Les Girls


Nota: ★★★★

Anotação em 2008: Tem muito musical bom com uma historinha bem chinfrim, ou então praticamente sem história alguma. A rigor, o gênero não dependia de uma boa trama, ou simplesmente a dispensava. Ao contrário de tantos outros, Les Girls, de 1957, na época em que se encerrava o ciclo dourado dos musicais de Hollywood, e especialmente dos musicais da Metro, tem uma belíssima história, uma deliciosa trama.

Quero justificar a afirmação inicial. Feira de Ilusões/State Fair, o musical de Rodgers & Hammerstein, por exemplo, que teve uma versão em 1945 e outra em 1962: família do interiorzão profundo dos EUA vai participar de feira estadual – não chega a ser propriamente uma história assim rica, certo? Ao Sul do Pacífico/South Pacific, também de Rodgers & Hammerstein: jovem e ingênua enfermeira se envolve com coroa rico em ilha do Pacífico durante a Segunda Guerra. Desfile de Páscoa/Easter Parade, de Irving Berlin: dançarino escolhe nova parceira depois de ser abandonado pela anterior. A lista poderia continuar indefinidamente.

zzgirls3Ou seja: não era preciso uma grande história para ter um belo musical.

Pois este aqui tem uma deliciosa trama, e personagens interessantes, gostosas brincadeiras sobre características nacionais e de gêneros, diálogos inteligentes, afiados, uma atmosfera de sensualidade, safadeza, o tempo todo – apesar da época muitíssimo mais careta, 1957 – e aquele brilho de narrativa que mostra diversas e diferentes visões pessoais de uma mesma história.

Quando o filme começa, depois de uma deliciosa, inteligente e visualmente esplêndida apresentação, estamos diante de uma corte de Justiça de Londres, onde está sendo julgado um caso que atrai as atenções gerais e é manchete dos jornais. Uma Lady, Lady Sybil Wren (a inglesa Kay Kendall, madura, experiente, ótima), escreveu um livro autobiográfico e está sendo processada por injúria por uma rica francesa, Angèle Ducros (Taina Elg, uma jovem atriz finlandesa) por ter afirmado, num determinado capítulo, que Angèle tentou o suicídio ao se ver abandonada por um homem – não o marido francês rico que está ao lado dela no tribunal, e sim o amante americano Barry Nichols, o diretor da troupe de dançarinas Les Girls (interpretado por Gene Kelly), de que faziam parte as duas e mais a americana Joy Henderson (Mitzi Gaynor, jovem atriz de musicais, uma pin-up de pernas extraordinárias).

Na severa corte inglesa, o juiz e os advogados das duas partes, todos com aquelas perucas dos tempos de Cromwell, interrogam Lady Wren – e, sentada na cadeira das testemunhas, ela conta sua versão da história. Ela e Joy, alguns anos antes, eram duas das três principais dançarinas da troupe Le Girls; Barry, o sedutor diretor do grupo, que tinha acabado de perder uma dançarina para um marido rico, escolheu então a jovem Angèle, descrita como uma jovem ambiciosa, descaradamente descarada e topa-tudo-por-dinheiro; ela, Lady Wren, na época ainda a solteira Sybil, e a amiga Joy acolheram Angèle no charmoso apartamento que dividiam, e acompanharam o crescente envolvimento da recém-chegada com o chefe. A história contada por Lady Wren termina com a tentativa de suicídio de Angèle quando ela se viu abandonada por Barry e com o risco de perder também a possibilidade do casamento milionário com o noivo Pierre Ducros.

zzgirls6Terminada a narrativa de Lady Wren, temos que no dia seguinte será a vez de Angèle contar sua versão – e é aí que o filme revela que sua estrutura é a da mesma história contada por diferentes ângulos, como o Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell, As Confissões de Um Homem e de Uma Mulher Casada, a experiência revolucionária do francês André Cayatte nos anos 60, e Rashomon, de Akira Kurosawa, de 1950, que Martin Ritt transplantaria para o Oeste americano no também belo Quatro Confissões/The Outrage, de 1964.

Teremos a segunda versão da história, no depoimento de Angèle, uma história quase totalmente diferente – e, depois, uma terceira versão, também quase totalmente diferente das duas anteriores.

Nos momentos entre uma versão e outra, há rápidas tomadas das ruas de Londres, diante do tribunal, com as manchetes de jornais sensacionalistas falando sobre o desenrolar do julgamento e – numa bela sacada do diretor George Cukor -, um sujeito carregando um cartaz com a grande pergunta, em letras garrafais: “O que é verdade?”

Nas cenas finais, rapidissimamente, Cukor faz a sugestão de que nenhuma das três versões que vimos é exatamente a verdade.

Um brilho.

Já seria um brilho numa comédia. Num musical, então, é mais, bem mais do que se poderia esperar.

George Cukor, o grande diretor que passou para a história como o cineasta que sabia falar das mulheres, o cineasta da alma feminina, disse que o filme não era um musical, ou uma comédia musical, e sim uma comédia com números musicais. Taina Elg, a finlandesa que fez o papel de Angèle, conta isso num especial do DVD do filme, numa entrevista feita na primeira década do novo século.

zzgirls2Estava certo Cukor – mas, afinal, é só uma frase. O filme é tudo isto: um musical, uma comédia musical, uma comédia de costumes com números musicais.

Foi o último trabalho de Cole Porter, um dos maiores compositores da Grande Música Americana, ao lado dos irmãos Gershwin, Irving Berlin e a dupla Rodgers & Hammerstein. Cole Porter já estava doente (morreria em 1964, aos 73 anos, mas não comporia novas peças para o teatro e o cinema); um ano antes, em 1956, tinha sido lançado Alta Sociedade/High Society, outro musical só com músicas dele, com Bing Crosby, Frank Sinatra e Grace Kelly, na verdade a versão musical de Núpcias de Escândalo/The Philadelphia Story, de 1940, com, respectivamente, Cary Grant, James Stewart e Katharine Hepburn – dirigido, não por coincidência, por George Cukor.

Cole Porter compôs 15 novas canções para Les Girls, embora apenas cinco tenham sido apresentadas como números musicais no filme.

Todos eles são ótimos, mas um, em especial, é espetacular – o último, em que Gene Kelly brilha ao lado de Mitzi Gaynor. A coreografia é extraordinária, e extraordinariamente moderna. É a reprodução teatral de uma lanchonete americana da época; mais especificamente, é uma citação, uma gozação em cima de O Selvagem/The Wild One, o filme de 1953 em que Marlon Brando é um motoqueiro bobão introduzindo a moda dos casacos de couro preto com jeans apertados e quase tão justos quanto Deus. A coreografia deste número foi criada pelo próprio Gene Kelly, a seqüência é lindíssima, e a gozação ao filme de Marlon Brando e à juventude transviada e rebelde sem causa é hilária.

Este foi também um dos últimos (o antepenúltimo, para ser exato) da bela Kay Kendall (1926-1959). Ela está ótima fazendo uma Sybil sob quatro diferentes perspectivas – a da narrativa dela própria, as das duas outras narrativas apresentadas no tribunal, e a em que está, ela própria, presente nos dias da ação, os dias do julgamento do caso.

Este texto já está longo, mas ainda gostaria de acrescentar que Les Girls me parece hoje, vendo com a perspectiva do tempo (eu tinha visto o filme ainda garoto, em Belo Horizonte, e depois em 2003, antes de rever mais uma vez em 2008), uma peça importante na transformação do musical americano em uma outra coisa bem diferente daquela que era o padrão até a época. O filmusical era basicamente uma coisa de ficção/fantasia, de escapismo puro e simples, nos anos 30, 40, 50. No final dos anos 50, o gênero estava em declínio – em parte por cansaço da fórmula, em parte por causa das mudanças em curso no cinema e no comportamento, na sociedade, no mundo.

Ainda haveria musicais fic/fan e escapistas, é claro, a partir daí. Mas a época de ouro daquele tipo de musical americano estava acabando. A partir daí, os musicais grandes, impactantes, importantes, seriam completamente diferentes; seriam adultos, sérios, abordando temas duros, pesados, como racismo, guerra, nazismo, pobreza, marginalização, a proximidade da morte – como Amor, Sublime Amor/West Side Story (1961), Cabaret (1972), O Show Deve Continuar/ All That Jazz (1979), Chicago (2002) e até mesmo (por que não?) A Noviça Rebelde/The Sound of Music (1965).

Les Girls

De George Cukor, EUA, 1957

Com Gene Kelly, Kay Kendall, Mitzi Gaynor, Taina Elg

Roteiro John Patrick

Baseado em história de Vera Caspary

Canções de Cole Porter

Produção Sol C. Siegel, Metro Goldwyn-Mayer

Cor, 114 min

R, ****

Título em Portugal: As Girls

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