O Visitante / The Visitor


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Uma maravilha absoluta, um grande, grande filme. Um show de humanismo, num filme que tem um estilo seco, direto, despojado, simples, e acaba sendo extremamente comovente.

Nunca tinha ouvido falar desse diretor e roteirista, Tom McCarthy. Vejo agora que nasceu em New Jersey, em 1966; trabalhou como ator em mais de 30 filmes e/ou episódios de séries de TV; em 2003 escreveu e dirigiu seu primeiro filme, O Agente da Estação/The Station Agent, do qual também nunca tinha ouvido falar; e em 2007 fez este aqui, seu segundo.

Os temas são solidão, amizade, solidariedade, imigração, intolerância do Estado americano para com os imigrantes, em especial depois dos atentados terroristas do 11 de setembro.

         Um homem cinzento, solitário

DF-2467 (M-7)O protagonista é Walter Vale, um professor universitário de Connecticut, de uns 60 e poucos anos (interpretado por Richard Jenkins, sobre quem vou falar mais abaixo). Walter nos aparece como um sujeito extremamente solitário, um tanto ríspido, grosseiro, com seus alunos, e um tanto inapetente pelo trabalho; não se esforça para fazer bem feito o que faz, dar aulas e escrever seu quarto livro, sobre a economia no mundo globalizado.

Quando o filme começa, Walter está recebendo em sua casa confortável a nova professora de piano; ele demonstra que não leva muito jeito para a coisa, e, quando a professora está de saída e pergunta sobre o horário da aula seguinte, ele diz que não gostaria de ter nova aula. Ela pergunta se ele está desistindo de aprender piano, ele responde que não. Ela compreende que ele a está dispensando, pergunta quantos professores ela já havia tido antes – foram quatro. Ela diz então que é muito difícil para uma pessoa já de uma certa idade aprender a tocar um instrumento – e sugere que, no caso de ele vir a desistir do piano, ela gostaria de comprar o dele.

Walter não é uma pessoa feliz. Não está bem na vida.

Na universidade, um amigo o informa que ele terá que ir a Nova York, representar a escola num seminário, e apresentar um trabalho feito por ele e por uma colega, que está grávida e não poderá ir. Walter confessa que na verdade o trabalho foi inteiramente feito pela colega, ele apenas assinou como co-autor porque ela pediu. Mas não tem alternativa: ele tem que ir para o tal seminário.

Walter tem um apartamento em Nova York, que não visita faz tempo; quando chega, percebe que há alguém no lugar. Ele e o espectador ficam sabendo, ao mesmo tempo, que é um casal de imigrantes que alugou o apartamento de um conhecido – algum espertalhão que percebeu que o lugar não estava sendo freqüentado pelo dono. O casal – ele, Tarek, um rapaz sírio, ela, Zainab, uma moça senegalesa – pede desculpas, junta suas coisas, sai do apartamento, à noite, embora não tenha para onde ir.

Estamos com uns dez minutos de filme, e Walter vai fazer o primeiro gesto gentil, generoso: o casal pode ficar no apartamento por uns dias, até arranjar um lugar para onde ir.

         Imigrantes sem um tostão, mas cheios de vida

avisita4Nos dias seguintes, Walter encontrará em Tarek o primeiro amigo que teve em muito, muito tempo. O rapaz toca um instrumento de percussão, uma espécie de tambor, e ensina Walter a tocar. O velho desiludido, cansado da vida (a essa altura já sabemos que ele é viúvo; a mulher, uma boa pianista clássica, morreu há algum tempo), ruim no piano, descobrirá que tem jeito para a percussão. Descobrirá todo um novo mundo, a partir de seu encontro com aquele casal de imigrantes sem um tostão no banco mas cheio de energia, vontade e esperança.

Tudo isso é mostrado de maneira simples, seca mesmo; não há diálogos com frases brilhantes ou que tentem parecer brilhantes – é tudo muito simples, normal, banal, comum. Não há nada pretensioso no filme, mas a história vai mexendo com o espectador, e mexendo muito. A denúncia que virá sobre a intolerância do Estado – esse horror, essa coisa pavorosa – é fortíssima, mas sem muito palavreado, sem fogos de artifício.

         O papel da vida de um eterno coadjuvante

A escolha de Richard Jenkins para fazer o papel principal do filme foi uma das muitas decisões acertadíssimas do diretor Tom McCarthy. Richard Jenkins, nascido no interior de Illinois, em 1947, é um veterano ator que sempre fez papéis secundários; acho, tenho quase a certeza, que este aqui é seu primeiro papel como protagonista. Quem vê filmes americanos seguramente já o viu uma, duas ou mais vezes, mas talvez nem se lembre disso, porque ele em geral faz papéis pouco importantes; tem uma imagem meio cinzenta, nada marcante – exatamente como Walter Vale.  

Para comprovar o que falei, que Richard Jenkins esteve em muitos filmes, embora muita gente possa jamais ter gravado o nome dele, fiz uma pesquisa não no enciclopédico, abrangente iMDB, que tem praticamente todos os filmes que já foram feitos, mas no meu próprio site. Richard Jenkins está em nada menos que sete dos parcos 1.100 filmes que já comentei aqui: Queime Depois de Ler, Vítimas de uma Paixão, Dizem por Aí, De que Planeta Você Veio?, Terra Fria, Dança Comigo e O Amor Custa Caro.

O iMDB mostra que ele tem 88 filmes e/ou episódios de séries de TV no currículo.

Mas este aqui foi o papel de sua vida. Foi indicado ao Oscar por ele – sua primeira indicação pela Academia. Já ganhou sete outros prêmios e teve mais oito indicações.

O diretor Tom McCarthy, ele mesmo ator em muitos filmes, conforme constatei no iMDB após ver este filme, mostra que é um exímio diretor de atores. Não é só Richard Jenkins que está bem aqui – todo o elenco está ótimo, Haaz Sleiman que faz o garoto Tarek, Danai Gurira que faz a moça Zainab.

         Uma atriz maravilhosa, uma presença forte, uma altivez de babar

avisita3E ainda tem Hiam Abbass.

Hiam Abbass só aparece na segunda metade do filme, e quando ela surge a tela se ilumina mais. Faz a mãe de Tarek, Mouna. Que atriz maravilhosa, que bela mulher. É muito impressionante: até o início deste ano de 2009, eu não sabia quem era Hiam Abbass (embora já tivesse visto Munique, de Spielberg, de 2005, e Conversações com Meu Jardineiro, de Jean Becker, de 2007, em que ela faz papéis menores). Aí vi Lemon Tree, aquele espetáculo, e fiquei de queixo caído; foi quando verifiquei que ela estava em filmes que eu já tinha visto, sem ter prestado atenção a ela. Um tempinho depois, fui atrás do outro filme do diretor israelense Eran Riklis lançado no Brasil, A Noiva Síria, em que Hiam Abbass é também a protagonista. E agora a reencontrei neste filme aqui.

Meu Deus do céu e também da terra, que presença forte tem essa mulher em cena. E que belas escolhas ela faz, ou fazem por ela: no período de uns poucos meses, vi três filmes com essa mulher, três filmes pelos quais babei, três filmes quatro estrelas – e agora deu vontade de rever Munique e Conversações…, só para vê-la. “Essa mulher está nos perseguindo”, brincou Mary, que também ficou absolutamente impressionada com este O Visitante. E ela fez uma observação corretíssima: em todos os três filmes, Lemon Tree, A Noiva Síria e este O Visitante, Hiam Abbass interpreta mulheres fortes, íntegras, corajosas; ela transmite como poucas uma imagem de dignidade, de altivez. Impressionante.

Uma das coisas maravilhosas deste filme – observou ainda Mary, com precisão e inteligência – é que ele mostra pessoas boas. Pessoas boas, como acontece na vida real. Embora 8 de cada dez filmes sejam sobre bandidos, assassinos, loucos tarados, embora haja tanta bandidagem nas notícias do jornal a cada manhã, na vida real não é assim, é exatamente o contrário. As pessoas, na imensa maior parte, são boas. O bandido – mostra este belo filme – é o Estado.

Já foram feitos muitos filmes, e alguns muito bons, ótimos, sobre o estado do mundo pós o 11 de setembro; só aqui neste site de poucos filmes já estão diversos deles, O Traidor, Sorry, Haters, No Vale das Sombras, Ato Terrorista, Vôo United 93, Strip Search, Medo e Obsessão – a lista é imensa.

Este aqui é um dos melhores. É talvez o que vai mais fundo no humanismo, no elogio do ser humano, essa coisa tão mal tratada pelo Estado, pelos Estados, todos eles, até, e em especial, pelo que se julga o maior, o mais importante, o mais democrático de todos. 

O Visitante/The Visitor

De Tom McCarthy, EUA, 2007

Com Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Gurira, Hiam Abbass

Argumento e roteiro Tom McCarthy

Fotografia Oliver Bokelberg

Música Jan A.P. Kaczmarek

Produção Groundswell, Participant

Cor, 104 min

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