
(Disponível na Netflix em 10/2025.)
Espetacular.
O adjetivo ficou na minha cabeça enquanto víamos 1883. A série 1883 é muita coisa, mas creio que de fato o melhor adjetivo para ela é este: espetacular.
E olha que vimos a série logo depois de rever Era Uma Vez no Oeste, aquele espetáculo, um dos melhores westerns que já foram feitos.
Era Uma Vez no Oeste é dirigido por uma lenda, Sergio Leone, e tem no elenco os astros Claudia Cardinale, Henry Fonda, Jason Robards, Jr e Charles Bronson. 1883 não tem astros gigantescos, famosérrimos. Os papéis principais são interpretados por Sam Elliott, Tim McGraw, Faith Hill, Isabel May e LaMonica Garrett. Cinco episódios foram dirigidos por Ben Richardson e quatro por Christina Alexandra Voros, que também não chegam a ser propriamente muito famosos.
Mas todos eles, os diretores e os atores, demonstram que são muito bons de serviço, bons demais. As interpretações são excelentes, impecáveis.
E, como para comprovar que é uma obra de respeito, a série tem a chancela de Tom Hanks e sua mulher Rita Wilson e ainda de Billy Bob Thornton: eles fazem pequeninos papéis, participações super especiais.
São dez episódios de cerca de 55 minutos cada – mais de 9 horas de série. Sim, é danada de longa – mas, diacho, a série mostra a viagem de um punhado de imigrantes europeus e uma manada de vacas desde Fort Worth, no Texas, até os confins do Noroeste dos Estados Unidos, Montana, quase o Oregon, atravessando desertos, montanhas, rios, enfrentando todo tipo de privação, dificuldades, tempestades, tornados, ataques de bandidos, de índios, de cobras – tudo sob a liderança e a proteção de dois homens que até então não se conheciam, um ex-capitão dos confederados e um ex-capitão da União, nem sequer duas décadas após o fim da Guerra Civil americana. Uma epopéia através de uns 3 mil quilômetros.
Sem astros gigantescos, sem diretores conhecidíssimos, e longa, danada de longa, como a jornada daqueles personagens. Mas espetacular.

Uma ode à solidariedade e à união de díspares
1883 é uma absoluta maravilha de western, esse gênero que nasceu praticamente junto com o cinema, e dentro do qual cabem – assim como na obra de William Shakespeare – absolutamente todas as emoções e os sentimentos de que são capazes os seres humanos.
Como muitos dos maiores westerns, tem todas as características básicas do gênero – mas, ao mesmo tempo, ousa desafiar algumas delas.
Por exemplo: 1883 é palavroso.
Tem uma força visual incrível, sensacional. Tem todas aquelas tomadas gerais, aquelas visões panorâmicas da terra sem fim do Oeste do país continente que são marca registrada nos filmes dos mestres John Ford, Anthony Mann, Raoul Walsh, Howard Hawks – mas, ao contrário da maioria dos westerns clássicos, em que mocinhos e bandidos falam muito pouco, em 1883 fala-se muito, muito, muito.
E o texto é um absoluto brilho. Sou capaz de apostar que até Machado e Graciliano aplaudiriam o texto de 1883.
Outro ponto em que a série desafia as regras desse gênero tão absolutamente machista, tirando aquelas poucas exceções que só confirmam a regra: a narradora da história é uma mulher.
Mais um ponto: tem mais sexo do que tradicionalmente aparece no western.
Há uma característica neste 1883 que segue a tendência dos westerns mais recentes, os feitos ao longo das últimas duas ou três décadas, como, só para dar um exemplo, a excelente série Godless (2017), criada por Scott Franklin: a explicitude.
Muitíssimo mais do que nos westerns clássicos dos anos 30 a 60, os mais recentes são explícitos. Bem, mas essa é uma tendência geral, presente em todos os gêneros.
Dois exemplos. A jovem heroína enfia a mão para dentro da calcinha e a retira com os dedos vermelhos do sangue da menstruação. E, em outra sequência, a câmara mostra todo o processo de amputação de uma perna gangrenada.
Mas isso é apenas um detalhe.
O ponto mais fascinante desta espetacular série, na minha opinião, é que ela é – além de grande cinema – um belo, forte, poderoso panfleto em defesa da união entre os díspares, os que não se parecem. A união, a solidariedade, o amor entre pessoas de origens diferentes, etnias diferentes. Produto de um país marcado pelo racismo, 1883 contém uma bela história de amor entre uma loura e um índio, uma bela história de amor entre um negro e uma cigana. E, ao longo de toda a série, mostra-se a solidariedade entre pessoas que lutaram umas contra as outras na trágica, apavorante Guerra da Secessão – e nos presenteia com exemplos de cooperação entre brancos e índios.
O bicho homem fica muito melhor quando é tudo junto e misturado. Essa, me parece, é a moral dessa belíssima história escrita por Taylor Sheridan.
Taylor Sheridan. Pois é. O eventual leitor que chegou até aqui e já viu algum dos 53 episódios da premiada, venerada série Yellowstone, deve certamente saber quem é Tony Sheridan – e deve até achar esquisito que o nome dele tenha demorado bastante a aparecer neste texto.
Taylor Sheridan foi o criador, junto com John Linson, de Yellowstone. Sozinho, assina a criação e o roteiro de todos os dez episódios de 1883, além de ter dirigido o primeiro, sido um dos produtores executivos e feito uma participação especial como ator. Logo em seguida, criaria e escreveria os roteiros também da série 1923 – mas dessas outras duas fala-se mais adiante.

Um início arrebatador: uma garota em um ataque de índios
A abertura da série é um absoluto brilho.
A primeira imagem que vemos é o rosto de uma jovem mulher. É um super hiper big close-up, em que o rosto ocupa toda a tela – ela está deitada no chão, e, veremos logo em seguida, ela e seu grupo está sendo atacado por índios.
A moça é loura, linda; seus lábios não estão se movendo, mas estamos ouvindo sua voz conversando conosco, contando sua história. Chama-se, veremos logo, Elsa Dutton, tem 18 anos de idade (o papel de Isabel May), e será a narradora ao longo dos dez episódios da série. Ouviremos sua voz doce, ao mesmo tempo suave e firme, falando o texto brilhante escrito por esse Taylor Sheridan.
Há um detalhinho mínimo, mínimo: a voz de Elsa Dutton chega para o espectador poucas frações de segundo antes de vermos a primeira tomada da série, a do rosto dela ocupando toda a tela. O início da narração vem quando a tela ainda está toda negra.
– “Eu me lembro da primeira vez que o vi. Quis encontrar palavras para descrevê-lo, mas não consegui. Nada tinha me preparado para isso. Nem livros, nem professores, nem mesmo meus pais. Ouvi mil histórias, mas nenhuma pôde descrever este lugar. Você tem que testemunhar para entender. E, no entanto, eu vi e entendi menos ainda do que quando vi este lugar pela primeira vez.”
A cabeça da bela moça se mexe. Vemos que ela está tentando entender o que está acontecendo em volta dela naquele exato momento. Uma névoa passa na frente de seu rosto – veremos que é fumaça.
– “Alguns o chamam de O Deserto Americano. Outros de As Grandes Pradarias. Mas essas frases foram inventadas por professores de universidades, cercados pela ilusão da ordem e pela fantasia do bem e do mal. Para conhecê-lo, você tem que caminhar nele. Sangrar em cima de sua terra. Afogar em seus rios. Aí seu nome fica claro. É o inferno, e há demônios em toda parte.”
Durante toda essa narrativa, não há corte, e a câmara está fixa, como se parada ali no chão, bem diante do rosto da moça. Ela se esforça para se levantar, apóia o corpo sobre os cotovelos, avança alguns centímetros se arrastando no chão. Há o primeiro corte, e, na segunda tomada, a vemos tentando se firmar de pé, junto de uma carroça que pega fogo. Corta, e a terceira tomada é um plano americano da moça de pé, a carroça incendiada logo atrás dela. Corta, tomada em plano de conjunto para o que a moça está vendo: carroças atacadas, índios a cavalo com seus arcos e flechas. Novas tomadas curtas, montagem rápida, flechas atingindo pessoas. Um índio persegue uma mulher, avança sobre ela com um grande facão, em seguida exibe o escalpo para os outros. A moça começa a correr. Abaixa-se para tentar pegar a arma de um homem branco morto, com várias flechas nas costas. Um índio se aproxima dela. Há um rápido diálogo entre eles. Ela atira no mesmo momento em que ele lança uma flecha.
Ainda não chegamos a 4 minutos completos do primeiro episódio da série, e vemos Elsa Dutton-Isabel May de pé, de perfil, uma flecha atravessando seu corpo na altura da barriga.
E pouco depois entram os créditos iniciais. 1883 segue esse esquema que tem sido praxe em boa parte dos filmes e séries nos últimos anos: começa com sequências fortes, impactantes, e após esses primeiros minutos rolam os créditos iniciais.

Ao longo da imensa travessia, todo tipo de perigo.
Como de praxe, os créditos iniciais da série são muitíssimo bem elaborados, de grande beleza visual. E têm a característica que acho muito boa de identificar claramente para o espectador quem são os personagens principais. Os nomes dos atores vêm junto com fotos de cada um deles.
São cinco os personagens centrais da série. De um lado, a família Dutton: James (o papel de Tim McGraw, na foto abaixo), Margaret (Faith Hill) e sua filha Elsa (interpretada por essa grande e bem-vinda surpresa que é Isabel May). Do outro, a dupla Shea Brennan, que todos chamam de Capitão (Sam Elliott), e Thomas (LaMonica Garrett).
O acaso faz com que se cruzem os destinos da família Dutton e da dupla Capitão & Thomas.
Ao longo dos dois primeiros episódios, o espectador fica sabendo dos fatos básicos sobre essas pessoas.
Em 1883, título da série e o ano em que se passa a ação, fazia apenas 18 anos que havia terminado a Guerra Civil de 1862-1865. O impacto da guerra ainda era fortíssimo – e há várias menções a ela ao longo de toda a série. Em um dos diversos momentos em que a voz de Elsa Dutton-Isabel May se dirige ao espectador, ela conta que havia nascido exatamente 18 anos antes, quando o pai ainda estava fora de casa, lutando na guerra.
Só na abertura do segundo episódio ficamos sabendo que James era capitão do exército confederado, do Sul. Informações esparsas vão dando o quadro: James era fazendeiro no Tennessee. Agora, 18 anos após o fim da guerra, havia decidido ir com a mulher, a filha que chegava ao final da adolescência e o caçula John, de 5 anos (Audie Rick, uma delícia de ator mirim) para Oregon, nos confins do Oeste.

James já estava no Texas. A mulher e os filhos viajaram de trem para se encontrar com ele em Fort Worth, no Texas, de onde iniciariam a longa, perigosa viagem até o extremo Noroeste do país. Com o casal e seus dois filhos iriam também a irmã dele, uma viúva, Claire (Dawn Olivieri), e a única filha dos sete que tivera que ainda estava viva, Mary (Emma Malouff).
Shea e Thomas haviam lutado na guerra no Exército da União, do Norte; Thomas ainda usava sempre o casaco com as insígnias de sargento. Fica absolutamente claro que os dois eram companheiros havia muitos anos. E seu trabalho era levar, do Sul do país até o extremo Noroeste, famílias de interessados em se estabelecer no Oregon. Para incentivar o povoamento da região, o governo federal oferecia terra de graça às famílias de pioneiros que quisessem se assentar no território.
O Capitão e Thomas (na foto abaixo, Sam Elliot e LaMonica Garrett) lideravam as caravanas, contratavam vaqueiros, cuidavam da segurança. Naquele momento, estavam se encarregando de levar um grande grupo de imigrantes vindos da Alemanha e diversos outros países europeus.
Precisavam de boa mão de obra, e tentaram contratar os serviços de James. Este declinou o convite – mas os dois ex-capitães dos lados opostos da Guerra Civil chegaram a um acordo de que a família Dutton viajaria ao lado da expedição liderada por Shea e Thomas. James ajudaria no que fosse possível.
A série – repito, insisto – mostra a viagem daquele bando de gente, levando também umas 50 cabeças de gado.
Problema, perigo, surpresa, morte – haverá tudo isso de sobra, e muito mais.

O ataque dos índios só acontece no penúltimo episódio
Aquela extraordinária abertura da série – o ataque de índios à caravana, Elsa sendo atingida por uma flecha que atravessa seu corpo – acontece, como é bem fácil para o espectador compreender, quando o grupo de imigrantes, liderado pelo Capitão, Thomas e James, já viajou centenas, milhares de quilômetros rumo a Oeste, a rigor a Noroeste. Logo após os créditos iniciais daquele primeiro episódio, há uma volta no tempo, em que o espectador é apresentado àqueles cinco personagens centrais, os Dutton ficam conhecendo o Capitão e Thomas e, depois de muitos preparativos, iniciam a viagem.
É o que eu chamo de estilo narrativa-laço, ou, em linguagem chique de crítico de cinema, “in media res”, o latinório para “no meio das coisas”. Aquele recurso bastante usado de começar mostrando um evento de grande impacto para só então voltar atrás no tempo e contar como a história começou. Ou, para usar o exemplo do futebol, começar mostrando o pênalti marcado aos 44 minutos do segundo tempo, para em seguida voltar atrás e exibir como foi o jogo desde o começo.
No caso de 1883, não é bem aos 44 minutos do segundo tempo – é um pouco antes, talvez ali pelos 35…
A narrativa vai avançando na ordem cronológica – e chega até o momento daquele ataque dos índios no nono episódio, o penúltimo.
Acho que é obrigatório registrar uma explicação para o ataque dos índios. Porque, até chegarmos ao penúltimo episódio, o que vemos é aquela realidade existente em 1883: a rigor, já não havia ataques de índios às caravanas de peregrinos. A época das guerras com os índios já havia acabado, e havia paz – a paz dos vitoriosos, a paz garantida pela Cavalaria, depois de muitas, muitas, muitas mortandades dos nativos. Quase todas as nações indígenas já haviam aceitado viver em reservas. E, em muitos casos, havia ampla cooperação entre brancos e índios. Isso é bem mostrado na série.
Lá pelas tantas, a caravana cruza com um grupo de comanches, liderado por um guerreiro jovem, belo, inteligente, que passara a usar o nome Sam – o nome do branco que havia matado sua mulher, e que ele matara em seguida. Sam e seu grupo ajudam o Capitão, Thomas, James e os vaqueiros contratados pelos dois primeiros na luta contra bandidos que atacam a caravana. Como não é nada bobo, Sam se aproxima da bela lourinha – que, àquela altura, já havia se demonstrado uma vaqueira tão competente quanto os caubóis contratados pelo Capitão, e era extremamente útil auxiliando a tocar o gado na mesma direção das carroças.
Dá a ela o nome, em comanche, que significa Relâmpago de Cabelo Amarelo. E os dois têm um caso – uma bela história de amor. Bela, mas com fim triste.
Bem, me desviei um pouco e não expliquei por que há um ataque de índios quando a imensa maior parte dos índios já não atacava mais os brancos, nem eram mais atacados pelo Sétimo da Cavalaria, para usar a expressão que Joan Manuel Serrat usa na sua “Cada Loco con su Tema”.
Tratou-se de uma fatalidade. Bandidos haviam assaltado uma aldeia da nação lakota e trucidado mulheres e crianças, em um momento em que os homens estavam fora, caçando. James, o Capitão, Thomas, vaqueiros do grupo passaram pouco depois do massacre naquela aldeia, deixando lá seus rastros. Os guerreiros lakotas foram então atrás deles – e atacaram a caravana em um momento em que os homens armados estavam exatamente à procura dos bandidos que haviam atacado a aldeia.

No início do episódio 2, uma sequência inesquecível
Na abertura, como já foi dito, a série mostra o momento do ataque dos índios, a flechada que atravessa o corpo de Elsa – e a partir daí narra-se como se organizou a caravana rumo ao Oregon, em ordem cronológica. A narrativa-laço chega até o momento descrito no inicinho da série no penúltimo dos dez episódios – e segue em frente.
Sim – depois da abertura, a história é contada na ordem cronológica. Mas há um flashback, essa volta no tempo com a qual as platéias estão acostumadas desde… Sei lá exatamente a data, mas seguramente desde os anos 1930, e em especial depois de 1941, o ano de Cidadão Kane.
Taylor Sheridan escreveu um flashback para começar o segundo episódio deste 1883 – e, cacete, que absoluto brilho é essa abertura do segundo episódio. Eu tinha gostado do primeiro episódio, é claro – não tem como não gostar. Mas confesso: com essa abertura do segundo, a série me pegou de vez. “Me encantó”, como diz a personagem da monumental Julieta Díaz na comédia romântica dos Hermanos ali do Sul Corazón de León.
Começa com uma imagem fixa em preto-e-branco, um prédio branco ao fundo e, em primeiro plano, vários corpos de soldados mortos. (Credo: só agora, ao rever a sequência para não errar nada na descrição dela, me ocorreu: seria aquela imagem em preto-e-branco uma foto da época? Pode ser, pode ser… Meu Deus…)
Sobre a imagem, há o quando e o onde: “Igreja Dunker. A batalha de Antietam. 17 de setembro de 1862”.
A imagem estática – foto da época, registro histórico, ou reconstituição feita agora para a série, não importa – vai ganhando cores e movimento. Ondas de fumaça.
No meio de um campo coalhado de cadáveres, um único sobrevivente se levanta. Está com os cabelos e a barba bem negros e bem longos – mas, diacho, é claro que é James Dutton-Tim McGraw, 18 anos mais novo do que o havíamos visto no primeiro episódio, já um tanto grisalho.
Aos poucos, com esforço, aquele último confederado que havia sobrevivido à batalha de Antietam consegue se levantar. Caminha entre os corpos de seus companheiros, enquanto, ao fundo, marcha um batalhão de soldados da União, em uniformes de azul-marinho impecável. Os vencedores, o vencido.
O oficial sulista deixa-se cair sentado sobre um caixote perdido ali no que havia sido um campo de batalha entre pessoas da mesma nacionalidade.
Passam atrás dele soldados da Cavalaria da União. E logo aproxima-se dele um alto oficial. A câmara o mostra em close-up – um homem alto, chapéu da cavalaria até a metade da testa, vasta barba grisalha. Observa as insígnias do uniforme cinza roto, sujo, empoeirado do outro, e diz: – “Capitão!” E senta-se do lado dele. O norte-americano vencedor, o norte-americano vencido.
O oficial sulista tenta dizer alguma coisa – mas não sai palavra alguma de sua garganta.

Close-up do alto oficial do Norte. Ele balança suavemente a cabeça, e diz: – “Eu sei”. E, depois de alguns segundos, repete: – “Eu sei”.
Close-up do capitão do Sul, abaixando o rosto, segurando o choro.
O alto oficial do Norte coloca a mão envolta em uma luva branquíssima no ombro sujo do capitão do Sul.
Essa é uma das mais belas sequências de grande cinema que já vi nos últimos muitos tempos.
Entra a voz em off, agora já conhecida do espectador, da narradora, essa garota de 18 anos Elsa:
– “Meu pai não falava da guerra. Quando perguntam se ele lutou, ele diz que não. Vi seus companheiros soldados chamarem por ele na rua. Ele vira e vai embora para o outro lado. Ele passou três anos numa prisão da União. Quando voltou para casa, minha mãe disse que ele pesava 40 quilos.”
Plano geral: vemos por trás os dois oficiais sentados lado a lado, e a câmara vai suavemente se movendo para cima, seguramente em uma grua, embora esse detalhe não interesse nada – e o espectador vai vendo o campo tomado por soldados mortos.
Entram os créditos iniciais.
Em participações especialíssimas, o casal Tom Hanks-Rita Wilson
Pois bem. Uma das mais belas sequências de grande cinema que já vi nos últimos muitos tempos. Mas quer saber? Eu não reconheci o ator que faz o general da União!

Não reconheci, diabo! E confesso isso, com todas as letras: não reconheci. Só fiquei sabendo quando fui fazer a ficha técnica, e para isso me socorri da Wikipedia. Diz a danada, no cuidadoso, explicativo, palavroso cast of characters:
“Tom Hanks como o general George Meade. Em um flashback para a Batalha de Antietam, ele consola James Dutton depois que muitos de seus companheiros são mortos, antes que ele seja levado preso.”
E a Wikipedia acrescenta que “a esposa de Hanks, Rita Wilson, interpreta Carolyn, uma simpática dona de uma loja no Doan’s Crossing, na fronteira entre Texas e Oklahoma. Ela faz amizade com Margaret, quando esta vai à sua loja, e as duas bebem uísque juntas.”
O oficial da União que se senta ao lado do sulista que sobreviveu à batalha, e demonstra simpatia, solidariedade por ele é interpretado por Tom Hanks! Que coisa maravilhosa, meu! Há muito, muito tempo vejo em Tom Hanks, esse ator, produtor e diretor bissexto (seu The Wonders: -O Sonho não Acabou!, de 1996, é uma absoluta delícia) a expressão perfeita do Homem Bom. Tom Hanks é o que antes dele foi Gary Cooper: o Homem Bom. Spencer Tracy, Henry Fonda e Gregory Peck foram maravilhosas expressões do Homem de Princípios, o Homem Íntegro. Gary Cooper e Tom Hanks são o Homem Bom.
Billy Bob Thorton, esse ótimo ator que talvez seja mais incensado pelos críticos do que propriamente grande astro famosérrimo, faz outro papel bem pequeno, como os do general George Meade e da comerciante Carolyn. Ele interpreta Jim Courtright, o xerife de Fort Worth. Convocado pelo Capitão, James e Thomas para prender os bandidos que haviam atacado a caravana, o xerife Courtright não os leva a corte alguma nem faz a coisa certa, com perdão pelos trocadalhos. Ele atira e mata.
Há ainda um quarto ator que faz participação especial na série. É o homônimo do escritor inglês, Graham Greene. Graham Greene (1952-2025), um grandalhão de 1 metro e 79, nasceu em uma reserva indígena de Ontario, no Canadá, e começou a carreira de ator em 1976. Sua filmografia como ator tem 180 títulos, entre eles Dança com Lobos (1990) e À Espera de um Milagre (1999). Aqui, ele interpreta Spotted Eagle, águia manchada, um chefe indígena da nação crow que cuida de Elsa depois que ela leva a flechada do índio lakota – e que indica para James o Paradise Valley, onde a família Dutton irá se estabelecer – conforme pode ser visto nos 15 episódios de 1923 e nos 53 de Yellowstone.
E, finalmente, encerrando o tema participações especiais, temos que Taylor Sheridan resolveu interpretar um tal Charlie Goodnight, um rancheiro que conhece o Capitão e Thomas, por suas andanças país afora, e resolve ajudá-los a caçar ladrões de gado em um dos últimos episódios da série.

Três séries sobre uma família ao longo de 130 anos
Taylor Sheridan.
Taylor Sheridan foi o criador, junto com John Linson, da série Yellowstone, lançada em 2018, e que teve cinco temporadas, até 2024, com extraordinário sucesso. A série acompanha a família Dutton, dona de terras em Montana, que, agora há pouco, já na segunda década deste século, enfrenta grupos que lutam para se apoderar de partes da propriedade.
Novos episódios de Yellowstone continuavam sendo lançados quando, em janeiro de 2022, saíram os primeiros deste 1883, relatando fatos ocorridos com a mesma família protagonista, os Dutton, mais de 130 anos antes dos eventos de Yellowstone.
E em 2023 foi lançada a série 1923, contando a história dos Dutton durante os turbulentos anos 20, os anos da Lei Seca e da quebra da Bolsa de Nova York, que deu início à Grande Depressão.
Sequências que contam o que aconteceu no passado. Taylor Sheridan fez o que George Lucas havia feito com seu Star Wars – depois dos três primeiros filmes, vieram mais três relatando o que havia acontecido antes…
Prequels. O inglês tem essa fantástica capacidade de criar palavras. Em português, seria prequência, mistura de pré e sequência – a sequência que volta ao passado.
Não vimos ainda nem um único dos 53 episódios de Yellowstone, apesar de, é claro, termos ouvido falar muito da série, de imenso sucesso. Resolvemos começar a ver não na ordem de lançamento, mas na ordem cronológica, e então fomos de 1883.
É o melhor jeito? Bem, no site Olhar Digital, há um texto com o título “Qual é a ordem correta para assistir a Yellowstone?”. Diz o site:
“Há dois caminhos que o público pode seguir para assistir às séries do universo Yellowstone. Para aqueles interessados em ver a linha do tempo da franquia cronologicamente, a ordem de exibição começaria em 1883, passaria para 1923 e, em seguida, Yellowstone. Por outro lado, para entender todas as nuances de 1883 e 1923, seria melhor começar com Yellowstone antes de passar para as prequelas. Ainda assim, não há uma maneira incorreta de assistir ao drama de faroeste – em última análise, tudo se resume à preferência pessoal.”
Como adoro tabelas, fiz uma – com as séries colocadas na ordem cronológica:
| 1883 | 1923 | Yellowstone | |
| Época da ação | 1862 a 1883 | 1923 a 1929 | 2018 em diante |
| Lançamento | 2022 | 2023 a 2025 | 2018 a 2024 |
| Criação | Taylor Sheridan | Taylor Sheridan | Taylor Sheridan & John Linson |
| Com | Sam Elliott,
Tim McGraw, Faith Hill, Isabel May, LaMonica Garrett, Marc Rissmann, Audie Rick, Eric Nelsen
|
Helen Mirren,
Harrison Ford, Brandon Sklenar Júlia Schlaepfer, Jerônimo Flynn, Darren Mann as e a voz de Isabel May)
|
Kevin Costner, Luke Grimes, Kelly Reilly, Wes Bentley, Cole Hauser, Kelsey Asbille, Brecken Merrill, Jefferson White, Danny Huston |
| Direção | Taylor Sheridan,
Ben Richardson, Christina Alexandra Voros
|
Ben Richardson
Guy Ferland
|
Stephen Kay,
Taylor Sheridan Christina Alexandra Voros, Guy Ferland, John Dahl, Ed Bianchi, Ben Richardson, Michael Friedman
|
Um roteirista e criador apaixonado pelo western
Taylor Sheridan nasceu no Leste dos Estados Unidos – em Chapel Hill Carolina do Norte –. em 1969, e cresceu, portanto, em uma época em que eram raros os lançamentos de grandes westerns, mas ele parece de fato ser um apaixonado pelo gênero. Em 2017, apenas um ano antes do início de Yellowstone, ele escreveu e dirigiu Terra Selvagem/Wild River, em que o FBI investiga o assassinato de uma jovem mulher em uma reserva indígena do Wyoming. Em 2019, criou uma série de 31 episódios, The Last Cowboy, um reality show em que treinadores de cavalos disputam uma competição em Las Vegas.
Em meados de 2025, ele colecionava 27 prêmios e 59 indicações – uma delas ao Oscar de melhor roteiro original por A Qualquer Custo/Hell or High Water (2016), dirigido por David Mackenzie.
Sam Elliott, que faz Shea Brennan, o Capitão, nos pareceu, a mim e à Mary, um ator bem conhecido. De fato, ele está em cinco filmes já comentados aqui neste site, sempre em papéis secundários. Elliott é californiano de Sacramento, da classe de 1944. Sua filmografia como ator tinha em 2025 nada menos que 108 filmes. Recebeu 23 prêmios e teve 40 indicações, inclusive uma ao Oscar de ator coadjuvante por sua interpretação de Bobby na versão mais recente de Nasce uma Estrela (2018), com Lady Gaga e Bradley Cooper.

Tim McGraw e Faith Hill (na foto acima), que fazem o casal James e Margaret Dutton, são casados na vida real desde 1996, e têm três filhos. Ele é da Louisiana, classe 1967, e ela, do Mississippi, também de 1967. O interessante é que os dois são cantores de country. Faith Hill, segundo a Wikipedia, é uma das cantoras de country de maior sucesso de todos os tempos, com quase 50 milhões de cópias de álbuns vendidas. Tim McGraw também é grande sucesso: 10 dos 17 álbuns de estúdio que ele lançou chegaram ao topo da lista dos mais vendidos no gênero country. Dei uma olhada no YouTube: há vários vídeos dos dois cantando juntos – e cantando não propriamente country & western, mas o mais puro pop.
Faith Hill se dedica basicamente à carreira de cantora; como atriz, pelo que vi, são poucos os trabalhos dela; um título que se destaca é Mulheres Perfeitas/The Stepford Wives, a refilmagem de 2004, em que trabalhou ao lado Nicole Kidman, Glenn Close e Bette Midler.
Tim McGraw, assim como ela, não tem muitos trabalhos como ator. Esteve, por exemplo, em Surpresas do Amor/Four Christmases (2008) e Um Sonho Possível/The Blind Side (2009),
Muito simpático o casal.
E Isabel May… Meu, que moça danada de bonita – e talentosa. Nasceu pertinho dos estúdios de Hollywood, em Santa Monica, em 2000, o ano em que minha filha se tornou juíza. Estreou no cinema aos 18 anos, em 2018, e de lá até 2025 colocou 12 títulos em sua filmografia como atriz. Em outubro de 2025, havia nada menos que oito títulos com ela em fase de pós-produção ou ainda em filmagens, segundo o IMDb.
É. Tudo indica que veremos muito essa moça por aí.
E acho que vou ver também mais episódios de séries sobre essa família Dutton…
Anotação em outubro de 2025
1883
De Taylor Sheridan, criador, roteirista, diretor, 2021-2022
Direção Taylor Sheridan (1 episódio), Ben Richardson (5 episódios), Christina Alexandra Voros (4 episódios)
Com Sam Elliott (Shea Brennan, o Capitão),
Tim McGraw (James Dillard Dutton),
Faith Hill (Margaret Dutton),
Isabel May (Elsa Dutton, a filha de James e Margaret),
LaMonica Garrett (Thomas, o parceiro do Capitão),
Marc Rissmann (Josef, o líder dos imigrantes), Audie Rick (John Dutton, o filho caçula de James e Margaret), Eric Nelsen (Ennis, o jovem caubói que namora Elsa), James Landry Hébert (Wade, o caubói experiente), Noah Le Gros (Colton, o caubói que se une ao grupo), Gratiela Brancusi (Noemi, a cigana romena que fica viúva), Anna Fiamora (Risa, a mulher de Josef), Amanda Jaros (Alina, uma das imigrantes), James Jordan (Cookie, o conheiro que se une ao grupo), Martin Sensmeier (Sam, o jovem comanche), Dawn Olivieri (Claire Dutton, a viúva irmã de James), Emma Malouff (Mary Abel, a filha de Claire), Stephanie Nur (Melodi, uma prostituta no saloon), Alex Fine (Grady, líder de grupo de caubóis)
e, em participações especiais, Tom Hanks (o general no flashback com a Batalha de Antietam), Billy Bob Thornton (Jim Courtright, xerife de Fort Worth), Rita Wilson (Carolyn, a comerciante em Doan’s Crossing que bebe com Margaret), Taylor Sheridan (Charlie Goodnight, rancheiro que caça ladrões de gado), Graham Greene (Spotted Eagle, veterano chefe índio que ajuda Elsa)
Argumento e roteiro Taylor Sheridan
Fotografia Ben Richardson (6 episódios), Christina Alexandra Voros (4 episódios),
Música Brian Tyler e Breton Vivian
Montagem Chad Galster, Nathan Gunn, Brooke Rupe, Martin Nicholson,
John Coniglio, Christopher Gay, Ryan Malanaphy
Casting John Papsidera
Desenho de produção Cary White
Direção de arte Yvonne Boudreaux
Figurinos Janie Bryant
Produção 101 Studios, Bosque Ranch Productions, CBS Entertainment, Linson Entertainment, MTV Entertainment Studios.
Cor, cerca de 550 min as 9h10)
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