
Bem realizado, com boas interpretações – mas frio, distante, destituído de emoção. Assim me pareceu Nathalie…, que a diretora Anne Fontaine lançou em 2003, sobre o que parece ser um triângulo amoroso entre os personagens das belíssimas Fanny Ardant e Emmanuelle Béart e o grande Gérard Depardieu.
Nathalie… conta a história de um (aparente) triângulo amoroso improvável, difícil de a gente entender, aceitar como possível – mas que vai se revelar, na verdade, na história da relação entre as duas mulheres.
Fanny Ardant faz a mulher casada – ela, Catherine, uma ginecologista experiente, bem sucedida, ele, Barnard, um homem de negócios atarefado, que viaja muito, igualmente bem sucedido. São ricos, o filho único já é um jovem adulto – e o casal, como tantos casais maduros, já não se fala muito, e não fazem mais sexo, sequer de vez em quando. Nas vezes em que ele tenta, ela se diz cansada.
Quando Bernard volta à bela residência deles, após uma viagem a Zurique, Catherine ouve no celular dele a mensagem de uma mulher dizendo que o sexo tinha sido muito bom.
Ela o confronta, ele diz que aquilo não teve importância alguma, que ele a ama muito.
Ao sair em um final de tarde de seu consultório, Catherine resolve entrar em um bar, um nightclub privado – que se revela na verdade um bordel. Uma moça lindíssima chama sua atenção – Marlène, não se sabe se nome verdadeiro ou de guerra, o papel de Emmanuelle Béart.
Catherine resolve propor a Marlène um negócio, um trabalho: fazer se passar por uma pessoa comum, uma estudante de línguas, e se aproximar de Bernard. Criar uma personagem, com outro nome – quem sabe Nathalie? Com toda certeza Bernard iria dar em cima dela, tentar conquistá-la, fazer sexo com ela. Em troca de uma boa remuneração, Marlène tornada Nathalie deveria então relatar para Catherine, detalhadamente, cada encontro, cada trepada.
Marlène topa.
Quando ela conta, detalhada, minuciosamente, como foi o primeiro encontro, a primeira trepada, Catherine pergunta se ele teria notado que ela é uma profissional.
– “Eu finjo”, diz Marlène agora Nathalie. “É a minha profissão.”

As duas mulheres vão se aproximando
A coisa vai se estendendo, se prolongando. Catherine passa a procurar Nathalie com frequência no nightclub-bordel; às vezes se encontram em cafés, bares – e a bela médica de meia idade ouve atentamente todas as narrativas detalhadas de como o marido comeu a puta jovem e lindérrima.
A diferença de idade entre as duas é mencionada alguma vezes. (Diferença que, na verdade, não é tão grande quanto parece. Fanny, de 1949, estava com 54 anos; Emmanuelle, de 1963, estava com 40.)
Lá pelas tantas, Catherine fica sabendo que Marlène-Nathalie trabalha como esteticista em um salão. Vai visitá-la, conversam sobre aquilo. Marlène conta que tem diploma, que se prepara para quando largar a atual profissão.
Mais adiante, a mãe de Catherine – que a filha visita com alguma frequência – se queixa de que está com algum problema na cabeça, no couro cabeludo. Catherine leva em seu carro Marlène, para cuidar da mãe (o papel de Judith Magre). Como a casa fica em um bairro afastado, as duas dormem lá. Catherine põe Marlène para dormir no quarto e na cama que eram os seus, até ela sair de casa. Marlène pergunta se a jovem Catherine levava namorados para a cama.
Uma vai passando a admirar a outra. Vão ficando próximas, até mesmo íntimas.
Me peguei pensando se as duas iriam fazer sexo – e creio que muitos, muitos espectadores também pensam nisso.
Teria até alguma lógica.
A rigor, a rigor, um caso entre as duas teria até mais lógica do que aquilo que é a base da história – Catherine ficar pagando a outra para trepar com o marido e contar detalhadamente como foi a cada vez.
É o que me parece.
Tá certo, a vida não tem muita lógica mesmo, mas acho que a história que Anne Fontaine resolveu filmar exagera um pouco na falta de lógica, de verossimilhança.
Também me pareceu muito pouco provável a repentina falta de dinheiro de Marlène, que a leva a ser despejada de seu apartamento e, depois, a viver em um outro alugado para ela por Catherine. Diacho, ela tinha lugar cativo no tal nightclub bordel, não faltavam fregueses ricos, e ainda por cima havia os pagamentos constantes feitos pelo serviço com o marido da outra… Mas esse detalhe a rigor não tem importância; pensei nele por causa do meu lado de idiota da objetividade, como diria o Nelson Rodrigues.

Fanny foi a primeira escolha da diretora; Emmanuelle, não
Anne Fontaine diz, em um depoimento no making of que acompanha o filme no DVD (lançado no Brasil pela Europa Filmes), que pensou imediatamente em Fanny Ardant para o papel de Catherine, assim que passou pela sua cabeça fazer o filme. Não poderia haver outra atriz para aquele papel, diz ela.
E está perfeita, maravilhosa, lindíssima, elegante, atraente essa grande atriz. É um prazer imenso ver Fanny Ardant – e a câmara de Anne Fontaine e fo diretor de fotografia Jean-Marc Fabre parece se deliciar em mostrá-la, em segui-la enquanto ela caminha pelas ruas de Paris, pelo nightclub, por sua casa, seu consultório. A câmara faz longos travellings mostrando o corpo inteiro de Fanny Ardant caminhando, com aquela elegância natural dela, aquele belo corpo longilíneo.
Me lembrei de como a câmara de François Truffaut a seguia em De Repente, Num Domingo/Vivement Dimanche, de 1983, o segundo e última filme que o realizador fez com sua então mulher. Ele morreria no ano seguinte.
Não dá para não lembrar, também, do primeiro filme que fizeram juntos marido e mulher, diretor e atriz, A Mulher do Lado/La Femme d’à Côté, de 1981, em que ela e Gérard Depardieu faziam um casal que havia sido absolutamente apaixonado no passado e acontece de os dois, ambos casados com outros, se reencontrarem como vizinhos.
Vinte e dois anos separam os amantes intensos, fogosos de A Mulher do Lado do casal maduro e já distante um do outro deste Nathalie…
Não me lembrava disso, mas houve um terceiro filme em que Fanny Ardant e Gérard Depardieu trabalharam juntos: em Coronel Chabert: Amor e Mentiras (1994), também interpretaram marido e mulher.
Anne Fontaine não fala disso no making off, mas, segundo o IMDb, Emmanuelle Béart não foi sua primeira opção para o papel de Marlène-Nathalie. Vanessa Paradis foi escolhida para o papel – mas ficou grávida de seu segundo filho, Jack Depp, filho, como indica o sobrenome, de Johnny Depp. É interessante notar que Vanessa é nove anos mais jovem que Emmanuelle – a diferença de idade entre as duas personagens seria ainda maior.
Mas é o que eu digo: Deus – ou o acaso, para quem não acredita em Deus – é o melhor diretor de casting que há. Vanessa é bonitinha, charmosa, boa atriz – mas o filme ganhou muito com a escolha de Emmanuelle para o papel-título, porque ela é uma mulher de beleza incrível, extraordinária.
Achei maravilhoso como Emmanuelle faz duas mulheres bem diferentes no filme: durante o serviço, no nightclub, usa maquilagem pesadíssima, roupas provocantes; fora de serviço, parece estar com a cara lavada, e usa roupas absolutamente normais, do dia a dia.
Anne Fontaine comenta, no making off, que achou muito boa a escolha de Emmanuelle entre outras coisas porque, com a idade dela, a personagem fica portanto mais experiente, mais vivida.
E adorou o par, as duas atrizes juntas: – “Desde o início eu as vi como um casal de cinema. Porque elas são extremamente complementares em termos de corpo, de atuação. Houve uma alquimia, o que foi fundamental.”

Emmanuelle diz que Fanny a ajudou demais
Anne Fontaine também não fala disso no making of, mas, segundo o IMDb, ela desejava, sim, que se desenvolvesse uma relação lésbica entre Catherine e Marlène-Nathalie. Mas as duas atrizes foram contra.
O IMDb não cita a fonte, e esse fato não está entre os vários itens sobre o filme no AlloCiné, o site que tem tudo sobre o cinema francês – mas não há motivo para duvidar da informação.
O AlloCiné traz, em sua página de trívias – que eles chamam de “secrets de tournage”, segredos da filmagem – trechos de declarações de Emmanuelle Béart feitas na época do lançamento de Nathalie… Ela vinha de dois filmes importantes, dramas densos feitos por grandes diretores, Anjo de Guerra/Les Égarés, de André Téchiné, e A História de Marie e Julien/Histoire de Marie et Julien, de Jacques Rivette – ambos lançados também em 2003, o mesmo ano do filme de Anne Fontaine.
A atriz considerou o seu papel como o mais delicado dos três: – “Eu vinha de rodar sucessivamente o filme de Téchiné e o de Rivette, estava exangue, e esse estado poderia servir ao personagem de Marlène, mas foi preciso ter a paciência de Fanny, seu olhar, sua gentileza, sua alegria… Sem Fanny, não estou certa se teria conseguido. Um pouco como Catherine e Marlène vão as duas procurar na outra o que cada uma não tem. Estranhamente, encontrei uma forma de sensualidade para meu personagem ao observar Fanny, seu charme um pouco lascivo, sua voz, seu gestual.”
Emmanuelle Béart também falou sobre a experiência de interpretar uma prostituta, algo que não era novo para ela, que já havia tido um papel semelhante em outro filme de André Téchiné, Não Dou Beijos/J’Embrasse Pas, de 1991: – “A prostituição não me era algo estranho. Recentemente, em uma viagem à Tailândia para pesquisar sobre a prostituição infantil, eu vi o que se passava quanto ao turismo sexual. Já me aconteceu também, em Paris, de tomar o ônibus das mulheres que prestam ajuda às prostitutas. Como parte da preparação para o papel, fomos com Anne Fontaine a esse tipo de clube em que Marlène trabalha. Não se tratava de pegar uma delas como modelo, mas tentar ver que parte do jogo existe no exercício de sua profissão, e qual é sua vida de mulher antes, durante e depois.”

Uma cineasta que fala de triâgulos amorosos
O AlloCiné lembra que pelo menos dois outros filmes de Anne Fontaine tinham como tema triângulos amorosos, como este aqui que envolve Fanny Ardant, Gérard Depardieu e Emmanuelle Béart. Seu primeiro longa-metragem, Les Histoires d’Amour Finissent Mal… En General, de 1993, aparentemente não lançado no Brasil, é sobre uma mulher apaixonada por dois homens. Em Lavagem a Seco/Nettoyage à Sec (1997), um casal tranquilo, interpretado por Miou-Miou e Charles Berling, tem sua relação abalada com o aparecimento de um jovem.
Anne-Fontaine Sibertin-Blanc nasceu em Luxemburgo, em 1959, e passou parte da juventude em Lisboa, onde seu pai, Antoine Sibertin-Blanc, era professor e organista da catedral. Era adolescente quando sua família se radicou a Paris. Estudou dança, e foi como dançarina que começou na carreira, convidada por Robert Hossein para interpretar Esmeralda em seu espetáculo musical Notre-Dame de Paris, de 1978, inspirada na obra de Victor Hugo, no Brasil O Corcunda de Notre-Dame.
A partir daquele mesmo ano de 1978, iniciou a carreira de atriz, no cinema e em séries de TV. E, em 1993, lançou seu primeiro longa-metragem como diretora, o já citado Les Histoires d’Amour Finissent Mal… En Général.
Gostaria de ter tempo para ver mais filmes do que vejo, gostaria de ver mais filmes franceses do que vejo, mas até que este + de 50 Anos de Filmes aqui não está tão mal servido de Anne Fontaine. Antes deste aqui, já estavam no site meus comentários sobre cinco obras da realizadora:
Uma Nova Chance/Nouvelle Chance (2006),
A Garota do Mônaco/La Flle de Monaco (2008),
Coco Antes de Chanel/Coco Avant Chanel (2009),
Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte/Gemma Bovery, 2014,
Agnus Dei/Les Innocents, 2016.

“Provocante na aparência, mas reservado na realização”
O X acrescentado ao nome da personagem no título do filme no Brasil não é, ao contrário do que eu pensei, mais uma invencione dos nossos exibidores, mestres em títulos imbecis, tipo Noivo Neurótico, Noiva Nervosa ou Os Brutos Também Amam.
Durante a pré-produção e as filmagens, o filme passou por vários títulos. O primeiro, informa o AlloCiné, foi um com nome e sobrenome, Nathalie Ribout – esse era o título do roteiro original, de autoria de Philippe Blasband. Em seguida, os realizadores optaram por Nathalie X, o que os distribuidores brasileiros depois adotariam. Anne Fontaine acabaria escolhendo o nome da personagem que a prostituta Marlène passaria a encarnar, com o acréscimo das reticências: Nathalie…
O roteiro original de Philippe Blasband foi bastante modificado, reescrito, por Anne Fontaine & Jacques Fieschi. Os créditos afirmam que o roteiro é dessa dupla, com a colaboração de François-Olivier Rousseau, baseado em história de Philippe Blasband.
Há um elemento interessante aí: em 2009, seis anos portanto após o lançamento do filme, houve uma montagem teatral em Paris da história original de Philippe Blasband, com Virginie Efira como Nathalie e Maruschka Detmers como a esposa. Nessa versão fiel ao original, o casal Sonia e Jean-Luc (e não Catherine e Bernard) está separado e em meio aos procedimentos para o divórcio, quando entra em cena a prostituta Nathalie Ribout.
Eis o que diz o Guide des Films de Jean Tulard: “Conversas escabrosas, diálogos crus, trama improvável… Este é verdadeiramente o tema deste filme provocante na sua aparência, mas reservado na sua realização. Não se trata aqui mais de uma questão de temperamentos femininos através dessas duas (ou talvez três) mulheres? Catherine, apagada, terna, abençoada, toda pronta para ouvir (excelente Fanny Ardant, que sugere mais do que diz), Marlène, provocante, sensual (Emmanuelle Béart, com sua beleza brilhante, perturbadora) e essa Nathalie, boneca erótica? Não é assim que se encontram duas solidões?”
Leonard Maltin deu ao filme 2 estrelas em 4: “Perturbadora história da relação que vai se desenvolvendo entre duas mulheres: uma ginecologista casada e a prostituta que ela contrata para seduzir seu marido mulherengo. Mesmo as descrições vívidas da puta sobre seus encontros sexuais não conseguem acender uma faísca sob esse pretensioso estudo de personagens. Refeito como Chloe.”
Opa! Essa informação aí é uma novidade total para mim. Não sabia disso! Sim, sim, sim: em 2009, seis anos depois deste Nathalie…, o diretor canadense de origem armênia Atom Egoyan dirigiu Chloe, no Brasil O Preço da Traição. Julianne Moore faz a dra. Catherine Stewart, Amanda Seyfried faz Chloe e Liam Neeson, David Stewart.
Bem. O saldo final deste Nathalie… para mim é assim: é um bom filme, bem realizado, com boas interpretações – e é um prazer imenso a gente ver Fanny Ardant e Emmanuelle Béart com aquela beleza toda delas.
Mas de fato é, como bem sintetizou o Guide de Films, uma trama improvável – e eta resultado final frio, distante, destituído de emoção, siô!
Anotação em agosto de 2025
Nathalie X/Nathalie…
De Anne Fontaine, França-Espanha, 2003.
Com Fanny Ardant (Catherine),
Emanuelle Béart (Marléne, Nathalie),
Gérard Depardieu (Bernard)
e Wladimir Yordanoff (François, o amigo do casal), Judith Magre (a mãe de Catherine), Rodolphe Pauly (o filho do casal), Évelyne Dandry (a gerente do bordel), Christian Päffgen (o homem de uma noite), Aurore Auteuil (uma paciente de Catherine), Idit Cebula (Ghislaine), Sasha Rucavina (Marianne), Macha Polikarpova (Ingrid), Marie Adam (a secretária de Catherine), Sophie Séfériadès (uma paciente), Serge Onteniente (o agente imobiliário), Marinette Lévy (Marie), Ida Techer (uma amiga de Marlène), Caroline Frank (uma amiga de Marlène)
Roteiro Anne Fontaine & Jacques Fieschi. Colaborou François-Olivier Rousseau.
Baseado em roteiro de Philippe Blasband
Fotografia Jean-Marc Fabre
Música Michael Nyman
Montagem Emmanuelle Castro
Casting Constance Demontoy, Richard Rousseau
Desenho de produção Michel Barthélémy
Direção de arte Etienne Rohde
Figurinos Pascaline Chavanne
Produção Alain Sarde, Les Films Alain Sarde, France 2 Cinéma, DD Productions, Vértigo Films, Canal+, Studio Images 9.
Cor, 101 min.
**1/2
