Cerimônia de Casamento / A Wedding

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Nota: ★★★☆

Robert Altman não andava nada contente com a humanidade, quando fez A Wedding, no Brasil Cerimônia de Casamento, de 1978. Pelo menos não estava contente com os americanos ricos. O filme – como tantos outros do grande diretor – tem umas duas dezenas de personagens, e a imensa maioria é hipócrita, sacana, safado, sem caráter.

É de fato um retrato impiedoso, arrasador da sociedade esse que ele traça, ao longo de 125 minutos de cinema muitíssimo bem realizado.

A rigor, a rigor, nenhum dos personagens é uma pessoa boa, inteligente, interessante. Eu não convidaria nenhum deles para um chopinho numa tarde gostosa de sábado – e creio que nenhum outro espectador convidaria. Há uma única exceção: Randolph, o mordomo (Cedric Scotr).

A ação começa na igreja, na cerimônia de casamento em si. É uma cerimônia cara, bem produzida, supostamente fina e elegante, a rigor – como costuma acontecer quando há novos ricos envolvidos – um tanto cafona, brega. Há uma orquestra na igreja, e mais uma equipe de filmagem. Há meia dúzia de damas de honra da noiva, meia dúzia de padrinhos da noiva.

zzwedding2A cerimônia, longa, longa, é dirigida pelo bispo Martin (John Cromwell), um senhorzinho bastante idoso, amigo desde sempre da matriarca da família do noivo, Nettie Sloan (interpretada por Lillian Gish, essa lenda, estrela de dezenas de filmes mudos das primeiras décadas do século XX, na foto abaixo).

O bispo está fora de forma, não celebra um casamento há décadas, e então se esquece das frases, tem que ser auxiliado pelos diversos ajudantes. Enquanto a cerimônia se encomprida, vamos conhecendo a mansão dos pais do noivo, onde será dada a recepção após o casamento religioso.

Aos 16 minutos de filme, a matriarca da rica família dá um suspiro e morre

O filme não precisa exatamente (ou então eu não percebi) o local em que se passa a ação, mas provavelmente é um Estado do Sul. Veremos que ainda há ali resquícios de intolerância racial.

A chefe da equipe de produção do casamento, a wedding lady, Rita Billingsley (Geraldine Chaplin), anda pela casa e pelos gramados do vastíssimo quintal, onde foram armadas tendas para o banquete, inspecionando o seu exército de serviçais.

A matriarca Nettie está em seu quarto, no segundo andar da imensa mansão. É, seguramente, a herdeira da fortuna de uma daquelas famílias que se consideravam da aristocracia sulista. Com toda certeza seus avós tinham tido centenas de escravos para trabalhar nas grandes plantações de tabaco ou milho.

zzwedding4A velhinha Nettie está sob os cuidados de uma enfermeirinha (Beverly Ross) jovem e não muito experiente, que está sempre querendo fumar, escondida, um cigarrinho.

A cerimônia de casamento ainda está acontecendo, e Nettie manda chamar Randolph (Cedric Scott), uma espécie de mordomo da mansão. Randolph é um negro de cara gentil, e evidentemente está com a família desde sempre. Nettie pede para que ele se sente na cama ao lado dela, e faz um pedido: naquele dia, ele terá que ter um comportamento exemplar; não poderá olhar para a filha de Nettie, não poderá sussurrar com ela. Randolph promete obedecer.

Em seguida Nettie manda chamar a “wedding lady”, a srta. Billingsley. Pergunta a ela sobre os convidados, quer saber se houve muitos telegramas dizendo “sinto muito” – gente que foi convidada mas preferiu não comparecer. A srta. Billingsley diz que sim, houve muitos. Mais de uma centena?, pergunta a matriarca. Sim, mais.

Então – estamos com exatos 16 minutos de filme – a matriarca Nettie dá um suspiro, exclama: “Minha família!” – e morre. Calma, suave, placidamente, diante da produtora de casamentos e da enfermeira.

Cabe a Randolph dar a notícia ao dr. Jules Meecham (Howard Duff), o médico da família, amigo de todos os Sloan.

O dr. Jules Meecham bebe uísque que nem os irlandeses dos filmes de John Ford – um atrás do outro, sem parar.

Ele examina Nettie, constata que ela está morta, e diz a Randolph e à enfermeirinha que é melhor a notícia não se espalhar por enquanto, para não atrapalhar a festa que ainda está para começar.

Vai acontecer literalmente de tudo na longa festa de casamento

Temos então que a veteraníssima Lillian Gish (1906-1993) aparece em apenas umas três seqüências. Aparecerá em outras – mas de olhos fechados, sua personagem já morta.

zzwedding5Uma figura, o Altman. Em seu delicioso A Fortuna de Cookie, de 1999, ele também colocou uma atriz veterana e fascinante, Patricia Neal, para fazer um papel importante, mas curto: a velhinha interpretada por ela morre quando o filme ainda está bem no começo. Exatamente como acontece aqui.

Bem. A partir daí, vai acontecer de tudo, na festa de casamento. De tudo mesmo. Haverá situações engraçadas, hilariantes, ridículas, constrangedoras, embaraçosas.

Robert Altman é um realizador que gosta dos grandes afrescos

Por algum motivo, ou sem motivo racional qualquer, perdi Cerimônia de Casamento na época do lançamento. Nunca tinha visto – até agora.

Não sei como devem reagir os espectadores que vêem filmes de maneira normal, mas para mim a grande quantidade de personagens foi um tanto atordoante. É tanta gente, aparecendo ao mesmo tempo, aos borbotões, que parei de ver o filme, peguei o Cinemania (um CD-ROM que era tão bom que pararam de editar), e imprimi, a partir dele, a lista de personagens e seus intérpretes. A lista ocupou uma folha A4 e meia – são ao todo 48 personagens.

E fui vendo o filme e parando para anotar quem é quem. Sim, sei que parece louco, e é – mas, sem aquela cola do lado teria sido bem mais difícil acompanhar aquela plêiade de gente.

Histórias com um número imenso de personagens são uma das marcas registradas de Robert Altman. O cara adora um caleidoscópio. Seja num filme de estrutura multiplot, ou mosaico, com grupos distintos de personagens, com um outro ponto de contato entre eles – como Short Cuts ou Kansas City –, seja em filmes que contam a história de um grande grupo, como Nashville, O Jogador, Assassinato em Gosford Park, Dr. T. e as Mulheres, A Fortuna de Cookie.

Altman não é realizador chegado a sonatas, peças de câmara – gosta de sinfonias. Nada de pequenos retratos intimistas – o negócio dele são os afrescos.

Eis aqui um pouco sobre os personagens da família do noivo

Então aqui vão os personagens principais da história, com algumas de suas características.

Nettie, a matriarca, teve três filhas:

zzwedding3* Regina Sloan Corelli (Nina Van Pallandt, na foto) é a mãe do noivo, Dino (Desi Arnaz Jr.), e de sua irmã gêmea, Daphene (Belita Moreno). Regina é mulher de Luigi Corelli (o papel de Vittorio Gassman). Veremos que os dois se conheceram na Itália, quando Regina e suas irmãs estavam lá fazendo turismo. Luigi era garçom de restaurante – mas charmosíssimo, como não poderia deixar de ser um personagem interpretado por Gassman. Aparentemente, ao se casar com Regina, e com o dinheiro da família dela, abriu um restaurante, ou uma cadeia de restaurantes. Detalhe importantíssimo: Regina é viciada em uma droga forte, injetada nela pelo sempre prestativo dr. Meecham. Anda sempre um tanto distante deste insensato mundo.

* Clarice (Virginia Vestoff) ficou solteirona. Mora na mansão, junto com o casal Dino-Regina e seus filhos, mais a matriarca Nettie. Veremos que é amante, e parece que faz muito tempo, de Randolph, o mordomo. O romance é discreto – eles tentam mantê-lo secreto. A sociedade local, que já não gosta muito do fato de Regina ter se casado com um italiano desconhecido, jamais perdoaria o fato de uma Sloan ter um amante negro.

* Antoinette Sloan Goddard, que os íntimos chamam de Toni (Dina Merrill), é empresária, mora em outro Estado. Tem uma fábrica que emprega três centenas de pessoas. É casada com Mackenzie (Pat McCormick), um sujeito grandão, colecionador de arte – uma figura estranhíssima. Esse Mackenzie vai, de repente, sem que nem por quê, apenas de bater o olho em Tulip Brenner, a mãe da noiva, ficar absolutamente apaixonado por ela. E vai persegui-la durante todo o longo dia da festa de casamento.

Do lado da família do noivo, é preciso ainda falar de Beatrice Sloan Cory (Ruth Nelson), a tia Bea, irmã da matriarca Nettie. Beatrice é uma senhorinha que gosta de posar de socialista, moderninha. Está sempre pegando no pé da sobrinha Toni, acusando-a de empregar imigrantes e pagar-lhes salários miseráveis.

Na família da noiva, há um tipo absolutamente insólito, interpretado por Mia Farrow

E então temos a família da noiva, que viajou de Louisville, Kentucky, para o casamento. O pai, Snooks Brenner (Paul Dooley), é mostrado como um nouveau riche, um ex-motorista de caminhão que aparentemente ascendeu a dono de uma companhia transportadora.

zzwedding6A mãe, Tulip Brenner, é interpretada pela ótima Carol Burnett (na foto). Encanta-se, derrete-se toda com o fato de ter atraído as atenções de um homem, o tal Mackenzie, casado com Toni. Obviamente, ela jamais havia atraído as atenções de nenhum outro homem na vida, além do marido – e então, apesar de no início tentar resistir, desmilingüe-se diante dos avanços de Mackenzie como manteiga ao sol.

O casal Brenner tem três filhos. O mais novo é um garotão, Hughie (Dennis Christopher). As mais velhas são duas irmãs. Muffin (Amy Stryker), a noiva, é uma menininha nada atraente, com aparência de muito jovem, realçada pelo grande aparelho de dentes. Buffy, a mais velha dos três, a queridinha do pai, vem na pele de Mia Farrow, lindinha aos 33 anos e parecendo bem menos.

É um dos personagens mais insólitos no meio dessa galeria de tipos insólitos. Não é o caso de contar muito sobre ela porque seria spoiler, mas dá para dizer que, desde o início da narrativa, fica óbvio que ela tem uma quedinha forte pelo noivo, o rapaz que está se casando com sua irmã.  Desde o início dá para perceber que Buffy teve um caso com o agora cunhado.

Álcool e baseado farão sair do armário uma imensa quantidade de podres

Todos vão beber muito, ao longo do dia inteiro da grande festa na mansão dos Sloan e Corelli. Alguns vão também tragar uns grandes baseados. Álcool e fumo vão fazer sair do armário um imenso monte de coisas que as duas famílias seguramente gostariam de esconder – e um monte de coisas de que as famílias sequer suspeitavam.

zzwedding8Fica parecendo também que nas bebidas servidas pela equipe de Rita Billingsley-Geraldine Chaplin há um poderoso afrodisíaco. A libido daquele povo irá a mil, ao longo da comprida, interminável festa.

Um detalhinho: bem para o final do filme, uma das convidadas da festa, acompanhando-se com uma pequena harpa, canta “Bird on a wire”, a tristíssima canção de Leonard Cohen. Ouviremos de novo a música numa das últimas seqüências.

Altman gosta de música, de vários tipos de música. Usou muito country em Nashville, muito jazz em Kansas City, muito blues em A Fortuna de Cookie.

Parecia gostar especialmente do bardo canadense – bem, mas quem não gosta? Em Onde os Homens São Homens/McCabe and Mrs. Miller, de 1971, um western outonal, que tem muito pouco a ver com western, ele usou diversas canções de Leonard Cohen.

“Cerimônia de Casamento é muito mais profundo e mais ambicioso do quej poderíamos esperar”

Leonard Maltin não gostou muito do filme. Deu a ele 2.5 estrelas em 4: “Um olhar irregular, sem foco, nas intrigas familiares em torno de um casamento de gente nouveau riche; alguns momentos engraçados e caracterizações exageradas, mas o filme não se sustenta.”

Roger Ebert deu 3.5 estrelas em 4. Diz que as duas famílias vivem com muitos esqueletos nos armários. Na aparência, têm uma fachada agradável, mas, abaixo da superfície, há ciúmes e cobiça e ódios, e diferentes tipos de peripécias do destino.

“Altman mergulha alegremente nessa riqueza de material; há 48 personagens no filme, tirando um ou acrescentando outro, e lá pelo final do filme nós os conhecemos todos. Podemos não conhecê-los bem – em casamentos há sempre primos não identificados nos cantos –, mas nós podemos saber quem são, e desenhar as linhas de poder e paixão que correm entre eles. E alguns deles são desenhados tão bem quanto Altman já desenhou alguém.

“Isso acontece porque Cerimônia de Casamento é muito mais profundo e mais ambicioso do que poderíamos de início esperar. Começa na comédia, move-se para o terreno da observação social, afunda em revelações de pessoas que às vezes são trágicas, às vezes cômicas… e então termina de uma forma que lança tudo de volta. Quanto mais você pensa sobre o que Altman fez, mais impressionante fica o que ele obteve.”

zzwedding7É, não é à toa que Roger Ebert era um crítico tão amado pelos leitores. O bicho é bom demais. Ele termina seu longo texto assim:

“Como outros filmes de Altman com um monte de personagens (M.A.S.H., Onde os Homens São Homens/McCabe and Mrs. Miller, o incomparável Nashville), Cerimônia de Casamento não cabe facilmente em nenhuma das categorias em que costumamos colocar os filmes. Para alguns espectadores, não será satisfatório; não constrói situações e depois as resolve da maneira tradicional. Tem toda a desorganização e as contradições da vida – e então Altman quase misticamente dá a tudo um sentido mais profundo pela catastrófica surpresa que nos apresenta perto do final.”

Ler os textos de Ebert dá vontade de ver e rever os filmes.

E Cerimônia de Casamento de fato é um filme que dá vontade de se ver de novo. Uma revisão, depois que já conhecemos os personagens, deve revelar mil detalhes impossíveis de serem vistos numa primeira vez.

Anotação em abril de 2013

Cerimônia de Casamento/A Wedding

De Robert Altman, EUA, 1978

Com (da família do noivo): Lillian Gish (Nettie Sloan, a avó, a matriarca), Ruth Nelson (Beatrice Sloan Cory, a tia-avó), Desi Arnaz Jr. (Dino Corelli, o noivo), Belita Moreno (Daphene Corelli, irmã gêmea do noivo), Vittorio Gassman (Luigi Corelli, o pai), Nina Van Pallandt (Regina Corelli, a mãe), Virginia Vestoff (Clarice Sloan, a tia), Dina Merrill (Antoinette Sloan Goddard, Toni, a tia), Pat McCormick (Mackenzie Goddard, o marido de Toni), Luigi Proietti (Little Dino, o irmão do pai), Howard Duff (Dr. Jules Meecham, o médico da família Sloan), Cedric Scott (Randolph, o mordomo), John Cromwell (o bispo Martin, amigo da família Sloan), Beverly Ross (a enfermeira da matriarca)

(da família da noiva): Carol Burnett (Tulip Brenner, a mãe), Paul Dooley    (Snooks Brenner, o pai), Amy Stryker (Muffin Brenner, a noiva), Mia Farrow (Buffy Brenner, a irmã do noivo), Dennis Christopher (Hughie Brenner, o irmão do noivo), Gerald Busby (o pastor David Ruteledge),

Peggy Ann Garner (Candice Ruteledge, a mulher do pastor), Mark Deming (Matthew Ruteledge),

(da equipe de produção do casamento): Geraldine Chaplin (Rita Billingsley, a chefe da equipe), Viveca Lindfors (Ingrid Hellstrom), Lauren Hutton (Flo Farmer, a chefe do cinegrafista e fotógrafo), John Considine (Jeff Kuykendall, o chefe da segurança), Ellie Albers (a violinist cigana),

Tony Llorens (o pianista)

(os convidados): Bert Remsen (William Williamson), Pam Dawber (Tracy Dawber), Gavan O’Herlihy (Wilson Briggs)

Roteiro John Considine, Patricia Resnick, Allan Nicholls e Robert Altman

Baseado em história de John Considine e Robert Altman

Fotografia Charles Rosher Jr.

Música John Hotchkis

Montagem Tony Lombardo

Produção Robert Altman, 20th Century Fox. DVD Fox.

Cor, 125 min.

***

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 24 junho 2013 às 11:34 pm | Permalink

    Vittorio Gassman, Lillian Gish, o filho de Lucy e Desi, Mia Farrow… Dessa vez não falarei das 3 estrelinhas do filme, mas que o elenco é nota máxima, com certeza é!!!

7 Trackbacks

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  2. Por 50 Anos de Filmes » O Jantar / La Cena em 29 Março 2014 às 4:41 pm

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