12 Homens e uma Sentença / 12 Angry Men


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Ao rever mais uma vez 12 Homens e uma Sentença agora, 52 anos depois que o filme foi feito, tive de novo a certeza de que ele é um dos melhores filmes de tribunal da história, se não for o melhor. E tem apenas uma rápida seqüência passada no tribunal.

É logo na abertura do filme, antes dos créditos iniciais. O juiz está  dirigindo suas palavras finais aos jurados – o julgamento, veremos em seguida, já durava seis dias, todas as provas haviam sido apresentadas, todas as testemunhas haviam sido ouvidas, defesa e promotoria haviam apresentado suas considerações finais. O juiz está explicando mais uma vez aos jurados que agora cabe a eles decidir; como o réu é acusado de crime premeditado, de primeiro grau, se ele for considerado culpado, será executado.

(Não se fala em que Estado americano se passa a ação, mas é num dos Estados em que existe a pena de morte; como se sabe, a legislação penal varia muito de Estado para Estado nos EUA.)

O veredito precisa ser unânime, explica o juiz. Se os 12 jurados considerarem o réu culpado do assassinato do próprio pai, ele será executado, mas – e o juiz repete, didaticamente, o que precisa ser dito – se um deles tiver uma dúvida racional a respeito da culpabilidade, o réu não deverá, não poderá ser condenado.

Os 12 jurados são então conduzidos para uma sala onde ficarão reunidos para decidir se aquele garoto de 18 anos e olhar assustado que a câmara agora focaliza – e ele aparece apenas nessa tomada – vai ser assassinado pelo Estado; nesse momento é que aparecem os créditos iniciais do filme.

angry1Foi a primeira vez que surgiu nas telas de cinema a expressão “dirigido por Sidney Lumet”. E é absolutamente impressionante como Lumet é capaz de fazer um filme de estréia com tanta maestria, segurança, talento, maturidade, absoluto domínio da linguagem, capacidade de dirigir atores que criam personagens sólidos, tridimensionais, de carne e osso. Nascido na Philadelphia em 1924, tinha 33 anos quando dirigiu este 12 Homens e uma Sentença, em 1957. Estreava no cinema, mas já tinha experiência no teatro e na TV – desde 1951 dirigia episódios para a televisão.

Há quem veja muita influência da TV neste filme de estréia do diretor. Jean Tulard fala nisso, no seu Dicionário. Há, de fato, muitos close-ups em 12 Homens e uma Sentença, e close-up era o tipo de tomada muito usado na TV. Mas não poderia ser diferente, já que toda a ação do filme, com exceção daquela rápida primeira seqüência no tribunal, e da última, se passa entre as quatro paredes da sala onde os 12 sujeitos decidem o destino do réu.

Os produtores do filme são Henry Fonda, o protagonista, e Reginald Rose, o autor da história e do roteiro, e é isso é fascinante – não eram arrecadadores de dinheiro, gerentes do orçamento, e sim artistas comprometidos até a medula com o projeto. A história e o roteiro são nada menos que brilhantes, extraordinários. Assim como a interpretação de todos os 12 atores que fazem os jurados, mas em especial a de Henry Fonda, esse ator excepcional, extraordinário. Ele não ergue a voz em um momento sequer, ao longo dos 96 minutos de duração do filme; não faz um gesto amplo, largo. É absolutamente contido. Sua voz, seus gestos são suaves; firmes, mas suaves. É uma interpretação para se tirar o chapéu.

Henry Fonda é o jurado número 8 – aqueles homens reunidos na sala não dizem seus nomes. Saberemos muito rapidamente quem eles são, suas profissões, seus traços básicos de personalidade – o roteiro, a direção e a interpretação dos atores vão compor as personalidades de forma rápida, efetiva, clara, firme. Mas não saberemos seus nomes.

angry2Com cinco minutos de filme, vemos que a imensa maioria dos jurados está convencida de que o réu é o culpado, que o rapaz de 18 anos de fato assassinou o pai com golpes de canivete. A maioria tem muita pressa de terminar logo aquilo ali e ir embora cuidar da vida. O jurado número 7 (interpretado por Jack Warden) tem no bolso entrada para o jogo de beisebol daquela noite, está aflitíssimo para cascar fora. O número 3 (Lee J. Cobb, na foto diante de Henry Fonda, com um canivete na mão), agitado, esquentado, nervoso, falando alto, tem toda a certeza do mundo, assim como o número 3 (E.G.Marshall), sentado a seu lado – sujeito, ao contrário do vizinho, calmo, frio, impassível, que sequer transpira.

Faz um calor brutal, o ventilador não funciona, as janelas são abertas mas o calor não passa, os homens estão suando – menos o jurado número 3 –, as camisas vão ficando empapadas, embora alguns mantenham ainda seus paletós.

Propõe-se uma primeira votação – a expectativa é de que a decisão será rapidíssima. Na primeira votação, 11 dizem culpado – todos, menos o jurado número 8, o personagem interpretado por Henry Fonda. E não é que ele tenha a certeza de que o réu é inocente; mas ele também não tem a certeza de que é culpado. Se alguém tiver uma reasonable doubt, uma dúvida racional, o réu não pode ser assassinado pelo Estado. 

Depois da imensa frustração inicial – pô, que saco, que merda, ao contrário do que esperávamos isso aqui vai demorar mais tempo –, surgirão todos os tipos de conflito entre aquelas 12 pessoas dentro da sala quente, abafada. E, na hora e meia seguinte, o diretor Lumet, o fotógrafo Boris Kaufman, o roteirista Reginald Rose e os 12 atores darão um show de cinema – num maravilhoso, bem feitíssimo, brilhante panfleto contra a pena de morte, os preconceitos de todos os tipos, o descaso, o desprezo pela vida humana. Uma lição de cinema e de respeito ao homem.

         Fracasso comercial da época, mais respeitado a cada ano que passa

O filme teve três indicações ao Oscar – melhor filme, melhor direção e melhor roteiro adaptado. Henry Fonda ganhou o Bafta como melhor ator. Lumet venceu o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim. No total, foram 13 prêmios e seis outras indicações.

Pauline Kael diz que “este engenhoso melodrama passado numa sala de júri provoca mais suspense que grande parte dos policiais de suspense”. “Tanto o roteiro de Reginald Rose (baseado na sua telepeça) quanto a direção de Sidney Lumet são tão à prova de erro que o filme tem cheiro de sucesso; mas foi um fracasso comercial. A psicologia social do filme é sintonizada para uma platéia culta.” 

Interessante a grande dama da crítica americana informar que o filme foi um fracasso comercial. OK, então foi um fracasso comercial na época do lançamento – mas é um daqueles filmes que resistem à passagem do tempo e que, na verdade, vão ganhando mais e mais status e respeitabilidade a cada década que passa.

aNGRY3Na lista dos dez melhores filmes sobre tribunal do American Film Institute, o filme está em segundo lugar, depois de O Sol Por Testemunha/To Kill a Mockingbird, de Robert Mulligan, baseado no romance de Harper Lee.

O livro 501 Must-See Movies diz: “Lumet está sem dúvida atacando o sistema legal americano e, apesar da composição bem uniforme do júri em gênero, raça e classe social, um número surpreendente de preconceitos e temas emergem dentro daquela sala. O réu é não-branco, e o racismo é um fator chave em muitas das justificativas dos homens para dar um veredito de culpado além de dúvida razoável. (…) Ao manter a ação em apenas um local, a platéia é brindada como uma experiência mais genuína, tornando-se totalmente envolvida no processo dessa monumental responsabilidade.”

O livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer dá informações interessantíssimas, que eu desconhecia. Conta que a história foi criada originalmente como uma peça feita para a TV, e apresentada ao vivo em 1954 pela CBS; durante décadas, inclusive, acreditou-se que a apresentação original havia se perdido, até que, em 2003, seria descoberta uma fita gravada com o programa.

Henry Fonda viu a apresentação na TV e ficou impressionado com a peça. “Reconhecendo um papel que se adequava com perfeição à sua sinceridade tranqüila e vendo a oportunidade de um filme emocionante, ele (Henry Fonda) o produziu do próprio bolso. Entregou a direção a Lumet, um dinâmico veterano do teatro de TV ao vivo, cuja experiência lhe permitiu – e ao diretor de fotografia Boris Kaufman, outro especialista em trabalhar em espaços limitados e em preto-e-branco – extrair a tensão galopante do roteiro bem amarrado de Rose e concluir o filme em menos de 20 dias.”

É muito bom também este outro trecho do 1001 Filmes: “A adorada e cativante estréia de Lumet não se envergonha de sua teatralidade, tornando sua intensidade claustrofóbica e tórrida em uma virtude. E cada ator deixa sua marca nesta vitrine de caracterizações excelentes.”

Leonard Maltin dá 4 estrelas, a nota máxima, e usa os adjetivos brilhante e formidável.

Bem, é preciso registrar que a telepeça de Reginald Rose teve uma refilmagem em 1997, feita para a TV, com o mesmo título original. De vez em quando passa na TV. Foi dirigida por William Friedkin, o diretor de Operação França e O Exorcista. O elenco tinha grandes nomes, belos atores. Jack Lemmon fez o papel que havia sido de Henry Fonda, George C. Scott, o que havia sido de Lee J. Cobb, e outros jurados foram interpretados por Armin Mueller-Stahl, James Gandolfini, Edward James Olmos, Hume Cronyn. Como era 1997, e já estávamos na era do politicamente correto, um negro, Courtney B. Vance, fez o papel do jurado no. 1, que no filme original havia sido de Martin Balsam, e uma mulher, a ótima Mary McDonnell, fez a juíza. Tudo muito bom, tudo muito bem – é um bom filme. Mas absolutamente desnecessário. Para que, meu Deus do céu e também da terra, tentar refazer um diamante lapidado?

         Um maravilhoso exemplo de coerência

Nestes 52 anos que se passaram desde 12 Homens e uma Sentença, Sidney Lumet nos brindou com mais de quatro dezenas de  filmes, diversos deles grandes filmes. Sua obra – uma das melhores do cinema mundial – é um exemplo maravilhoso de coerência. Jamais afastou pé da defesa de seu pensamento liberal, progressista, avançado. Imenso, gigantesco Sidney Lumet. Gostaria de ter muito mais filmes dele neste site. Por enquanto, eis os que estão aqui:

Mulher daquela Espécie/That Kind of Woman, 1959

Limite de Segurança/Fail Safe, 1964

Assassinato no Expresso Oriente/Murder on the Orient Express, 1974

Príncipe da Cidade/Prince of the City, 1981

Uma Estranha Entre Nós/A Stranger Among Us, 1992

Sombras da Noite/Night Falls on Manhattan, 1996

Inspeção Geral/Strip Search, 2004

Sob Suspeita/Find me Guilty, 2006

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto/Before the Devil Knows You’re Dead, 2007

12 Homens e uma Sentença/12 Angry Men

De Sidney Lumet, EUA, 1957

Com Henry Fonda, Lee J. Cobb, Martin Balsam, E.G.Marshall, Jack Warden, Ed Begley, Ed Binns, Jack Klugman

Roteiro Reginal Rose

Baseado em sua peça escrita para a TV

Fotografia Boris Kaufman

Produção United Artists

P&B, 96 min

R, ****

Título em Portugal: 12 Homens em Fúria

22 Comentários para “12 Homens e uma Sentença / 12 Angry Men”

  1. Eu não me canso de assistir a esse filme, que por acaso passou neste final de semana na TV daqui (AMC chanel). Eu sofro o mesmo calor que todos dentro daquela sala…toda vez que assisto.
    Como é lindo esse filme.
    De

  2. Utilizei este filme, e a versão com Jack Lemmon (na qual enxergo algumas virtudes…) em inúmeras aulas (em Universidades) a respeito de LIDERANÇA. O jurado no. 8 utiliza as mais sofisticadas técnicas de liderar pessoas – do extremo racional ao mais puro afeto – no momento certo, da maneira precisa. Observar a utilização dessas técnicas equivale a fazer um curso sobre liderança muito mais eficaz do que a maioria dos existentes no mercado!!! Acredito que centenas dos meus alunos devem muito de suas competências gerenciais a este filme!

  3. As pesquisas a respeito de inteligência em pessoas idosas apontam para a PRESERVAÇÃO da inteligência, contudo, com alterações substanciais da manifestação, decorrentes do declínio (natural) dos mecanismos de sensação e percepção. Em outras palavras: idosos permanecem inteligentes mas parecem, às vezes, mais “vagarosos”; por outro lado, podem desenvolver e ou acentuar notável capacidade para observar, analisar e interpretar detalhes. Essa faceta da inteligência do idoso é magistralmente explorada no filme – o ponto alto é a cena em que o jurado idoso aborda a questão das marcas dos óculos sobre o nariz de uma depoente. A cena é longa e proporciona uma notável aula a respeito do funcionamento dos mecanismos de pensamento de pessoas idosas (porém, absolutamente sãs). Na minha opinião, um dos momentos mágicos do filme e uma aula de direção e interpretação.

  4. Um dos meus filmes preferidos, simplesmente espetacular. É dos filmes da minha coleção de DVDs clássicos e obras-primas, que toda vez que estou sem porra nenhuma para fazer, reassisto para o meu mais puro deleite.

  5. Ótimo texto, Sérgio!

    O filme é uma obra-prima e já mostrou que resistirá ao tempo.

    Um título obrigatório.

    Abraço!

  6. Quando vi este filme pela primeira vez,ainda era rapaz e, não vi todo, devia estar mais entediado do que aquele juiz e não dei o devido e merecido valor que ele merece.
    É um filme maravilhoso.É um senhor filme.
    É um drama mas que também tem o seu suspense.
    Como pode um filme que tem todo seu desenrolar dentro de uma sala, um único cenário,prender tôda nossa atenção e, ser maravilhoso assim? Não dá nem para sentirmos esses 95 minutos passarem.
    Muito boa a decisão do jurado N8 ter inocentado o réu. Proporcionou todo aquele debate senão,o réu estaría condenado com 5 minutos de reunião e mostrou também nuances de cada jurado.Maravilhosa a perspicácia daquele velhinho quanto ao detalhe da marca dos óculos no rosto da senhora.Como a defesa
    não viu esse e outros detalhes? Ou de fato, não valia a pena ?
    Quando o fim de uma vida está nas mãos de um corpo de jurados, é preciso que eles façam o que foi feito naquela sala e, não que seja decidido em 5 minutos.
    Cinema de qualidade não necessita de efeitos especiais;ele é bom porque é bom,porque tem um diretor competente.E naquela época tinha cinema de qualidade aos montes.
    Assisti via online,nas locadoras não encontro
    filmes dessa data.Que sorte, pois assim posso assistir esta obra outras vezes.

  7. “Se você tem uma peça de sucesso, simplesmente filme. Não mexa.” Disse Hitchcock a propósito de “Dial M for Murder”. Acho que Lumet fez o mesmo aqui, não pensou nada em “arejar” o filme, tudo se passa numa sala. O resultado é impecável. Um brilho absoluto.

  8. olá, Sérgio! Telecine cult trouxe esse espetacular filme até mim. Embalada pelas 5 estrelas da indicação, fui ver (não tinha ainda lido seu comentário) sem ter ideia do que se tratava… muuuito bom! Surpreendente pelo texto, pelo desenrolar do roteiro, pelas atuações, enfim, vale ver!
    abraço

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