no cassino junto do boardwalk de Atlantic City à procura de Sally, para informar a ela que tinham vindo passar um tempo em sua casa.

Sally leva o marido traidor e a irmã amante dele para dentro de sua casa, mas insiste muito em dizer que só os tolerará ali por um dia, dois dias – que eles têm que se virar, dar o fora. O delinquentezinho Dave, com o pacote de pó em uma das mochilas que o casal carrega, garante que ele terá muito dinheiro.

Fica muito claro para o espectador que Sally é completamente diferente do marido e da irmã. É uma moça que quer se dar bem na vida, sim – mas fazendo as coisas direito. Enquanto rala no balcão de ostras no cassino, toma aulas, junto com um pequeno grupo de funcionários, com o francês Joseph (o papel de Michel Piccoli), para se tornar crupiê. Se conseguir ser aprovada ao final do curso – que é muito duro, com grande concorrência –, acha que poderá chegar a ganhar até US$ 20 mil por ano. Quem sabe até US$ 30 mil, contando com boas gorjetas, se for uma crupiê realmente boa.

É Joseph que faz com que Sally comece a ouvir ópera; é ele que tenta incutir nela o gosto por artes finas, e fala para ela sobre “Casta Diva”, da ópera Norma.

Como sonhar pouco é bobagem, a moça Sally, que não chegou nem perto do tal Sonho Americano, pensa em, quem sabe, ser crupiê em Monte Carlo…

Bem diferentemente de Sally, uma recém-chegada que trabalha duro em busca de uma vida melhor, Lou está em Atlantic City há séculos, milênios. “Lou? Ele já mexia com números com os dinossauros”, diz dele Fred (o papel de John McCurry), um chefete local do jogo ilegal e das drogas.

Mexia com números. O espectador vê Lou recolhendo apostas de pessoas pobres – apostas em números, como o brasileiríssimo jogo do bicho. Eu não sabia da existência desse jogo, que, parece, se chama numbers, números, e, como o jogo do bicho existente no Brasil, é ilegal.

Um bandido pé-de-chileno que se tem em alta conta

De forma esperta, inteligente, o filme não revela explicitamente muita coisa sobre o longo passado de Lou. O que vemos claramente é que ele ganha alguns trocados recolhendo apostas do jogo que depois vai entregar a Fred – e vive basicamente do dinheirinho que vai dando a ele a também veterana, bem veterana Grace Pinza (o papel de Kate Reid, na foto acima).

Sobre Grace, ficamos sabendo que chegou a Atlantic City ainda na durante a Segunda Guerra – quase 40 anos antes da época em que se passa a ação, final dos anos 70. Chegou para participar de um concurso – não, não o de Miss América, Lou explica uma hora lá para Sally. “Não, nada disso. Mais para um concurso de fliperama.”

(É uma referência a uma das características de Atlantic City: desde 1921, sua época de grande glória, o concurso de Miss America se realiza na cidade.)

A própria Grace explicita, numa conversa com a louquinha Chrissie: “Cheguei aqui durante a guerra. Concurso de sósias de Betty Grable. O boardwalk cheio de centenas de moças parecidas com Betty Grable, vindas de todos os lugares do país, vendendo bônus de guerra.”

E aí casou-se com Cookie Pinza, para quem já naquela época Lou trabalhava. Desde a morte de Cookie, Lou tomava conta de Grace – era uma espécie de empregado doméstico dela.

Fica subentendido – embora não se fale explicitamente nada – que Cookie Pìnza era um mafiozinho local. Não um grande chefão, um Don, um godfather – mas um gangsterzinho ali de um pedacinho de Atlantic City. De onde se entende que Lou era um empregado de um gangsterzinho local – nada mais que isso.

Ele, no entanto, se tem em altíssima conta. Ou finge que se tem em altíssima conta. Gosta de dizer que chegou a conhecer ou trabalhou para grandes nomes do crime organizado. E cita, especificamente, os nomes que os americanos conhecem muito bem, sobre os quais já foram feitos filmes e mais filmes – Dutch Schultz, Meyer Lansky, Al Capone, Bugsy Siegel.

Com a certeza de que vai deixar Sally profundamente impressionada, ele diz que esteve preso com Bugsy Siegel. Só que Sally pergunta quem é esse aí – sendo de Moose Jaw, em Saskatchewan, ela nunca tinha ouvido falar no gângster famosérrimo nos Estados Unidos, tido como o sujeito que inventou Las Vegas, hoje a capital mundial da jogatina. Até porque o filme Bugsy, em que Warren Beatty interpreta o gângster, só viria em 1990.

Dois atores maravilhosos, especiais

Uma moça trabalhadora, esforçada, que lida com ostras para depois ficar tentando se livrar do “cheiro de peixe”. Que se casou com um escroquezinho que a trocou pela irmã mais nova – e sonha em ter uma boa vida sendo crupiê em um cassino em Monte Carlo. E um auxiliar de gangsterzinho sem importância que idolatra os chefões do crime organizado – embora tenha sido, ele mesmo, tido como covarde, bandidinho sem culhões, pelos próprios colegas. E que tem como maior alegria da vida observar, sem ser visto, a bela e jovem vizinha.

Sem dúvida, há poucos personagens tão absolutamente tristes quanto esses dois. E poucas histórias tão tristes quanto a deles.

Um pouquinho sobre essas grandes atores que interpretam Lou e Sally e sobre o sujeito que escreveu a história:

Susan Sarandon e o diretor Louis Malle estavam namorando na época em que fizeram Atlantic City. Namoravam desde Menina Bonita/Pretty Baby, lançado, como já foi dito, dois anos antes, em 1978. Nascida em Nova York em 1946, Susan Abigail Tomalin pegou o Sarandon de Chris Sarandon, com quem se casou em 1967, aos 21 aninhos, portanto, e de quem só se divorciaria oficialmente em 1979. Não é uma pessoa particularmente interessada nesse negócio de assinar papéis de casamento: todos os seus três filhos foram de relações estáveis porém sem papel oficial. A atriz Eva Amurri, que herdou os olhos da mãe, é filha do diretor italiano Franco Amurri, e Jack Henry Robbins, montador, roteirista e editor, e Miles Robbins, músico e ator, são, como o sobrenome indica, filhos de Tim Robbins, com quem Susan viveu e trabalhou durante longos e produtivos anos.

Susan começou a carreira de atriz em 1970, aos 24 anos, e em 1975 fez um filme que viraria um absoluto cult, Rocky Horror Show. Passou a ser estrela de primeira grandeza com as duas obras de Louis Malle, e em seguida fez diversos bons filmes de sucesso, como Fome de Viver (1983), As Bruxas de Eastwick (1987), Sorte no Amor (1988), Loucos de Paixão (1990), Thelma & Louise (1991). É bom reparar que, em vários desses citados aí, fez ousadas cenas de sexo.

Mulher maravilhosa.

Uns dois dias depois de termos revisto Atlantic City, Mary e eu nos dispusemos a ver Susan Sarandon na comedinha A Intrometida/The Meddler. Não aguentamos mais que 20 minutos, porque é bobo demais, repetitivo demais, daquele tipo de filme de uma piada só – mas é impressionante ver que Susan Sarandon, em 2015, aos 69 anos de idade, estava absolutamente linda, não aparentando mais que uns 40 e alguma coisa.

Burt Lancaster… Ah, bom Burt Lancaster era um dos maiores atores de Hollywood quando eu comecei a anotar os filmes que via, em 1962. Burt Lancaster, para a minha geração, é mais que um ator – é uma lenda.

Depois de rever Atlantic City, ao dar uma lida em várias coisas, encontrei minha própria anotação sobre o belo Minha Esperança é Você/A Child is Waiting, em que o grande John Cassavetes dirigiu Burt Lancaster e Judy Garland. Lá escrevi: “Burt Lancaster, acho eu, é bastante irregular; se o diretor deixar, fica careteiro demais – e, como ele foi também produtor de diversos de seus filmes, fez muita careta na vida. Mas, com um diretor bom, experiente, de rédeas firmes, teve interpretações magistrais. Não é à toa, afinal, que Luchino Visconti fez dele uma espécie de personagem de seu filme Belíssima, de 1951 (a personagem central, interpretada por Anna Magnani, é apaixonada pelo ator americano), e depois o dirigiu na obra-prima O Leopardo, de 1963, e em Violência e Paixão, de 1974; e também não é à toa que o italiano Bernardo Bertolucci o tenha escolhido para trabalhar em seu épico Novecento, de 1976, e o francês Louis Malle o tenha dirigido em Atlantic City, de 1980.”

No papel desse triste, às vezes patético, mas às vezes admirável Lou, Burt Lancaster teve uma das melhores interpretações de sua longa, maravilhosa carreira. Fico pensando agora que ele está tão brilhante no filme de Louis Malle quanto esteve em Julgamento em Nuremberg (1961), de Stanley Kramer, em que interpretou Ernst Janning, um jurista alemão famoso e respeitado mundialmente que se vendeu ao nazismo.

A tomada em que Lou chega em casa e retira do bolso do paletó a enormidade de notas graúdas de dólar, e as coloca sobre a mesa, e as espalha como se fossem cartas de baralho… Que coisa impressionante.

Como é belo o grande cinema.

A cidade é personagem importante da trama    

Consta que foi Susan Sarandon, que era amiga do escritor e roteirista John Guare, que falou dele para o namorado Louis Malle.

Diz o IMDb que uma produtora franco-canadense se comprometeu a financiar um filme de Louis Malle mediante a condição de que ele usasse o capital dentro de um determinado período de tempo – provavelmente o equivalente ao ano fiscal em que estravam. Na corrida contra o tempo, Malle não encontrava um roteiro que o deixasse satisfeito e/ou pudesse ser transformado em filme rapidamente. Foi então que Susan Sarandon o apresentou a John Guare.

Nova-iorquino nascido em 1938, Guare havia co-escrito com Milos Forman e Jean-Claude Carrière o roteiro de Procura Insaciável/Taking Off (1971), o primeiro filme americano do realizador checo, que havia fugido de seu país após a invasão de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia, em 1968. È dele também a peça Seis Graus de Separação, que foi filmada em 1993 por Fred Schepisi, com roteiro do próprio autor.

Foi um tremendo acerto – e uma imensa sorte de todos nós. A história que John Guare escreveu e roteirizou é esplêndida.

E é impressionante como a cidade em que se passa o drama de Lou e Sally se transforma ela mesma em um personagem importante. Atlantic City e a história daqueles dois tristes personagens estão absolutamente interligadas. O cenário de uma cidade que já havia tido um tempo de esplendor, mas havia decaído, se empobrecido, se enfeiado reflete com perfeição a desilusão, a desesperança em que estão mergulhados Lou e Sally.

Localizada no Sul de Nova Jersey, relativamente perto de Nova York, Filadélfia e Washington, Atlantic City se tornou um resort procurado por famílias ricas na segunda metade do século XIX. Nos primeiros anos do século 20, houve um boom imobiliário, com a construção de grandes e luxuosos hotéis.

A cidade ficou famosa pelo seu boardwalk – o calçadão ao longo da praia, de madeira. A palavra inglesa que designa o calçadão está no título da série que a HBO lançou em 2010, com Steve Buscemi, passada em Atlantic City nos anos 1920, os anos da Lei Seca e da expansão do crime organizado – Boardwalk Empire.

Depois do final da Segunda Guerra Mundial, no entanto, a cidade, como muitas outras, foi tomada – como relata a Wikipedia –

por “pobreza, crime, corrupção e declínio econômico geral”. A enciclopédia enumera diversas razões que explicam essa decadência – entre elas o barateamento das passagens aéreas, que permitiu que as famílias dos Estados próximos pudessem voar para resorts como Miami Beach ou o Caribe. Na segunda metade dos anos 1960, a maior parte dos grandes hotéis da cidade sofria com a falta de hóspedes, e vários foram demolidos.

Louis Malle usou em seu filme imagens da demolição de um dos maiores desses hotéis, o Traymore. E diversas, diversas sequências se passam no calçadão à beira-mar.

A legalização do jogo, a partir de 1976, e a instalação dos cassinos, foram tentativas de parar a decadência econômica da cidade e fazer com que ele voltasse a atrair turistas.

“O abismo entre sonhos, ilusão e realidade” 

Leonard Maltin deu ao filme 4 estrelas, a cotação máxima: “Rico estudo de personalidades em uma cidade em transição, focalizando pequenos perdedores que ficaram lá por tempo demais e sonhadores que acabaram de chegar. Europeu em sua ambientação e forma de contar a história, embora se passe em um resort americano. Lancaster tem uma de suas melhores performances como um bandido de pequena monta que tem muito estilo e nenhuma substância. Roteiro de John Guare. Exibido primeiramente no estrangeiro com o título de Atlantic City, U.S.A.”

Atlantic City, U.S.A. É verdade: é assim que aparece o título nos créditos iniciais no DVD lançado no Brasil por uma empresa pequena, LW Editora. E sim: o filme foi lançado primeiro no Canadá e na França, os países produtores, e também na Alemanha, em 1980. Só em 1981 ele chegou ao circuito comercial dos Estados Unidos.

Eis o que diz Pauline Kael, na tradução de Sérgio Augusto para a edição brasileira de 1001 Noites no Cinema:

“Esse balneário que virou um paraíso de bandidos durante a Lei Seca e em 1981 estava a caminho de tornar-se caoticamente uma Las Vegas com praia é um lugar improvável, e nesta farsa lírica, dirigida por Louis Malle com roteiro de John Guare, empresta uma textura alucinatória às vidas das personagens. A história é uma fantasia brincalhona sobre a realização de sonhos de prosperidade – o que ela faz às cidades, o que pode fazer pelas pessoas. Malle leva algum tempo para estabelecer os cruzamentos das dez ou doze personagens principais, mas quando o faz, o filme funciona segundo suas próprias leis, em seu próprio mundo, e tem uma efervescência adorável. Tudo dá errado e termina certo. O elenco é soberbo. Como um velho apontador de jogo numa espécie de jogo do bicho americano que sonha com o tempo em que era empregado e guarda-costas de chefões do crime, Burt Lancaster tem talvez sua mais engraçada (e melhor) atuação. Susan Sarandon faz uma garota semi-analfabeta que estuda para ser crupiê, e para variar, sua expressão, com aqueles olhos esbugalhados e ligeiramente estupefata, parece perfeita. Com Kate Reid como a viúva de um gângster, Hollis McLaren como uma hippie maluca nascida fora de época, Robert Joy, Michel Piccoli e muitos bons atores característicos, e uma aparição de Robert Goulet fazendo ele mesmo. Fotografia de Richard Ciupka. Produzido por Denis Heroux; co-produção franco-canadense, distribuída pela Paramount.”

Não entendi o que a prima donna da crítica americana quis dizer, não, nem de onde ela tirou que Sally é semi-analfabeta, mas paciência. É bom registrar que esse Robert Goulet que ela cita é um cantor, que aparece em uma festividade, cantando “Atlantic City, My Old Friend”, uma canção de Paul Anka.

Eis o que diz o livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer, de Steven Jay Schneider:

“Uma combinação muito difícil de categorizar entre thriller policial, história de amor, conto de fadas no estilo A Bela e a Fera e reflexões sobre as mudanças que afetam um resort americano durante mais de meio século, a obra-prima de Louis Malle está centrada em Burt Lancaster – um banqueiro de numbers (forma de loteria popular e ilegal americana) que está ficando velho e também um romântico que busca escapar das circunstâncias sórdidas de sua vida atual por meio de uma imaginação nostálgica sobre como era bem-sucedido nos bons tempos de Capone, Siegel, etc. (…)

“Louis Malle e o escritor John Guare exploram com sutileza o abismo entre sonhos, ilusão e realidade, fazendo excelente uso do esplendor desbotado da cidade que dá nome ao filme, aumentando o suspense aqui e ali com seqüências de ação habilmente encenadas e sustentando essa estrutura leve com desempenhos sólidos de todos os atores. É Lancaster, contudo, quem acaba roubando a cena em Atlantic City, com uma das melhores atuações de sua carreira, rivalizada apenas por seu J. J. Hunsecker em A Embriaguez do Sucesso.”

Não vejo conto de fadas no filme – mas gostei da coisa do abismo entre sonhos, ilusão e realidade.

Atlantic City é uma beleza de filme.

Anotação em outubro de 2022

Atlantic City

De Louis Malle, França-Canadá, 1980.

Com Burt Lancaster (Lou),

Susan Sarandon (Sally)

e Kate Reid (Grace, a viúva do gângster), Michel Piccoli (Joseph, o treinador dos crupiês), Hollis McLaren (Chrissie, a irmã de Sally), Robert Joy (Dave Matthews, ex-marido de Sally, amante de Chrissie),

Al Waxman (Alfie), Robert Goulet (cantor), Moses Znaimer (Felix), Angus MacInnes (Vinnie), Sean Sullivan (Buddy), Wallace Shawn (Waiter), Harvey Atkin (o motorista do ônibus), Norma Dell’Agnese (Jeanne), Louis Del Grande (Mr. Shapiro, o gerente do cassino), John McCurry (Fred, o chefete local do jogo), Eleanor Beecroft (Mrs. Reese), Cec Linder (o presidente do Hospital), Sean McCaan (detetive), Vincent Glorioso (jovem médico), Adele Chatfield-Taylor (a florista), Ann Burns, Marie Burns, Jean Burns (cantoras no cassino)

Argumento e roteiro John Guare

Fotografia Richard Ciupka

Música Michel Legrand

Montagem Suzanne Baron

Desenho de produção Anne Pritchard

Figurinos François Barbeau

Produção Denis Heroux, International Cinema Corporation,

Selta Films, Canadian Film Development Corporation, Cine-Neighbor, Selta Films, Famous Players Limited

Cor, 104 min (1h44),

R, ****

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