O Irlandês / The Irishman

Nota: ★★★★

Pode até ser que Martin Scorsese venha a fazer mais um filme sobre o universo dos mafiosos, dos tough guys do crime organizado – afinal, é seu tema mais recorrente. Mas a verdade é que não precisa: O Irlandês, seu filme de número 5 sobre o tema, é daquelas obras definitivas.

Depois de Caminhos Perigosos/Mean Streets (1973), Os Bons Companheiros/Goodfellas (1990), Cassino (1995) e Os Infiltrados (2006), com O Irlandês (2019) Martin Scorsese esgotou o assunto. A rigor, ele não precisa de mais um filme sobre mafiosos. Nem ele, nem qualquer outro diretor, nem o público.

Colega de geração de Scorsese, descendente de italianos como ele, tendo lançado seus primeiros filmes na mesma época que ele, o final dos anos 60, e até dividido com ele (e mais Woody Allen) um filme de esquetes, Contos de Nova York/New York Stories, de 1989, Francis Ford Coppola fez a trilogia definitiva sobre mafiosos – os três The Godfather, de 1972, 1974 e 1990. E é bem difícil não lembrar de The Godfather ao ver agora O Irlandês. Não apenas por causa do tema, o universo dos mafiosos, não apenas por causa dos laços que aproximam Scorsese de Coppola, mas também porque, afinal de contas, ali estão na tela dois dos atores da trilogia, não por coincidência dois dos melhores, mais reverenciados, mais premiados atores do cinema americano dos últimos 50 anos, Robert De Niro e Al Pacino.

E também porque, como muito bem observou a Mary, aqui do meu lado, em O Irlandês também se fala de um casamento de descendentes de italianos, logo no começo – assim como o primeiro Godfather abre com uma festa de casamento. Em O Irlandês também há sequência de batizado de crianças, como na trilogia. E há uma cerimônia de casamento numa grande, pomposa igreja, numa sequência que é um clímax do filme, assim como em The Godfather.

É possível que Scorsese tenha de fato tido vontade de dar uma resposta a seu colega Coppola. Que tenha desejado fazer o seu filme definitivo sobre os mafiosos. O fato é que, depois dos 539 minutos da trilogia The Godfather (faltando um minuto para 9 horas de projeção), veio com um filme mamutiano, à la … E o Vento Levou (238 minutos). O Irlandês tem 209 minutos – 3 horas e 29.

Como é uma obra de Martin Scorsese, um cineasta que se dedica tanto à ficção quanto aos documentários, e não foge jamais da política, do social, em todos os seus filmes, O Irlandês mistura um pouco de imaginação, ficção, e muito de realidade, História.

E ele executa essa mistura com o já bem conhecido padrão Martin Scorsese: de maneira brilhante, suntuosa, extraordinária.

Entre figuras reais importantes, um nome pouco conhecido

O Irlandês fala de Russell Bufalino, Anthony Provenzano, Angelo Bruno e diversos, diversos, diversos outros mafiosos que existiram de fato. Quando focaliza pela primeira vez cada um dos vários mafiosos, o filme exibe um letreiro com as informações básicas de quando e como ele foi preso ou morreu assassinado por outros mafiosos.

Fala bastante dos Kennedys – o patriarca, Joseph P. Kennedy (1988-1969, seu segundo filho, John Fitzgerald Kennedy (1917-1963), o 35º presidente dos Estados Unidos, seu sexto filho, Robert Kennedy (1925-1968), ministro da Justiça durante a presidência do irmão. Cita, en passant, Frank Sinatra, sempre tido como amigo de mafiosos – e dos Kennedys.

Fala bastante também de Richard Nixon, o sujeito que disputou com John Kennedy em 1960 e foi derrotado de balaiada no voto do colégio eleitoral (303 contra 219), embora tenha quase empatado no voto popular (34.220.984 contra 34.108.157). O sujeito que em 1969 seria eleito presidente e, em 1973, reeleito, numa campanha marcada pela invasão criminosa do comitê central de seu opositor democrata – o que o levaria a se tornar o primeiro e até agora único presidente americano a renunciar ao cargo, para evitar que fosse afastado num processo de impeachment.

Mas O Irlandês fala principalmente de Jimmy Hoffa, uma das figuras mais fascinantes e polêmicas da história dos Estados Unidos no século XX, que, entre 1957 e 1971, foi o todo-poderoso presidente do Sindicato dos Caminhoneiros – antes conhecido como International Brotherhood of Teamsters, Chauffeurs, Warehousemen and Helpers, o mais poderoso sindicato americano, que chegou a ter mais de 1,5 milhão de membros.

Jimmy Hoffa era o dono da chave de um cofre que continha uma fortuna absolutamente fantástica da previdência de mais de 1 milhão de trabalhadores. E, inevitavelmente, teve profundas ligações com com o crime organizado.

Hoffa foi interpretado por Jack Nicholson no filme Hoffa, de 1992, dirigido por Danny DeVitto e escrito pelo grande dramaturgo e roteirista David Mamet. Aqui, em O Irlandês, Hoffa é o papel de Al Pacino. Jimmy Hoffa-Al Pacino é o segundo personagem mais importante da história.

O personagem central, o Irishman de que fala o título, também é uma figura real – só que é muitíssimo menos conhecido, é claro, do que os Kennedys, do que Nixon, do que Hoffa, do que aqueles mafiosos citados alguns parágrafos acima.

A rigor, pouca gente sabia da existência dele antes do filme. Seguramente quase ninguém sabia dele antes do livro em que o filme se baseia. O livro, de autoria de Charles Brandt, lançado em 2004, é um relato de não-ficção, uma grande reportagem, de título imenso: I Heard You Paint Houses: Frank “The Irishman” Sheeran and Closing the Case on Jimmy Hoffa.

Chamava-se Francis Joseph Sheeran. Nasceu em Darby, Pensilvânia, perto de Filadélfia, em 1920; morreria (o filme não mostra sua morte, não a menciona, não dá data nem de nascimento nem de morte) em 2003, aos 83 anos.

É o papel de Robert De Niro.

Um retrato muito feio da política dos EUA

É claro, é óbvio que é preciso falar aqui de Frank Sheeran, o Irlandês: ele é o protagonista, o cara que dá nome ao filme.

Mas como, para a Grande História, Frank Sheeran é apenas um coadjuvante, daqueles bem coadjuvantes mesmo, vou me referir primeiro aos nomes dos personagens de peso.

De Joseph P. Kennedy, o filme fala que foi ajudado por grupos de mafiosos, ao longo da vida, em que enriqueceu demais, investiu demais, e formou um dos mais duradouros e importantes clãs da política americana.

De John F. Kennedy, o filme diz claramente que foi eleito com a ajuda efetiva, real, concreta da Máfia, da mob, do crime organizado.

Mais ainda: diz que as tentativas – atrapalhadas, trapalhonas – de derrubar Fidel Castro, tipo Baía dos Porcos, bem no início da presidência de Kennedy, logo após a vitória da revolução cubana, se deram basicamente porque John F. queria, como forma de agradecer ao crime organizado, livrar Havana daqueles barbudos, de tal forma que a Máfia voltasse a mandar naquele puteiro de turistas americanos.

(O número 2 da trilogia The Godfather fala disso também. De forma bem semelhante, na verdade.)

De John F, há algumas tomadas de cinejornais da época. Bob é o único Kennedy que é mostrado no filme interpretado por um ator – Jack Huston, filho de Tony Huston, sobrinho de Anjelica, neto de John, bisneto de Walter.

Bob Kennedy é mostrado basicamente através da visão de Jimmy Hoffa. Hoffa tinha um ódio brutal de Bob porque ele, como ministro da Justiça, se dedicou a investigar as atividades ilegais das grandes figuras do crime organizado e das poderosas organizações sindicais. Como pode o irmão do cara que nós ajudamos vir pra cima da gente?, questiona ele, furibundo. É um ódio semelhante ao de Lula e seus fiéis contra as pessoas que investigaram a corrupção dos governos petistas – algo que torna Bob Kennedy uma figura admirável, é claro.

A forma com que O Irlandês trata Richard Nixon não é nada, mas nada gentil. Mostra-se que Hoffa meteu um monte de dinheiro na campanha de Nixon, como forma de vingança contra o que ele considerava uma “traição” dos democratas a quem havia ajudado antes. Em troca, Nixon daria um indulto a Hoffa, depois que o sindicalista foi condenado, em 1964, por uma série de crimes, a 13 anos de prisão. Com o indulto, Hoffa saiu da prisão em 1971, tendo cumprido cerca de metade da pena.

Não é um retrato bonito este que Martin Scorsese traça da política americana em O Irlandês. Não, não – não é nada bonito, nada agradável.

O protagonista é um assassino cruel

Também não é um retrato agradável o que ele traça do seu personagem central: Frank Sheeran é um assassino cruel, frio, impiedoso.

(E aqui não consigo deixar de registrar: não tenho mais a mínima paciência para aguentar filmes que tentam humanizar assassinos cruéis, frios, impiedosos.)

Martin Scorsese e seu velho comparsa Robert De Niro constroem magnificamente esse personagem.

Chegam até mesmo a tentar fazer com que o espectador fique com um pouco de simpatia por ele – ou, se não simpatia, pelo menos um pouquinho de dó, de pena dele. A sequência, bem depois que já se passaram umas 3 horas de filme, em que Frank tenta, pateticamente, se aproximar da filha Peggy (interpretada por uma Anna Paquin muito bela), é feita para isso, para que o espectador veja que o assassino cruel, frio, impiedoso também é gente, pô. É um ser humano, uma pessoa, tadinho – e estava sofrendo demais com a decisão firme da filha de não vê-lo, não falar com ele nunca mais.

Mas Scorsese é safo, esperto, experiente, inteligente, sensível. Logo depois, ele nos mostra Frank com um padre – e aí o espectador volta a ver que está diante de um assassino cruel, frio, impiedoso. Que pode estar sofrendo, e está, sim, sofrendo – mas continua sendo um assassino cruel, frio, impiedoso.

As mulheres não têm importância – são bibelôs

O Irlandês reduz as mulheres ao papel de meros figurantes da história – e essa é uma característica fundamental do filme. As mulheres, ao longo de todo o filme, não têm qualquer importância, não têm voz, não tem personalidade. São enfeites, apenas. Bibelôs.

Evidentemente, obviamente, não é que Martin Scorsese seja machista, chauvinista, sexista ou qualquer coisa assim: ele está nos mostrando um universo que é machista, chauvinista, sexista.

O universo daqueles homens do crime organizado não tem espaço para mulheres. As mulheres são apêndices. Bibelôs.

Não há um close-up sequer, em 209 minutos, do rosto de uma mulher.

A primeira mulher de Frank Sheeran, mãe de suas quatro filhas, aparece pouquíssimo. Tem, se tanto, umas duas falas. Ela não importa, não tem importância. Nem sequer se grava o nome dela, ou da atriz que a interpreta. (Creio que ela se chama Mary, e é interpretada por Aleksa Palladino, mas não tenho certeza.)

Lá pelas tantas, Frank bate o olho em uma mulher que trabalha num belo restaurante, Irene (Stephanie Kurtzuba), e se apaixona por ela. Não se fala nada sobre como ficou a primeira mulher, a mãe das filhas. Não interessa.

Bem no início do filme, Frank e seu mentor, seu mestre, seu Yoda, Russell Bufalino (uma interpretação extraordinária do veterano Joe Pesci), estão iniciando uma viagem de carro de Filadélfia até Detroit, com suas respectivas mulheres, Irene e Carrie (Kathrine Narducci). Irene e Carrie não têm importância alguma; falam apenas umas duas frases, sem qualquer significado.

Mulher, naquele mundo, não tem importância alguma. É mera figuração.

A única mulher que tem algum peso – mesmo assim secundário – é Peggy, a filha mais querida de Frank.

Quando garotinha, aí de uns 10 anos (interpretada por Lucy Gallina, na foto acima), Peggy leva um empurrão de um vendedor de um pequeno armazém perto da casa dos Sheeran. Ao saber disso, Frank pega a filha, leva até o armazém, e espanca violentamente, violentissimamente, o vendedor, e pisoteio sua mão. A pequena Peggy, é óbvio, fica apavorada, traumatizada com a cena.

Com sua aparência calma, tranquila, nada violenta, Russell Buffalino tentará se aproximar da garota Peggy – mas ela se mostra tímida diante do homem que o pai respeita como um deus. Fica distante, não se abre. Mais tarde, quando o pai vai se aproximando mais e mais de Jimmy Hoffa, Peggy se demonstra encantada com ele, à vontade com ele. Há uma fala impressionante: ao ver a filha na boa ao lado de Hoffa, Frank pensa com seus botões: é, ele não tem apelidos como aqueles dos mafiosos, tipo Lâmina Fina, Sussurro, Gordo.

Sem dúvida alguma, Peggy, feita por Lucy Gallina quando criança e por Anna Paquin quando adulta (e, maravilha, como a garotinha de O Piano virou uma bela mulher!), é a única personagem feminina que tem alguma importância em O Irlandês.

Numa entrevista, Scorsese falou sobre a personagem – e explicou que escolheu Anna Paquin para o papel de Peggy adulta por admirar sua capacidade de se expressar sem a necessidade de usar palavras – ela tem apenas uma fala ao longo do filme, mas demonstra, pela expressão no rosto, tudo o que a personagem está sentindo: “Você vê seu pai fazendo uma coisa como aquela…  Você vê ele pisando na mão do cara…”, disse o realizador. “Outros garotos talvez pudessem aceitar isso, mas ela não. Ela olha para ele. Ela sabe que ele está para fazer alguma coisa, e Lucy (Gallina) foi ótima, mas Anna foi absolutamente fantástica. Ela tem uma fala no filme. Há coisas sobre as quais você não pode falar. Ela sabe. Ela sabe quem ele (o pai assassino) é. Ele sabe que ela sabe. Mesmo quando ela está sentada ali e (na TV) o policial esá falando sobe o assassinato de Joey Gallo. ‘Um único homem armado entrou…’ … ela está olhando para ele.”.

Grande Anna Paquin.

A morte de Hoffa nunca foi esclarecidas

A morte de Jimmy Hoffa talvez seja o lado mais ficção neste filme que retrata tantos personagens reais, conta tantos episódios reais.

O livro em que se baseou o talentosíssimo roteirista Steven Zaillian, aquele de título comprido, de autoria de Charles Brandt, relata como foi a morte de Jimmy Hoffa. A rigor, é apenas uma versão – e pode perfeitamente não ser a verdadeira. Porque nunca se estabeleceu como foi que aconteceu a morte do homem que havia sido o mais poderoso líder sindical dos Estados Unidos.

Hoffa foi visto pela última vez em 30 de julho de 1975. Ele saiu de sua casa em Detroit dizendo que iria encontrar Anthony Provenzano, um velho conhecido dele, colega no sindicato e nos últimos anos seu rival, e Anthony Giacalone, um mafioso de Detroit que estaria tentando normalizar as relações entre os dois. O encontro estava marcado para acontecer – exatamente como mostra o filme – num restaurante chamado Machus Red Fox, num subúrbio da grande cidade.

Nunca mais foi visto em vida – e seu corpo jamais foi encontrado. Jimmy Hoffa só seria oficialmente declarado morto em 1982.

O relato feito pelo escritor Charles Brandt no seu livro, e mostrado no filme, é, repito, uma versão, apenas uma versão. O autor garante que ouviu essa versão do próprio Frank Sheeran. Aos jornalistas e às autoridades – polícia local, FBI, Justiça – Frank Sheeran, como o filme mostra, jamais contou nada.

A versão de Charles Brandt jamais foi confirmada pelas autoridades.

As circunstâncias do desaparecimento de Jimmy Hoffa jamais foram esclarecidas. Há motivos de sobra para se supor que ele tenha sido assassinado, e que seu corpo tenha sido cremado – mas não há prova ou testemunho oficial algum.

É um roteiro brilhante, elaborado com maestria

Só para lembrar: Steven Zaillian foi o cara que escreveu o roteiro de A Lista de Schindler (1993), aquela obra-prima de Steven Spielberg. É dele também o roteiro de A Qualquer Preço/A Civil Action (1998), uma beleza de drama sobre um advogado rico que aceita lutar nos tribunais contra uma empresa poderosa que contamina a água consumida por uma comunidade pobre. Ganhou 46 prêmios, inclusive o Oscar por Schindler’s List, e teve outras 89 indicações. já havia trabalhado com Scorsese como um dos roteiristas de Gangues de Nova York (2002).

O roteiro que Steven Zaillian escreveu com base no livro de Charles Brandt é um brilho. A narrativa não segue a ordem cronológica. Muito ao contrário: ela vai e volta no tempo, vai e volta, vai e volta. E não há, em momento algum, aqueles letreiros com o quando e o onde, para ajudar o espectador, para que ele não se confunda, não se perca.

Não são necessários os letreiros. O roteiro é tão bom, tão bem estruturado, com tanta maestria, que o espectador não se confunde, não se perde.

A ação começa quando Frank, já bastante idoso, está em uma casa de repouso para velhinhos – mas uma senhora casa de repouso de ricos, imensa, com médicos, enfermeiras, salas e mais salas de estar. É o próprio Frank-Robert De Niro que se vira para a câmara, e portanto para o espectador, e começa a narrar a história. E começa contando aquela já citada viagem de carro desde Filadélfia com destino a Detroit, que ele, Frank, havia feito com Russell Bufalino e suas mulheres.

Depois de ver o filme, e fazer umas consultas na internet, o espectador poderá ficar sabendo que aquela viagem aconteceu em 1975, julho de 1975. Como Frank está contando a história já numa casa de repouso, bem velhinho, dá para saber que então aquilo é por volta de 2000, 2001, 2002 – Frank, como já foi dito, morreu em 2003.

O relato sobre a viagem é entremeado por histórias de como Frank conheceu Russell Bufalino, lá bem atrás no passado, e como a amizade entre os dois foi crescendo, aumentando, se tornando cada vez mais forte. Dá então para saber – até pelas músicas que tocam, pelas roupas, pelos carros, e, principalmente, pelo noticiário sobre política – que Frank e Bufalino se conheceram no final dos anos 50.

Foi Bufalino que apresentou Frank a Jimmy Hoffa. Hoffa já era presidente do Sindicato dos Caminhoneiros, o International Brotherhood of Teamsters, e muito famoso – como foi dito, ele presidiu o sindicato entre 1957 e 1971. John F. Kennedy foi eleito em 1960.

Frank e Hoffa estão juntos em uma lanchonete no momento em que a TV dá a informação de que Kennedy havia sido atingido por tiros em Dallas. Todos no bar se levantam, se comprimem diante do aparelho de TV. As pessoas têm a expressão de surpresa, de dor – muitos choram. Hoffa se levanta, olha para a TV durante um tempinho e em seguida volta a se sentar à mesa que seu grupo ocupava; é o primeiro a voltar a se sentar.

Scorsese parece querer nos dizer que Jimmy Hoffa, ao contrário de milhões e milhões e milhões de pessoas – não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo todo –, não ficou nem chocado, nem surpreso, nem triste com o fato de que um atirador tirou a vida do jovem, vibrante, popular presidente da República.

Se não fosse a Netflix, o filme não teria sido feito

Até o final de fevereiro de 2020, O Irlandês havia vencido 63 prêmios, fora outras 308 indicações. Meu Deus, 63 prêmios, 308 outras indicações.

Ao Oscar, foram nada menos que 10 indicações, incluindo melhor filme, melhor direção, melhor ator coadjuvante para Al Pacino e para Joe Pesci, melhor roteiro adaptado e melhor fotografia.

Ao Globo de Ouro, o filme também havia tido 5 indicações, nas categorias de melhor filme – drama, melhor diretor, melhor ator coadjuvante para Al Pacino e para Joe Pesci e melhor roteiro.

Scorsese compareceu às festas do Globo de Ouro e da entrega dos Oscars. Na primeira, no dia dia 5 de janeiro de 2020; sentou-se a uma mesa rodeado por seus velhos amigos Robert De Niro, Joe Pesci e Harvey Keitel (este último aparece muito pouco no filme; faz uma participação especial como Angelo Bruno, um importanre chefão mafioso). Saiu de lá sem um único prêmio – a Associação dos Correspondentes Estrangeiros em Hollywood cometeu a besteira de ignorar, nas premiações, todos os filmes que foram exibidos pela Netflix. Entre os perdedores por essa idiota posição política, ideológica, em defesa do cinema de tela grande, estavam, além de O Irlandês, o maravilhoso Dois Papas, de Fernando Meirelles, o incensado História de um Casamento, de Noah Baumbach, e as excelentes séries The Crown, terceira temporada, Chernobyl e Inacreditável.

Saiu da cerimônia dos Oscars igualmente sem levar um único prêmio.

Foi a Netflix, tudo indica, que garantiu que O Irlandês fosse realizado, e esse fato é muito importante, e muito ilustrativo de como a guerra cinema de tela grande x empresas de streaming é – além de tola, imbecil – prejudicial à arte.

Segundo o IMDb, quem bancaria a produção seriam a Paramount Pictures, que distribuiria o filme no mercado americano e canadense, a Media Asia, que faria a distribuição no mercado chinês, hoje o segundo maior do mundo, e a STX Entertainment, que ficaria com os direitos do filme nos demais mercados. Mas a Paramount deu para trás, considerando que o custo inicial, estimado em US$ 100 milhões, era alto demais para um drama sério, para platéias adultas.

Martin Scorsese deu entrevistas lamentando que não houvesse estúdio algum, nos Estados Unidos, capaz de investir em um filme dirigido por ele e estrelado por Robert De Niro.

Aí o chefão da Netflix, Ted Sarandos, estrou na história, comprou os direitos do filme e bancou a produção – que acabaria custando cerca de US$ 170 milhões.

O fato de um filme ser produzido pela Netflix tem sérias consequências mercadológicas: as grandes cadeias de exibição nos Estados Unidos (e também na Europa) ainda se recusam a exibir em suas salas filmes que estarão disponíveis nas casas dos espectadores, via streaming, apenas 30 dias após o lançamento. Há um “acordo de cavalheiros” entre produtores e exibidores de que uma janela de 90 dias tem que ser garantida entre a exibição em cinemas e a disponibilização de um filme via cabo ou streaming.

Assim, The Irishman só pôde ser visto nos Estados Unidos em algumas salas de circuito independente ou “cinemas de arte”.

Era isso, ou o filme não existiria. Martin Scorsese sabiamente escolheu fazer o filme.

De Niro preferia o título I Heard You Paint Houses

Se minhas contas estiverem certas, O Irlandês é o longa-metragem de número 39 de Martin Scorsese – e o 25º de ficção. O grande realizador já fez 14 documentários de longa-metragem. (Parece que minha conta está errada: segundo o IMDb, é o 26º longa de ficção.)

O Irlandês é o terceiro filme em que Al Pacino e Robert De Niro aparecem juntos. Já haviam trabalhado juntos antes em Fogo Contra Fogo (1995) e As Duas Faces da Lei (2008). Os dois estão no elenco de The Godfather II (1974), mas não aparecem juntos uma única vez.

Embora trabalhem basicamente em Nova York, embora façam filmes passados em Nova York, embora façam muitos policiais, e estejam em ação desde o final dos anos 60, Martin Scorsese e Al Pacino jamais haviam trabalhado juntos. Esta foi a primeira vez.

Foi também a primeira vez em que Pacino e Joe Pesci (na foto acima) trabalham juntos.

Mas foi o nono filme em que Scorsese dirige seu amigo De Niro, depois de Caminhos Perigosos (1973), Taxi Driver (1976), New York, New York (1977), Touro Indomável (1980), O Rei da Comédia (1982), Os Bons Companheiros (1990), Cabo do Medo (1991) e Cassino (1995).

Foi a sexta parceria entre Scorsese e Harvey Keitel, depois Quem Bate à Minha Porta? (1967), Caminhos Perigosos (1973), Alice Não Mora Mais Aqui (1974), Taxi Driver (1976) e A Última Tentação de Cristo (1988).

E foi o sétimo que reuniu Robert De Niro e Joe Pesci, depois de Touro Indomável (1980), Era uma Vez na América (1984), Os Bons Companheiros (1990), Cassino (1995), Desafio no Bronx (1993), e O Bom Pastor (2006).

Depois de O Bom Pastor, um filme dirigido por Robert De Niro, sobre os primeiros tempos da CIA, Joe Pesci havia praticamente se aposentado. Em 2010 fez, ao lado de Helen Mirren, Rancho de Amor, e em 2015 fez a voz de um personagem de um filme de animação russo, Savva. Serdtse voina. Em 2018 aceitou participar de um curta, Google Assistant: Home Alone Again. Só isso.

Consta que ele recusou uns 50 pedidos para que ele abandonasse a aposentadoria e fizesse o papel de Russell Bufalino. Finalmente, depois de tantos pedidos, topou trabalhar ao lado dos grandes amigos – e o cinema saiu ganhando. A interpretação dele é a melhor de todo o elenco. É um show.

Há uma montanha de fatos interessantes como esse envolvendo o filme e sua produção. A página de Trivia do IMDb sobre O Irlandês tem mais de 100 itens. É tanta trívia que até da preguiça. Vou transcrever umas poucas, com alguns adendos meus.

* Robert De Niro disse que gostaria que o filme tivesse o mesmo título do livro, I Heard You Paint Houses. Scorsese colocou essas palavras em letras garrafais, gigantescas, duas vezes, ao longo do filme – uma bem no início, outra bastante perto do fim.

Ouvi dizer que você pinta casas. Frank Sheeran-Robert De Niro fala essa frase, que é uma ironia extremamente amarga: o pintar casas, aí, se refere é pintar de sangue paredes de casas – o sangue que estoura da cabeça dos homens assassinados com tiros a queima-roupa.

Horror.

Essa é a primeira frase que Jimmy Hoffa diz quando se encontra pela primeira vez com Frank Sheeran – um encontro arranjado pelo amigo comum Russell Bufalino. “Ouvi dizer que você pinta casas”, o sindicalista diz. E Frank Sheeran responde: – “E também faço o trabalho de carpintaria.” Carpintaria, aí, é a limpeza do local após a execução da vítima.

Horror.

* Com suas 3h29 de duração, este é não apenas o filme mais longo de Scorsese como é também o filme de exibição comercial mais longo lançado nos últimos 20 anos. Perto dele, Cleópatra, a superprodução que quebrou a 20th Century Fox em 1963 é quase curo: tem só 3h12.

* As filmagens começaram em agosto de 2017 e duraram nada menos que 106 dias – outro recorde na carreira de Scorsese, e provavelmente nos filmes de Hollywood nos últimos muitos anos.

* Ah, as curiosidades, as informações absolutamente inúteis mas gostosas. A palavra “fuck” e suas variações são faladas 136 vezes no filme. Pouco, comparado com Os Bons Companheiros (300 vezes), Cassino (422), Os Infiltrados (237) e O Lobo de Wall Street (569).

A trilha sonora é do velho amigo Robbie Robertson

Este texto já está grande demais até mesmo para os meus padrões, mas faço questão de ainda registrar dois fatos.

O mafioso Joey Gallo (interpretado Sebastian Maniscalco), que é executado por Frank Sheeran em um restaurante da Little Italy, em Nova York, é o personagem da música “Joey”, de Bob Dylan, que está no álbum Desire, de 1975. Na longa e bela letra, realçada por uma melodia especialmente encantadora, Dylan segue aquela tendência volta e meia presente na música folk e no cinema americanos de endeusar bandidos.

Há aí uma coincidência interessante. Scorsese, como se sabe, realizou dois importantes documentários sobre Bob Dylan e sua obra. O primeiro foi No Direction Home: Bob Dylan, de 2005. Em 2019, o mesmo ano de O Irlandês, ele lançou Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese, sobre a turnê que o compositor realizou a partir de 1975, exatamente após o lançamento do álbum Desire.

Na verdade, a ligação de Scorsese com o rock e o pop, e especificamente com Dylan, data bem lá de trás. Ainda em 1978, o diretor lançou O Último Concerto de Rock/The Last Walk, um precioso documentário sobre as últimas apresentações do grupo canadense The Band, que acompanhou Dylan no estúdio e em turnês do finalzinho dos anos 60 até meados dos 70.

O guitarrista, pianista e vocalista da formação inicial de The Band, Robbie Robertson, tornou-se bastante próximo de Scorsese, e assinou a trilha sonora de três filmes do realizador: O Rei da Comédia (1982), A Cor do Dinheiro (1986) e deste O Irlandês aqui.

Bem, é isso. Meu texto ficou quase tão longo quanto o filme. Espero que Martin Scorsese não volte a fazer filmes sobre mafiosos – este aqui de fato é definitivo. Quanto a mim, para recorrer àquela expressão educada que se usa ao final de uma lauta refeição, estou satisfeito.

Anotação em janeiro de 2020, com atualização em fevereiro.

O Irlandês/The Irishman

De Martin Scorsese, EUA, 2019.

Com Robert De Niro (Frank Sheeran)

e Al Pacino (Jimmy Hoffa), Joe Pesci (Russell Bufalino), Ray Romano (Bill Bufalino, o advogado, irmão mais novo de Russell), Bobby Cannavale (Skinny Razor), Anna Paquin (Peggy Sheeran, a filha de Frank), Stephen Graham (Anthony Provenzano, o Tony Pro), Stephanie Kurtzuba (Irene Sheeran, a segunda mulher de Frank), Jack Huston (Robert Kennedy), Kathrine Narducci   (Carrie Bufalino, a mulher de Russell), Jesse Plemons (Chuckie O’Brien, o filho de Jimmy Hoffa), Domenick Lombardozzi (Fat Tony Salerno), Paul Herman (Whispers DiTullio), Sebastian Maniscalco (Crazy Joe Gallo), Gary Basaraba (Frank Fitzsimmons, o vice de Jimmy Hoffa), Marin Ireland (Dolores Sheeran, a filha de Frank, adulta), Lucy Gallina (Peggy Sheeran, a filha de Frank, criança), Dascha Polanco (enfermeira), Aleksa Palladino (Mary Sheeran), Welker White (Jo Hoffa, a mulher de Jimmy Hoffa), Louis Cancelmi (Sally Bugs), Bo Dietl (Joey Glimco), Daniel Jenkins (E. Howard Hunt, o Big Ears)

e, em participação especial, Harvey Keitel (Angelo Bruno)

Roteiro Steven Zaillian

Baseado no livro de Charles Brandt

Fotografia Rodrigo Prieto

Música Robbie Robertson

Montagem Thelma Schoonmaker

Casting Ellen Lewis

Figurinos Christopher Peterson, Sandy Powell

Produção Tribeca Productions, Sikelia Productions, Winkler Films. Distribuição Netflix

Cor, 209 min (3h29)

****

6 Comentários para “O Irlandês / The Irishman”

  1. Epa, Eire! Como diria aquele senhor, menas, menas… Assim fica parecendo que você está rindo de mim, me gozando…
    Muito obrigado por enviar o comentário, Eire caríssima!
    Um abraço!
    Sérgio

  2. Exceto pelo tal odio petista as investigacoes, que nao sei de onde tirou tal ideia, parabens pelo texto. Tal odio jamais existiu.

  3. O filme está disponível na Netflix mas nem tentei vê-lo.
    É que estou farto de mafiosos e logo de Scorsese há monte deles.
    Nunca gostei do tema e vi e gostei dos Godfather 1 e 2 (o 3 era dispensável) mais nenhum.
    Até o Once Upon a Time in America de Sérgio leone me deixou gelado.
    Mafiosos não é comigo.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *