Lupin – Parte 2 / Lupin – Partie 2

Nota: ★★★½

A série Lupin, de cinco episódios de cerca de 45 minutos cada, lançada mundialmente pela Netflix em 8 de janeiro de 2021, se tornou de imediato um sucesso avassalador. E merecia, porque era de fato espetacular. Apresentava, porém, um defeito danado: não tinha fim. O quinto episódio terminava deixando o espectador no maior suspense, doido para saber o que aconteceria em seguida.

E a série não se vendia como sendo uma primeira temporada. De forma alguma. Parecia, em tudo por tudo, uma minissérie, com princípio, meio e fim.

Assim, o espectador levava um violento contra-vapor, um soco na cara.

Na anotação que fiz sobre a série, reclamei disso ao longo de trocentos parágrafos:

“Assim como o personagem central, Assane Diop (o papel do astro Omar Sy), um fanático por Arsène Lupin – o ladrão de casaca criado por Maurice Leblanc no comecinho do século XX –, a série engana, prega peça. Assane Diop, exatamente como seu ídolo Arsène Lupin, engana a polícia, engana o mundo inteiro. E a série engana os espectadores. Em momento algum a série diz que estes 5 episódios são só o começo da história. Não está dito ‘Primeira Temporada’ em lugar algum.

“Mary e eu nos dispusemos a ver porque nos pareceu uma série com começo, meio e fim. Poderia até haver alguma segunda temporada – mas a história básica terminaria. Teria um fim, uma conclusão. (…) É uma baita, mas uma baita sacanagem com o pobre espectador. Ficamos absolutamente furiosos. “Se o eventual leitor é curioso, daquele tipo que gosta de maratonar para ver logo o que acontece ao final – como eu, por exemplo –, melhor deixar pra ver Lupin depois que a segunda temporada estiver disponível.”

Bem… A segunda temporada ficou disponível no mundo inteiro na Netflix a partir de 11 de junho de 2021. Parcos cinco meses após os cinco primeiros episódios.

E aí é que está: os cinco episódios da segunda temporada são tão bons quanto os da primeira. Exatamente como os da primeira, os novos episódios têm um monte de exageros – mas a produção é cuidadíssima, os atores estão excelentes, a trama é engenhosa, envolvente, inteligente, cativante. E, de quebra, ainda há sequências deslumbrantes que mostram trechos especialmente belos daquela cidade esplendorosamente linda. Paris é uma personagem importantíssima em Lupin.

Com uma vantagem fundamental sobre a primeira temporada: esta segunda tem um fim. Um The End. Fin. A história se completa.

Claro, óbvio: a última sequência do último episódio deixa absolutamente abertas as portas para uma terceira temporada. E pour quoi pas? Como não fazer mais uma temporada, se a série está tendo esse sucesso fenomenal, absolument fantastique, incroyable?

Um mês depois do lançamento dos cinco novos episódios, já se anunciava e garantia que haverá, sim, uma terceira temporada.

Só que será uma nova história.

A história de como Assane Diop-Omar Sy enfrentou o desafio de se vingar do malvado, cruel, corrupto, mau caráter, filho da mãe e, é claro, milionário Hubert Pellegrini (Hervé Pierre, da Comédie Française), essa acabou.

C’est fini.

Segunda temporada, não. Segunda parte

A rigor, a rigor, esses dez episódios – uma criação do jovem inglês George Kay, um dos autores do conjunto de séries Criminal, também lançadas pela Netflix – são uma coisa só, uma única história. Que, claro, se espalha por subtramas, ou, como agora se diz, “arcos narrativos” – mas é uma única história.

A rigor, a rigor, é como se fosse uma única temporada de dez episódios – com o detalhe de que os cinco primeiros foram lançados de uma vez, e os outros cinco só vieram cinco meses depois.

Acho interessante essa coisa.

A própria Netflix, em vez de usar a palavra “temporada”, usa “parte’. Diz que são “2 partes”. “Parte 1 (5 episódios)”. “Parte 2 (5 episódios)”.

Adoro detalhes – e há um detalhe interessantíssimo nos créditos iniciais dos cinco capítulos da primeira parte e dos cinco da segunda. Eles contêm uma diferença – ao mesmo tempo pequena e fundamental.

Assim como a maioria dos filmes feitos a partir dos anos 80, 90, e também das séries de TV, os créditos iniciais de Lupin não vêm bem no início. Esse era o costume nas primeiras décadas do cinema: antes de mais nada, os créditos iniciais – os nomes dos atores, o título, os nomes do diretor de fotografia, do montador, do compositor, dos autores da história, dos autores do roteiro, dos produtores, do diretor.

A partir aí dos anos 70, mas em especial dos 80, boa parte dos filmes passou a ter assim um intróito – alguns poucos minutos de ação, até que aí entram os créditos iniciais. (Isso quando há créditos iniciais. Na última década, virou moda não haver créditos iniciais alguns, ficando todos os créditos para o final.)

Em Lupin, como em tantos outros filmes e/ou séries, é usado o esquema do intróito: cada episódio começa com uma ação especialmente interessante, para prender a atenção do espectador, e, depois de uns 2 ou 3 minutos surgem os créditos iniciais.

Nos primeiros cinco episódios, abaixo das cinco letras imensas que formam o nome Lupin vinha, em letras bem menores: “Dans l’ombre d’Arsene”. À sombra de Arsène.

Nos cinco episódios da segunda parte, esse “Dans l’ombre d’Arsene” foi suprimido. O título é apenas Lupin. Na verdade, LUPIN, assim, em maiúsculas.

Um detalhe. Detalhinho. Adoro detalhes.

Fico aqui imaginando: depois do espetacular sucesso mundial dos cinco primeiros episódios, o prenome de Lupin, Arsène, já não precisava mais constar dos créditos.

O ladrão de casaca, o ladrão elegante, o “gentleman cambrioleur”, que surgiu em uma daquelas felizes, maravilhosas, especiais combinações de tempo e espaço que foi a fervilhante Paris da Belle Époque, com aquela absurda concentração de jovens talentos – na pintura, na literatura, no teatro, na dança. Apareceu pela primeira vez em 1904, na revista mensal Je Sais Tout, que o editor Pierre Laffitte acabava de lançar.

O personagem criado por Maurice Leblanc (1864-1941) viveu suas primeiras aventuras ali, como herói de folhetim, Só surgiria em livro em 1907 – o romance chamado exatamente Arsène Lupin Gentleman Cambrioleur. (Cambrioleur é assaltante, ladrão, furtador. No Brasil, onde já teve várias edições, o livro chamou-se Arsène Lupin – Ladrão de Casaca.)

Fatos e pessoas da adolescência marcam a vida de Assane

Assane Diop, o protagonista da série criada por George Kay, é um absoluto apaixonado pelos romances de Maurice Leblan e por Arsène Lupin. Quando ainda era adolescente (interpretado por Mamadou Haidara), havia ganhado de presente do pai alguns dos romances de Leblanc – e foi uma daquelas paixões avassaladoras que duram a vida inteira.

O pai, Babakar Diop (Fargass Assandé), era um senegalês que havia emigrado para a França ali pelos anos 80. (Exatamente como o pai do ator Omar Sy.) Em 1995, quando Assane estava com uns 14 anos de idade, seu pai foi acusado de ter roubado do patrão um colar de pérolas valiosérrimo que havia pertencido a Maria Antonieta, a última rainha da França, a mulher de Luís XVI.

Babakar – um homem absolutamente íntegro, culto, um cultivador do bom idioma e da literatura – morreu na prisão. Segundo a versão jamais contestada, enforcou-se.

Ele havia sido contratado como motorista de um biliardário, um empresário bem sucedido que atuava em vários ramos de negócios, Hubert Pellegrini (o papel de Hervé Pierre). Basta o espectador olhar para a cara desse Pellegrini para saber que é um mau caráter, um crápula – e corrupto. Bem diferente de sua mulher, Anne (interpretada – que luxo! – pela maravilhosa Nicole Garcia).

Madame Pellegrini era uma boa mulher. Tratava de forma cortês o motorista, e se afeiçoou pelo adolescente Assane. A filha do casal, Juliette, mais do que se afeiçoou pelo garoto: teve uma forte atração por ele, que persistiria por décadas. (Juliette garota é interpretada por Lea Bonneau; adulta, por Clotilde Hesme, essa atriz interessantíssima, na foto abaixo.)

O criador George Kay montou a estrutura de sua história alternando fatos ocorridos naquele ano de 1995 e os eventos dos tempos atuais, 2020; diversas vezes é feita referência a “25 anos atrás”.

E muito do que acontece ao garoto Assane ali em 1995 marca sua vida para sempre – principalmente a morte do pai, acusado de ladrão pelo ricaço Pellegrini. Assane jamais acreditou que o pai havia roubado o colar milionário – e a base da história dos dez episódios de Lupin é a luta dele para provar a inocência do pai e se vingar do crápula que o acusou.

Foi naquela fase da sua adolescência que Assane conheceu duas outras pessoas que, além de Juliette Pellegrini, fariam parte de toda a sua vida: a garota Claire e o rapaz Benjamin, seus colegas na escola cara em que ele pôde estudar graças à doação de um benemérito que preferiu se manter no anonimato. (Fica implícito que a doação foi feita por Madame Pellegrini.)

Claire viria a ser a namoradinha de adolescência de Assane – e, mais tarde, sua mulher, mãe de seu único filho, Raoul (Etan Simon). Ela é interpretada por Ludmilla Makowski nos flashbacks que mostram fatos de 1995, e pela gracinha da Ludivine Sagnier quando adulta (na foto acima).

E Benjamin (Adrian Valli De Villebonne quando adolescente e Antoine Gouy quando adulto) será o maior amigo, o grande companheiro de todas as horas. Na maturidade, Assane iria se tornar um mestre na especialidade de seu ídolo Arsène Lupin: roubar jóias e outros bens preciosos dos muito ricos, sem cometer qualquer ato de violência. E seu amigo Benjamin se especializaria no conhecimento de jóias e antiguidades; viraria um comerciante desses bens – e, de quebra, um perfeito receptador para o produto dos roubos do amigo.

O roteiro mescla os fatos de 1995 com os de 2020 de forma excepcional.

Um sucesso espetacular, estarrecedor

O sucesso da série é algo de fato espetacular. Ao longo dos 28 dias seguintes à estréia da primeira parte, em janeiro de 2021, Lupin foi visto por 76 milhões de espectadores da Netflix.

A série conseguiu um feito histórico: foi a primeira produção francesa a chegar à lista das 10 mais vistas na Netflix nos Estados Unidos – e chegou ao topo da lista, deixando em segundo lugar a badaladíssima Bridgerton!

A busca no Google pelo título de livros com o nome “Lupin” disparou 4.336%, enquanto a do nome do ator Omar Sy aumentou 1.802% após a estreia da série. Os dados são de um levantamento feito pela empresa Decode, especializada em coleta de informações e performance na rede

A Hachette, que edita os livros de Maurice Leblanc na França, relançou os títulos – e vários deles chegaram à lista dos mais vendidos.

Várias editoras brasileiras haviam lançado os livros de Maurice Leblanc. Nos anos 70, a Nova Fronteira lançou praticamente todos; tenho o primeiro deles, Ladrão de Casaca, lançado em 1972, com uma ótima e informativa introdução de Mário Pontes e um prefácio precioso, assinado por Pierre Lazareff. Ali, Lazareff conta que foi o editor da revista Je Sais Tout, Pierre Laffitte, que bem no início do século XX encomendou a Maurice Leblanc “uma novela policial cujo herói fosse o equivalente na França do que representavam juntos na Inglaterra Sherlock Holmes e Raffles”. E “foi assim que, por encomenda, surgiu o primeiro Arsène Lupin”.

No início de 2021, quando a série foi lançada, no entanto, os livros de Leblanc estavam fora de catálogo no Brasil, e só eram encontrados nos sebos. O belo site Estante Virtual tinha dezenas deles.

Uma editora de que eu jamais tinha ouvido falar, Pé da Letra, foi rápida no gatilho: poucas semanas depois da estréia da série, colocou nas livrarias quatro títulos, em edições simpáticas, com novas traduções, capas atraentes para leitores mais jovens, enfeitadas com algumas ilustrações, grafismos. Nas capas, o chamariz: “O livro que inspirou a série da Netflix Lupin”.

Personagem marcante, ator fascinante

A aura em torno do personagem criado na Belle Époque por Maurice Leblanc é, sem dúvida alguma, uma das explicações para o tremendo sucesso da série. Como resistir ao encanto, ao charme de um sujeito que, em plena terceira década do século XXI, rouba os ricos com a elegância do ladrão de casaca que o mundo conheceu antes da Primeira Guerra Mundial?

Esse Assane Diop é, como seu ídolo Arsène Lupin, “um personagem unificador, carismático, anti-Sistema, maroto, mas sempre justo”. “O herói dos mais vulneráveis e o inimigo absoluto dos poderosos”, na definição do crítico francês Thomas Desroches em um texto publicado no site AlloCiné logo após o lançamento da segunda parte da série.

Um personagem absolutamente fascinante – e que vem na pele desse astro tão carismático quanto o próprio Arsène Lupin.

Omar Sy é hoje – escrevi na anotação sobre a primeira parte de Lupin – “um dos atores mais famosos do cinema francês. Depois do sucesso avassalador de Intocáveis (2011), dos ótimos Samba (2014) e Chocolate (2016), virou astro internacional, chamado para blockbusters tipo X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) e Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015).”

Esse crítico que citei logo acima, Thomas Desroches, escreveu o seguinte: “Para compreender o sucesso (da série), é preciso que nos voltemos para seu intérprete principal. Eleito segunda personalidade preferida dos franceses em 2020 – como em 2019 –, Omar Sy cultiva um verdadeiro capital de simpatia. (…) Presente habitualmente nos campeões de bilheteria da França, o ator possui igualmente uma fama internacional que permite que a série viaje pelo mundo inteiro. Uma semana depois do lançamento de Lupin, o ator recebeu o louvor no Twitter de uma de suas admiradoras, ninguém menos que Sharon Stone.”

E aí ele reproduz o que disse La Stone:

“Lupin outro grande projeto de Omar Sy na Netflix.”

Um personagem sensacional, que se inspira em um personagem de charme centenário, interpretado por um ator que está com a bola absolutamente toda e pode ficar prosa o quanto quiser. Todo um belo elenco em ótimas interpretações. Uma história gostosa, fascinante, cheia de subtramas divertidas, atraentes. Direção ágil, firme, segura. Uma fotografia extraordinária, movimentos de câmara de cair o queixo.

E Paris, aquela absoluta maravilha.

Lupin Parte 2, ou Temporada 2, ou o que for, é uma maravilha.

E, ao contrário da Parte 1, tem final!

Anotação em agosto de 2021

Lupin – Segunda Parte / Lupin

De George Kay, criador, roteirista. França, 2021

Direção Hugo Gélin, Ludovic Bernard       

Com Omar Sy (Assane Diop)

e Ludivine Sagnier (Claire), Etan Simon (Raoul, o filho de Assane e Claire), Mamadou Haidara (Assane adolescente), Ludmilla Makowski (Claire adolescente), Fargass Assandé (Babakar Diop, o pai de Assane), Antoine Gouy (Benjamin Ferel, o grande amigo de Assane), Adrian Valli De Villebonne (Benjamin Ferel adolescente),

Hervé Pierre (Hubert Pellegrini, o bilionário), Nicole Garcia (Madame Anne Pellegrini), Clotilde Hesme (Juliette Pellegrini, a filha), Lea Bonneau (Juliette Pellegrini adolescente), Adama Niane (Leonard, o capanga de Pellegrini),

Soufiane Guerrab (Youssef Guédira, o policial fã de Arséne Lupin), Shirine Boutella (tenente Sofia Belkacem), Vincent Londez (capitão Romain Laugier), Vincent Garanger (comissário Gabriel Dumont), Marie Barraud (Helene Dumont, a mulher de Gabriel), Moussa Sylla (tenente Barreto),

Roteiro George Kay e François Uzan

História de Georges Kay e François Uzan, com a participação de Marie Roussin, Florent Meyer e Tigran Rosin.

Arcos dramáticos por George Kay e François Uzan

Baseado no personagem Arsène Lupin, criado por Maurice Leblanc 

Fotografia Christophe Nuyens, Martial Schmeltz

Música Mathieu Lamboley

Montagem Jean-Daniel Fernandez-Qundez, Richard Marizy, Audrey Simonaud  

Casting Michael Laguens, Catherine Chevron 

Direção de arte Françoise Dupertuis 

Figurinos Olivier Bériot     

Produção Isabelle Degeorges, George Kay, Gaumont Production, Netflix France.

Cor, cerca de 250 min (4h10)

Disponível na Netflix em 8/2021

***1/2

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