O Homem Que Quis Matar Hitler / Man Hunt

Nota: ★★☆☆

(Disponível no YouTube em 9/2023.)

“Alemanha, pouco antes da guerra”, informa o letreiro após os rápidos créditos iniciais. E logo em seguida a primeira sequência do filme – lançado em 1941, o mundo em guerra, a Alemanha nazista dominando quase toda a Europa, os Estados Unidos ainda neutros – mostra um homem maduro, experiente, em uma colina, apontando a mira de seu fuzil telescópico diretamente para Adolf Hitler.

Vemos na tela o que ele vê: a figura de Hitler no centro da mira telescópica do fuzil. Um close-up mostra seu dedo apertando o fuzil – mas não há estampido algum. Ele abre a arma, coloca então a bala, e se prepara para atirar, desta vez de verdade.

No momento do tiro, no entanto, é agarrado por um soldado nazista que o avistara. O tiro sai para o ar.

Nas sequências seguintes, o homem, já identificado como um inglês, o capitão Alan Thorndike (o papel do grande Walter Pidgeon), de família riquíssima, aristocrata, está sendo torturado pelos homens da Gestapo.

Meu Deus, que beleza de abertura a deste Man Hunt, no Brasil O Homem Que Quis Matar Hitler!

Chaplin, Hitchcock e Lang fizeram alertas

O austríaco Fritz Lang (1890-1976) havia feito carreira na Alemanha, onde se radicou a partir dos 21 anos de idade. No período entre guerras, realizou obras-primas – Metrópolis (1927), M, o Vampiro de Dusseldorf (1931), O Testamento do Dr. Mabuse (1933) – que o tornaram conhecido como um dos maiores realizadores do cinema alemão, ao lado de F.W. Murnau. Fugiu da Alemanha na época em que o nazismo assumiu o poder, no início dos anos 30, e, depois de uma passagem pela França, fixou-se nos Estados Unidos.

Em seus 20 anos em Hollywood, entre 1936 e 1956, fez 17 filmes, vários deles da maior qualidade. Este Man Hunt foi o quinto da fase americana; Dois anos depois dele, em 1943, Lang faria mais um filme virulentamente antinazista, Os Carrascos Também Morrem/Hangmen Also Die. E voltaria mais uma vez à carga no ano seguinte ao fim da guerra, 1946, com O Grande Segredo/Cloak and Dagger.

Não gostei deste Man Hunt aqui – que, na minha opinião, cai demais depois daquela bela abertura que relatei. Mas não é minha opinião que interessa. O filme é importante – parque tudo o que Fritz Lang fez é importante. Porque é virulentamente antinazista. E por ter sido feito e lançado ainda em 1941, quando os Estados Unidos se mantinham teoricamente neutros, fora da guerra.

Lang foi, assim, um dos grandes cineastas, ao lado de Charles Chaplin com seu O Grande Ditador (lançado nos EUA em outubro de 1940), e de Alfred Hitchcock com seu Correspondente Estrangeiro (lançado lá em agosto de 1940), a realizar filmes que alertavam para o perigo imenso de os Estados Unidos não se unirem aos Aliados no combate ao nazifascismo.

O país só entraria na guerra depois do ataque japonês à base de Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941.

Na sua fuga, o homem é ajudado por uma bela moça

Como tenho tentado incluir sempre uma sinopse da trama, vou usar como base a da Wikipedia em Português. (A da Wikipedia em Inglês é extremamente detalhada.)

Preso com um rifle de mira telescópica quando estava na floresta vizinha à residência de Adolf Hitler nas proximidades de Berchtesgaden, em 1939, pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial, o famoso caçador inglês Alan Thorndike (Walter Pidgeon, repito) é torturado para que assine a confissão de que agiu a mando do governo britânico. Seria um pretexto para os nazistas iniciarem a guerra. O oficial encarregado de conversar com o inglês, fora das sessões de tortura, e que o trata de forma respeitosa, cortês, se chama Quive-Smith (o papel de George Sanders).

Como Thorndike se recusa a assinar a confissão falsa, é jogado de um penhasco para simular um acidente, mas sobrevive e consegue fugir para Londres viajando clandestinamente no barco do capitão Jensen (Roger Imhof). No navio, recebe a ajuda inestimável do filho do capitão, o garoto Vaner (o papel do ator-mirim sensação da Grã-Bretanha Roddy McDowell, na foto acima, então com 13 anos de idade). Mas no mesmo navio vão agentes alemães liderados pelo incansável Quive-Smith, que vão perseguir Thorndike por toda Londres.

Para se esconder, Thorndike recebe outra ajuda inestimável, desta vez de uma jovem belíssima, Jerry (o papel de Joan Bennett), de origem humilde, working class, de pouca educação, que fica absolutamente fascinada pelo cavalheiro.

Essas últimas palavras aí, a partir de “origem humilde”, que tentam explicar quem é Jerry, são minhas. A Wikipedia em Português diz que ela é “uma provável garota de programa”. A Wikipedia em Inglês diz apenas que “ele consegue se esconder no apartamento de uma jovem mulher chamada Jerry Stokes, que empresta a ele dinheiro para que ele chegasse até a casa de seu irmão, Lord Risborough”.

A personagem de Jerry é importante na história, está presente em talvez metade dos 105 minutos de duração – e, na minha opinião, é um dos elementos que fazem o filme ser muito ruim. Mas vou deixar isso para o final. Antes de vir com minhas opiniões, reúno aqui informações e as opiniões dos outros.

O livro não identifica quem é o ditador!

O roteiro – assinado por Dudley Nichols (1895-1960), quatro indicações ao Oscar, premiado com a estatueta pelo roteiro de O Delator/The Informer (1935), de John Ford – se baseia no romance Rogue Male, do inglês Geoffrey Household (1900-1988). O romance, lançado em 1939, exatamente o ano do início da Segunda Guerra Mundial, foi um grande sucesso. Os créditos iniciais – bem curtos, como eram todos na época – traz o nome do autor logo abaixo do título: “Man Hunt by Geoffrey Household”. Ao final dos créditos, após o nome do diretor Fritz Lang e antes da primeira tomada, há um letreiro com estas frases: “A história Man Hunt surgiu primeiro sob o título Rogue Male como uma série na Atlantic Monthly Magazine, e recebeu ampla divulgação. Desde então tem tido circulação mundial em forma de romance.”

Rogue Male. Diacho, não me lembrava da palavra “rogue”. Segundo o dicionário Exitus, que leva a assinatura de Antônio Houaiss, “rogue“ é vagabundo, velhaco, maroto – e também um “animal feroz desgarrado de da manada”, que é o que me parece o sentido aí do título do livro.

As informações são de que Fritz Lang teve problemas para fazer do filme um libelo contra Hitler e o nazismo. Darryl F. Zanuck, o chefão da 20th Century Fox, não demonstrava entusiasmo com o forte antinazismo do grande realizador. Mais ainda: o Hays Office, o órgão encarregado de supervisionar as produções de Hollywood, checando se elas obedeciam rigorosamente aos ditames do Código Hays, o manual de censura imposto aos estúdios e admitido por eles, demonstrou preocupação com o roteiro. Consta que um dos representantes do Hays Office, Joseph Breen, ficou alarmado com o roteiro, e disse que havia odiado aquilo. Segundo ele, o filme poderia prejudicar a política de neutralidade mantida até então pelos Estados Unidos em relação aos dois lados em guerra, o Eixo formado por Alemanha-Itália-Japão contra os Aliados, Grã-Bretanha, União Soviética, Austrália, Canadá e muitos outros.

Diante dessas informações, é perfeitamente possível a gente imaginar que o destaque dado por Lang ao livro, no início do seu filme, tenha sido uma forma de, no mínimo, dividir as responsabilidades, de dizer que a história é de uma obra literária conhecida… Tipo: olha, não sou eu que estou dizendo isso aí, é o livro do cara…

Pode ser, pode ser.

Mas é muito estranho saber que o livro não identifica o ditador que o protagonista da história quer matar!

Pode isso?

Em 1939, “as coisas eram um tanto complicadas”

Eis a sinopse do livro Rogue Male no site da Amazon, que faz sempre ótimos resumos:

“Um inglês planeja assassinar o ditador de um país europeu. Mas no último momento sua tentativa é frustrada e ele cai nas mãos de torturadores inventivos e impiedosos. Eles inventam para ele uma morte engenhosa e diplomática, mas ele consegue escapar.”

Poderia perfeitamente ser a sinopse do filme. O começo do filme é exatamente isso – só que o alvo do inglês, no livro, não é Adolf Hitler, e sim “o ditador de um país europeu”.

Em uma entrevista dada bem depois do lançamento do livro em 1939 à Rádio Times, o escritor Household afirmou que ele sempre teve a intenção de que o alvo era mesmo Hitler. “Embora a idéia para Rogue Male tenha germinado da minha intensa aversão a Hitler, eu não coloquei o nome dele no livro porque as coisas eram um tanto complicadas naquela época, e eu pensei que poderia deixar em aberto se o alvo era Hitler ou Stálin. O leitor poderia decidir.”

“Things were a bit tricky at the time.” Hoje parece uma desculpa safada, esfarrapadérrima – mas antes de Hitler invadir a Polônia em 1º de setembro de 1939, havia na Grã-Bretanha um rei – o tio de Elizabeth II, o que renunciou ao trono e deu lugar ao irmão – que tinha simpatias pelo III Reich, e um primeiro-ministro – Neville Chamberlain – que defendia uma posição de neutralidade diante do nazismo.

E, nos Estados Unidos – que, é sempre bom repetir, só entraram na guerra após ter seu território bombardeado pelos japoneses em 7 de dezembro de 1941 –, e especificamente em Hollywood, não havia muita vontade de exibir posições contrárias à Alemanha. Fala-se bastante de que havia em Hollywood muita simpatia pelo nazismo, antes do início da guerra, pelo menos. Em 2019, saiu o livro O pacto entre Hollywood e o nazismo: Como o cinema americano colaborou com a Alemanha de Hitler, de Ben Urwand. Não li o livro, mas a princípio vejo aí uma forçação de barra. Até porque vários dos estúdios pertenciam a judeus, e/ou eram chefiados por judeus. E também porque é compreensível que, antes da guerra, a indústria não estivesse interessada em perder o mercado alemão, um dos maiores do mundo.

E isso é um fato inescapável: não era de interesse dos estúdios perder o mercado alemão. O que explica a existência de poucos filmes abertamente antinazistas antes de os Estados Unidos entrarem na guerra – e o que torna este filme aqui respeitável, admirável, ao lado daqueles já citados dos ingleses Chaplin e Hitchcock.

“Improvável mas ainda assim absorvente drama”

Leonard Maltin deu 3,5 estrelas em 4 ao filme: “Improvável mas ainda assim absorvente drama sobre homem que tenta matar Hitler e entra em uma série de problemas maior do que ele poderia imaginar. Tenso, bem feito. Roteiro de Dudley Nichols, do romance de Geoffrey Household. Refeito como Rogue Male.”

Sim, houve uma refilmagem feita para a TV britânica, em 1976 – e, pelos nomes envolvidos, foi uma produção classe A; o diretor foi Clive Donner, que realizou Que é Que Há, Gatinha?/What’s New Pussycat? (1965), com roteiro de Woody Allen e um elenco sensacional incluindo Romy Schneider, Capucine, Ursula Andress e Paula Prentiss. E o papel do homem que queria matar Hitler coube a Peter O’Toole.

Vejo agora, neste momento em que escrevo – setembro de 2023 – que se anunciou, em 2016, uma nova refilmagem, com o título do livro e do filme de 1976, Rogue Man. O ator é o grande Benedict Cumberbatch. No entanto, passados sete anos e uma pandemia, ainda não se fala na data de estréia da nova produção.

O Guide des Films de Jean Tulard analisa assim Chassse à l’homme, como o filme foi chamado na França:

“O primeiro filme antinazi de Lang. Um thriller sem tempo morto que vale sobretudo pelas composições de Sanders, o chefe dos ‘malvados’, e Carradine.”

Eis o que diz Pauline Kael:

“Fritz Lang dirigiu a adaptação de Dudley Nichols para Rogue Male de Geoffrey Household – um thriller antinazista sobre um caçador britânico de ombros largos (Walter Pidgeon) que persegue Hitler em Berchtesgaden. É engenhoso, é verdade, mas a direção é insistente demais e a trama emaranhada demais para um entretenimento de primeira. Joan Bennett faz uma heroína profissional das calçadas, que o estúdio transformou em uma ‘costureira’ para passar pelo Hays Office. Com George Sanders, John Carradine, Roddy McDowall e Ludwig Stossel. Produzido por Kenneth MacGowan para a 20th Century-Fox.”

Eu não gostei – mas é um filme que tem importância

Traduzi para “profissional das calçadas” o que Dame Kael chamada de streetwalker – “Joan Bennett plays the streetwalker heroine”.

Joan Bennett está maravilhosamente bela no papel dessa Jerry Stokes, que o protagonista Alan Thordike feito por Walter Pidgeon encontra ao entrar em um pequeno prédio de apartamentos fugindo de seus perseguidores nazistas pouco depois de desembarcar do navio do capitão Jensen e seu filho, o esperto garoto Vaner.

Thorndike e a bela Jerry fazem um par assim tipo professor Higgins e Eliza Doolittle do Pigmalião de George Bernard Shaw e do My Fair Lady de Alan Jay Lerner. Naquela sociedade em que o classismo é forte, imenso, esmagador, ele é um cavalheiro riquíssimo e ela é uma pobretona, working class lá do fundo da escala, que fala o Inglês mais cockney possível, o Inglês que identifica de cara, na primeira frase, o estrato social da pessoa. Eliza Doolittle vendia flores, Jerry Stokes, tudo indica, vende o corpo.

Que o caçador que havia tentado matar Hitler entre num prédio, encontre uma mulher e a force a entrar no apartamento dela para se esconder dos nazistas que o perseguem… Vá lá, é plausível. Poderia acontecer, sim, claro.

Mas que seja uma moça linda demais da conta, que more numa beleza de apartamento, que fique absolutamente fascinada com o cara, que não desgrude mais dele, que apareça com ele na residência rica fina chique do irmão lorde, que deixe absolutamente chocada com seus modos (ou sua falta de modos) a cunhada lady (os papéis de Frederic Worlock e Heather Thatcher), que passe a ser praticamente o centro da história… Ah…

A partir do aparecimento de Jerry Stokes-Joan Bennett, o filme muda inteiramente de ritmo, de clima. Até a música – de autoria do grande Alfred Newman – muda de estilo, passa a ser alegrinha, jovial. Man Hunt vira quase uma comedinha romântica.

E, diabo, mais para o final, quando deixa de lado a comédia romântica e volta a mostrar uma caçada humana… Bem, nazistas caçando um inglês rico dentro de Londres já e um troço meio esquisito. Mas o cavalheiro inglês se esconder em uma caverna, no coração da metrópole…

Mas isso tudo são impressões minhas. Coisa pessoal.

Man Hunt é um filme que tem importância.

Anotação em setembro de 2023

O Homem que Quis Matar Hitler/Man Hunt

De Fritz Lang, EUA, 1941

Com Walter Pidgeon (capitão Alan Thorndike)

Joan Bennett (Jerry Stokes),

George Sanders (Quive-Smith, o oficial nazista),

e John Carradine (Mr. Jones), Roddy McDowall (Vaner, o garoto do navio), Ludwig Stossel (o médico alemão), Frederic Worlock (Lord Risborough, o irmão de Thorndike), Heather Thatcher (Lady Risborough), Roger Imhof (Jensen, o capitão do navio), Holmes Herbert (Farnsworthy). Fredrik Vogeding (o embaixador alemão), Lucien Prival (o homem com o guarda-chuva), Herbert Evans (Reeves), Edgar Licho (o pequeno homem gordo), Eily Malyon ( a senhora do Correio), Lester Matthews (major), Arno Frey (tenente da polícia)

Roteiro Dudley Nichols

Baseado no romance “Rogue Male”, de Geoffrey Household

Fotografia Arthur Miller

Música Alfred Newman

Montagem Allen McNeil

Direção de arte Richard Day, Wiard Ihnen

Figurinos Travis Banton

Produção Kenneth MacGowan, 20th Century Fox.

P&B, 105 min (1h45)

** 

Título na França: “Chasse à l’homme”. Em Portugal: “Feras Humanas”.

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