Há Tanto Tempo que Te Amo / Il y a Longtemps que Je t’aime


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Há Tanto Tempo que Te Amo é um dos melhores filmes que vi nos últimos vários anos. É uma obra-prima, uma perfeição.

Sou meio chegado a um superlativo – para o pior e para o melhor. Admito isso. Mas este filme – uma bela história sobre relações familiares, solidão, solidariedade, companheirismo, perda, segunda chance, e outros temas importantes, básicos, fundamentais – merece todos os superlativos que possa haver.

Merece todas as formas que já usei aqui nestes textos para tentar expressar o que sinto diante dos grandes filmes, os maiores:

* Não há nada faltando, nada sobrando; cada pequeno detalhe é importante; tudo se encaixa à perfeição;

* Não há exageros, grandiloqüências, efeitos fáceis, foguetórios, invencionices, criativóis; é tudo absolutamente simples, bem feito, perfeito;

* Os personagens são gente como a gente, pessoas normais, como todo mundo; não há super-heróis, super-vilões; como diz uma francesa absolutamente jovem que ouvi faz pouco tempo, Coralie Clément, “c’est la vie quand même, c’est la vie, cette chienne” – é a vida, essa cadela;

* É destas obras de arte que nos deixam impressionados, chapados, com aquela sensação de que, talvez, no fundo, a humanidade não seja uma invenção que deu totalmente errado.

Nunca tinha ouvido falar em Philippe Claudel, o autor da história, roteirista e diretor, mas só este filme basta para ter a certeza: é um talento, um artista para se seguir, para ir atrás de tudo o que fez e fará.

As atrizes Kristin Scott Thomas e Elsa Zylberstein naturalmente eu já conhecia. Mas dá para dizer, também com certeza, que elas têm aqui a melhor interpretação de suas carreiras. É uma coisa absolutamente impressionante, de cair o queixo, de aplaudir de pé como na ópera. Se bem que talvez não “de pé como na ópera”, porque é um filme duro, pesado, profundo, e, ao final, o espectador não está assim soltando fogos – é uma daquelas grandes obras que nos deixam emudecidos, pensando, pensando, deglutindo em silêncio tudo o que foi dito, e que ficam na cabeça por muito tempo.

ilya2Mary fez um comentário perfeito sobre a atuação de Kristin Scott Thomas. De que ela é absolutamente expressiva, mostra todas as emoções possíveis – e, em especial, a expressão de vazio, de nada, de ausência, de não estar ali. E essa é uma expressão que só um grande ator consegue.

É bem verdade.

Uma mulher com a expressão de que não está ali

É a expressão que está no rosto dessa atriz fantástica bem na abertura do filme. Ela está sentada em um aeroporto pequeno, fumando um cigarro, esperando. O rosto não tem maquiagem alguma (ou foi bem maquiado para mostrar que ela está sem maquiagem alguma – tanto faz). Nem tem expressão alguma. Ou seja: tem a expressão de vazio, de ausência, de não estar ali.

Chega a pessoa por quem ela estava esperando – interpretada por Elsa Zylberstein. A câmara nesse momento está parada, distante – é um plano de conjunto, vemos os corpos inteiros das duas mulheres. Kristin Scott Thomas está sentada; exprime uma imitação do que seria uma tentativa de sorrir; primeiro apaga o cigarro, depois é que se levanta, e as duas dão um rápido abraço.

São duas irmãs que não se viam fazia 15 anos. A mais velha, a que chegou de viagem, interpretada pela inglesa, é Juliette. A que vem pegá-la no aeroporto, a interpretada pela francesa, é Léa. Veremos depois que têm uma diferença de uns dez, 12 anos. E, depois de 15 anos separadas, o que se permitem é apenas um rápido abraço.

Léa leva Juliette para sua casa, uma casa confortável; há um quarto preparado para hospedá-la. Mora em Nancy, na região de Lorraine, próximo da Alemanha; Nancy, como se sabe, é um centro universitário, e Léa é professora de literatura na faculdade. Seu marido, Luc (Serge Hazanavicius), é um pesquisador, um cientista. O casal tem duas filhas adotadas, nascidas no Vietnã, a ex-Indochina francesa; a mais velha, a P’tit Lys (Lise Ségur), tem uns sete, oito anos; a mais nova, Emelia (Lily-Rose), tem uns dois, dois e meio.

Com a curiosidade das crianças, P’tit Lys perguntará de cara por que nunca tinha visto a Tia Juliette antes. Ao que ela responderá que tinha estado viajando, uma longa viagem.

À noite do primeiro dia em que Juliette está hospedada na casa da irmã, Luc perguntará a Léa quanto tempo ela vai ficar, como farão para responder a perguntas como a que a filhinha havia feito sobre a tia.

Estamos, aí, com uns dez minutos de filme. O espectador já sabe que Juliette tem um segredo.

         Nunca se deve revelar o que não é para ser revelado

 E não vou falar mais nada da história, porque não teria qualquer sentido – seria entregar, estragar, seria spoiler. Os fatos do passado vão se revelar pouco a pouco, ao longo do filme, no seu devido tempo. Não se trata de um thriller, de um filme de suspense, de forma alguma – muito provavelmente o espectador vai perceber, bem antes que as coisas sejam ditas explicitamente, o que aconteceu tempos atrás, aquilo de que os personagens ainda não falaram.

Aliás, sobre essa coisa de spoiler, quero fazer um elogio a quem cuidou da capa do DVD no Brasil; é um lançamento de uma grande companhia americana, a Paramount; ao contrário de tantas sinopses em capa de DVD, a de Há Tanto Tempo… não revela o que não precisa ser revelado. Ponto para quem teve esse cuidado.  

É absolutamente brilhante a forma com que Philippe Claude montou sua história, seu roteiro – as coisas vão vindo naturalmente, à medida que têm que vir, na hora certa. E é fascinante como vão surgindo os novos personagens, os coadjuvantes da história do reencontro das irmãs Juliette e Léa. E como são bem construídos, todos eles.

         Kristin Scott Thomas, ladies and gentlemen

Um pequeno detalhe, pequeno mas interessante. O diretor teve um bom gosto extraordinário ao escolher Kristin Scott Thomas para o papel de Juliette, a irmã mais velha. É a atriz perfeita para o papel, com seu rosto belo, embora não com a beleza óbvia, Barbie; com seu rosto expressivo, com seu talento dramático extraordinário. Kristin Scott Thomas, inglesa da Cornualha (nasceu em Redruth, Cornwall, em 1960), já trabalhou em filmes ingleses (Quatro Casamentos e um Funeral), americanos (O Encantador de Cavalos), italianos (Mio Caro dottor Gräsler) e franceses – fez diversos filmes franceses. Fala francês maravilhosamente bem. Nada do francês amassado, mordido, esforçado mas carregado de sotaque de uma Nina Simone ou um Leonard Cohen – um belo francês. Para os franceses, no entanto, há um, ainda que suave, sotaque inglês. Resolveu-se a questão de maneira simples; lá pelas tantas, de passagem, o espectador fica sabendo que a mãe de Juliette e de Léa é anglo-francesa – nasceu na Inglaterra, casou-se com um francês, radicou-se na França, mas a filha mais velha falava com a mãe na língua materna dela. E pronto: não é preciso dublador – temos Kristin Scott Thomas inteira, na sua interpretação magistral.

         O talentoso cineasta é escritor e professor

Philippe Claudel – então, quem é este senhor que fez este filme magnífico? Vejo que nasceu em 1962, no interior da França, numa cidadezinha pequena, Dombasle-sur-Meurthe. É escritor, foi premiado pela sua primeira novela, em 2003; é professor de literatura na Universidade de Lyon. Há Tanto Tempo… é o primeiro filme que dirige. Meu Deus do céu e também da terra, como é possível? O sujeito demonstra um domínio tão absoluto da narrativa; não trai inexperiência em momento algum, tem estilo maduro, sólido, não tenta inventar para chamar a atenção dos críticos ou cinéfilos de carteirinha – como é possível que este seja o primeiro filme que dirige?

Há Tanto Tempo… ganhou dez prêmios e teve 16 indicações. Levou o Bafta de melhor filme em língua não inglesa, e teve as indicações do prêmio britânico para Kristin Scott Thomas como melhor atriz e para o próprio Claudel como melhor roteiro original. Ganhou o César de melhor filme de estréia; Elsa Zylberstein levou o César de coadjuvante. Teve indicações para o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e melhor atriz para Kristin Scott Thomas.

ilya1Nunca tinha ouvido falar também no compositor da trilha sonora, Jean-Louis Aubert. Fez uma bela trilha, suave, discreta – exatamente como todo o estilo formal escolhido pelo diretor Philippe Claudel. É, na maior parte, formada por alguns poucos acordes de violão. Nos letreiros finais, há uma emocionante interpretação da canção “Dis, quand reviendras-tu?”, da cantora e compositora Barbara, uma pérola absolutamente preciosa da música francesa muito menos conhecida no Brasil do que deveria. Fiquei surpreso e feliz ao ver que quem canta é o próprio Jean-Louis Aubert, o autor da trilha. Outro artista para se ir atrás, ver o que já fez, acompanhar o que fará. A maravilhosa Barbara teria seguramente se emocionado com a versão de Aubert para a música que ela gravou em 1966.

(Nunca tinha ouvido falar de Aubert porque sou ignorante. Ele não é um jovenzinho, como Raphäel, ou a gatinha Coralie Clément, que citei lá em cima; nascido em 1955, está na estrada desde meados dos anos 70, quando participava de uma banda de rock chamada Téléphone; tem carreira solo mais próximo da chanson do que do rock desde 1998.)

Gostaria ainda de registrar que é brilhante toda a maneira como o roteirista e diretor Philippe Claudel aborda um dos temas principais de sua história; não teria sentido adiantar aqui qual é esse tema. Mas não daria para eu não registrar isso: é brilhante a forma com que ele vê e com que ele transmite a questão, uma das mais polêmicas e importantes da vida.

Então repito: Há Tanto Tempo que te Amo é um filme superlativo, dos melhores dos últimos muitos anos, uma obra-prima.

Um P.S.: No belo comentário que fez sobre esta anotação aqui, e que está logo abaixo, a Jussara Ormond, sempre atenta, faz referência a outro filme francês relativamente recente que também trata do reencontro de duas irmãs, Nem Parece Minha Irmã, de Alexandra Leclère, com Isabelle Huppert e Catherine Frot. A referência tem tudo a ver; nem sei como eu mesmo, na minha anotação, não fiz a comparação – são situações em parte semelhantes, e por outro lado absolutamente diferentes.

No mesmo comentário, a Jussara me corrigiu sobre a idade da filha caçula, e já fiz a correção no meu texto. O outro erro que ela faz, sobre um detalhe do primeiro encontro das duas irmãs, no início do filme, ainda no aeroporto, deixei como estava no meu texto; a correção vai no comentário da Jussara aí abaixo.

Outros filmes com Kristin Scott Thomas já no site:

De Bico Calado/Keeping Mum, 2005

Não Conte a Ninguém/Ne le dis à Personne, 2006

O Acompanhante/The Walker, 2007

Contratado para Amar/La Doublure, 2006

O Elo Perdido/Man no Man, 2005

O Encantador de Cavalos/The Horse Whisperer, 1999

Há Tanto Tempo que Te Amo/Il y a Longtemps que Je t’aime

De Philippe Claudel, França-Alemanha, 2008

Com Kristin Scott Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius, Laurent Grévill, Frederic Pierrot, Lise Ségur, Jean-Claude Arnaud

Argumento e roteiro Philippe Claudel

Fotografia Jêrôme Alméras

Música Jean-Louis Aubert

Produção UGC YM, Canal +, Eurimages, France 3 Cinéma

Cor, 117 min

****

8 Comentários para “Há Tanto Tempo que Te Amo / Il y a Longtemps que Je t’aime”

  1. O que se pode dizer sobre esse filme? Apenas assino embaixo do que vc falou; pra mim tb foi um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. A Kristin Scott Thomas está realmente fantástica. Mary tem toda a razão quando diz que ela é absolutamente expressiva (e engraçado como a gente vê como no início ela é fria e distante com as sobrinhas). Admiro atores que conseguem atuar, e atuar bem, falando uma segunda língua. Ao contrário dos franceses pedantes, eu não acho que ela tem sotaque, só acho que ela não fala com o sotaque deles, afinal, ela não é francesa.
    A Elsa Zylberstein tb está muito bem, ela me lembra muito uma atriz brasileira (da qual não sei o nome). Aliás, todos os atores estão muito bem. Achei que o “vovô” deu um pouco de leveza à história, mesmo sem falar uma palavra. As meninas tb são uma graça, e crianças sempre colaboram pra deixar as coisas mais leves (não aguentei quando a mais velha falou que o avô tinha ficado com a cabeça mole e perdido a língua, rsrs). E só fazendo duas pequenas correções (ai, que chata, né?) a filha caçula não tem 3, 4 anos. Ela deve ter uns 2 anos e meio, no máximo 3; ela é muito pequena pra 4 anos e não fala direito ainda. E quando a Léa chega ao aeroporto pra buscar a Juliette, primeiro esta se levanta e abraça a irmã , com o cigarro na mão, depois é que ela o apaga (vc inverteu a ordem; acho que pensou certo, mas digitou errado).
    No começo, por causa do aeroporto, da chegada de uma irmã, da relação hóspede/anfitrião o filme me lembrou o “Nem parece minha irmã”. Mas ainda bem que a Léa não tinha nada, era completamente o oposto da infeliz e amarga Martine. E ao longo do filme ela só mostra, mais e mais, que é uma excelente pessoa.
    Desde quando comecei a ler sobre o filme e o lançamento nos cinemas, que o nome do título no original me soou familiar, mas só no meio do filme é que fui notar que é uma frase da música “A La Claire Fontaine” que ouvi muito, sem parar, depois que assisti ao “The Painted Veil” (detesto o título em português desse filme, me recuso a escrevê-lo, até pq acabo confundindo com outros filmes de nomes parecidos).
    Não sei se um dos temas principais a que vc se refere é o que estou pensando, mas se for, o diretor o abordou de uma forma totalmente diferente mesmo. Acho que ele pegou todo mundo de surpresa. Mas quem prestou atenção à atuação do personagem, viu que tinha alguma coisa errada ali.
    And last but not least o título do filme é maravilhoso, poético, meio nostálgico até.

  2. Esse filme é realmente muito belo. Kristin Scott Thomas fez uma impecável interpretação, não poderia ser melhor. A trilha sonora é perfeita, uma das que eu mais gostei. Para mim a trilha fica ao lado da de Vick, Cristina, Barcelona. Só não perde para a da de Amelie Poulan.

  3. Fabuloso! E que tristeza, que resignação, que pesar que Juliette carrega consigo nessa interpretação magistral! História bela e dura, mas desenhada com perfeição. “Um brilho!”

  4. Já faz alguns meses que assisti a este filme e até hoje, quando me lembro dele, meu coração se enche de pesar, solidão e principalmente amor por esta obra de arte inigualável.
    Personagens maravilhosos e densos. Kristin tem uma atuação perfeita o que me faz admirá-la cada vez mais. Ela consegue transmitir com apenas um olhar a vida regada de solidão da personagem.
    Também não surpreende a pressa com que as pessoas a julgam, isolam, condenam.
    Ela aceita tudo com muita resignação que acreditamos ser frieza, mas que no final descobrimos que ela não tem nada de fria, é apenas triste, muito triste.
    Um filme que vale a pena ser visto e que está na minha lista de obras perfeitas.

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