Luzes da Ribalta / Limelight

Nota: ★★★½

A ação do último filme que Charles Chaplin realizou nos Estados Unidos, Luzes da Ribalta/Limelight, de 1952, se passa na sua cidade natal, Londres, em 1914 – quase exatamente a época em que ele, bem jovem, começava sua carreira como comediante de vaudeville.

Foi em 1907 que ele, aos 18 anos, se juntou à trupe de vaudeville de Fred Karno – que, em 1910, partiu para uma turnê nos Estados Unidos. Em dezembro daquele ano, o grupo se apresentou em Los Angeles – e o rapaz deixou o teatro para sempre, convidado para trabalhar como contratado dos Keystone Studios, do comediante e diretor Mack Sennett. Radicou-se em Hollywood e lá passou as quatro décadas seguintes – período em que se tornou um dos artistas mais famosos e mais amados do planeta.

Quando realizou Limelight, seu primeiro filme depois de Monsieur Verdoux, de 1947, colocou-se na Londres de 1914 exatamente no papel de um velho comediante de vaudeville.

Calvero, seu personagem, havia tido uma carreira gloriosa nos teatros londrinhos. Tinha sido grande, um dos maiores, talvez o maior dos palhaços dos palcos da capital do império. Mas o Calvero glorioso havia ficado para trás. O público o abandonara – um tanto como o público havia virado a cara para Chaplin quando ele deixou Carlitos de lado para interpretar Henri Verdoux, um assassino de mulheres.

Os cartazes de Monsieur Verdoux – o segundo drama de sua carreira, um grande fracasso de bilheteria – diziam: “Chaplin changes! Can you?” Chaplin muda – você pode mudar também?

As multidões que davam gargalhadas desde seus primeiros filmetes mudos de menos de 10 minutos de duração não haviam se mostrado dispostos a vê-lo fazendo um drama.

O drama pesado Luzes da Ribalta ainda não chegou aos 20 de seus longos 137 minutos quando o idoso e quase esquecido Calvero sonha que está apresentando – em um belo, luxuoso teatro, acompanhado por grande orquestra – um número novo no qual vinha trabalhando, o das pulgas amestradas.

(Na verdade, Chaplin havia tido a idéia do número das pulgas amestradas ainda em 1919! É absolutamente impossível falar de Limelight sem misturar com a vida real de seu criador.)

O número das pulgas é longo – e fantástico, engraçado, delicioso. Ao final, o público aplaude. Calvero, que havia saído para as coxias, volta ao centro do palco para receber os aplausos. A câmara se fixa nele, em plano americano. As palmas vão desaparecendo, e a expressão do rosto maquiadíssimo do velho palhaço vai se tornando surpresa, apavorada, magoada, triste. A câmara faz um zoom, aproxima-se mais do rosto, a tomada se transforma em um close-up. Corta, e vemos o que Calvero está vendo: um teatro fuleiro de cadeiras absolutamente vazias.

É apenas um dos momentos belíssimos, emocionantes, de grande cinema de Luzes da Ribalta.

Chaplin foi a Londres – e não pôde mais voltar aos EUA!

É impossível falar do filme sem falar da vida real do artista que bolou a história, escreveu o roteiro, escreveu a música, supervisionou a coreografia, atuou e dirigiu tudo.

Limelight teve estréia modesta nos Estados Unidos, em poucos cinemas, em outubro de 1952 – em Nova York, foram apenas duas salas, Astor e Trans Lux Theater; em Los Angeles, nem chegou a ser lançado naquela época. Eram os tempos da paranóia anticomunista, do macarthismo, do Comitê de Atividades Anti-Americanas da House of Representatives, a Câmara dos Deputados deles. Enxergavam-se comunistas em literalmente todos os lugares, até embaixo das camas da Casa Branca, e Chaplin era tido, por esses grupos ultraconservadores e da direita babenta, como um cripto-comunista, mais comunista que o próprio Lênin.

Em Londres, no entanto, preparava-se uma avant-première de gala para o dia 16 de outubro, com a presença da jovem princesa Margaret representando sua irmã Elizabeth II. E então Chaplin viajou para sua cidade natal, com a linda e jovem esposa (a quarta de papel passado), Oona, então com 27 aninhos, e todos os quatro primeiros filhos do casamento (seriam oito no total).

Era apenas a segunda vez, em 42 anos, que Chaplin voltava a seu país natal. A recepção foi extremamente calorosa, com milhares de fãs nas ruas para vê-lo, e foi uma belíssima festa a avant-première prestigiadíssima.

Chaplin não havia se naturalizado americano – continuava um cidadão britânico. E, diante da pressão da paranóia anticomunista, as autoridades americanas não deram visto para que ele pudesse reentrar nos Estados Unidos.

Impedido de voltar, depois dessa passagem por Londres Chaplin e sua família se radicaram na Suíça, onde morreram tanto ele (em 1977, aos 88 anos) quanto Oona (em 1991, aos 66).

O artista que foi um dos maiores nomes do cinema americano de todos os tempos só voltaria a Hollywood uma vez, para receber um Oscar honorário em 1972, “pelo incalculável efeito que teve em transformar o cinema na forma de arte deste século”.

Além desse Oscar honorário, ele recebeu apenas um outro, em toda a esplendorosa carreira. Foi uma estatueta dividida com os músicos Ray Rasch e Larry Russell, pela trilha sonora original de Limelight. É tudo tão absurdo, tão ridículo na forma com que Charles Chaplin foi tratado pelos Estados Unidos a partir daquele início dos anos 50 que esse Oscar pela trilha sonora foi dado em 1972. É que, pelas regras da Academia vigentes à época, só poderiam concorrer filmes exibidos na região de Los Angeles – e Limelight só foi exibido ali 20 anos após a estréia mundo afora.

Seria até uma boa piada se não fosse tão grotesco.

Um palhaço decadente e uma bailarina desiludida

A história que Chaplin criou para contar em Limelight é o encontro do velho palhaço Calvero, que já havia tido dias de glória no teatro de variedades e agora estava afundado no ostracismo e na bebida, com uma jovem bailarina que achava ter perdido a capacidade de mover as pernas e por isso decidira pôr fim à vida.

Um velho palhaço que já não faz mais sucesso salva a vida da jovem bailarina sem qualquer esperança – e vai injetando nela de volta a vontade de viver.

Até que ela enfim reencontra as forças, a vontade, mostra que tem talento e começa a brilhar, a brilhar, a brilhar…

A sequência de abertura é uma maravilha. Chaplin consegue criar um daqueles momentos que misturam graça e dor, riso e tristeza. Seu personagem chega à porta da casa-pensão em que mora, inteiramente bêbado, daquele tipo baloiçante, que parece um joão-bobo, vai pra cá, vai pra lá, e só não cai porque Deus tem amor especial por crianças e bêbados. Tenta abrir a porta, mas a chave não consegue encontrar o buraco da fechadura.

Na calçada, três ou quatro degraus abaixo, um grupo de crianças assiste à cena, e avisa ao bêbado que a sra. Alsop não está na casa, saiu.

O bêbado se volta para as crianças e sorri aquele sorriso de velho bêbado.

Até que finalmente consegue encontrar o buraco da fechadura e entrar no hall da casa em que a sra. Alsop aluga quartos. No hall, tira de um dos bolsos um charuto – mas aí percebe que há um cheiro.

A câmara já havia nos mostrado o interior de um dos quartos do térreo, em que uma jovem está deitada, todas as janelas estão fechadas, há pano tapando o vão entre a porta e o chão, e o gás está ligado.

Cai a ficha na cabeça do bêbado, e ele arromba a porta.

Daí a alguns minutos, na vida daqueles dois e também do filme, a jovem Terry, deitada na cama do quarto de Calvero, já atendida por um médico, pergunta por que ele não a deixou morrer.

Claire Bloom tinha talento. Aí veio um golpe de sorte

Claire Bloom tinha 20 aninhos quando alguém a indicou para Chaplin. Ciente da fama dele de namorador, mulherengo, a moça foi se encontrar com um dos artistas mais consagrados do planeta com a mãe ao lado, conforme ela mesma contou em um dos documentários que acompanha o filme no DVD da MK2 lançado no Brasil pela Warner Bros. Bastou aquela primeira conversa com Chaplin para que ela perdesse todo o receio que poderia ter dele.

Nascera, como Chaplin, em Londres, e, como ele, emigrara para os Estados Unidos. Depois de estudar arte dramática desde bem cedo, ainda na Inglaterra, estreou como atriz em rádio na BBC e rapidamente passou para o teatro e para o cinema. Já havia feito dois filmes quando Chaplin a escolheu para interpretar Terry, a dançarina que acreditava não poder mais dançar.

Em 2019, Claire Bloom participou de uma minissérie da televisão britânica, Summer of Rockets; era o título número 124 de sua filmografia. A atriz não parou nunca de atuar.

Em 2002, quando Limelight fazia meio século, a Cinemateca de Bolonha (que, aparentemente, tem a curadoria da obra de Chaplin, ou pelo menos de parte de seu acervo) promoveu uma fantástica festa para exibir uma versão restaurada do filme, fresquinha como se acabasse de ser lançada, em uma gigantesca tela instalada na praça central da cidade. O documentário Chaplin Today – Limelight, de Edgardo Cozarinsky, que tem entrevistas com Bernardo Bertolucci, um absoluto fã do filme, e com Claire Bloom, mostra tomadas feitas na praça de Bolonha naquela noite. A própria atriz, gloriosamente bela, aos 71 anos, fez um rápido e emocionado discurso para a multidão que enchia a praça, logo antes do início da projeção do filme.

 “Que triste profissão a de ser engraçado”

Um artista que já teve fama, sucesso, e está agora caindo no esquecimento, decadente, enquanto outra artista está em ascensão, em ascensão… Hum… Há aí, sem dúvida, um pouco de Nasce uma Estrela.

É bom lembrar que o primeiro Nasce uma Estrela/A Star is Born é de 1937 – a versão com Janet Gaynor e Fredric March. A segunda versão viria em dois anos depois de Luzes da Ribalta, em 1954 – aquela com Judy Garland e James Mason. Antes desta quarta mais recente, de 2018, com Lady Gaga e Bradley Cooper, ainda houve a de 1976, com Barbra Streisand e Kris Kristofferson.

Comentei isso com Mary, ao rever o filme agora, em 2021, 69 anos depois de seu lançamento: há um pouco de Nasce uma Estrela aí. Ela discordou de mim; acha que há pouca semelhança. Em Nasce uma Estrela, ele ainda é um artista famoso quando a relação começa. Aí a carreira dele vai entrando em decadência enquanto a dela não pára de ascender. Aqui, a carreira de Calvero já estava no fundo no poço quando ele conhece Terry. E, graças a ela, graças à crescente fama dela, ele tem uma oportunidade de voltar a brilhar.

Bernardo Bertolucci faz várias comparações entre Calvero e o próprio Chaplin, nos depoimentos que dá no documentário de curta-metragem Chaplin Today – Limelight. É óbvio que Calvero tem muito, muitíssimo a ver com seu criador – mas acho que o grande realizador italiano exagera um pouco na comparação entre criador e criatura, especialmente quando fala das cenas finais do drama. Além disso, Bertolucci afirma, peremptoriamente, com toda a certeza do mundo, que o sentimento de Terry por Calvero, da garota de 20 anos pelo velho de 60, não é amor. É pena, dó, compaixão, gratidão – mas não é amor.

É evidente que cada pessoa – leitor, espectador, ouvinte – tem todo o direito de enxergar na obra de arte o que ele bem entender. |A obra é aberta à visão de cada pessoa que desfruta dela. A rigor – dizia um teórico cujo nome se perdeu na poeira da minha memória –, cada obra é criada duas vezes, uma pelo artista, e outra pelo seu leitor, espectador, ouvinte.

Tudo bem então que Bernardo Bertolucci entenda assim – mas eu vejo uma Terry totalmente diferente da que ele vê. Para mim, Terry é uma moça de fato apaixonada pelo velho que salvou sua vida e, mais que isso, devolveu a ela a razão de viver, o direito à esperança.

Até porque ela tem todas as oportunidades para deixar de amar o velho decadente, o que já havia sido grande e agora era um, como se diz numa das mais cruéis expressões que já ouvi na vida… um has-been. Um que já foi, um acabado.

Ela se vê diante do rapagão bonito que havia admirado loucamente quando ainda mais jovem – o compositor Neville, no passado um pobretão, na época da ação um homem de sucesso. Ela se vê diante dele com todo o direito do mundo para se lançar a ele – mas não quer. Rejeita a possibilidade de um amor com o jovem bonito, carreira em ascensão, a glória pela frente – por amor ao velho palhaço que injetou nela o vírus do amor à vida.

E que frase linda aquela que Terry diz a Calvero, muito antes de declarar seu amor a ele: – “Que triste profissão a de ser engraçado”.

Meu, que frase!

Estão no filme quatro filhos, a mulher e uma ex-amante

O rapaz bonitão que faz Neville, o compositor por quem a adolescente Terry suspirava, e que a Terry estrela ascendente rejeita por amor ao velho palhaço, é interpretado por Sydney Chaplin (1926-2009), filho de Chaplin com Lita Grey, sua segunda mulher.

Ele teve 11 filhos com suas esposas de papel passado: um com a primeira mulher, Mildred Harris, dois com Lita Grey, e oito, como já foi dito, com a quarta esposa, Oona. Com Paulette Goddard, a terceira, que dirigiu nos clássicos Tempos Modernos (1936) e O Grande Ditador (1941) ele não teve filhos.

Os três filhos mais velhos dos oito com Oona aparecem naquela cena na abertura do filme, na calçada, dizendo para o Calvero bêbado que a dona da casa-pensão havia saído. Aquela sequência é a prova de que Tonya Gromeko, a esposa do médico Yuri Jivago, não foi o primeiro papel de Geraldine Chaplin no cinema. Geraldine, a primeira filha de Oona, aliás extraordinariamente parecida com a mãe (um pouco menos bela que a mãe, segundo o julgamento um tanto rígido da Mary), aparece fofíssima, aos sete aninhos de idade, naquelas rápidas tomadas de abertura de Limelight. Olha ela aí com os dois irmãos mais novos.

A própria Oona aparece como extra – não consegui verificar em que momento.

Chaplin era um danado de um nepotista.

(Claro que esta frase é uma brincadeira, mas é bom não deixar dúvidas: o termo nepotismo só se aplica à nomeação de parentes para o serviço público, para parentes de funcionários públicos que ganham dinheiro público apenas pelo parentesco… Um realizador pode colocar em seus filmes quantos parentes quiser; o dinheiro é dos produtores, e o artista não deve nada a ninguém…)

Em um papel bem pequeno, minúsculo, de uma tal Mrs. Parker em cuja existência eu sequer reparei, Chaplin colocou Edna Purviance – o que é uma demonstração de que tudo que ele fazia era absolutamente pessoal, e tinha a ver com sentimentos.

Edna Purviance (1895-1958) era uma estenógrafa em San Francisco quando o jovem Charles Chaplin a chamou para participar de seu filme His Night Out, de 1915. A partir daí, ela foi a atriz principal de cerca de 20 filmes feitos por Chaplin para diversas empresas, Essaney, Mutual, First National – inclusive os clássicos The Tramp (1915), O Imigrante (1917), Rua da Paz (1917), O Garoto (1921).

Chaplin tentou transformar Edna Purviance numa estrela com Casamento de Luxo/ A Woman of Paris: A Drama of Fate, um longa de 1923 que foi, creio, o primeiro drama que ele filmou na vida. O filme foi um absoluto fracasso comercial, e a carreira de Edna Purviance não decolou. Ela continuou recebendo salário de Chaplin até morrer. Suas últimas aparições no cinema foram como figurante em Monsieur Verdoux e neste Luzes da Ribalta.

Claro: houve sexo no meio dessa história. A relação de Chaplin e Edna extrapolava os papéis de diretor-atriz, e incluía a cama. Mas aí aconteceu que ele foi forçado – literalmente forçado, com a apresentação diante do nariz dele de arma de fogo e tudo o mais – a se casar, em 1918, com a garotinha Mildred Harris, que ele havia comido. Edna continuou a aparecer nos filmes de Chaplin, mas a possibilidade de uma união entre os dois desapareceu.

Chaplin chamou o então esquecido Buster Keaton

Um filho adulto como ator, três filhos como figurantes, a esposa como uma extra, uma ex-amante como figurante. Mas o que é mais fascinante, entre todas as presenças em Limelight de pessoas importantes na vida de Chaplin, é a de Buster Keaton (nas fotos acima e abaixo).

Nunca foram amigos, ao que consta. Muito ao contrário: eram rivais. Foram, durante os anos no cinema mudo, os dois realizadores de comédias tidos como os mais criativos, os mais geniais de Hollywood. Rivais, quase oponentes. Não como Lula e Bolsonaro, porque aí é baixaria, e Charles Chaplin e Buster Keaton não têm nada a ver com baixaria. Mas algo como a rivalidade que os fãs criaram entre Chico e Caetano, ou entre John e Paul.

Dele diz Rubens Ewald Filho em seu Dicionário de Cineastas: “Durante a Idade de Ouro da comédia americana, havia três grandes: Charles Chaplin, Harold Lloyd e Buster Keaton. Deles o que melhor resistiu ao tempo foi Keaton. Nada melodramático e sentimental como Chaplin, menos norte-americano do que Lloyd (o que não lhes tira a genialidade), Keaton era o mais inventivo, mais atlético (seu corpo trazia as marcas das proezas e quedas todas feitas por ele mesmo), simplesmente mais engraçado.”

Assim como o personagem Calvero, e diferentemente de Chaplin, que teve apenas dois fracassos de bilheteria na vida (os já citados Casamento de Luxo, de 1923, e Monsieur Verdoux, de 1947), Buster Keaton teve um longo período de decadência e ostracismo, depois de ter assinado em 1928 um contrato a Metro que tirou dele o controle sobre a parte criativa de seus filmes. Como sintetizou um item da página de Trivia do IMDb sobre Limelight, “o estúdio não permitia que ele improvisasse em nenhum de seus filmes, nem que ele escrevesse ou dirigisse, e ele eventualmente foi reduzido à tarefa de escrever piadas – em geral não creditadas – para os filmes de outros comediantes”,

Em 1952, o genial artista estava, como diz o IMDb, flat broke. Totalmente quebrado, falido. Foi quando Chaplin o convidou para dividir o número cômico que Calvero apresenta no grande show beneficente mostrado quando Luzes da Ribalta se aproxima do final. Na trama, por influência de Terry, cuja carreira estava no auge, o rico produtor e empresário Postant (o papel do grande Nigel Bruce, com seu vozeirão inconfundível) promove, num belíssimo teatro londrino abarrotado, um show em homenagem a Calvero.

E, para o número escolhido pelo velho palhaço para encerrar sua participação, ele convoca um velho amigo – interpretado por Buster Keaton. Calvero faz um violonista, e seu amigo, um pianista.

A sequência é uma absoluta maravilha, impagável, delicioso.

É também um gesto de imensa grandeza de Chaplin.

(Buster Keaton seria, nos anos 60, reabilitado pela crítica. No verbete sobre ele no Dicionário de Cinema – Os Diretores, o grande Jean Tulard conta sobre uma homenagem que Keaton recebeu em 1962 na Cinemateca Francesa: “A ovação que lhe foi feita por um público bastante jovem de cinéfilos foi a maior e mais espontânea já registrada na Cinemateca. E também a mais merecida”.)

“Um mito tira a maquiagem na tela”

Me permito uma rápida viagem no tempo.

Tenho uma lembrança um tanto esfiapada, mas firme, de ter sido levado para ver Luzes da Ribalta pela minha mãe, quando era bem menino. Digo esfiapada porque, remota demais, não é uma lembrança de detalhes; não é um filme que está na minha memória – são mais alguns fotos, esmaecidas, em sépia. Vagamente, associo essa imagem da minha mãe me levando para ver o filme de Charles Chaplin ao então Cine Tupi, na Rua Tupis, no Centro de Belo Horizonte – que mais tarde virou Cine Jacques.

Não poderia ter sido no lançamento do filme – ele deve ter sido exibido no Brasil pela primeira vez ali por 1953, no máximo 1954. Dona Lúcia, mãe da Mary, se lembra de ter visto o filme em Lagoa da Prata, no interior de Minas, nos primeiros anos de casada, e ela se casou em 1954. Se aconteceu mesmo de minha mãe ter me levado ao Cine Tupi para ver o filme, deve ter sido aí entre 1958 ou 1959 e 1961 – entre eu ter aprendido a ler as legendas e começar o meu primeiro caderninho de cinema, em 1962.

No caderno está anotado que vi Luzes da Ribalta duas vezes em novembro de 1963, no Cine Pathé, numa das reestréias do filme então já clássico. O Pathé tinha nos anos 60 uma programação diferenciada – passava costumeiramente reprises de filmes antigos, importantes.

“Chaplin’s ‘Limelight’ buries laughter under tears”, diz o título sobre a obra no belo livro Cinema Year by Year 1894-2000, que traz vcrbetes sobre os principais filmes e fatos da História como se fossem notícias de jornal da época. A “reportagem” com esse título, Limelight de Chaplin enterra o riso sob lágrimas, é datada de Londres, 23 de outubro de 1953. Conta que o filme teve sua première mundial no cinema Odeon, na Leicester Square:

“Este é um filme profundamente pessoal em que Chaplin volta ao music hall eduardiano de sua juventude para nos trazer Calvero, o comediante arruinado que cuida de uma jovem bailarina paralisada até que ela se cura. Pungentes lembranças do passado de Chaplin incluem a presença de sua antiga protagonista Edna Purviance como uma extra e um breve e brilhante número em dupla com seu grande rival do cinema mudo Buster Keaton. A dançarina paralisada Terry é interpretada pela inglesa Claire Bloom, de 21 anos. A première foi acompanhada por uma tempestade política. Duas semanas depois que ele embarcou num transatlântico para a Inglaterra com sua mulher e quatro filhos, o ministro da Justiça dos Estados Unidos, James McGranery, anunciou que Chaplin seria chamado para depor se optasse por voltar aos EUA, já que ele era suspeito de ser um membro do Partido Comunista que tinha uma atitude zombeteira diante da América. As crenças socialistas de Chaplin, escândalos sucessivos e sua recusa de se tornar um cidadão dos EUA deram a seus inimigos o pretexto para excluí-lo do país.”

Eis o que diz o Petit Larousse des Films, um guia de que gosto mais a cada consulta:

“Jamais, até Feux de la Rampe, um mito havia tirado a maquiagem na tela. Chaplin, aqui, através do palhaço Calvero, diz adeus a Charlot.”

Que maravilha de achado do guia da Larousse! Eu havia esquecido de mencionar a extraordinária sequência em que a câmara, em close-up, mostra o rosto do velho Chaplin-Calvero enquanto ele, expressão cansada, triste, retira a grossa maquiagem sentado no camarim. Les Feux de la Rampe é, evidentemente, o título francês do filme, os fogos da ribalta, ou talvez a expressão o centro das atenções. Charlot é o nome francês para o que nós chamamos de Carlitos. É interessante notar que esses dois nomes, o francês e o português, que evocam o prenome de Chaplin, não têm correspondente em inglês – nos países de língua inglesa Carlitos era simplesmente The Tramp, o vagabundo.

“Jamais, até Feux de la Rampe, um mito havia tirado a maquiagem na tela. Chaplin, aqui, através do palhaço Calvero, diz adeus a Charlot. Se o vagabundo não é jamais evocado, mesmo fisicamente, ele está presente, ainda hoje, na mente de todos. Um criador entrega sua meditação sobre sua obra, seu pavor do fracasso, sua necessidade de ter um público. O palhaço se vai, deixando o lugar para o diretor e sua obra. Um tal grau de despudor e de artifício alcança o cume da emoção.”

Uau! Que bela homenagem do guia francês ao criador genial!

Anotação em junho de 2021

Luzes da Ribalta/Limelight

De Charles Chaplin, EUA, 1952

Com Charles Chaplin (Calvero),

Claire Bloom (Terry)

e Nigel Bruce (Postant, o grande empresário), Sydney Chaplin (Neville, o compositor), Norman Lloyd (Bodalink), Andre Eglevsky (o dançarino que faz o Arlequim), Melissa Hayden (a dançarina que faz a Colombina), Marjorie Bennett (Mrs. Sybil Alsop, a dona da pensão), Wheeler Dryden (o médico que trata de Terry), Barry Bernard (a agente de Calvero), Stapleton Kent (Claudius), Molly Glessing (a empregada), Leonard Mudie (Dr. Blake, o médico de Calvero), Loyal Underwood (músico de rua),

e, em participação especial, Buster Keaton (o parceiro de Calvero no número final)

Argumento e roteiro Charles Chaplin

Asistente de direção Robert Aldrich

Fotografia Karl Struss

Música Charles Chaplin

Montagem Joe Inge

Direção de arte Eugene Lourié

Figurinos Riley Thorne

Produção Charles Chaplin Productions, distribuição United Artists. DVD MK2-Warner Bros.

P&B, 137 min (2h17)

Disponível em DVD.

R, ****

Título na França: Les Feux de la Rampe. Em Portugal, Luzes da Ribalta.

6 Comentários para “Luzes da Ribalta / Limelight”

  1. Eu lembro-me muito bem de ver este filme por uma razão particular.
    A minha professora de Português engraçava comigo e perguntou aos alunos se alguém ia ver o filme e eu disse que não, que não tinha dinheiro. (era um miúdo com 11 ou 12 anos e não ia ao cinema).
    A professora deu-me dinheiro para o bilhete e em troca tinha que escrever um texto sobre o filme, o que fiz mas com pouco sucesso, a professora não gostou.
    Esta professora era casada com um médico e escritor opositor da ditadura que agora tem o seu nome em ruas e a escola onde andei tem o seu nome: Mário Sacramento

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