Noites Brancas / Le Notti Bianche

2.0 out of 5.0 stars

(Disponível no YouTube em 1/2026.)

Em Noites Brancas, o conto longo/pequeno romance que Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski escreveu em 1848, aos 27 anos, o protagonista da história, um homem jovem e solitário – que é o narrador, e não tem seu nome explicitado -, percorre à noite as ruas de São Petersburgo. Em Noites Brancas, o filme que Luchino Visconti lançou em 1957, aos 51 anos, o protagonista da história, Mario, um homem jovem e solitário, percorre à noite as ruas de Livorno.

Na obra de Dostoiévski, o narrador solitário se depara, durante uma de suas andanças, com uma jovem mulher, Nastenka, apoiada à amurada de uma pequena ponte, chorando. Ele hesita um tanto, mas acaba se aproximando dela.

Na obra de Visconti, o solitário Mario se depara, durante uma de suas andanças, com uma jovem mulher, Natalia, apoiada à amurada de uma pequena ponte, chorando. Ele hesita um tanto, mas acaba se aproximando dela.

Tanto no livro quanto no filme, é o começo do relacionamento entre aquelas duas pessoas – e o começo da narrativa. O homem vai se apaixonar imediatamente pela jovem; ela se tornará amiga dele – mas está à espera do retorno do homem que ama, e que partiu sem dizer para onde ia, mas prometeu voltar após um ano de ausência.

No filme, Mario é interpretado por Marcello Mastroianni; Natalia, por Maria Schell; o homem que ela ama e foi embora prometendo voltar, por Jean Marais.

É uma característica forte dos filmes do conde marxista, um dos cineastas mais importantes destes 130 e tantos anos de cinema: atores belíssimos, sempre.

“Um filme bastardo entre o cinema e o teatro”

Em 1956, Luchino Visconti foi um dos membros do júri do Festival de Veneza, um dos três mais importantes do mundo, ao lado dos de Cannes e Berlim. Maria Schell venceu o prêmio de melhor atriz por Gervaise – A Flor do Lodo, de René Clément. Conheceram-se pessoalmente, portanto, diretor e atriz – e assim não é nada de se estranhar que Visconti tenha escolhido a linda, estupenda, maravilhosamente bela atriz austríaca, que estava, em 1956, com 30 aninhos, para o principal papel feminino do filme que faria em seguida.

E a escolha de Marcello Mastroianni foi porque Visconti queria dar um bom papel para o ator, que, até então, não tinha tido boas oportunidades. Fazia apenas papéis pouco importantes, várias vezes como motorista de táxi, como relata Laurence Schifano na premiada biografia do cineasta, Luchino Visconti – O Fogo da Paixão, lançado no Brasil em 1990 pela Editora Nova Fronteira.

Aqueles anos de 1956 e 1959 foram de atividade frenética para Visconti, segundo mostra seu biógrafo. O sujeito dirigiu 15 diferentes encenações – cinco óperas, um balé e oito peças de teatro. E não apenas na Itália – onde dirigiu duas óperas no Scala de Milão com Maria Callas –, mas também na Inglaterra, Alemanha e França. No meio disso tudo, sentou-se com a amiga e colaboradora frequente Suso Cecchi D’Amico para escrever o roteiro de Noites Brancas e dirigir o filme.

Eis o que a biografia escrita por Laurence Schifano, na tradução de Maria Helena Martins, relata sobre Noites Brancas – definido pelo autor como um “produto voluntariamente bastardo entre o cinema e o teatro, o realismo e o artificial, o cotidiano e o ‘mágico’”:

“Um filme bastardo, nascido um pouco do acaso, e cujo objetivo primeiro era oferecer a Marcello Mastroianni, sem gastar muito dinheiro, a possibilidade de sair, enfim, dos eternos papéis de motorista de táxi que lhe eram propostos. Visconti queria também fugir aos clichês, ‘seguir um novo caminho, diferente do que o cinema italiano trilhava então’, e que, na melhor das hipóteses, era aquele, ‘doravante condenado’, do neo-realismo.

“Pela primeira vez, Visconti mandava reconstituir seu cenário na Cinecittà: não os canais da São Petersburgo de Dostoiévski, mas o bairro Venezia da velha Livorno, onde ele decidira situar a ação. O cenário de Mario Garbuglia e Maurizio Chiari, com suas ruas estreitas e sombrias, suas pequenas pontes cobertas de neve, devia permanecer um cenário de teatro. Para criar os efeitos de bruma, usaram-se véus de tule, como no teatro, parecendo as brumas mais ou menos densas segundo a iluminação. E a fotografia assumiu, aos olhos de Visconti, uma tal importância, que ele a preparou, com Giuseppe Rotunno, ‘como se fosse um roteiro’. É preciso – diz ele – que ‘tudo seja como se fosse artificial, falso; mas quando se tem a impressão de que é falso, deve ficar como se fosse verdadeiro’. ‘Uma incerteza entre a realidade e a ficção – comenta Rottuno – uma espécie de magia realista.’

“Mais tarde, ao mesmo tempo em que reconhecia ter forçado o tom teatral, ele reafirmou que os meios específicos do teatro e do cinema podem muito bem combinar-se: ‘Evitar fazer teatro no cinema não é uma regra; basta pensar de novo nas origens, em Méliès, por exemplo.’ Mas que secreta aliança ou que impossível acordo ele buscava, ao fundir no cadinho de Noites Brancas, nessa estranha câmara de ecos, tantos elementos diversos, a começar pelas citações ou pastiches do Barbeiro de Sevilha rossiniano, o tema amoroso do Tristão, e o ritmo do rock’n roll, ao qual se agitava o bailarino Dick Sanders? Como explica o músico Nino Rota, ‘o tema do amor de Natalia pelo locatário é o tema dominante: a música do filtro, o amor fatal […]. Como espírito, trata-se de uma música tipo romantismo alemão, entre Schubert e Wagner. É um amor digno do Sturm und Drang, segundo uma concepção heróica, teatral. O amor, para Visconti, é o tema de Wotan. Ele queria as trombetas’. Um mundo ‘heróico’, arcaico, que não combinava com os detalhes ‘neo-realistas’, encarregados de evocar a vida medíocre de Mario, a decadência da prostituta saída diretamente de um filme neo-realista chamado Obsessão: pois era bem ela, Clara Calamai. ‘Tu te lembras – diz Visconti ao maquilador – da Giovanna de Obsessão? Pois bem, quinze anos se passaram, as coisas andaram mal, após anos de prisão ela voltou para casa e se tornou prostituta.’

“Todas as estratificações de sua vida e de seu passado estão ali: dos longínquos prazeres rossinianos, da oficina de bordadeiras de Cernobbio ao presente – os jovens transviados na sala de um café gosmento; e também a época de Obsessão, e ainda a dos anos parisienses – Jean Marais, o estilo à Cocteau de certas seqüências -, e a própria lembrança da noiva austríaca à qual Maria Schell tentará, com bastante inabilidade, dar de novo vida…

“Naquela época, no auge da fama, depois de Gervaise, de René Clément, a atriz exigira um cachê astronômico… Ora, Visconti considerara ponto de honra realizar um filme pouco dispendioso. O jovem Franco Cristaldi, Mastroianni, Suso Cecchi d’Amico e ele próprio tinham constituído, para produzir o filme, uma pequena sociedade. Empenhou-se em terminar em menos de oito semanas, porque era voz corrente que ele era incapaz de rodar um filme em menos de seis meses. Se esse último desafio foi vencido, a questão do custo foi mais complicada, e a roteirista confiou ‘ter passado meses de terror negro’, no pavor de acabar com os oficiais de justiça nos calcanhares, pois via aumentar dia após dia o orçamento daquele filme que devia ser ‘pequeno, pequeno’. ‘Em suma – diz ela -, foi um desastre, pois não tínhamos uma lira e não conseguíamos encontrar uma produtora que viesse em nosso auxílio. Nós, associados, não havíamos tirado rigorosamente nada. Luchino nos fazia ver todos os rolos. Não quero que vocês pensem que fiz trabalho de amador. Não, Luchino -respondíamos nós –, não há perigo, ninguém está pensando nada… Mas a bruma feita com fumaça acabava imitando a realidade, era preciso que ela fosse imóvel, e Luchino encomendou quilômetros e quilômetros de tule. Economia, para ele, era isso. Não tinha senso prático. Quanto dinheiro gastou! Era muito rico e não se dava conta. E que generosidade! Seus presentes eram legendários. Mas o que fazer com alguém que pensa realmente numa outra dimensão? Tinha um gosto refinadíssimo; hoje em dia, fazem-se papéis que imitam perfeitamente os tecidos e os damascos. Mas ele nem mesmo queria vê-los: olhava as amostras e escolhia, instintivamente, justo o tecido que custava doze vezes mais caro que os outros!’”

O filme foi incensado por toda a crítica

O eventual leitor talvez ache que a transcrição do trecho do livro Luchino Visconti – O Fogo da Paixão foi muito longa. Mas na verdade não é – o livro dedica a Noites Brancas não mais que duas páginas. E acho importantíssimo esse relato, com informações fundamentais sobre o filme, com os depoimentos dos principais colaboradores do cineasta.

“Um filme bastardo, nascido um pouco do acaso.”

“Entre o cinema e o teatro, o realismo e o artificial, o cotidiano e o ‘mágico’.”

O primeiro filme de Visconti totalmente rodado em estúdio

“É preciso que tudo seja como se fosse artificial, falso.”

E a definição da grande Suso Cecchi d’Amico, uma das mais importantes roteiristas da História: “Em suma, foi um desastre.”

Noites Brancas recebeu fartos elogios da crítica na época do lançamento. Apresentado na mostra competitiva do Festival de Veneza de 1957, recebeu o Leão de Prata para Luchino Visconti. (Naquele ano, o Leão de Ouro, o prêmio de melhor filme, foi para O Invencível/Aparajito, do mestre indiano Satyajit Ray.)

A revista Cahiers du Cinéma, que era a Bíblia de boa parte dos críticos de cinema do mundo, colocou o filme em terceiro lugar na lista dos dez melhores do ano.

Leonard Maltin deu 3 estrelas em 4 para White Nights: “Elaboradamente entrelaçado drama em que o tímido funcionário Mastroianni se apaixona por Schell, que está à espera do retorno de seu amante. Baseado em uma história de Dostoievsky; lançado nos EUA em 1961.”

Informação interessante esta, de que o filme só foi lançado no mercado norte-americano em 1961, quatro anos depois de ser feito.

Diz o Guide des Films de Jean Tulard sobre Nuits Blanches: “Visconti consegue criar de modo artificial um clima estranho, de uma grande doçura e uma infinita ternura que se dissipa numa queda particularmente cruel. Leão de Prata em Veneza em 1957.”

No Rotten Tomatoes, o filme tem 89% de aprovação dos críticos e 88% dos leitores do site.

Maria Schell não foi dublada. E Mastroianni virou astro

Alguns registros:

* Era uma prática absolutamente comum, no cinema italiano, que os atores estrangeiros fossem dublados. As poucas falas do francês Jean Marais (na foto acima), que faz o amor de Natalia que foi embora prometendo voltar, foram dubladas por Giorgio Albertazzi.

A austríaca Maria Schell surpreendeu a todos ao ensaiar e ser filmada falando em bom italiano. Ao final, Visconti decidiu manter a voz da atriz, apesar do sotaque.

* Por uma dessas fantásticas coincidências de que são feitos tanto os filmes quanto a vida, no seu filme seguinte Maria Schell interpretaria novamente uma personagem saída da imaginação de Fiódor Dostoiévski. Em Os Irmãos Karamazov (1958), caprichada produção de Hollywood dirigida por Richard Brooks com Yul Brynner, Lee J. Cobb e Claire Bloom, Maria Schell faz o papel da bela Grushenka, que atrai o amor de Fiódor Kamamazov e tem um caso tempestuoso com o irmão dele, Dmitri.

* Marcello Mastroianni começou a carreira como extra, bem cedo, ainda em 1939, quando tinha apenas 15 anos de idade. Fez papéis pequenos ou pouco importantes em umas duas dezenas de filmes até que Luchino Visconti deu a ele o papel principal neste Le Notti Bianchi – e a partir daí virou astro, um dos maiores do cinema europeu e mundial, em, para citar só uns poucos, Os Eternos Desconhecidos (1958), de Mario Monicelli, A Doce Vida (1960), de Federico Fellini, O Belo Antônio (1960), de Mauro Bolognini, A Noite (1961), de Michelangelo Antonioni.

Só voltaria a trabalhar com Visconti em 1967, em O Estrangeiro, de novo adaptação de uma obra literária de grande autor, Albert Camus.

* E, agora, uma curiosidade muito, muito interessante: na longa sequência em que Mario e Natalia estão em um bar em que dezenas de pessoas dançam, toca, além de “Thirteen Women”, com Bill Haley e Seus Cometas… “Muié Rendera”! Nos créditos finais, ela aparece como “O Cangaceiro!”.

O que faz “Muié Rendera” num bar em que jovens dançam rock, não tenho a menor idéia. Só registro que Vanja Orico canta “Meu Limão, Meu Limoeiro”, em Mulheres e Luzes/Luci del Varietà, de Alberto Lattuada e Federico Fellini, de 1951.

Com todo respeito ao mestre Visconti… 

De maneira bem pouco usual, não emiti até agora uma única opinião sobre o filme – e meus textos são sempre pessoais e intransferíveis, feito dor de dente. Quis fazer assim em respeito a Luchino Visconti,

Bem,,, Euzinho aqui achei Noites Brancas um horror, um pavor, um troço difícil de aturar. Os 102 minutos do filme demoram umas dez horas para passar. Chequei quanto tempo faltava para terminar aquela agonia umas 20 vezes.

Claro: visualmente, o filme é uma beleza. Sem dúvida, a fotografia de Giuseppe Rotunno, aquele grande mestre, é uma maravilha – e a direção de arte e os cenários, de Mario Garbuglia e Maurizio Chiari, são deslumbrantes. É incrível saber que aquilo tudo foi rodado nos estúdios de Cinecittà, e não nas ruas, junto aos canais, de uma velha cidade italiana que ainda mostra a destruição provocada pela Segunda Guerra Mundial.

E Maria Schell é um dos rostos mais belos que já passaram diante de uma câmara de cinema.

Mas tudo, tudo, absolutamente tudo no filme me pareceu falso – e, pior ainda que falso, bobo. Bocó. Babaca.

Tenho imensa preguiça de escrever sobre detalhes para justificar minha opinião. Meu amigo Fred Navarro, cinéfilo de carteirinha, fez o que para mim é a definição perfeita: “Visconti abandonou o neo-realismo e inventou o neo-artificialismo”.

Anotação em janeiro de 2026

Noites Brancas/Le Notti Bianche

De Luchino Visconti, Itália-França, 1957

Com Maria Schell (Natalia),

Marcello Mastroianni (Mario)

e Jean Marais (o inquilino), Clara Calamai (a prostituta), Marcella Rovena (a mulher da pensão em que Mario vive), Maria Zanoli (a mulher do galinheiro), Corrado Pani (um dos jovens da motocicleta), Dirk Sanders (o dançarino no bar)

Roteiro Suso Cecchi D’Amico e Luchino Visconti

Baseado no conto “Noites Brancas”, de Fiódor Dostoiévski

Fotografia Giuseppe Rotunno

Música Nino Rota

Montagem Mario Serandrei

Direção de arte Mario Chiari

Figurinos Piero Tosi

Produção Franco Cristaldi, Jean-Paul Guibert, Giuseppe Maggi, Mario Maggi, Cinematografica Associati (CI.AS.), Intermondia Films, Vides Cinematografica.

P&B, 102 min (1h42)

**

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *