Em Busca de uma Nova Chance / The Greatest

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010 (postada em janeiro de 2011): Este é um belo, sensível, delicado filme sobre perda, sobre como uma família continua vivendo após uma perda. Tem interpretações extraordinárias de todo o elenco, e a direção demonstra, além de grande talento, muita maturidade.

Pois é – e isso traz a pergunta: quem, raios, é Shana Feste, autora da história e do roteiro e diretora do filme?

Shana Feste, seja quem for (claro que falo dela mais adiante), fez uma abertura que é soberba, brilhante, acachapante.

Seqüência nº 1: casal extremamente jovem trepa pela primeira vez. (O garoto é desconhecido. A menina é Carey Mulligan, essa grande revelação.) Seqüência nº 2: uma tragédia – fade out, e a tela fica preta por alguns vários segundos. Seqüência nº 3: casal de meia idade na cama; o homem, interpretado por Pierce Brosnan, está desperto, segurando o despertador. O despertador toca. A mulher (Susan Sarandon) abre os olhos, e imediatamente começa a chorar. Seqüência nº 4: enterro. Seqüência nº 5 (plano-seqüência longo, sem corte): banco de trás de um carro; a mulher está à esquerda da tela, o homem no meio; lentamente, a câmara vai se virando para a direita, o rosto da mulher quase some, vê-se o homem e, no canto direito, um garoto de uns 16, 17 anos, olhando para fora do carro, alheio; o homem não chora; expressa dor, cansaço da noite sem dormir, mas não chora; tem aquela postura de homem que segura as emoções, que precisa aparentar que é uma fortaleza inexpugnável.

Mais de uma hora de belo cinema depois, Allen Brewer, o personagem de Pierce Brosnan – nesta que talvez tenha sido sua melhor interpretação, até hoje – deixa escapar a frase:

– “Comportas. Não sei o que pode acontecer se eu abrir uma delas.”

Quis rever a abertura do filme, os primeiros dez minutos. A revisão só confirmou: que beleza, que maravilha. Exemplo de direção segura, madura, talentosa.

          Podem parecer personagens esquemáticos; os atores lhes dão grandeza

Depois que o filme terminou, e antes que eu começasse a fazer esta anotação, me ocorreu que uma sinopse, um resumo da história do filme seria necessariamente muito distante do que se vê na tela. Não faria justiça, de forma alguma, ao que é o filme.

Porque uma descrição em palavras de como os personagens reagem à perda de Bennett (Aaron Johnson), o rapaz de 18 anos que na primeira seqüência trepa pela primeira vez na vida com Rose (o personagem de Carey Mulligan), faria parecer uma coisa esquemática demais. Grace, a mãe (o papel de Susan Sarandon), não faz outra coisa na vida a não ser pensar sobre a morte do filho. Quer descobrir todos os detalhes da tragédia. Allen, o pai, retém toda a dor dentro do peito, recusa-se a falar sobre a perda, acha que é seu dever maior manter-se firme, forte – alguém na família tem que fazer isso, e só pode ser ele. Ryan (Johnny Simmons), o irmão mais jovem do morto, um garoto perdido, que já sucumbiu às drogas, parece mais perdido do que nunca.

Dito assim, é de fato um quadro esquemático, redutivo. Arquétipos ambulantes.

São as atuações dos atores, em especial, mais a segurança da direção, os diálogos bem feitos, os momentos de silêncio, que transformam o que poderia ser uma história banal, sentimentalóide, num belo e sensível filme. O espectador mergulha no drama da família como se fosse um amigo íntimo, um parente daquelas pessoas, e se pega torcendo para que elas parem de fazer besteira em cima de besteira, parem de se magoar e magoar os outros, para que finalmente haja um clique que as chacoalhe, desperte.

          Belas interpretações de Susan Sarandon, Pierce Brosnan, Carey Mulligan

Para minha cabeça acostumada a fazer associações entre filmes – ou pior, viciada nisso –, foi impossível, é claro, não lembrar de Vida Que Segue/Moonlight Mile, que Brad Silberling fez em 2002. Em Vida Que Segue, um casal que vive confortavelmente na Nova Inglaterra (exatamente como o deste filme agora) perde de repente a filha, uma jovem que estava noiva, com o casamento marcado; e passa a abrigar em casa o noivo da filha (exatamente como neste filme Rose, a namorada de Bennett, vai morar com os pais do garoto morto). Os pontos de contato entre os dois filmes ficam ainda mais evidentes porque, também em A Vida Que Segue, a mãe que enfrenta a dor da perda é interpretada por Susan Sarandon (o papel do pai é de Dustin Hoffman).

Susan Sarandon é uma grande atriz. Nas duas seqüências mostradas no início deste Em Busca de uma Nova Chance, em que Grace acorda e, assim que acorda, começa a chorar, ela já define o personagem, a mãe que amava mais que qualquer outra pessoa no mundo o filho o primogênito brilhante, bom nos estudos e nos esportes, simpático. É uma interpretação emocionante.

E Pierce Brosnan mostra-se à altura da grande atriz com quem contracena. Brosnan é um bom ator, se deu bem como James Bond, se dá bem em filmes de ação, mas aqui está soberbo. Mistura dor com necessidade de não aparentar fraqueza de maneira brilhante.

O fantástico é que, num filme que se assenta basicamente nas interpretações, quem brilha mais é essa praticamente novata mas já veterana Carey Mulligan.

Carey Mulligan é um absurdo.

Nascida em Londres, em 1985, teve seu primeiro papel no cinema aos 20 anos, como uma das irmãs de Elizabeth Bennett (interpretada por Keira Knightley), na nova versão de Orgulho e Preconceito, dirigida em 2005 por outro garoto prodígio inglês, Joe Wright, que em seguida faria a maravilhosa adaptação de Atonement, de Ian McEwan – no Brasil, Desejo e Reparação. Entre 2005 e 2010, além de participar de séries para a TV inglesa, fez oito filmes – ganhou 14 prêmios e teve outras 14 indicações, inclusive o Oscar por sua interpretação fantástica em Educação/An Education.

Tinha 24 anos quando interpretou essa Rose, garota de uns 18 anos. Tem a vantagem de ter um rosto de bebê – mais parece ter 18 que 24. Nisso, e também pelo fato de interpretar uma adolescente grávida, e também pelo fenomenal talento, Carey Mulligan faz lembrar outra atriz excepcional de sua geração, a canadense Ellen Page, de Juno, Menina.má.com, Um Crime Americano, Vivendo e Aprendendo, Garota Fantástica.

          Um filme independente, um fracasso comercial

Vejo no AllMovie que o filme teve sua primeira apresentação no Sundance Festival de 2009; é, portanto, considerado um filme independente, feito fora dos grandes estúdios. O grande site faz algumas considerações a respeito dos personagens com as quais não concordo muito (diz, por exemplo, que Allen, o marido, não está mais certo de que ama a mulher, Grace, e o filme mostra claramente que, sim, ama), mas isso é normal. De qualquer forma, o AllMovie o qualifica como “um poderoso drama emocional”, expressão elogiosa e correta.

E vejo no Mojo Box Office que o filme, com o orçamento de US$ 6 milhões – ridículo para os padrões americanos -, rendeu nas bilheterias apenas US$ 350 mil. Um fracasso comercial.

 É o filme de estréia da jovem diretora Shana Feste – um assombro

Muito bem. Grandes atuações de bons atores, um belo filme. Mas quem, raios, é Shana Feste, a autora do argumento, roteirista e diretora? Onde ela (ou será ele?) escondia esse talento todo?

Shana Feste é ela. Uma loura bonita, mostra a foto do IMDb. Roteirista, diretora, produtora, nascida em 1976 em Los Angeles. Trabalhou como atriz em uma comédia independente, Waiting for Mo, de 1996, aparentemente não lançada no Brasil. Este The Greatest foi o primeiro filme que ela dirigiu na vida.

Ah, mas vá pra p…

Como é que pode?

Bem, não sei como é que pode, mas o fato é que pode. Aos 33 anos de idade, a moça escreve e dirige um drama pesado sobre perda. Dirigiu uma das atrizes mais respeitadas do cinema americano das últimas décadas, um astro internacional de prestígio, uma jovem atriz em ascensão meteórica. E dirigiu bem.

Algum defeito deve ter na vida.

E a rigor tem: seu filme de estréia tem uma abertura brilhante, e, durante uns 85 minutos, encanta. Mas tem um calcanhar de Aquiles: no finalzinho, vira um filme típico do cinemão comercial americano, em que, como ironizou, francesamente, a diretora Danièle Thompson, “os pobres ficam ricos, os ricos têm uma vida dura, os sem-documento encontram os documentos, as guerras terminam, os mortos voltam a viver e as putas se casam com milionários”.

De fato, o final deste The Greatest desaponta um pouco, até porque fica de repente muito distante de tudo o que se viu ao longo de todo o desenrolar da trama. Os problemas se resolvem depressa demais. Mas é um belo filme, feito com talento e uma prodigiosa maturidade que essa garota encontrou sei lá como na vida. Talvez nos filmes americanos.

Em Busca de uma Nova Chance/The Greatest

De Shana Feste, EUA, 2009

Com Carey Mulligan (Rose), Pierce Brosnan (Allen Brewer), Susan Sarandon (Grace Brewer), Johnny Simmons (Ryan Brewer), Aaron Johnson (Bennett Brewer), Amy Morton (Lydia), Zoë Kravitz (Ashley) 

Argumento e roteiro Shana Feste

Fotografia John Bailey

Música Christophe Beck   

Produção Barbarian Films, Irish DreamTime, Oceana Media Finance, Silverwood Films. DVD PlayArte. Estreou em São Paulo 18/6/2010.

Cor, 99 min

***

6 Comentários para “Em Busca de uma Nova Chance / The Greatest”

  1. É um bom filme, mas um pouco down, pro meu gosto. Também, pelo tema, não poderia ser muito diferente. Ainda assim, achei que a diretora soube conduzi-lo. Assisti ao Vida que Segue, e lembro que achei bem mais pesado e vagaroso que este.
    Perder um filho não é fácil; diz o Roberto DaMatta, que já passou por isso, que é uma dor insuperável.
    Mas tudo passa pela forma como a pessoa vai tocar a vida dali pra frente. E a personagem da Susan Sarandon escolheu a forma mais difícil. Difícil pra ela e para os que conviviam com ela.

    Considero o Pierce Brosnan canastrão, mas nesse filme parece que ele resolveu atuar. Concordo com vc que deve ter sido sua melhor interpretação, até aqui.

    A moça é uma boa atriz, mas a personagem me irritou um pouco com o papinho de “amor da minha vida”, aos 18 anos. Muitas vezes ela caía na pieguice. Gostei mais do menino que faz o irmão. Acho que o personagem poderia ter sido melhor explorado, pois o filho que “sobrevive”, às vezes, acaba sendo deixado de lado, de tanto que só se fala no outro que se foi (embora não tenha sido esse o caso, pois eles optaram por não falar). Mas a pressão acaba sendo a mesma, já que o filho morto é praticamente canonizado.

    Tb achei que o fim desapontou, descambou para o final que os americanos adoram; um tipo de final em que não é preciso ver o filme pra saber como vai terminar.

    Mas é sempre bom ver mulheres dirigindo, e dirigindo bem. Achei que ela usou referências almodovarianas nas cores fortes, contrastantes e cheias de brilho.

  2. Jussara, adoro seus comentários, sempre. E com este não é diferente. Belas observações, todas.
    Confesso que não tinha reparado na coisa das cores fortes, almodovarianas. Muito bom que você tenha notado.
    Obrigado, e um abraço.
    Sérgio

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