O Show Deve Continuar / All That Jazz

Nota: ★★★★

Anotação em 2011: Não tive dúvida alguma quando saí do Cine Belas Artes depois de ver All That Jazz pela primeira vez, em 1979: era um dos melhores filmes que eu já tinha visto. Revi várias vezes, revi de novo agora, e continuo sem dúvida alguma: All That Jazz é um dos melhores filmes que já foram feitos.

Claro: esta é minha opinião. Ninguém precisa concordar com ela.

Posso dizer de outra maneira: All That Jazz é um dos filmes de que mais gosto na vida.

Tudo, absolutamente tudo no filme é brilhante. A partir das idéias básicas, da trama. Em O Sétimo Selo, de 1957, Ingmar Bergman retratou a morte na forma de um cavaleiro todo vestido de preto. Em A Carruagem Fantasma, de 1921, Victor Sjöström – que seria o protagonista de outra obra-prima de Bergman, Morangos Silvestres – mostrou a morte como um homem com um capuz que lhe cobre o rosto, tendo na mão esquerda a grande foice, talvez a imagem mais disseminada no imaginário coletivo da morte.

A morte retratada como um anjo, uma mulher linda, sedutora

Bob Fosse retrata o anjo da morte, chamado Angelique, como uma mulher de rosto angelical, toda vestida de branco – o rosto lindíssimo de Jessica Lange, então com 30 anos de idade, começando a carreira; tinha estreado na primeira refilmagem de King Kong, em 1976, e não teve outros convites; este aqui foi seu segundo filme. Na época, ela era namorada de Fosse; seu desempenho como a loura imaculada por quem tomba de amor o gorilão gigante havia sido arrasado pela crítica. Dizia-se que Jessica Lange era uma carinha linda sem qualquer talento. Jessica Lange se tornaria uma das melhores atrizes de sua geração.

Angelique conversa com Joe Gideon, o protagonista da história (interpretado por Roy Scheider), sempre sorrindo, um sorriso lindo, de beatitude, de anjo – mas que é também sedutor. Ela é sedutora, com aquela beleza radiante dela, e joga seu charme para cima de Joe, coreógrafo aclamado, cineasta bissexto, perfeccionista, trabalhador incansável, dedicado, mas, sobretudo, um mulherengo, um comedor de tudo quanto é mulher que lhe passa à frente.

Joe Gideon tem todas as características para atrair o anjo da morte: fuma um cigarro atrás do outro, sem parar, bebe muito, vive estressado em meio a uma rotina de trabalho duríssima, se entope de anfetaminas. (Muitas dessas características de Joe Gideon se aplicam a Bob Fosse. Joe é um alter ego do diretor. All That Jazz é uma espécie de autobiografia.) Angelique está encantada com ele, com sua vida desregrada, sua nenhuma atenção à saúde. Mas Joe, o que não consegue parar quieto diante de qualquer mulher, diante de Angelique hesita. Resiste à sedução dela, ou pelo menos tenta resistir.

Lá pela metade do filme, Angelique vai tirar o véu que cobria seus cabelos, vai soltar os cabelos longos, lindos, vai se mostrar ainda mais bela – mas Joe ainda tenta resistir.

Só mesmo Bob Fosse (1927-1987), o autor de Cabaret, um musical que tem como pano de fundo o crescimento do nazismo, poderia fazer um musical sobre a sedução do anjo da morte.

Já perto do final, Fosse filma Joe Gideon com a câmara no alto, um belo plongée, e Joe olha para cima, para a câmara, como se estivesse tentando olhar para Deus, e pergunta:

– “O que é? Você não gosta de uma comédia musical?”

“Viver é andar na corda bamba. O resto é esperar.”

Não há uma tomada que não seja bela, perfeita, em All That Jazz. A montagem é extraordinária – há muitas tomadas curtas, ágeis, rápidas, e a montagem dá ao filme uma sensação de pressa, de urgência. As tomadas são curtas na medida certa – se o ritmo fosse um pouco mais acelerado, poderia virar aquela coisa cansativa do visual pós MTV. Não é, em absoluto. É na medida exata. É tudo na medida exata. A perfeição.

O filme abre com um diálogo entre Joe e Angelique. Eles conversam num lugar amplo, como se fosse um estúdio de filmagem, ou a coxia de um gigantesco teatro. Joe anda numa corda bamba e cai na rede, depois de dizer a frase maravilhosa, brilhante:

– “Viver é andar na corda bamba. O resto é esperar.”

Angelique sorri, mas replica que aquilo está muito teatral.

Logo depois desse rápido prefácio, vem a introdução: é uma seqüência longa, brilhante, das mais brilhantes que já foram feitas. Joe Gideon está escolhendo os dançarinos de seu novo show. São dezenas, centenas, que vão se apresentando no palco de um belo teatro, ao som de “On Broadway”, com George Benson, uma gravação maravilhosa. Se só tivesse aquele prefácio e essa longa seqüência da escolha dos dançarinos, All That Jazz já seria uma obra-prima.

Estão no teatro, assistindo à escolha do elenco, os três produtores do novo show, mais o compositor Paul (Anthony Holland), e, bem lá atrás, nas últimas fileiras, a ex-mulher de Joe e estrela de seus shows, Audrey (Leland Palmer), e a filha do casal, uma garotinha de uns 14, 15 anos, Michelle (Erzsebet Foldi).

Ao mesmo tempo em que está escolhendo os dançarinos de seu novo show, Joe Gideon está montando seu último filme, The Stand-Up.

E aqui as figuras de Bob Fosse e Joe Gideon se aproximam demais, praticamente se fundem uma à outra.

Bob Fosse se mostra inteiro no ourives que nunca está satisfeito com sua obra

Ao mostrar como Joe Gideon trabalha incessantemente na montagem de seu filme, nunca satisfeito com o resultado, tentando mudar uma coisinha aqui, uma coisinha ali, Bob Fosse abre a alma para o espectador, exibe como ele deve ter trabalhado na vida real com os pouquíssimos filmes que fez. É o ourives em ação, esmerilhando um tantinho aqui, um tantinho ali, sofrendo, fazendo sofrer seus auxiliares, que não suportam mais ver pela décima milionésima vez a mesma seqüência sendo retrabalhada, refeita, reajustada, para desespero de seu agente, pressionado pelos produtores – o tempo de filmagens já estourou, o orçamento já estourou, e o homem está ali estourando também o tempo previsto para a montagem final do filme, mas não está nunca satisfeito, acha que sempre pode melhorar um pouco mais se cortar uma fala, acrescentar uma outra que havia sido deixada de fora.

O dia-a-dia louco de Joe, entre o teatro do novo show e a sala de montagem do novo filme, vai sendo intercalado com os diálogos entre ele e Angelique. Num desses diálogos, Joe questiona sobre a perfeição, e sobre Deus, o mesmo a quem ele perguntará se não gosta de comédias musicais:

– “Nada do que eu faço é suficientemente bom. Não suficientemente belo, não suficientemente engraçado, não suficientemente profundo – não é suficientemente coisa alguma. Agora, quando eu vejo uma rosa, ela é perfeita. Perfeita. Dá vontade de virar para Deus e dizer: ‘Como raios você fez isso? E por que raios eu não consigo?’”

E Angelique, angelicamente: – “Nossa, essa é provavelmente uma de suas melhores falas safadas”.

E Joe: – “É mesmo. Mas isso não significa que eu não esteja falando a verdade.”

Um filme dentro do filme dentro do filme

The Stand-Up, o filme que Joe Gideon está montando, mostra um comediante, Davis Newman (interpretado por Cliff Gorman), em um teatro, falando à sua audiência sobre a morte, fazendo o público rir com piadas sobre a morte. Ela fala de uma psiquiatra de Chicago, que escreveu um elaborado, intelectualizado ensaio sobre a morte:

– “Essa fulana, cara, sem ter tido ela mesma o benefício de ter morrido, dividiu o processo de morrer em cinco estágios: raiva, negação, negociação, depressão e aceitação. Parece o nome de um escritório de advocacia judeu: ‘Bom dia, Angerdenialbargainingdepressionacceptance!’.”

E a partir daí o comediante vai brincar com cada um dos estágios – e Joe Gideon fica trabalhando e retrabalhando no material já filmado, para conseguir a melhor montagem possível.

É o filme dentro do filme dentro do filme, porque The Stand-Up, o filme que Joe Gideon está fazendo, é muito parecido com Lenny, o filme que Bob Fosse fez em 1974 retratando a trágica vida real de Lenny Bruce (1925-1966). Lenny Bruce, interpretado no filme de Fosse, com absoluto brilhantismo, por Dustin Hoffman, foi um gênio da stand-up comedy – essa coisa de um comediante ficar sozinho no palco falando sem parar, que, embora nunca tenha saído de moda, está mais na moda hoje em dia do que nunca. Acusado de obscenidade, censurado, Lenny Bruce recorreu à Justiça diversas vezes, e seus shows foram perdendo a graça à medida em que, neles, em vez de contar piadas, o comediante passou a descrever os intermináveis processos judiciais, a ler as sentenças dos juízes e seus próprios argumentos apresentados nos tribunais.

Brilhante, obsceno, obsessivo, Lenny Bruce se parece muito com o comediante Davis Newman do filme que Joe Gideon está tentando finalizar e não finaliza nunca. Parece-se muito, também, com o próprio Bob Fosse. Vidas com muito sexo & drogas & showbiz.

Joe Giddeon tem uma fascinante relação com suas mulheres

Naquela sequência de abertura, da escolha dos dançarinos para seu novo show, Joe encanta-se com uma moça morena, de rosto forte, não propriamente belo, mas de pernas imensas, absolutamente deslumbrantes. Chama-se Victoria (Deborah Geffner). Ao cantar, Victoria choca os ouvidos de Paul, o compositor; sentadas lá atrás do teatro, Audrey, a ex-mulher e estrela do show, e Michelle, a filha (na foto acima), riem de Victoria – mas Joe a escala. Pergunta para ela, com a fichinha de inscrição na mão: – “Este é seu telefone de casa?” Ela sorri, e todos sabem que Victoria conseguiu o emprego e um lugar garantido na cama do diretor.

Batata: Kate (Ann Reinking), a atual namorada de Joe, vai encontrar Victoria na cama do namorado.

A relação de Joe com as mulheres é fascinante. Ele tem plena consciência de que estragou o casamento com Audrey com sua eterna mania de não deixar de comer qualquer uma que passe à sua frente – e são muitas as moças que passam à frente de um diretor e coreógrafo de sucesso. Tem respeito por Audrey, pessoal e profissional. Audrey, por sua vez, ainda tem mágoa por causa das traições e da separação – mas, mais que mágoa, tem uma admiração imensa pelo talento do ex-marido, uma admiração tão grande que a deixa exasperada: “Seu filho da puta”, ela diz, ao ver uma coreografia nova que ele acabou de criar, linda, inventiva, moderna, mas ousada, chocante, abertamente sensual, que deixa seus produtores com os cabelos em pé porque com aquilo o show não permitirá a entrada de crianças e adolescentes.

Com Victoria, o exemplo de relação passageira, efêmera, de algumas poucas noites juntos, Joe não estabelece uma negociação simples – eu te dou um emprego e você dá pra mim. Ele vai de fato se esforçar para transformá-la numa dançarina melhor do que ela é.

Com Kate, a namorada estável, a relação também tem problemas, é claro. Kate é jovem, bela, imensos olhos de um verde fantástico, pernas tão longas, perfeitas e maravilhosas quanto as de Victoria. Joe se dá ao direito de trair Kate – mas não dá a ela o direito de lhe devolver com a mesma moeda. O diálogo após Kate flagrar o namorado na cama com Victoria é uma absoluta delícia:

Joe: – “Kate, eu tento dar a você tudo o que eu puder dar.”

Kate: – “Ah, você dá, mesmo – presentes, roupas. Eu só gostaria que fosse não fosse tão generoso com o seu pau.”

Joe, pensativo, após uma pausa: – “Isso é bom. Eu poderia usar isso…”

Michelle, a filha adolescente, sugere que Joe se case logo com Kate; afinal, argumenta a garota, Kate é uma moça legal; se se casarem, ela poderá ganhar um irmão; e além disso o pai poderia parar com essa mania de ir atrás de todas as mulheres do mundo.

No meio de tanto brilho, uma seqüência especialmente brilhante

Ao se encaminhar para a mesa de operações, Joe dirá a Audrey: “Se eu morrer, me perdoe por todo o mal que fiz a você”. E a Kate: “Se eu sobreviver, me perdoe por todo o mal que ainda farei a você”.

Audrey, a ex, Kate, a atual, e Michelle, a filha, apresentarão números de música & dança para um Joe recém-operado.

Num filme em que tudo é perfeito, não falta nada, não sobra nada, uma seqüência brilhante se sobressai entre tantas sequências brilhantes: é aquela, bem no meio do filme, em que o elenco do novo show faz pela primeira vez a leitura do texto que Joe acabou de escrever. Audrey lê a primeira frase, engraçadíssima, e todo o elenco, os produtores, os técnicos, caem na gargalhada. Audrey olha para o ex-marido com aquela mistura perfeita de profunda admiração e raiva diante de tanto brilho. Não diz, mas a gente vê no olhar dela que ela está mais uma vez pensando: “Seu filho da puta!”

E aí Bob Fosse tira o som. O som do filme passa a ser o que Joe está ouvindo naquele momento – e ele não está ouvindo nada. Está com dor no peito; fuma sem parar, tenso, sua equipe lendo pela primeira vez o roteiro do novo espetáculo. Vemos os rostos das pessoas, todos rindo, gargalhando, e não ouvimos som algum.

Brilho. Brilho puro.

Um elenco todo perfeito, maravilhosamente bem dirigido

Um registro sobre o elenco. Todos os atores, incluindo os que fazem apenas pequenos papéis, sem nenhuma exceção, estão não menos que magníficos. Bob Fosse era um extraordinário diretor de atores. Mas é interessante observar que só Roy Scheider, Jessica Lange e John Lithgow são bastante conhecidos do grande público.

Roy Scheider trabalhou em Operação França e em Klute, O Passado Condena, ambos de 1971, e em 1975 teve a sorte de estrelar Tubarão/Jaws, de Steven Spielberg. Depois de All That Jazz, nem precisaria ter feito mais nada na vida, mas continua na ativa – tem de mais 90 filmes e/ou episódios no currículo.

De Jessica Lange já falei: depois de ser tida como um belo rosto e uma nulidade como atriz, foi conquistando o respeito geral como uma das mulheres mais talentosas de sua geração. Já ganhou dois Oscars e mais 20 outros prêmios, foram 23 indicações.

John Lithgow faz um papel pequeno, mas importante – o de Lucas Sergeant, o diretor de teatro que é procurado pelos produtores quando Joe Gideon é hospitalizado. Embora não seja um astro, Lithgow tem também cerca de 90 filmes e/ou episódios no currículo, foi protagonista de vários filmes, fez uma participação importante em uma das temporadas de Dexter.

Ann Reinking (na foto acima), que faz Kate, a namorada, e Leland Palmer, que faz Audrey, a ex-mulher, se dedicaram mais ao teatro que ao cinema. All That Jazz foi o último dos dez filmes da carreira de Leland Palmer, que teve duas indicações ao Tony, o Oscar do teatro americano. Ann Reinking também só tem dez títulos de filme no currículo – é mais conhecida como estrela de musicais da Broadway que como atriz de cinema.

Já Deborah Geffner, que faz Victoria, a moça de pernas perfeitas e pouco talento, embora não seja um nome muito conhecido, trabalhou como atriz em 27 filmes e tem uma carreira como dançarina, cantora e escritora.

A garotinha que interpreta Michelle, a filha, Erzsebet Foldi, é uma gracinha, e tem uma interpretação memorável. Estava com 13 anos quando fez o filme – mas não teve outra oportunidade no cinema. Virou dançarina, entrou para a companhia de Twyala Tarp, e depois abandonou o showbiz, virou cristã fanática.

Influências de Bergman, Resnais e, sobretudo, de Fellini

Num momento em que está desesperado porque não consegue criar uma nova coreografia, e a montagem do novo filme não está indo muito bem, Joe Gideon questiona:

– “Será que Stanley Kubrick alguma vez fica deprimido?”

Bob Fosse reconhece a genialidade do conterrâneo Kubrick, mas suas maiores influências no cinema vinham da Europa. Há, sem dúvida, alguma coisa de Bergman na apresentação da morte como um ser humano, nas conversas do personagem com Deus. Há também algo de Alain Resnais na forma com que ele quebra a cronologia dos fatos, mexe com o tempo, alterna o andamento do relógio. Mas a maior influência era mesmo de Federico Fellini. Não é à toda, de forma alguma, que seu primeiro filme como diretor, Charity, Meu Amor/Sweet Charity, de 1968, seja uma versão musical de Noites de Cabíria, que Fellini filmou com sua mulher Giulietta Masina em 1957, a história de uma prostituta de coração imenso e nenhuma sorte na vida.

É felliniano o ambiente em que Joe Gideon conversa com Angelique – a baderna de um set de filmagem, de uma coxia de teatro. São amarcordianamente fellinianas as lembranças de juventude de Joe, as mulheres peladas que desfilam diante dele, a mãe gorda preparando a comida.

Assim como é felliniano o diretor de fotografia que Fosse escolheu: Giuseppe Rotunno foi o fotógrafo de diversos filmes de Fellini, inclusive Satyricon e Amarcord.

Mas a encenação da morte com um show musical não é Bergman, Resnais, Fellini – é Bob Fosse puro.

Leonard Maltin, o autor do guia de filmes mais vendido do mundo, não gostou do filme. Deu apenas 2.5 estrelas em 4, definiu o filme como sendo o Oito e Meio de Bob Fosse. Diz que grandes momentos de show biz e maravilhosa dança são enterrados pela pretensão do filme, que tem um “final interminável que deixa um gosto ruim para o filme inteiro”. Mas – admite – o número de abertura, com a versão de George Benson para “On Broadway”, “é um wow!”.

Gosto é gosto e gosto não se discute. Para mim, o número final, com o extraordinário arranjo que Ralph Burns fez para a velha, inocente, juvenil “Bye, Bye, Love”, do casal Felice e Boudleaux Bryant, é de arrepiar. É antológico.

E como algumas grandes idéias podem ser simples, simples, simples. Uma mera troca de duas palavras, love por life, cry por die, cria uma coisa belíssima, antológica, genial.

Um filme que além de autobiográfico é profético

Ourives, perfeccionista, exigente, não aceitando nada que estivesse longe da absoluta maestria de uma rosa, Bob Fosse fez diversos espetáculos musicais na Broadway, mas realizou apenas cinco filmes, em um período de 15 anos. Depois da estréia com Sweet Charity, fez, em 1971, Cabaret, aquela obra-prima, dez indicações ao Oscar, oito estatuetas, inclusive a de melhor direção, grande sucesso de público no mundo todo. Em 1974 veio Lenny – seis indicações ao Oscar, nenhuma estatueta, nada de grande bilheteria. (Não era para ser sucesso, mesmo: é triste demais, ousado demais.)

Em All That Jazz, seu quarto filme, a crítica de cinema de um importante programa de TV comenta que Joe Gideon havia ganho diversos prêmios por sua obra anterior, 50 Beautiful Girls, mas nesse de agora, The Stand-Up, havia fracassado. A vida de Joe Gideon é muito parecida com a de seu criador.

All That Jazz foi indicado a nove Oscars, e levou quatro – direção de arte, figurinos, montagem e trilha sonora para Ralph Burns.

Finalmente, em 1983 viria sua última obra, Star 80, mais uma vez sobre showbizz, mais uma vez sobre uma história tão real quanto trágica, a da coelhinha da Playboy Dorothy Stratten.

All That Jazz não é apenas autobiográfico: é profético. Bob Fosse morreria de um ataque cardíaco, em 1987, em meio a preparativos para um novo show na Broadway.

Um artista genial, um filme genial.

Gostaria de ter sabido escrever um texto melhor sobre All That Jazz. O filme não merece um texto tão descosturado. Mas paciência. A ausência de All That Jazz neste site era uma das lacunas dele que mais me incomodavam. Talvez seja menos pior um texto ruim do que nada.

O Show Deve Continuar/All That Jazz

De Bob Fosse, EUA, 1979

Com Roy Scheider (Joe Gideon), Jessica Lange (Angelique), Ann Reinking (Kate Jagger), Leland Palmer (Audrey Paris), Cliff Gorman (Davis Newman), Ben Vereen (O’Connor Flood), Erzsebet Foldi (Michelle), Michael Tolan (Dr. Ballinger), Max Wright (Joshua Benn), William La Messena (Jonesy Hecht), Chris Chase (Leslie Perry), Deborah Geffner (Victoria), Kathryn Doby (Kathryn), Anthony Holland (Paul Dann), Robert Hitt (Ted Christopher), David Margulies (Larry Goldie), Sue Paul (Stacy), Keith Gordon (jovem Joe), Alan Heim (Eddie), John Lithgow (Lucas Sergeant), Anthony Holland (Paul)

Argumento e roteiro Bob Fosse e Robert Alan Aurthur

Fotografia Giuseppe Rotunno

Música Ralph Burns

Montagem Alan Heim

Direção de arte Philip Rosenberg

Choreografia Bob Fosse

Figurinos Albert Wolsky

Produção Robert Alan Aurthur, Columbia Pictures, 20th Century Fox. DVD Fox

Cor, 123 min

R, ****

Título em Portugal: O Espetáculo Vai Começar

6 Comentários

  1. Postado em 9 junho 2011 às 6:30 am | Permalink

    Um dos grandes musicais (modernos) da história do Cinema, sem qualquer dúvida. Provavelmente figurará no meu TOP10 do género, mas dentro da obra do Bob Fosse virá sempre a seguir ao “Cabaret”.
    E, caro Sérgio, a propósito do Leonard Maltin não ter ficado lá muito entusiasmado com o filme, não sou da sua opinião de que “Gosto não se discute”. Muito pelo contrário, e tal como tudo na vida (ninguém nasce ensinado, né?) os gostos são mesmo para serem discutidos, e melhor, para serem educados.
    Aliás, quer melhores aulas de aprendizagem do que todos os brilhantes comentários que você tem postado por aqui?

    Abraço

  2. luis fernando ferreira
    Postado em 9 junho 2011 às 5:41 pm | Permalink

    Nunca vi consenso, entre críticos especializados, sobre o que constitui uma “obra-prima”. Já vi críticos chamarem de “lixo” algo que outros consideraram “brilhante”. De modo que até se pode discutir gosto, mas é pura perda de tempo. Fico feliz ao constatar que você percebe isso, Sérgio.

    Quanto a “All That Jazz”, é certamente brilhante, um grande momento de um ator injustamente esquecido: Roy Scheider.

  3. Postado em 1 julho 2011 às 12:18 am | Permalink

    “All That Jazz é um dos filmes de que mais gosto na vida.” eu amo musicais, mas tem uns que amo mais que a outros. que maravilha encontrar este filme finalmente aqui.

  4. Diogo
    Postado em 13 julho 2011 às 9:00 am | Permalink

    Acabei de ver o filme e estou aqui emocionado, palpitanto com o filme. Se existe algum diretor que soube trabalhar com musicais que experimentam foi Bob Fosse. Não só pelos temas pesados e poéticos, mas pela forma lírica, da imagem-tempo, que esquece de um fio condutor e sempre nos conduz a tragédia… sensacional…

  5. Ana Sousa
    Postado em 23 outubro 2013 às 12:39 pm | Permalink

    Um dos melhores filmes que VI!!!
    Vi ontem, dia 22, pela primeira vez, no AXN Black e hoje, 23/10/2013, estava “na primeira fila” para o rever, pois voltou a passar no mesmo canal. Posso dizer que é um dos filmes da minha vida… o final de Roy Scheider com o actor negro a cantarem o tema de Paul Simon e Art Garfunkel e toda aquela coreografia, “levanta um morto”… Todo o filme é fantástico! Magistralmente representado!!! Beautiful!!!!!!!

  6. ana paula
    Postado em 4 maio 2015 às 8:35 pm | Permalink

    eu só queria comentar que neste ano em que o Roy Scheider foi merecidamente indicado ao oscar de melhor ator, estavam no páreo, nada menos, que Al Pacino, por Justiça para todos, Dustin Hoffman por Kramer x Kramer (que acabou ganhando, embora não esteja entre as melhores performances dele), Jack Lemmon por Síndrome da China e, finalmente, o meu preferido: Peter Sellers, magnífico em Muito além do Jardim. O ano díficil esse, hein !

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