Tristana, uma Paixão Mórbida / Tristana


Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Nunca tinha visto Tristana, que Buñuel fez em 1970, na última das muitas e diversas fases de sua longa carreira, de volta à Europa depois da passagem pelo México e pelos Estados Unidos. Depois de Tristana, o cineasta, um dos mais importantes da História, só faria mais três filmes: O Discreto Charme da Burguesia, de 1972, O Fantasma da Liberdade, de 1974, e Esse Obscuro Objeto de Desejo, de 1977.

Passei por Tristana na locadora; não tenho nenhum filme de Buñuel no site, o que é uma das mais sérias lacunas dele, e então peguei para ver.

É um grande filme. Grande, e, na minha opinião, detestável.

Don Lope (interpretado por Fernando Rey), exatamente como Buñuel, tem um ódio profundo de autoridades, da polícia, das convenções burguesas, do conformismo, da Igreja e de tudo que diga respeito a ela, das instituições, em especial a do casamento. Ainda no início da narrativa, quando estamos aí com uns 15 minutos de filme, Don Lope está passeando com Tristana (o papel de Catherine Deneuve, deslumbrantemente bela aos 27 aninhos) pelo centro de Toledo, quando passam por um casal. Ele desfia seu nojo pela cena que vê:

– “Olhe este casal. Não sente o aroma adocicado da felicidade conjugal? Observou seu jeito de resignação bovina, e como estão aborrecidos, entediados? Adeus, amor. Não se case nunca, Tristanita. A paixão tem que ser livre. É a lei natural. Nada de cadeias, de assinaturas, de bênçãos.”

Don Lope é o tutor da jovem Tristana, que, ao ficar órfã, foi acolhida na casa desse amigo de sua mãe, um nobre entrando em decadência, mas ainda poderoso, respeitado.

O velho senhor trata a jovenzinha como filha durante algum tempo – mas não demora a transformá-la em sua amante. 

Tristana não ama Don Lope; na verdade, tem nojo dele. Mas dá para ele – e a vida vai seguindo.

Por que Tristana dá para o tutor, se tem nojo dele? Ah, não tenho a mínima idéia. Porque não teria como garantir sua subsistência sem ele, provavelmente. Ou porque é doida. Sei lá.

         Degradação, degradação

Muito bem. Esse diálogo que transcrevi aí acima, então, se passa bem no começo do filme. Tristana irá se envolver com um pintor, Horácio (feito por Franco Nero, o bonitão que conquistou a deusa Vanessa Redgrave), e eventualmente fugirá da casa de Don Lope e viverá alguns anos com o artista. Mas, com um tumor na perna, vai querer voltar para a casa do tutor e comedor de quem sente nojo.

Por quê? Ah, não tenho a mínima idéia – mas vamos em frente.

E então, já bem perto do fim do filme, há a seqüência que todo mundo comenta: enquanto Tristana – uma Catherine Deneuve com o rosto envelhecido, fortemente maquiada – anda de um lado para o outro com suas muletas, depois de ter tido uma perna amputada, no corredor da casa, Don Lope, o que odiava profundamente, assim como Buñuel, as autoridades, a polícia, as convenções burguesas, o conformismo, as instituições, o casamento, e sobretudo a Igreja e tudo que diga respeito a ela, conversa na sala com três padres, servindo a eles docinhos e chocolate quente. Ah, sim: agora já bem velho, sem a força de antes, sem o poder de antes, Don Lope, o que dizia que as pessoas não deveriam se casar nunca, havia se casado com Tristana – a qual, embora tivesse escolhido voltar a viver com ele, tem dele nojo cada vez maior.

Não poderia haver degradação maior na vida de uma pessoa do que aquele estado a que chegou Don Lope.

É preciso dizer: o trabalho de Buñuel, de Fernando Rey e de Catherine Deneuve de mostrar a passagem do tempo sobre os personagens de Don Lope e Tristana é impressionante, coisa de gênio. Catherine Deneuve, como já foi dito, estava com 27 anos, quando fez o filme – mas, no início da narrativa, jovem, indefesa, órfã, virgem, parece ter menos que os 21 que tinha quando interpretou a Geneviève de Os Guarda-Chuvas do Amor/Les Parapluies de Cherbourg, em 1964. No final, com a maquiagem carregada, mas também com a capacidade de interpretação que esbanja, parece ter 50 anos. É impressionante. É, de fato, coisa de gênio.

         Por que a escolha da infelicidade?

Agora, por que Don Pepe se permitiu chegar a tal estado de degradação, por que Tristana escolheu tanta infelicidade na vida – ah, não tenho a mínima idéia.

Roger Ebert tem. O grande crítico fez um belo texto sobre o filme, para o qual deu sua nota máxima, 4 estrelas. “Tristana de Luis Buñuel é um assombroso estudo da relação humana em que o poder troca de mãos. O poder sobre as vidas humanas foi um tema constante durante toda a vida de Buñuel, o mais sadomasoquista dos diretores, e Tristana é seu mais explícito estudo sobre o tema. Não seu melhor, mas seu mais explícito.”

E então Ebert conta o básico da trama, que já contei acima: “Tudo o que aconteceu antes foi uma preparação para o que acontece agora, quando Tristana se vinga do homem que tirou sua virgindade. Ele está mais velho, agora, mais fraco, e foi reduzido à condição de jogar cartas com padres. Ele não faz isso porque perdeu seu ateísmo, mas porque ele precisa da companhia deles (e eles brincam com ele com um olho na possibilidade de herdar seus bens para a Igreja). Tristana se transforma na personalidade dominadora da casa. Nas mãos de um diretor comum, ou mesmo de um grande diretor sem simpatia pelo material, essa história poderia ter sido embaraçosamente melodramática. Eu estava para dizer que poderia ter sido nojenta – mas, é claro, é nojenta, e essa era a intenção de Buñuel. Era o tema central de suas obsessões eternas. Seus temas favoritos eram o sadomasoquismo e o anticlericalismo, desde seu primeiro filme com Salvador Dalí, Un Chien Andalou (1928), e nos seus últimos trabalhos nos anos 70 ele se transformou, sem dúvida alguma, no mais sujo gênio que o cinema jamais produziu.”

         Um gênio de paixões e ódios fortíssimos

Luis Buñuel (1900-1983) tinha paixões e ódios fortíssimos, violentos – espanhóis. Era um sujeito espanholamente passional, extremado. Em sua magnífica, extraordinária autobiografia Meu Último Suspiro – escrita, na verdade, por seu amigo e co-roteirista Jean-Claude Carrière, outro gênio -, fez um capítulo em que enumera paixões e ódios. Enumera e explica por quê.  

Está lá (cito só os temas, sem os porquês):

“Gostei de Wagner. Gosto do Norte, do frio e da chuva. Detesto o pedantismo e a linguagem empolada. Sinto horror dos fotógrafos de jornais. Gosto da pontualidade. Adoro os bares, o álcool e o tabaco. Tenho horror a multidões. Gosto dos operários. Gosto muito de Wajda e de seus filmes. Detestei Roma, Cidade Aberta, de Rosselini. Não gosto das estatísticas. Gostei muito da literatura russa. Destesto mortalmente os banquetes e as entregas de prêmios. Detesto a proliferação da informação – a informação-espetáculo é uma vergonha. Não gosto dos donos da verdade, quaisquer que sejam; me entediam e me dão medo. Gosto das manias. Detesto a publicidade.”

Em Meu Último Suspiro, Buñuel dedica uma página e meia a Tristana. Diz que, embora a novela de Benito Perez Galdos, na qual o filme se baseia, não seja das melhores do autor, sempre se sentiu atraído pelo personagem de Don Lope. “Me atraía também a idéia de mudar a ação de Madri para Toledo e render, assim, homenagem à cidade tão querida.” Pensou em Fernando Rey, com quem havia trabalhado em Viridiana, de 1961, e “na jovem atriz italiana de quem gostava muito, Stefania Sandrelli”. O projeto não saiu na época; mais tarde, Catherine Deneuve – que havia trabalhado com ele três anos antes, em 1967, em La Belle de Jour – escreveu-lhe várias vezes se oferecendo para o papel central.

“Como não voltei a ver o filme, fica difícil para mim falar dele hoje, mas me lembro de que gostei da segunda parte, depois do regresso da jovem, a quem acabavam de cortar uma perna. Me parece ouvir ainda hoje seus passos no corredor, o ruído de suas muletas e a conversa fiada dos padres em torno das taças de chocolate.”

         Não gosto de visões doentias da vida

Então: não gostei de Tristana – embora seja um grande filme. Não gosto dessas visões doentias da vida. Não gosto de coisas doentias, sujas, porcas, nojentas, pervertidas. Sou, como o Moustaki, “um otimista amargo, um pessimista alegre”.

Não recomendaria a uma amiga, a uma pessoa querida, à minha filha extraordinária, que visse Tristana. Recomendaria, isso sim, que lessem Meu Último Suspiro, um livro fascinante, maravilhoso. Buñuel é assim meio como John Lennon: sua obra-prima é sua vida.

Tristana, Uma Paixão Mórbida / Tristana

De Luis Buñuel, França-Itália-Espanha, 1970

Com Catherine Deneuve (Tristana), Fernando Rey (Don Lope), Franco Nero (Horacio), Lola Gaos (Saturna), Antonio Casas (Don Cosme), Jesus Fernandez (  Saturno)

Roteiro Luis Buñuel e Julio Alejandro

Basedo na novela Tristana, de Benito Perez Galdos

Fotografia Jose F. Aguayo

Produção Época Filmes, Talía Filmes.

Cor, 105 min (nos EUA, 98 min)

***

8 Comentários

  1. carlos alberto
    Postado em 20 agosto 2010 às 2:41 am | Permalink

    parabens.

  2. Marina
    Postado em 10 Janeiro 2011 às 4:34 pm | Permalink

    Cara, le o livro que vc vai ver que não é nada disso, tem todo um significado por tras das ações, e no livro diz porque ela fica com Don Lope, porque ela aceita essa vida, porque ela volta, etc etc etc

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 10 Janeiro 2011 às 6:18 pm | Permalink

    Obrigado pelo conselho, Marina. Vou colocar o livro na lista dos a serem lidos. O problema é que a lista é grande.
    Sérgio

  4. Postado em 18 Maio 2011 às 4:36 am | Permalink

    Grande filme sem dúvida, e um dos meus Buñuel de eleição. Já falei sobre ele também.

  5. Ivan
    Postado em 10 dezembro 2012 às 1:45 pm | Permalink

    So estou escrevendo agora mas,assisti este filme ontém,na madrugada.Gostei muito,filme muito bom;até podería não ser mas só a presença da Catherine,já valería.Deus!!Como é bom olhar para a tela e ver aquele rosto.
    Muita amargura,muito rancor dentro de uma pessôa,assim era Tristana.
    É como já disseste,críticas a burguesia,a igreja,a hipocrisia,etc,etc …
    Li,não me lembro onde que este filme se parece com “Viridiana” (ao menos o começo).
    Gostei tbm da fotografia.
    São duas imensas mudanças;Tristana jóvem cheia de ideais se torna uma mulher cruel e vingativa.Dom Pepe,outrora homem conquistador
    poderoso,se torna um fraco totalmente à mercê
    de Tristana.
    Sergio,além deste,já assisti tbm de Buñuel,
    El(1952) Belle de Jour(1967) Nazarin(1959) e O Fantasma da Liberdade (1974).
    É como disseste lá no início do teu texto,à exceção de Tristana, estes que citei não constam lá no “50 anos de filmes”.
    Vou tentar assistir esse Viridiana e, outros mais se puder.
    Um abraço!!

  6. Ivan
    Postado em 10 dezembro 2012 às 1:50 pm | Permalink

    Só para fazer uma correção necessária.
    Disse que assisti ontém na madrugada, quero
    dizer,na madrugada de hoje,10/12/2012.
    Valeu !!

  7. Ivan
    Postado em 27 outubro 2013 às 1:59 pm | Permalink

    Volto aqui hoje não para falar de “Tristana” já coloquei minha opinião há 10 meses.
    É só para dizer que ontém assisti dois filmes de Buñuel que não estão aqui no site.
    Não vou opinar aqui sôbre eles por

  8. Ivan
    Postado em 27 outubro 2013 às 2:40 pm | Permalink

    Não entendo, cliquei em algum lugar que não deveria e o comentário foi, abruptamente.
    Então, continuando :
    Dizia eu que já opinei sôbre ” Tristana ” há 10 meses e que ontém assisti dois filmes de Buñuel que não estão aqui no site e que não vou opinar sôbre eles aqui,pois não é o caso.
    O primeiro que vi foi o que citei no meu comentário na época , ” Viridiana ” de 1961 este filme dividiu a Palma de Ouro em Canes com o filme ” Uma Tão Longa Ausência ” ( Une Ausse Longe Absence ) .
    O outro foi ” Os Esquecidos ” de 1950 que, segundo consta,foi a primeira obra-prima de sua fase Mexicana.
    Não sei se já viste, Sergio, nem sei tua opinião mas, eu gostei e muito, dos dois.
    Se um dia estiver aqui no site, eu opino.
    Ainda que não tivessem ganho prêmio nem altos elogios, eu achei dois grandes filmes.
    Um abraço !!!

6 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Textos » Um dia quero imitar Buñuel em 17 julho 2010 às 2:33 am

    […] uns gosto-e-não-gosto de Buñuel, ao falar de um filme dele (tirando fora as explicações dele para cada gosto ou não gosto), assim […]

  2. […] na estação ferroviária. No momento em que Audrey se encontra com sua mãe, Martine (o papel de Catherine Deneuve), na casa dela, o espectador já percebe: a relação mãe e filha não é boa, não é afetuosa. […]

  3. […] (Luis Buñuel não conta aí, porque é um caso totalmente à parte. Mais do que espanhol, é um cineasta do mundo.) […]

  4. […] e Fernando Castets dá um pau na Igreja Católica que é um nocaute. Lá do céu, ou do inferno, Luis Buñuel, o cineasta mais anti-Igreja Católica da História, deve ter aplaudido de pé. A diatribe de […]

  5. […] os gostos, ao longo de Meia-Noite em Paris, mas a minha preferida foi o diálogo de Gil com o jovem Luis Buñuel (Adrien de Van). Com o conhecimento de quem viaja de 2010 para o passado, Gil sugere ao garotão […]

  6. […] lembra que pode ter sido um elogio a colegas que tinham deficiência auditiva, como o espanhol Luis Buñuel e o americano William Wyler – este de fato perdeu boa parte da audição quando trabalhou como […]

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