
(Disponível no YouTube em 12/2025.)
“Improvável mas magicamente romântico”, disse o Baseline, um banco de dados sobre filmes pré-IMDb. O diretor e os dois atores centrais conseguiram, mais uma vez, com o uso combinado de seus alentos, “transferir um sentimental pedaço de nada para um bom filme”, disse uma crítica sem assinatura na edição do New York Times do dia 28 de julho de 1929, assim que foi lançado Lucky Star, no Brasil Estrela Ditosa.
No mesmo New York Times, a crítica Janet Maslin deu uma maravilhosa definição já no título de texto que voltava a falar de Lucky Star em 1991: “Ingenuidade e sofisticação se unem em filme mudo de 1929”.
Naivete. A palavra inglesa que é um óbvio galicismo, uma derivação de naïveté, o substantivo para o que é naïf, naïve – como as pinturas ingênuas, inocentes, simples, quase pueris.
Sim, sem dúvida – ingenuidade. O filme de Frank Borzage com a dupla Janet Gaynor & Charles Farrell tem um forte – e estranho, desconcertante – tom de ingenuidade. Quase de história infanto-juvenil. E a heroína, Mary Tucker, é uma garotinha extremamente jovem, e extremamente ingênua. Não sabe absolutamente nada da vida – primogênita de uma mulher que cria sozinha cinco filhos, num pobre, quase absolutamente miserável casebre de área rural do interiorzão profundo dos Estados Unidos na segunda década do século XX, Mary não sabe sequer que as pessoas devem tomar banho, lavar as mãos, usar lenço para assoar o nariz. Não sabe sequer que o certo é não cometer pequeninos roubos, pequeninas mentiras.
Não sabe absolutamente nada da vida, e sequer fez 18 anos quando se torna amiga próxima de um homem bom que até rejeita um abraço dela ao saber que é menor de idade – para, logo em seguida, virar o objeto de desejo de um homem mau, um safado filho da puta.
Janet Gaynor tinha 23 anos quando interpretou essa garotinha Mary de quase 18 –, mas tudo indica que não foi necessário muito trabalho de maquiadores e cabelereiros para transformar a atriz de 23 anos em uma garotinha. Tinha mesmo um jeitinho de moça jovem demais essa atriz que foi uma das maiores estrelas de Hollywood no início dos anos 1930 – e foi a primeira, a primeiríssima a receber o Oscar de melhor atriz, por um conjunto de três filmes, na primeira, primeiríssima cerimônia de entrega das estatuetas douradas de um senhor sem cabelos e sem membro sexual, no dia 16 de maio de 1929.
Pois é: ingenuidade. Há sequências que até me deixaram constrangido, de tanta naïveté.
E no entanto, há várias, várias, várias tomadas e sequências da mais absoluta beleza, de uma plasticidade estarrecedora. Uma beleza estonteante, daquele jeito dos grandes, dos maiores, dos mestres dos mestres, tipo assim Carl Theodor Dreyer, Sergei Mikailovich Eisenstein. Aquela beleza dos mestres dos mestres que cineastas destes nossos tempos procuram imitar, como o sueco Magnus von Horn de A Garota da Agulha (2024) ou o alemão Michael Haneke de A Fita Branca (2009).
Ingenuidade e sofisticação, como sintetizou Janet Maslin.
Mas não é apenas na forma, na beleza plástica, que esse filme de jeito às vezes quase pueril surpreende.
Diacho: é um filme hollywoodiano de 1929, na fase da transição do mudo para o sonoro, do silent para o talkie, que mexe com temas como pobreza extrema e assédio sexual a menores de idade – e enfrenta de cara, e de maneira forte, que mexe profundamente com as emoções do espectador, a terrível condição de pessoa tornada paraplégica durante a guerra.
Hoje em dia, faltando pouco para ele completar um século, Lucky Star não é um filme para todas as audiências. Só quem sabe respeitar o cinema feito muitíssimo tempo atrás, ainda antes do som, e quem entende a importância fundamental, gigantesca, da produção de Hollywood gostará de ver o filme – que esteve absolutamente perdido, foi recuperado quase que por milagre, e hoje está disponível em cópia boa, legendada em português, no YouTube, “de grátis”, como dizem muitos paulistanos.

A garotinha põe água no leite e ainda tenta enganar o freguês
O começo do filme é uma bobagem terrível.
Passa na estrada diante do sitiozinho da sra. Tucker (o papel de Hedwiga Reicher) um pequeno ônibus com uma dezena de trabalhadores. Um homem que parece ser o chefe encomenda para ela alguns litros de leite, a serem levados até o lugar em que os homens iriam trabalhar no conserto de postes e fios.
A sra. Tucker manda sua primogênita, Mary – o papel de Janet Gaynor – preparar o leite e ir até o tal local para fazer a entrega. Mary coloca o leite em dois galões, batiza com um tanto de água, e leva até os trabalhadores. Na hora de pagar, o chefe da turma joga desdenhosamente uma moeda no chão, na direção da garota. Bem depressa, Mary pisa nela – e cobra o pagamento.
Existe um desentendimento eterno entre esse tal chefe, Martin Wrenn (Guinn Williams), e um de seus empregados, Timothy Osborn (o papel do galã Charles Farrell). Do alto de um poste, onde está trabalhando, Tim provoca o outro: – “Enganando uma garota, Wrenn?”
Enfurecido, Wrenn sobe no poste, e inicia, lá no alto, uma briga de socos com o empregado que ousou contestá-lo.

No meio da briga, Tim ouve, pelo fio, a informação de que o país entrou na guerra.
A coisa me pareceu sem lógica, mas é o que o filme mostra. Será que um dos fios era de telégrafo, e Tim entendeu a mensagem que passava em código Morse? Bem, mania de idiota da objetividade à parte, o fato é que Tim anuncia que o país entrou na guerra – a ação, portanto, se passava em 1917.
A notícia interrompe a briga dos marmanjos. Tim diz que agora mais que nunca ele tem que consertar aqueles fios. Wrenn desce rapidamente do alto do poste, anuncia que vão todos correndo se alistar. Ele e os trabalhadores entram na jardineira e se mandam, deixando Tim no alto do poste e Mary lá embaixo.
A garota se abaixa para pegar a moedinha que havia escondido sob seus pés. Do alto, Tim observa aquilo, entende o que aconteceu – desce, pega a menina, bota no colo e dá boas palmadas no traseiro dela. Arisca, Mary dá uma baita mordida na perna do sujeito e consegue fugir dele.
Um mau caráter que posa de rico, um homem bom e pobre
Estamos aí com uns 13 minutos dos 100 que dura o filme. Seguem-se sequências no front, na França. Tim e Wrenn estão servindo no mesmo batalhão, e a relação de chefe-subordinado continua, porque Wrenn é sargento e Tim, um soldado raso.
As sequências no front confirmam à exaustão o que aquela anterior já havia demonstrado claramente: Wrenn é um mau caráter, um filho da puta. É absolutamente egoísta, não tem princípio moral algum, e podendo abusar de mulher que passar à sua frente ele não pensa duas vezes, vai lá e abusa.
Tim é o exato contrário. É um homem bom, coração imenso, solidário, atencioso, educado – e de uma retidão de caráter absoluta.

Até fisicamente são o oposto um do outro. O ator que faz Martin Wrenn é feio – e compõe com perfeito aquele personagem sacana, safado, mau. Charles Farrell é um homem bastante bonito.
Em um momento em que Tim leva comida para os soldados nas trincheiras, em uma grande carroça, há um bombardeio inimigo, a carroça vira e esmaga suas pernas.
Após um ano em um hospital, logo após o fim da guerra, paraplégico, Tim volta à sua região. A casa em que ele vive fica perto da estrada pela qual Mary passa praticamente todos os dias para ir à cidadezinha mais próxima vender algum produto do pequeno sítio.
Os dois ficam amigos – e vão se apaixonando.
Wrenn, o mau caráter, também havia voltado ali para a região. E, depois que Tim ensina Mary a tomar banho, lavar o cabelo, o sujeito vai dar em cima da moça. E terá todo o apoio da mãe – entre um “aleijado”, como ela continuamente chama Tim, e um sargento, que se vende como homem rico, a sra. Tucker não tem dúvida alguma. Quer porque quer que a filha fique com o filho da puta.
O filme foi restaurado nos anos 1980
Há, nessa história simples, às vezes ingênua, naïf, às vezes surpreendente, um detalhe bem interessante: uma personagem que aparece muito pouco mas, na minha opinião, tem grande importância.
É uma garotinha, bem jovem mesmo, Flora Smith. Ela é interpretada por Gloria Grey, que tinha 20 anos quando o filme foi lançado, mas, mais ainda que a própria Janet Gaynor, tem a aparência de uma garota de uns 16.
Flora aparece apenas em duas ou três sequências, mas o espectador fica sabendo que o canalha desse Wrenn a seduziu, prometeu casar com ela, e em seguida, é claro, não quis mais saber. Isso não é dito expressamente, com todas as letras – mas é mostrado de forma bem clara, em boa sacada da roteirista Sonya Levien (1888-1960), uma russa radicada nos Estados Unidos, autora ou co-autora dos roteiros de O Grande Caruso (1951), Melodia Interrompida (1955) e Oklahoma! (1955), entre 80 títulos.
Achei isso interessante, um tanto ousado, corajoso, em um filme romântico do final dos anos 1920, quando o cinema começava a falar.

E aí vem um ponto fundamental deste Estrela Ditosa/Lucky Star: feito exatamente nos anos da transição do cinema mudo para o sonoro, o filme foi lançado meio mudo, meio sonoro.
O primeiro longa-metragem falado (e cantado), O Cantor de Jazz, teve première em Nova York em outubro de 1927. O período de transição durou mais de dois anos: no finalzinho de 1929, já não se lançavam mais filmes mudos nos Estados Unidos.
Foi exatamente nesse período de transição que Lucky Star foi produzido e lançado – ele estreou em Nova York em julho de 1929.
(Aproveito para registrar também que os três filmes que deram a Janet Gaynor o primeiro Oscar de melhor atriz da História também foram lançados durante os anos da transição do silent para o talkie – Aurora/Sunrise, de F.W. Murnau, Sétimo Céu/7h Heaven e O Anjo das Ruas/Street Angel, os dois últimos de Frank Borzage e com Charles Farrell, o diretor e o ator principal deste Lucky Star aqui.)
O filme teve duas versões finais. Uma totalmente muda, para o mercado externo – dá para inferir que os produtores achavam que boa parte das salas de cinema do exterior ainda não haviam sido adaptadas para o cinema falado – e outra, para distribuição no mercado dos Estados Unidos, parcialmente sonora, com alguns efeitos sonoros e algum diálogo.
Com o tempo, as cópias do filme se perderam.
É difícil, hoje, a gente admitir que isso possa acontecer – os produtores perderem os originais, as cópias enviadas para exibição sumirem. Mas acontecia, e não era muito raro.
Nos anos 1980, no entanto, pesquisadores descobriram, no Museu do Cinema da Holanda, em Amsterdã, uma cópia da versão muda. A partir dessa cópia, o filme foi restaurado, com a ajuda da 20th Century Fox (herdeira e continuadora da Fox Film Corporation, a produtora original), da Biblioteca de Cinema da UCLA (Universidade da Califórnia Los Angeles), da George Eastmam House e de três pesquisadores, Carol Olmstead, Brigilla Cooper e Paolo Cherchi Usai. Há um agradecimento a essas instituições e essas pessoas no final da cópia restaurada – com a adição de uma trilha sonora composta por Christopher Caliendo.
É uma cópia dessa cópia restaurada que colocaram no YouTube, e está agora à disposição de quem quiser.

A primeira e uma das mais jovens atrizes a ganhar o Oscar
Em um livro chamado Movies at the Age of Innocence, filmes na era da inocência, o crítico literário Edward Wagenknecht escreveu: “Seria difícil dizer se Janet Gaynor é mais lembrada por seus filmes mudos ou sonoros, mas seu espírito era aquele dos anos mudos, e ninguém poderia tê-los feito de forma mais agradável”.
O livro Actors & Actresses, de James Vinson, abre o verbete sobre Janet Gaynor (1906-1984) com essa citação – e prossegue: “Gaynor estrelou por mais tempo nos filmes sonoros do que nos mudos, mas suas caracterizações definitivamente foram formadas durante o período anterior; ela era doce e sentimental como apenas uma ingênua da era muda poderia ser, e era precisamente isso que as audiências dos Estados Unidos da Depressão queriam. Ela personificava a fofura, mas nunca era enjoativa ou ofensiva, e estava sempre sob controle.”
Quando levou para casa a primeira estatueta de melhor atriz, em maio de 1929, Janet Gaynor estava com 22 anos. Durante décadas ela foi a terceira atriz mais jovem a receber o prêmio, tendo à frente apenas Jennifer Lawrence (por O Lado Bom da Vida, 2012) e Marlee Matlin (por Filhos do Silêncio, 1986).
Janet teve nova indicação ao prêmio por seu papel em Nasce uma Estrela, de 1937, em que trabalhou ao lado de Frederic March. Aquela foi a primeira versão da história que Hollywood voltaria a fumar em 1954 (com Judy Garland e James Mason), 1976 (com Barbra Streisand e Kris Kristofferson) e 2018 (com Lady Gaga e Bradley Cooper).
Ela e Charles Farrell formaram uma dupla em nada menos que 12 filmes, entre 1927 e 1934. Meu, isso parece ser um recorde. Não me lembro de muitas duplas que tenham feito tantos filmes juntas. Katharine Hepburn e Spencer Tracy, talvez a dupla mais sensacional, mais fabulosa do cinema americano, fizeram nove filmes juntos.
Charles Farrell (1900-1990) tem 53 títulos na sua filmografia como ator, em uma carreira iniciada em 1923 e que durou até 1956, quando teve o seu próprio programa na então jovem televisão norte-americana, “The Charles Farrell Show”.

“Um vibrante pedaço de História do Cinema”
E vamos à crítica de Janet Maslin, “Naivete and Sophistication Join in a 1929 Silent”, publicada no New York Times em 1º de novembro de 1991, quando estava em cartaz na cidade a versão restaurada do filme lançado 62 anos antes.
“Feito em um tempo em que um cavalheiro do campo poderia afetivamente chamar sua querida garota de fazenda de Baa-Baa, o filme mudo de Frank Borzage de 1929 tem uma óbvia e charmosa ingenuidade. É também um trabalho de admirável sofisticação, tanto pelas habilidades de contador de histórias altamente desenvolvidas quanto pelas atuações notavelmente genuínas e tocantes que obteve de Janet Gaynor e Charles Farrell, que tinham uma grande química na tela bem antes que existisse um nome para essa coisa. Pense na apresentação de uma cópia de grande qualidade de Lucky Star, com acompanhamento musical ao vive, como uma ocasião especial. Melhor ainda, pense nela como um raro deleite.
“Lucky Star, que foi feito no breve período de transição entre os filmes mudos e sonoros, incluía umas poucas linhas de diálogo rapidamente adicionadas quando foi lançada ‘nas telas da Broadway’, como uma crítica de 1929 escreveu. Mas é abundantemente claro por esta versão muda, que foi recentemente localizado nas latas do Netherlands Film Museum em Amsterdã, que esses diálogos devem ter soados supérfluos, já que a história se desenvolve tão bem sem eles. a trama trata de Mary Tucker (Gaynor), uma garota alegre e desgrenhada que vive em uma paisagem rural de aspecto bem teatral, e dois homens que eventualmente vão competir pela sua atenção.”
Aqui Janet Maslin faz um longo relato sobre a trama – não tão longo quanto os meus, e com texto melhor, é verdade…
Depois de relatar até o final da história, a grande crítica explica que a sala Film Forum estava mostrando Lucky Star com dois tipos de acompanhamento musical ao vivo, um com Vince Giordano e sua Nighthawks Orchestra, com 11 instrumentistas, e outro com o piano solo de Steve Sterner. E ela finaliza com uma pérola de frase: “De qualquer dos dois jeitos, este é um vibrante pedaço de História do Cinema e um prazer inocente”.
Eu deveria encerrar com a bela frase de Janet Maslin, mas sou incorrigível. Volto àquela definição do filme feita pela Baseline
que usei na abertura desta anotação, “Improvável mas magicamente romântico”.
O adjetivo improvável seguramente se refere ao que vem no finalzinho da história, e aquilo é mais que improvável – é literalmente impossível. Mas, diacho, é um filme, uma fantasia, quase um conto de fadas, e é magicamente romântico – e então tudo bem, vá…
E, finalmente, agora para terminar mesmo, só uma coisa: a sequência em que Tim-Charles Farrell lava os cabelos empoeirados havia quase 18 anos de Mary-Janet Gaynor, em uma bacia colocada na varandinha de sua casa, é uma absoluta delícia. E a interpretação dessa moça que levou para casa o primeiro Oscar de melhor atriz da História na sequência por si só já vale o filme.
Anotação em dezembro de 2025
Estrela Ditosa/Lucky Star
De Frank Borzage, EUA, 1929
Com Janet Gaynor (Mary Tucker),
Charles Farrell (Timothy Osborn),
Guinn Williams (Martin Wrenn), Paul Fix (Joe), Hedwiga Reicher (Mrs. Tucker, a mãe de Mary), Gloria Grey (Flora Smith, a garota abusada por Wrenn), Hector V. Sarno (Pop Fry)
Roteiro Sonya Levien
Baseado em história de Tristram Tupper
Fotografia Chester A. Lyons, William Cooper Smith
Música da versão restaurada Christopher Caliendo
Montagem H.H. Caldwell, Katherine Hilliker
Direção de arte Harry Oliver
Produção William Fox, Fox Film Corporation.
P&B, 100 min (1h40)
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