
Nota: 



Anotação em 2009: Feito em 1989, Além da Eternidade/Always é do tempo em que ainda se dizia que Steven Spielberg, como Peter Pan, se recusava a crescer, virar adulto; preferia a fantasia, o escapismo, à dura realidade da vida. Bobagem, porque ele já havia enfrentado a dura realidade da vida em dois grandes filmes, A Cor Púrpura, de 1985, e O Império do Sol, de 1987.
Mas todos ainda diziam que ele era como Peter Pan. Só parariam com essa bobagem quando, em 1993, ele fez A Lista de Schindler, e a imprensa, os críticos, finalmente foram obrigados a admitir que o cara é um grande cineasta.
Mas o fato é que, depois de fazer um filme sobre a dureza de uma pessoa ser “negra, mulher e feia” num mundo racista e sexista, e outro sobre a dureza de um menino perder toda a riqueza e superproteção e passar a viver em um campo de prisioneiros mal tratados, mal alimentados, na China em guerra nos anos 40, Spielberg fez, no mesmo ano, 1989, o terceiro Indiana Jones e este Além da Eternidade. Uma aventura escapista e uma fantasia que mistura aventura e romance, e em que os mortos convivem com os vivos e os anjos aparecem para nos consolar e ensinar. A aventura escapista foi, claro, um baita sucesso de bilheteria. A fantasia romântica, acho que a maior parte das pessoas simplesmente não entendeu.

Não era um filme para o público infanto-juvenil, mas também não era para o público adulto sério, sisudo. As pessoas, acho, não estavam preparadas para um filme de Spielberg com tanta suavidade, tanta ternura, uma história de amor e de aprendizagem, tudo isso escondido sob camadas de piadas visuais e fantásticas cenas de ação.
Um filme de Spielberg que ficou no limbo
Posso estar enganado, mas acho que Além da Eternidade é um dos poucos filmes dirigidos por Spielberg que não deixaram grande marca: ficaram numa espécie de limbo – como o personagem central, Pete Sandich, interpretado pelo mesmo Richard Dreyfuss de Tubarão, de 1975, e Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de 1977.
Quando o filme começa, Pete está numa de suas muitas missões. Ele é piloto de um antigo avião (Spielberg tem uma paixão por aviões dos anos 40), e trabalha no combate a incêndios florestais. Experiente, bom de serviço, seguro de si, ele sempre se arrisca demais. É o caso agora, da missão em que ele está no início do filme. Forçou demais, voou mais do que deveria para combater o incêndio lá embaixo, e ficou completamente sem combustível. Terá que plainar até a pista da base dos aviões bombeiros. Vamos vendo, intercaladas com as tomadas de Pete em seu avião sem combustível, o desespero que vai tomando conta de uma moça na torre de controle: é Dorinda, a namorada de Pete, interpretada por uma jovem Holly Hunter que nunca esteve tão linda, essa ótima atriz que nunca chegou a ser propriamente bonita, ao menos da beleza mais tradicional, padrão.
Intercaladas com as tomadas de Pete no avião e Dorinda na torre de controle, vemos tomadas de um aviãozinho de entrega de cargas, chegando para dar os parabéns pelo aniversário de Dorinda, com uma grande caixa, o presente de Pete para ela. O piloto do aviãozinho que chega soltando balões – veremos depois – chama-se Ted Baker (Brad Johnson).
Pete consegue pousar seu avião, depois que Dorinda transforma a colher que está segurando numa coisa disforme, à la Uri Geller.
Pete chega todo sorridente, Dorinda está furiosa. Não agüenta mais aquela vida de sobressaltos diários, de achar que no dia seguinte Pete vai ousar tanto que daquela vez será fatal. O grande (em todos os sentidos) amigo do casal, Al (John Goodman), tenta convencer Pete a largar aquilo e ir para uma vida tranqüila como professor de pilotos para combate a incêndios numa base no Colorado. É tudo que Dorinda quer. Ela dirá isso a Pete, no final daquela noite, já madrugada. Mas, antes, há a noite do aniversário dela no bar da base.
A seqüência do bar é longa, gostosa, engraçada, divertida, estupidamente bem feita, com uma montagem ágil, maravilhosa. O casal discute. Ele quer que ela abra a caixa do presente, aquela tal que chegou no aviãozinho de Ted Baker, ela demora a abrir – é um vestido todo branco, sapatos de salto alto branco. Dorinda, 100% do tempo em calça comprida e jaqueta no trabalho na base, vai aparecer no salão vestida de mulher, como ela diz, e vai parar o comércio, vai deixar toda a base boquiaberta, de queixo caído.
Em casa, depois da festa, vem a conversa; Dorinda dá um ultimato a Pete – ou a vida tranqüila como instrutor de vôo no Colorado, ou é o fim. O dia está raiando, toca o telefone, há um grande incêndio florestal a apagar, e lá vão os vários aviões, o grande Al no dele, Pete no seu.
Audrey Hepburn, belíssimo anjo, se despede
Estamos com uns 20 minutos de filme. Pete vai conhecer Hap.
A seqüência em que os dois se encontram pela primeira vez é belíssima. Revi o filme agora para fazer esta anotação pela – terceira? quarta vez? sei lá –, e babei de novo, como se nunca tivesse visto.
Foi uma genial sacada de Spielberg convidar Audrey Hepburn para fazer Hap. Não houve, no cinema, nada tão angelical quanto ela. Audrey vinha trabalhando bem pouco no cinema; depois de Um Clarão nas Trevas/Wait Until Dark, de 1967, ela havia passado longos nove anos fora dos estúdios. Voltou no também suave e terno Robin e Marian, de 1976, em que um Robin Hood com o charme de Sean Connery reencontra Marian depois de voltar das Cruzadas, já velho e cansado, ela já sem o frescor da juventude mas com aquela beleza mais profunda que vem da maturidade. Depois disso, entre 1979 e 1987, fez mais três filmes, e aí veio o papel de Hap. Foi sua última aparição no cinema.
Hap recebe Pete toda de branco – é Audrey Hepburn em toda a sua elegância inigualável, o rosto com a marca dos anos, a silhueta igualzinha à que mostrou na sua estréia A Princesa e o Plebeu/Roman Holiday, em 1953, a mesma voz bonita, a dicção clara, perfeita, aquela dama de uma dignidade absurda. Estão num trechinho de chão que tem um gramado perfeito, cercado por uma área de floresta destruída por um grande incêndio – um pequeno oásis no meio de uma paisagem infernal. Hap vai contando a Pete, muito suavemente, como serão as coisas daí para a frente.
As piadas impedem que o filme fique piegas
Para contar essa bela história de amor, Spielberg usou a base da trama de um filme de 1943, Dois no Céu/A Guy Named Joe, com Spencer Tracy e Irene Dunne. Não tive a oportunidade de ver o original, mas a versão de Spielberg é uma maravilha. Com piadas, seqüências de ação inesperadas, ele tira a possibilidade de sua história parecer piegas, sentimentalóide. Nem precisava tomar tanto cuidado para não parecer romântico demais. É uma bela história.
É impressionante como ele usa bem os travellings, com muito carrinho sobre trilhos, muita grua, a câmara subindo e descendo naqueles guindastes. Há travellings assim quase o tempo todo, mas ele faz de uma forma suave, de tal maneira que o espectador nem perceba muito que a câmara está se movendo sem parar.
Um filme que tem poucos fãs
Não é fácil achar muitos elogios ao filme. Leonard Maltin deu 2,5 estrelas em 4, e Roger Ebert, que em geral dá notas mais altas, desta vez inverteu: deu 2 estrelas em 4. Em sua crítica, Ebert dá informações interessantes. Conta que Richard Dreyfuss viu A Guy Named Joe pelo menos 35 vezes, e Spielberg viu outras tantas quando era garoto; “foi um dos filmes que o inspiraram a virar diretor de cinema”. “Quando Spielberg e Dreyfuss estavam fazendo Tubarão em 1974, um falava de determinada seqüência do filme para o outro – e finalmente, em 1989, fizeram um filme deles mesmos. A refilmagem (…) se passa nos dias atuais, e não no passado, e os pilotos estão lutando contra incêndios florestais, em vez de aviões inimigos, mas as idéias básicas estão todas no lugar. Mas, infelizmente, eles não acrescentam muita coisa: este é o filme mais fraco de Spielberg desde 1941.”
É a opinião do Ebert – e é claro que ele faria a comparação com 1941; quando eu escrevi lá em cima que este Além da Eternidade é um dos filmes de Spielberg que não deixaram grande marca, estava pensando em 1941 e em Hook – A Volta do Capitão Gancho. Bem, eu gosto muito de todos esses três filmes que em geral são considerados os mais fracos de Spielberg.
E cada vez que revejo este Always gosto mais.
Além da Eternidade/Always
De Steven Spielberg, EUA,1989
Com Richard Dreyfuss, Holly Hunter, John Goodman, Brad Johnson, Audrey Hepburn
Roteiro Jerry Belson
Baseado em A Guy Named Joe, roteiro de Dalton Trumbo e Frederick Hazzlitt Brennan, por sua vez baseado em história de Chandler Sprague e David Boehm
Fotografia Mikael Salomon
Música John Williams
Produção Amblin Entertainment, United Artists, Universal Pictures
Cor, 122 min
R, ***
Título em Portugal: Sempre. Título na França: Always – Pour Toujours


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