O Garoto / The Kid

Nota: ★★★★

(Disponível em DVD e no YouTube.)

No início de seu primeiro longa-metragem, O Garoto/The Kid, Charles Chaplin avisa: “Um filme com um sorriso e talvez uma lágrima”. O filme foi um tremendo, arrasador sucesso, e é uma obra-prima que faz a gente rir e chorar um século depois de seu lançamento, em 1921.

Ao longo destes cem anos, Chaplin consolidou-se como um dos artistas mais populares e mais amados do mundo. Em qualquer lugar em que se vendam pôsteres, mundo afora, há sempre imagens de seus filmes, em especial da persona que ele criou e interpretou, o Vagabundo, Carlitos. Sinônimo de comédia, Chaplin, no entanto, sempre foi acusado, por boa parte da crítica, de excessivo sentimentalismo.

A frase com que ele abriu O Garoto parece indicar que ele já antevia as acusações da douta crítica. “A Picture With A Smile And Perhaps A Tear.” Sentimental, sim – e daí?

O Garoto é um filme feito de risadas, ternura e sentimentos, entre muitos outros elementos. Tem muito a ver com a vida de seu criador – o fato de ele haver perdido pouco antes um filho bebê, o fato de ele ter sido tomado de sua mãe aos sete anos de idade e levado para um orfanato. E, sobretudo, O Garoto é, em boa parte, um produto da sorte. Claro, claro, um produto do imenso talento de seu criador – mas também da sorte imensa de, na época em que se preparava para fazer o filme, Chaplin ter ficado conhecendo aquele menino lindo e fofo, Jackie Coogan.

Sem Jackie Coogan O Garoto não seria um filme tão maravilhoso.

Ao rever o filme agora, para escrever sobre ele, fiquei especialmente impressionando com a grande quantidade de temas que ele aborda. A pobreza, claro, antes e acima de tudo – a existência da pobreza, quase miséria, em uma sociedade com tanta riqueza. E também a maternidade não planejada, não prevista – e a incapacidade de a mãe cuidar do filho, a ponto de fazer com que ela o abandone, na esperança de que uma família rica possa dar a ele o conforto que ela não pode dar. O amor entre a criança e o pai que o adota mesmo sem ter vontade, simplesmente porque não tinha outro jeito – a prova incontestável, mais uma vez, de que pai e/ou mãe não é necessariamente o biológico, e sim quem cria, quem cuida, quem protege.

A falta de jeito dos aparelhos de Estado para tratar dos desvalidos, dos despossuídos – e, em especial, das questões familiares. A truculência com que os representantes do Estado interferem muitas vezes nas relações familiares e afetivas.

O Garoto fala de vários temas importantes – de uma forma não menos que magnífica.

Jovem Chaplin, jovem cinema – e maestria

Como nas dezenas e dezenas de curta-metragens anteriores, produzidos a partir de 1914, Chaplin fez tudo em O Garoto. A história é dele, o roteiro é dele, ele atuou, dirigiu e produziu. Depois ainda comporia a trilha sonora para que fosse executada por orquestras ou conjuntos nos principais cinemas em que o filme foi exibido.

(Mais tarde, com advento do som, a trilha foi acrescentada ao filme. Nos créditos iniciais aparecem os nomes de Eric James como associado musical e de Eric Rogers como orquestrador e regente. É uma bela trilha. Chaplin era um grande compositor.)

É impressionante como ele, jovem e numa arte jovem, já dominava a técnica de escrever o roteiro, de apresentar os fatos da sua história com inteligência, rapidez e absoluta clareza.

Uma mulher sai de um “hospital de caridade”, carregando seu bebê. O letreiro informa: “Uma mãe – cujo pecado era a maternidade”. É o papel de Edna Purviance (1895-1958), que já havia trabalhado em vários curta-metragens de Chaplin.

A mulher não tem para onde ir. Tomadas dela em um parque, onde senta-se em um banco.

Tomadas de um homem, o pai da criança. É um jovem pintor, seguramente pobre também. Tem uma foto da mulher, que cai na lareira; o homem até que pega a foto, mas acaba decidindo devolvê-la às chamas.

A mulher passa por um bairro rico. Diante de uma grande mansão, há um carro estacionado. Ela hesita, pensa – e deixa a criança no banco traseiro.

O acaso intervém. Depois que a mulher vai embora, dois ladrões se aproximam – e roubam o carro! Mais tarde, quando o choro do bebê os faz olhar para o banco de trás, eles abandonam o pacotinho numa ruela miserável.

O acaso intervém de novo: o Vagabundo que passava pela viela vê o pacotinho de roupas que embrulha o bebê. Ele bem que tenta passar aquilo pra frente, colocando-o num carrinho de bebê empurrado por uma babá. Não consegue se livrar do bebê – e o leva para o pobre quarto de pensão em que vive.

Chaplin mostra tudo isso em menos de 10 minutos. Seguem-se sequências em que o Vagabundo vai se adaptando ao novo papel de pai solteiro do bebê, e há então um corte no tempo. Passam-se cinco anos. O Garoto agora está na pele de Jackie Coogan, um menininho absolutamente lindo e fofo, mas absolutamente lindo e fofo, quase tanto como eram, aos cinco anos de idade, minha filha e minha neta, e os filhos e netos dos espectadores todos.

Chaplin vivia um “agudo turbilhão emocional”

Ao longo dos cinco anos que transcorrem quando o filme está chegando a 12 minutos, o pobre Vagabundo continua pobre e Vagabundo, mas a Mãe fica famosa e rica como cantora. Veremos que ela nunca conseguiu se recuperar da perda de seu filho – e o acaso vai intervir de novo e fazer com que ela se encontre com o Garoto, numa tarde em que vai ao bairro pobre fazer caridade, distribuir moedinhas para as mães e brinquedinhos para os filhos. Naturalmente, ela não faz a mínima idéia de que aquele seja seu filho.

Também naturalmente, mais tarde o acaso vai intervir ainda uma vez. Não existia a menor possibilidade de haver um unhappy ending em 1921.

Achei absolutamente fascinante saber que Chaplin chegou a filmar uma sequência em que, por absoluto acaso, por obra do destino, a mulher e o homem, a mãe e o pai do garoto, se reencontram. Ambos já eram ricos e famosos, então – ela, cantora de sucesso, ele, pintor de sucesso. Vêem-se pela primeira vez em anos em uma festa da alta sociedade. Conversam durante um tempo. O homem se mostra arrependido por tê-la abandonado.

Chaplin não colocou essa sequência na montagem final do filme que foi para os cinemas em 1921 e está aí entre nós. A sequência aparece em um dos múltiplos bônus do DVD do filme lançado originalmente pela distribuidora francesa MK2, e no Brasil pela Warner Bros., numa coleção de três caixas com 20 DVDs.

Outro dos brindes especiais da Coleção Chaplin é uma “introdução” a O Garoto escrita e narrada por David Robinson, o estudioso dedicado que escreveu Chaplin – Uma Biografia Definitiva, lançada originalmente em 2001 e, no Brasil, em 2011, pela editora Novo Século, um cartapácio de 790 páginas.

Este site aqui é algo muito pessoal – aqui estão minhas opiniões pessoais e intransferíveis sobre os filmes. Mas sempre procuro registrar informações objetivas sobre as obras. E não haveria melhor contribuição que eu pudesse dar aos eventuais leitores que chegarem até aqui para ler sobre O Garoto do que transcrever o que o lendário biógrafo de Chaplin considera que são as informações mais fundamentais para uma introdução à obra. Mas aproveito para, aqui e ali, enfiar um comentário meu.

Lá vai:

“Muitos dos admiradores de Chaplin vêem The Kid como seu filme mais perfeito e mais pessoal. Ainda assim, ele parece ter sido criado em um estado de agudo turbilhão emocional em sua vida privada. Em outubro de 1918, Chaplin havia se comprometido em um casamento apressado com uma atriz de 17 anos, Mildred Harris”.

Aqui acrescento que ele se casou com Mildred forçado, mediante ameaça do pai dela com um revólver apontado para o nariz do inglês que havia comido a moça.

“O casal tinha pouco em comum, e o tédio e a frustração de Chaplin resultaram num severo bloqueio criativo. (…) Mildred ficou grávida e deu à luz um garoto com má-formação, que morreu após apenas três dias. Chaplin evidentemente sofreu com a perda. Mas as respostas das mentes criativas são imprevisíveis. Apenas dez dias depois que seu próprio filho havia sido enterrado, Chaplin estava vendo bebês em seu estúdio. O bloqueio criativo tinha sido superado. Ele estava absorto e excitado com um novo projeto para uma história em que o Pequeno Vagabundo viraria o pai de criação de uma criança abandonada. O filme iria se chamar The Waif.”

The Waif – criança abandonada. Não conhecia a expressão – ou, se conhecia, tinha esquecido, o que dá no mesmo.

O destino coloca Jackie Coogan diante de Chaplin

“Por acaso, ele visitou um cabaré em que um bailarino virtuoso estava se apresentando. Ao final de sua apresentação, o dançarino apareceu com seu filho de quatro anos – um belo, cintilante garoto chamado Jackie Coogan. Chaplin havia encontrado sua co-estrela.”

Ao preparar a ficha técnica do filme, que vai ao final desta anotação, reparei que Jack Coogan Sr., o pai do garotinho, trabalha também no filme – em três pequenos papéis. Ele faz um gatuno, um convidado numa festa e o Diabo, numa sequência onírica em que surgem também dezenas de anjinhos; volto a falar dessa sequência mais tarde.

“Jackie era um imitador por natureza, e podia perfeitamente imitar qualquer ação ou expressão que Chaplin mostrasse para ele. Isso fazia dele o colaborador perfeito. Chaplin era o único e supremo criador de seus filmes. Todos os seus colegas concordavam em que, se ele pudesse, teria interpretado ele mesmo cada um dos personagens de cada filme. Ele procurava por atores e atrizes que pudessem e quisessem copiar com precisão fielmente e sem questionamento o que ele lhes mostrava. Encontrou em Jackie Coogan seu ator ideal. Sua inspiração parecia nunca diminuir durante as filmagens, que duraram por nove meses.”

Nove meses para fazer um filme! Isso era um período longo demais, algo absolutamente inimaginável naqueles anos 1910. Só para se ter uma idéia, em 1914, o ano em que estreou em Hollywood, Chaplin fez nada menos que 35 curta-metragens – como ator, roteirista ou diretor, na maior parte deles exercendo os três cargos.

“A única interrupção das filmagens foi quando Chaplin tirou algumas poucas semanas para fazer uma alegre e nada complicada comédia, A Day’s Pleasure, para acalmar seus distribuidores, desesperados com a demora na entrega de novos filmes. Chaplin nunca pareceu tão afundado na sua característica busca pela perfeição quando ao fazer The Kid. Ele pacientemente filmava cada cena de novo e de novo, até ficar completamente satisfeito. No final ele havia filmado mais de 50 vezes o tamanho do que a obra teria na montagem final. Essa média – foi precisamente 53 por 1 – foi a mais alta de todos os filmes que ele fez.”

A Day’s Pleasure, um curta de 18 minutos, no Brasil teve o título de Um Dia Bem Passado, e contava a história de uma família que sai para passear e enfrenta todo tipo de problema. O pai de família foi interpretado por ele mesmo e a mãe, pela mesma Edna Purviance com quem ele vinha filmando constantemente.

The Kid é talvez o mais potente casamento de comédia e emoção criado por Chaplin. A história conta como uma mãe não casada abandona um bebê, que é encontrado e sem querer adotado pelo Vagabundo. Quando a criança está aí com cinco ou seis anos, eles foram uma parceria lucrativa: o garoto sai quebrando os vidros de janelas (com pedras), e aí seu amigo aparece, ganhando dinheiro honestamente colocando vidros novos. O Vagabundo se opõe ferozmente aos esforços de assistentes sociais que levam o garoto para ser criado pelo Estado. (…)

“O elemento emocional do filme chega ao máximo nas cenas em que os assistentes sociais tentam levar o garoto para um orfanato. A angústia e a ferocidade da luta do Vagabundo para ficar com a criança é sem dúvida alguma inspirado pelas memórias da própria infância de Chaplin, quando foi tirado de sua mãe aos sete anos de idade e colocado num lar para crianças destituídas.”

A interpretação do garotinho Jackie Coogan quando os funcionários tentam separá-lo do pai é absolutamente impressionante. Absolutamente impressionante.

“Um auge de fama e afeição mundiais como nunca houve outro”

“Quando as filmagens acabaram, Mildred, agora irremediavelmente afastada do marido, entrou com um pedido de divórcio na Justiça. Apavorado com a perspectiva de que os advogados poderiam tentar tirar dele The Kid, Chaplin e seus mais fiéis companheiros fugiram da Califórnia. O filme foi montado secretamente em um hotel em Salt Lake City e num estúdio anônimo em Nova York. Houve mais problemas financeiros com os distribuídores, mas quando The Kid foi finalmente lançado em fevereiro de 1921 foi um sucesso imediato em cada lugar em que foi exibido. Talvez tenha sido o maior triunfo de toda a carreira de Chaplin.

“Jackie Coogan, aos 7 anos de idade, se transformou numa celebridade mundial, com honras de princesas, presidentes e o próprio Papa, quando viajou em uma turnê pela Europa. Desfrutou de uma breve carreira como ator infantil mas, como se disse em Hollywood, ‘a senilidade o atingiu aos 13 anos’. Ele se viu sem um tostão ao atingir o fim da adolescência; sua mãe e seu padrasto tinham acabado com tudo o que ele havia ganho, e o pouco dinheiro que sobrou foi embora em batalhas legais.

“O único resultado positivo dos problemas de Jackie, que foram muito comentados na imprensa, foi que eles levaram à introdução de uma lei para dar proteção financeira a jovens artistas, que até hoje é conhecida como ‘a Lei Coogan’. Bem mais tarde, Jackie, antes o menino mais belo do mundo, conquistou uma fama bem diferente como o mais desagradável dos adultos, o Tio Fester na série de TV The Addams Family.”

“Mas tudo isso ainda estava muito distante quando, em 1921, The Kid deu a Chaplin a única co-estrela real da sua carreira, e levou tanto Chaplin quanto a criança a um auge de fama e afeição mundiais como nunca houve outro.”

O primeiro de tantos astros mirins

Me ocorreu que Jackie Coogan foi o primeiro grande astro mirim do cinema. O primeiro de tantos que vieram depois.

Dei uma checadinha para ver as datas referentes a alguns outros dos que também foram astros mirins no cinema americano. E para comparar quantos anos tinham quando seu filme de estréia foi lançado. Aí vai o resultado:

Nome Idade no ano do primeiro filme
Jackie Coogan (1914-1984) 8 anos, em 1921 (mas 5 anos nas filmagens, em 1919)
Mickey Rooney (1920-2014) 6 anos, em 1926
Judy Garland (1922-1969) 7 anos, em 1929
Shirley Temple (1928-2014) 4 anos, em 1932
Natalie Wood (1938-1981) 5 anos, em 1943
Patty Duke (1946-2016) 12 anos, 1958
Jodie Foster (1962- ) 7 anos, em 1969
Tatum O’Neal (1963- ) 10 anos, em 1973
Drew Barrymore (1975- ) 3 anos, em 1978
Macauley Culkin (1980- ) 5 anos, em 1985
Anna Paquin (1982- ) 11 anos, em 1993
Dakota Fanning (1994- ) 6 anos, em 2000

Que Jodie, Tatum, Drew, Macauley, Anna e Dakota vivam muitas, muitas décadas.

Já que fiz uma tabela (adoro fazer tabelas), e O Garoto, afinal, foi o primeiro longa-metragem de Chaplin, faço uma outra – um quadro com todos os longas do grande artista.

Foi apenas agora, ao ler um tanto sobre O Garoto após rever o filme (e revi logo após ter postado aqui no site minhas anotações sobre Luzes da Ribalta/Limelight), que me dei conta de que Chaplin, afinal de contas, fez bem poucos longa-metragens.

Foram cerca de 70 curta-metragens, a imensa maior parte na década de 1910, uns poucos no início da década de 1920, entre Caught in the Rain, de 1914, e Nice and Friendly, de 1922. Já longa-metragens, foram 16 – mas, a rigor, a rigor, foram 12, já que quatro dos longas foram, na verdade, reuniões de alguns dos curtas.

Então, longa-metragens de fato, foram 12, ao longo de 46 anos, entre este O Garoto de 1921 e A Condessa de Hong Kong, de 1967.

O cinema aprendeu a falar a partir de 1927, mas Chaplin só botou vozes nos seus filmes a partir de O Grande Ditador, de 1940. Assim, temos que ele realizou apenas cinco longa-metragens falados.

Eis aí o quadro:

Ano Título  Elenco (ou nota)
 1 – 1921 O Garoto C.C,, Jackie Coogan, Edna Purviance
 2 – 1923 Casamento ou Luxo Edna Purviance, Clarence Geldert, Carl Miller, Adolphe Menjou
 3 – 1923 Pastor de Almas (não creditado) C.C., Edna Purviance, Syd Chaplin
 4 – 1925 Em Busca do Ouro C.C., Mack Swain, Tom Murray, Henry Bergman, Georgia Hale
 5 – 1928 O Circo C.C., Al Ernest Garcia, Merna Kennedy, Harry Crocker, Henry Bergman
 6 – 1931 Luzes da Cidade C.C., Virginia Cherrill, Florence Lee, Harry Myers, Al Ernest Garcia, Hank Mann
 7 – 1936 Tempos Modernos C.C., Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin, Hank Mann
 8 – 1938 Charlie Chaplin Carnival Reunião de quatro curtas de 1916
 9 – 1940 O Grande Ditador C.C., Jack Oakie, Reginald Gardiner, Henry Daniell, Billy Gilbert, Paulette Goddard
10 – 1941 The Chaplin Cavalcade Reunião de quatro curtas de 1916
11 – 1941 The Charlie Chaplin Festival Reunião de quatro curtas de 1917
12 – 1947 Monsieur Verdoux C.C., Mady Correll, Allison Roddan, Robert Lewis, Audrey Betz, Martha Raye
13 – 1952 Luzes da Ribalta C.C., Claire Bloom, Nigel Bruce, Buster Keaton, Sydney Chaplin
14 – 1957 Um Rei em Nova York C.C., Maxine Audley, Jerry Desmonde, Oliver Johnston, Dawn Addams
15 – 1959 The Chaplin Revue Reunião de três curtas
16 – 1967 A Condessa de Hong Kong Marlon Brando, Sophia Loren, Sydney Chaplin, Tippi Hedren, Patrick Cargill

 

Muitas mulheres na vida do cara

Seria bem mais complexo fazer uma tabela com as mulheres da vida de Charles Spencer Chaplin.

Quando as filmagens de O Garoto começaram, em 1918, ele estava, como já foi dito, casado com a garotinha Mildred Harris, cujo pai botou uma arma no nariz dele e mandou que ele se casasse com a moça que havia comido. Também como já foi dito, o filme ainda não havia sido lançado quando começou nos tribunais a batalha pelo divórcio – os advogados dela querendo, claro, abocanhar boa parte do dinheiro dele.

Quando a narrativa de O Garoto vai se aproximando do fim, há uma sequência em que o Vagabundo se deita diante da porta do lugar em que mora, adormece, e sonha com o País dos Sonhos, algo próximo do Paraíso.

É uma sequência maravilhosa, esplendorosa, dessas de babar. O País dos Sonhos, quase o Paraíso, tem o mesmo formato do beco bem pobre em que o Vagabundo mora, e que o espectador já havia visto várias vezes. Só que agora está tudo enfeitado e bonito como se fosse uma decoração de Natal, e só há anjos ali – até os policiais, que antes tanto infernizavam a vida do Vagabundo, são anjos!

Na versão que vemos agora, com a trilha sonora criada por Chaplin incorporada ao filme, ouvimos uma música extremamente alegria, festiva.

O garoto sai de dentro da casa, e acorda o Vagabundo – que se enche de felicidade por encontrar, ainda que no sonho, o filho que naquele momento havia desaparecido. Abraçam-se. O Vagabundo percebe que o Garoto tem asas de anjo, olha em frente, vê todos aqueles anjos aí diante dele, dançando felizes. Os anjos dançam e cantam no que na realidade é um beco de bairro pobre quase miserável.

O Vagabundo também ganha asas de Anjo.

Mesmo na Terra dos Sonhos do Vagabundo, no entanto, há a tentação, o pecado – e eis que uma anjinha mulher (quem é mesmo que fica discutindo se os anjos têm sexo?) chega para tentar e seduzir o Vagabundo anjo.

A anjinha sedutora é interpretada por uma mocinha chamada Lita Grey (na foto  abaixo). Em novembro de 1924, antes que se completassem três anos do lançamento do filme, Chaplin e Lita Grey se casaram. O casamento não chegou a durar três anos – em agosto de 1927 saiu o divórcio. Mas dele saíram os dois primeiros filhos do artista, Sydney Chaplin e Charles Chaplin Jr. – se não contarmos o bebê que viveu apenas três dias, do casamento com Mildred Harris.

Muito mais importante na vida de Chaplin que Mildred Harris e Lita Grey, no entanto, parece ter sido Edna Purviance, que interpreta a Mãe. E aqui uso uns três parágrafos que escrevi sobre Luzes da Ribalta, de 1952:

Edna Purviance (1895-1958) era uma estenógrafa em San Francisco quando o jovem Charles Chaplin a chamou para participar de seu filme His Night Out, de 1915. A partir daí, ela foi a atriz principal de cerca de 20 filmes feitos por Chaplin para diversas empresas, Essaney, Mutual, First National – inclusive os clássicos The Tramp (1915), O Imigrante (1917), Rua da Paz (1917) e O Garoto (1921).

Chaplin tentou transformar Edna Purviance numa estrela com Casamento ou Luxo/ A Woman of Paris: A Drama of Fate, um longa de 1923 que foi, creio, o primeiro drama que ele filmou na vida. O filme foi um absoluto fracasso comercial, e a carreira de Edna Purviance não decolou. Ela continuou recebendo salário de Chaplin até morrer. Suas últimas aparições no cinema foram como figurante em Monsieur Verdoux e em Luzes da Ribalta.

Claro: houve sexo no meio dessa história. A relação de Chaplin e Edna extrapolava os papéis de diretor-atriz, e incluía a cama. Mas aí aconteceu que ele foi forçado a se casar, em 1918, com a garotinha Mildred Harris. Edna continuou a aparecer nos filmes de Chaplin, mas a possibilidade de uma união entre os dois desapareceu.

Só para concluir a coisa das mulheres: depois de Lita Grey houve, entre as mulheres de papel passado, a maravilhosa atriz Paulette Goddard – uma mulher que, bem ao contrário das esposas anteriores, tinha luz própria. Opa, e quanta luz! Tinha tanta luz que não quis ter filho com o cara que casava demais e tinha casinhos demais. O casamento durou de 1936 até 1942, e os dois fizeram juntos dois filmes, Tempos Modernos (1936) e O Grande Ditador (1940).

A quarta esposa de papel passado viria a ser a linda Oona O’Neil, filha do grande dramaturgo Eugene O’Neil. Casaram-se em 1943, tiveram oito filhos, e ficaram juntos até o fim da vida dele, em 1997.

“O filme mostra todos os defeitos de Chaplin”

Leonard Maltin deu 3.5 estrelas em quatro a The Kid: “O primeiro longa-metragem de Chaplin mistura pastelão e sentimento em uma combinação vencedora, com o Vagabundo criando um órfão. Maravilhoso filme lançou Coogan como uma grande estrela mirim, e é fácil ver por quê.”

Pauline Kael diz: “O mais encantadoramente vitoriano dos filmes de Chaplin, e talvez pelo modo como seu sentimentalismo (muitas vezes desajeitado, e mesmo lacrimoso, mais tarde) se encaixa no tema, esta obra parece admiravelmente inocente, e pura. (…) A história trata do amor desses dois abandonados de rua e da luta de Carlitos para manter a criança fora da mão das autoridades. Uma menininha chamada Lita Grey (conhecida como Lolita), que mais tarde seria esposa de Chaplin, aparece numa sequência de sonho passada no céu.”

Sentimentalismo. Lacrimoso.

Falei, na abertura deste texto, que Chaplin sempre foi acusado, por boa parte da crítica, de excessivo sentimentalismo. Um exemplo perfeito disso é o que diz sobre Le Gosse, como o filme se chamou na França, o Guide des Films do mestre Jean Tulard. “Muito elogiado, este filme nos mostra no entanto todos os defeitos de Chaplin: seu mau gosto (a superposição de Cristo carregando a cruz com a mãe-solteira carregando seu bebê) e sua tendência ao lacrimoso. Foi seu primeiro longa-metragem, e ele não vale nem Luzes da Cidades nem Tempos Modernos.”

Bem que ele mesmo avisou: “Um filme com um sorriso e talvez uma lágrima”.

Sentimental, lacrimoso. E daí? Uma beleza de filme, uma obra-prima.

Anotação em novembro de 2021

O Garoto/The Kid

De Charles Chaplin, EUA, 1921

Com Charles Chaplin (o Vagabundo),

Edna Purviance (a Mãe),

Jackie Coogan (o Garoto),

e Baby Hathaway (o Garoto bebê), Carl Miller (o pai), Granville Redmond (o amigo do pai), May White (a mulher do policial), Tom Wilson    (policial), Henry Bergman (o homem do asilo noturno), Charles Riesner (Bully, o fortão), Raymond Lee (o irmãozinhol do fortão), Lita Grey (o anjo que flerta com o Vagabundo), Edith Wilson (a mulher com o carrinho de bebê), Nellie Bly Baker (enfermeira), Albert Austin (homem no abrigo), Jack Coogan Sr. (gatuno/convidado/diabo), Edgar Sherrod (padre), Beulah Bains (noiva), Robert Dunbar (noivo), Walter Lynch (policial), Jules Hanft (médico), Silas Wilcox (policial), Frank Campeau (oficial do condado), Blinn (seu assistente), John McKinnon (chefe de Polícia)

Argumento e roteiro Charles Chaplin

Fotografia Roland H. Totheroh

Música Charles Chaplin

Produção Charles Chaplin. DVD MK2, Warner Bros.

P&B, 60 min

R, ****

 

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.