Todos os Homens do Presidente / All the President’s Men

Nota: ★★★★

Anotação em 2011: Todos os Homens do Presidente é um filme admirável, impressionante. Ao revê-lo agora, três décadas e meia depois da primeira vez, fiquei muito impressionado – o termo é este mesmo – como o filme consegue prender a atenção, envolver, mesmo que o espectador já saiba de tudo da história, já conheça de cor e salteado seu final.

É de fato fantástico, fascinante, como o diretor Alan J. Pakula e o roteirista William Goldman conseguiram contar uma história que todo mundo conhece bem, uma história que envolve política e jornalismo, duas coisas que muitas vezes são entendiantes, como se fosse um thriller, um bom filme policial. É um filme mais longo do que a imensa maioria – são 138 minutos, contra os habituais 90 ou 100 –, e passa rápido, como passam rápidos os grandes filmes.

É, seguramente, um dos melhores filmes que já foram feitos sobre jornalismo. Certo, a trama – toda verdadeira, toda real – é excepcional: trata-se, afinal de contas, do mais fantástico, sensacional caso de jornalismo investigativo da História. Só aconteceu uma vez na vida o fato de dois repórteres derrubarem um presidente da nação mais poderosa do planeta.

Mas é sensacional como o filme consegue registrar o que é a vida dentro da redação de um grande jornal, como consegue reproduzir o clima de uma grande redação com uma fidelidade incrível. As reuniões dos editores – impressionante, é como se uma equipe de documentaristas gravasse uma reunião de editores, sem que eles soubessem da existência das câmaras, e se comportassem da maneira mais natural possível.

Pakula e o diretor de fotografia, o grande Gordon Willis, conseguem criar travellings antológicos, de grande beleza visual, de impacto dramático, apenas ao acompanhar repórteres andando depressa, correndo, dentro de uma redação!

É muito talento.

Incrível como um filme feito no calor do momento possa ser tão duradouro

O filme se mantém hoje tão eletrizante, tão vivo e vívido, quanto na época em que foi feito, 1976. E ele foi produzido no calor do momento, pouquíssimo tempo depois dos fatos que ele retrata, reconstitui. A invasão do escritório central do Partido Democrata, no conjunto de prédios Watergate, em Washington, para a instalação de grampo, escuta telefônica, se deu no dia 17 de junho de 1972. As investigações do caso pelos dois repórteres do Washington Post, Carl Bernstein e Bob Woodward, mostradas no filme, aconteceram em 1972; em 1973 começaram as condenações dos funcionários do governo Richard Nixon que planejaram, autorizaram e financiaram o assalto. E a renúncia do presidente, para evitar um quase certo impeachment – a primeira e única renúncia de um presidente americano, em 200 anos de democracia – veio em 9 de agosto de 1974.

É fascinante como um filme feito assim no calor dos acontecimentos possa ser tão duradouro. É daquelas narrativas impecáveis – não há o que tirar ou o que acrescentar.

Como eram jovens, Redford e Hoffman, e como trabalham com garra

1976 – um ano depois que minha filha nasceu. El tiempo passa – e chega a ser até assustador ver como Robert Redford e Dustin Hoffman eram jovens, uma vida de Fernanda atrás. Jovens, belos, talentosos – e, embora já consagrados, grandes astros, atuando com imensa garra, energia, vontade, exatamente como trabalharam no caso da invasão do comitê democrata os jovens repórteres que interpretam, respectivamente Woodward e Bernstein. É visível na tela o envolvimento dos dois atores com o projeto, a alegria, a emoção de estar levando para o cinema, para o grande público, a história de como foi pega com a mão na botija a quadrilha instalada na Casa Branca pelo governo republicano.

Não é à toa, claro. Nove entre dez grandes nomes do cinema americano são democratas; Hollywood é uma indústria anti-Partido Republicano. Robert Redford, então com 40 anos, com a aparência de 30, e Dustin Hoffman, então com 39, mas, com o cabelão comprido, parecendo quase tão jovem quanto o Ben Braddock de A Primeira Noite de Um Homem/The Graduate, de 1967, eram e são simpatizantes das causas liberais, avançadas. Seguramente votam no Partido Democrata, sempre. Redford foi um dos produtores do filme.

O filme desfaz o mito de que um era bom de texto e o outro, de apuração

Difundiu-se o mito, nas décadas seguintes ao escândalo Watergate, de que Woodward era melhor no texto e Bernstein, na apuração. (Ou seria o contrário?) Não é o que o filme mostra; o que vemos é que os dois eram bons repórteres, apuravam bem, sabiam ir atrás das fontes, anotavam literalmente as palavras dos entrevistados. Woodward estava há menos tempo no Washington Post – era um novato, com nove meses apenas no jornalão; Bernstein era mais experiente, tinha 16 anos de profissão, e, no início, pega os textos de Woodward e os reescreve. Bernstein tinha mais fontes – mas a fonte mais importante, o Garganta Profunda, era de Woodward. E, ao longo da investigação, os dois, que não se conheciam direito, não eram amigos, passam a trabalhar juntos, dividindo igualmente a apuração e o texto.

Há, lá pela metade do filme, um momento em que Bernstein pede para Woodward redigir o texto a partir das informações que havia conseguido arrancar a fórceps de uma funcionária do comitê para a reeleição de Nixon, e havia anotado em pedaços de guardanapo de papel quando a moça se ausentava.

Este é um detalhe importante para desfazer aquele mito de que um era melhor no texto e o outro, melhor na investigação. O mesmo Bernstein mais experiente que a princípio reescrevia os textos de Woodward mais novato pede ao colega que redija o texto com os fatos apurados por ele.

É fascinante a disputa entre as duas editorias, a de Geral e a Política

Um dos pontos mais saborosos de toda a história é que Woodward e Bernstein eram repórteres da editoria de Reportagem Geral, a que cobre os acontecimentos da área metropolitana – polícia, transportes, greves, acidentes. Como houve um assalto – cinco homens foram presos pela policia no Watergate, depois de invadir o escritório do Partido Democrata –, e como era um fim de semana, os dois foram incumbidos de cobrir a história. Naquele momento, não se tinha a mínima idéia de que o assalto seria a ponta do novelo que levaria até o comitê pela reeleição de Nixon e depois até os mais altos escalões da Casa Branca, até a sala do presidente da República.

O filme mostra a disputa que se seguiria entre o editor de Reportagem Geral, ou Cidades, ou Local, ou Metropolitana (os nomes variam de acordo com cada jornal, mas é a mesma coisa), Harry Rosenfeld (Jack Warden), e o de Política, para determinar a quem caberia a continuação da cobertura do caso. A rigor, teria que passar para a Política – mas quem tinha começado era a editoria de Cidades. Há discussões envolvendo Rosenfeld, de Cidades, e o secretário de Redação, Howard Simmons (o veterano Martin Balsam). Os repórteres de Política são mais experientes, conhecem as fontes – argumentava-se. Mas – vinha o contra-argumento – Woodward e Bernstein, embora repórteres de Cidades, tinham começado, estavam com muita garra, eram jovens. “Lembra-se de quando você era um jovem repórter, cheio de garra?”, pergunta o editor Rosenfeld para o secretário Simmons.

Os sujeitos da editoria de Política sentem-se superiores, nariz empinado

Claro, para os seres humanos, ou seja, os não-jornalistas, essa briguinha intramuros, dentro da redação do jornal, pode não ser tão fascinante – embora seja sempre fascinante ver disputas internas de personagens na polícia, ou dentro de um escritório de advocacia, ou em qualquer empresa, mesmo quando o espectador não é policial, ou advogado. Mas para nós, jornalistas, ver aquilo no filme é uma maravilha absoluta.

É uma tradição secular que os jornalistas da editoria de Política se sintam superiores a seus colegas de Cidade/ou Local/ou Geral/ou Cotidiano, seja que nome tenha em cada jornal. Nariz mais empinado do que costumam ter muitos dos caras da Política, só o dos sujeitos da editoria de Economia.

“Tirem a palavra tetas e publiquem”

É uma beleza a forma com que o roteiro de William Goldman mostra Ben Bradlee, o lendário diretor de redação do Washington Post, interpretado impecavelmente por Jason Robards. A princípio, ele aparece pouco. A câmara às vezes até o mostra, lá ao fundo da redação, mas ele está distante; o assalto ao escritório democrata no Watergate ainda é um assunto menor, que não precisa chegar ao diretor de redação. À medida em que as investigações prosseguem, e vão surgindo as revelações que implicam figuras cada vez mais importantes no comitê de reeleição de Nixon e depois na própria Casa Branca, as decisões têm que passar por Bradlee.

Há uma seqüência especialmente fantástica quando um dos figurões do governo Nixon diz a Woodward que, se for publicada a informação de que ele está envolvido, o jornal vai ser arrasado, e a sra. Graham – Katharine Graham, a augusta, aristocrática proprietária do Washington Post – será pendurada pelas tetas. Levam o caso a Bradlee, no meio da redação; ele está com roupa social, de saída para algum evento elegante, importante. Senta-se em cima de uma mesa, interroga a dupla de repórteres – a quem uma determinada hora chama de Woodstein (ou seria Bernwood? não anotei na hora). Estão seguros? Aquilo é literalmente o que o figurão falou? Ele de fato disse o nome da sra. Graham? Têm certeza? E aí decide:

– “Tirem a palavra tetas e publiquem.”

Era uma vitória dos repórteres, o diretor de redação havia decidido publicar a história, mas para Bernstein ainda era pouco – ele queria publicar a frase inteira.

Bernstein quase grita: – “Por quê?”

E Bradlee, antes de ir para sua festa de gala: – “Porque este é um jornal de família.”

Não havia internet, não havia Google – e se fazia um jornalismo muito melhor

Um elemento fascinante do filme, da história – e aí é, ou deveria ser, tão fascinante para os seres humanos quanto para os jornalistas – é que tudo aquilo aconteceu antes da informatização, da internet. Trabalhava-se nas máquinas de escrever, escrevia-se nas laudas. Não havia Google – para achar uma informação era preciso ir ao arquivo, ler cópias xerox em pastas; para achar um endereço, ou um telefone, era preciso consultar o catálogo.

Não consigo resistir, é impossível: pois é, e naquele tempo fazia-se um jornalismo muito melhor do que hoje. E não só lá, no Império. Aqui também. Havia uma coisa chamada reportagem, esse treco hoje em extinção.

Claro, pode parecer lamento saudosista de um velho homem de imprensa. Então tá. Vamos em frente.

É muito simples: sem imprensa grande, forte, não há democracia

O que este filme esplendoroso mostra – como mostram também outros ótimos filmes mais recentes, O Informante/The Insider (1999), Faces da Verdade/Nothing but the Truth (2008), O Solista (2009), Intrigas de Estado/State of Play (2009), para citar só alguns – é a imensa importância da grande imprensa, dos grandes jornais, do jornalismo sério feito pelas grandes redes de TV.

Todos esses filmes citados, e Todos os Homens do Presidente em especial, demonstram esta verdade clara, límpida: jornais e emissoras de TV poderosos, fortes, independentes, pertencentes a grandes, sólidas empresas, são fundamentais para a democracia. São os garantidores da liberdade dos cidadãos. São os melhores instrumentos para vigiar o poder, para coibir os abusos do Estado, dos grupos políticos que dominam o Estado, mesmo que por um período determinado. Sem imprensa independente e forte e pluralista não há democracia, respeito aos direitos civis, aos direitos humanos básicos, fundamentais.

É exatamente por isso que todos os governos com tendências autoritárias, totalitárias, todos os partidos com tendências autoritárias, totalitárias que chegam ao poder lutam tão desesperadamente contra a grande imprensa. É o que vemos agora, com maior ou menor grau, na Venezuela, no Equador, na Bolívia, na Argentina. É o que vemos, no Brasil, nos eternos ataques à grande imprensa nos tais blogs que se dizem progressistas – e que são feitos por quem, de uma maneira ou de outra, é sustentado pelo lulo-petismo.

O grau de democracia, de respeito ao cidadão comum, é diretamente proporcional à existência de uma imprensa independente e forte e pluralista. De um lado estão os países que têm um New York Times, um Washington Post, um The Guardian, The Independent; do lado oposto estão os países do Pravda, do Granma. É simples assim.

Um amplo esquema criminoso, idealizado por uma quadrilha formada por gente do governo

Uma das grandes lições de Todos os Homens do Presidente – e isso é dito com todas as letras no filme – é que o escândalo Watergate não foi só, de forma alguma, um caso aloprado de assalto aos escritórios do Partido Democrata. Tratava-se de um amplo esquema criminoso, uma quadrilha formada por gente de um governo que, para se manter no poder, pôs em prática ações criminosas, transformando instituições do Estado, da República, de todos, em instrumentos partidários.

Um amplo esquema criminoso, idealizado e executado por uma quadrilha formada por gente do governo, não muito diferente do que foi posto em prática nos últimos oito anos e meio no Brasil.

“Um exercício de inteligência”, “um filme soberbo”

Um pequeno detalhe que precisa ser registrado. O título do filme tem tudo, absolutamente tudo a ver com All the King’s Man, uma obra-prima do cinema político realizada em 1949 por Robert Rossen, sobre ideais, poder e corrupção. No Brasil, o filme de Rossen ganhou o título de A Grande Ilusão, o mesmo de outro grande clássico, A Grande Ilusão de Jean Renoir, de 1937. E aí é preciso registrar também que, em 2006, fizeram a imensa besteira de refilmar o All the King’s Man original; embora com elenco extraordinário, a nova versão de A Grande Ilusão foi uma porcaria.

Todos os Homens do Presidente ganhou 16 prêmios e teve outras 20 indicações. Teve oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, e levou as estatuetas de roteiro adaptado (baseado no livro escrito por Carl Bernstein e Bob Woodward), ator coadjuvante para Jason Robards, direção de arte e som.

Diz o livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer: “O maior dos filmes de investigação jornalística (…) continua agradando como exercício de inteligência. É um dos mais emocionantes e cativantes thrillers, ainda que seja baseado em fatos bem conhecidos cuja conclusão nunca é questionada.”

Legal – é parecido com o que eu escrevi lá em cima, antes, é claro, de ir atrás de outras opiniões.

O Guide des Films de Jean Tulard diz: “O famoso caso Watergate levado à tela como se fosse um notável documentário sobre os métodos de trabalho da imprensa americana. Foi filmado como um thriller e tem a eficácia de um.”

Leonard Maltin deu a cotação máxima, 4 estrelas: “Os melhores elementos dos filmes sobre jornais, histórias de detetives e thrillers reunidos num filme soberbo.” Curto, grosso e corretíssimo, na minha opinião.

Todos os Homens do Presidente/All the President’s Men

De Alan J. Pakula, EUA, 1976

Com Dustin Hoffman (Carl Bernstein), Robert Redford (Bob Woodward), Jack Warden (Harry Rosenfeld), Martin Balsam (Howard Simons), Hal Holbrook (Garganta Profunda), Jason Robards (Ben Bradlee), Jane Alexander, Meredith Baxter (Debbie Sloan), Ned Beatty (Dardis)

Roteiro William Goldman

Baseado no livro de Carl Bernstein e Bob Woodward

Fotografia Gordon Willis

Música David Shire

Produção Warner Bros. Blu-ray e DVD Warner.

Cor, 138 min

R, ****

Título em Portugal: Os Homens do Presidente. Título na França: Les Hommes du Président.

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