
(Disponível no Amazon Prime Video em 7/2025.)
O Clube dos Milagres, co-produção Irlanda-Reino Unido de 2023, conseguiu reunir três grandes, extraordinárias atrizes – Maggie Smith, Kathy Bates e Laura Linney -, mais Stephen Rea. É uma comedinha com pitadas de drama sobre relações afetivas de gente comum, gente como a gente – esse tipo de coisa sempre bem-vinda, em meio a tanto super-herói de história em quadrinhos, tanto serial killer, tanto filme de ação para adolescentes dos 13 aos 93 anos.
É um filme simpático, sem dúvida alguma. Gostosinho. Tem o registro histórico de ter sido o último filme dessa fantástica, inigualável Maggie Smith, que morreria em setembro de 2024, aos 89 anos, apenas 11 meses depois do lançamento.
Trata de um tema interessante: a relação de um grupo de mulheres com a fé, a religião – no caso, já que as personagens são de uma pequena cidade da Irlanda, a Católica Apostólica Romana. E também de um outro tema importantíssimo: o preconceito, quase o banimento social das mulheres que ficam grávidas sem terem se casado.
Pena que a história me pareça um tanto fraquinha, com as personagens centrais não muito bem desenhadas. Mas esta, é claro, é apenas a minha opinião – pessoal e intransferível feito dor de dente. As indicações são de que muita gente gosta bastante do filme. Ele estava, por exemplo, com 83% de aprovação entre os leitores do site Rotten Tomatoes, no mês em que o vimos, julho de 2025.

Amigas vão ao Santuário de Lourdes, à espera de um milagre
O filme abre com um letreiro que diz “Dublin 1967’. Nos primeiros minutos, somos apresentados às quatro mulheres que são as personagens centrais da história. A primeira que vemos é Lily Fox (o papel de Maggie Smith, na foto acima); ela está visitando o local em que seu filho Declan morreu afogado, nos arredores de Dublin. Uma placa dá essa informação, com a data – 29 de setembro de 1927 – e a idade dele – 19 anos apenas.
Logo em seguida ficamos conhecendo Eileen Dunne – o papel de Kathy Bates. Eileen, matriarca de uma família numerosa, casada com Frank (Stephen Rea), um machista danado, está se pondo bonita, em vestido de festa, estampado, cheio de cores.
O vestido estampadão é idêntico ao que está usando Dolly Hennessy (Agnes O’Casey), uma mulher décadas mais jovem do que Lily e Eileen, mas vizinha e amicíssima das duas. Veremos um pouquinho adiante que as três vão participar juntas de um concurso de talentos na festa anual da paróquia do padre Dermot Byrne (Mark O’Halloran). Os vencedores do concurso ganham uma viagem em um pequeno ônibus ao santuário de Lourdes, na França, onde, para os católicos, houve a mais recente aparição da Virgem Maria, em 1858, diante da camponesa Bernadette.
Podem acontecer milagres com quem se banha nas águas de Lourdes – Dolly acredita piamente nessa antiga tradição difundida entre os católicos. Ela pretende levar com ela e com as duas amigas – caso vençam o concurso de talentos – o filho Daniel (Eric D. Smith), garotinho aí de uns 5 ou 7 anos, que nunca falou uma palavra.
Eileen também acredita em milagres – e espera que o banho nas águas de Lourdes a livre de um caroço que surgiu em seu seio.
Exatamente como Frank, também o marido de Dolly, George I(Mark McKenna), se opõe duramente aos planos da mulher de viajar até a França.
As três amigas e vizinhas vivem em uma pequenina cidade no interiorzão da Irlanda. Costumo prestar muita atenção a nomes de lugares citados nos filmes, mas não percebi qualquer menção ao nome da cidade em que vivem Lily, Eileen e Dolly. Provavelmente estava distraído, porque na internet afirma-se que a cidadezinha é Ballygar – e Ballygar, informa a Wikipedia, é um vilarejo miudérrimo, de apenas e tão somente 660 habitantes, em dado recente, de 2022. Fica 155 km a Oeste de Dublin, bem no centro da ilha.

Chrissie emigrara para os EUA 40 anos antes
A quarta personagem central da trama é Chrissie Ahearn (o papel de Laura Linney). O espectador a vê – logo depois das sequências que apresentam as outras três – viajando de táxi por aqueles 155 km, do aeroporto de Dublin até a cidadezinha em que nasceu.
Veremos que Chrissie havia deixado sua cidade exatos 40 anos antes, em 1927, portanto, e emigrado para os Estados Unidos – assim como já haviam feito dezenas e dezenas e dezenas de milhares de irlandeses. Nunca tinha voltado. Aquela era a primeira vez, e o motivo da viagem era o mais forte e o mais triste possível: vinha para o funeral de sua mãe, Maureen.
Maureen era amiga-irmã, carne e unha, de Lily, de Eileen e também da jovem Dolly. E, lá no passado, Chrissie e Declan, o filho de Lily, haviam sido namorados, apaixonadíssimos um pelo outro. Tinha havido algo entre os dois que o filme só vai revelar bem mais adiante. (E eu não vou relatar aqui porque entendo que seria um spoiler.) O que ficamos sabendo já no início da narrativa é que de repente Chrissie, ainda adolescente, decidira emigrar. Pouco depois, aconteceu de Declan se afogar.
Eileen, que havia sido extremamente próxima dos dois, que formava com um eles um trio que estava sempre junto, nunca perdoou Chrissie por ter resolvido fugir. E a culpava pela morte de Declan.
Quando o filme está com uns 30, 32 minutos dos 90 que dura, aquelas quatro mulheres, o garotinho Daniel filho de Dolly, o padre Byrne e mais algumas pessoas estão em um pequeno ônibus, rumo ao porto de Dublin e ao ferry-boat para a França.

No casting, há a questão das idades. E atrizes não irlandesas
A história deste The Miracle Club é de autoria de Jimmy Smallhorne, ator, diretor e roteirista dublinense que estreou em 1998 com 2by4, um drama sobre um trabalhador da construção civil em Nova York que é um gay não assumido. Smallhorne – que emigrou para os Estados Unidos e trabalhou lá na construção civil, como seu personagem – foi um dos autores do roteiro, o diretor e o ator principal daqule filme, que participou do Sundance, o festival de Cannes do cinema independente.
Segundo conta o IMDb, os produtores Joshua D. Maurer e Alixandre Witlin levaram quase 20 anos para conseguir transformar a história escrita por Jimmy Smallhorne em filme. O projeto chegou a ser comprado pela HBO em 2005, e o plano era que o próprio autor dirigisse o filme, com Maggie Smith, Kathy Bates, Joan Allen, Claire Danes e Brenda Blethyn no elenco. O projeto, no entanto, foi abandonado.
Os dois produtores continuaram procurando empresas que financiassem o filme. Depois de ouvirem diversas negativas, receberam acenos positivos da Lionsgate UK e da Embankment – que pediram que o roteiro passasse por várias mudanças. Trabalharam nisso o próprio Joshua D. Maurer e o roteirista Timothy Prager.
Maurer e Alixandre Witlin conseguiram fechar com Maggie Smith, Kathy Bates e Laura Linney, e contrataram para dirigir Thaddeus O’Sullivan, um diretor e roteirista veterano, da classe de 1947.

Quando finalmente estava tudo pronto para começar as filmagens, houve três novos adiamentos devido à pandemia de Covid!
Toda a longa demora acabaria causando prejuízos ao filme.
Fala-se – e isso é importante para compreender o passado dos personagens – que Eileen, Chrissie e Declan, o filho de Lily que morreu afogado em 1927, 40 anos antes da época em que se passa a ação, eram amigos inseparáveis. Achei aquilo muito estranho, porque Laura Linney, que faz Chrissie, é já é uma senhora – não é mais, é claro, aquela jovenzinha de Crônicas de San Francisco (1993), O Show de Truman: Truman Show (1998). Mas, diacho, ela não é da mesma geração de Kathy Bates, que faz Eileen. Kathy Bates já não era uma jovenzinha em Tomates Verdes Fritos (1991), ou Eclipse Total (1995).
Na página de Trivia sobre o filme no IMDb, há dois itens exatamente sobre essa questão:
* “Os personagens de Laura Linney e Kathy Bates são da mesma idade no filme, enquanto na realidade Laura Linney é 16 anos maios nova que Kathy Bates.” Acrescento as datas: Laura é de 1964, e estava portanto com 59 quando o filme foi lançado, em 2023. Kathy é de 1948, e estava para fazer 75.
* “Kathy Bates (Eileen Dunne) e Stephen Rea (Frank Dunne) tinham 74 e 77 anos durante as filmagens, e no entanto tinham seis filhos, que aparentam ter entre 10 e 21 anos. Isso se deve ao fato de que os produtores pretendiam fazer o filme quase 20 anos antes. Quando o projeto finalmente começou a ser retomado em 2021, em vez de definir um novo elenco com atores mais jovens, os produtores mantiveram a escolha original de 2005, mas eles tiveram que ser bastante trabalhados para parecer mais jovens.”
Apenas Laura Linney (na foto abaixo) não estava nos planos originais. Poderiam talvez ter escolhido outra atriz mais próxima da idade de Kathy Bates – mas o fato é que escolheram Laura Linney, e então há aí um problema.
E há mais uma questão no casting, que eu, é claro, reparei de cara. O IMDb também fala dele: “Houve algumas críticas moderadas na imprensa irlandesa porque duas das atrizes principais não eram irlandesas”.
Sim, é claro: Maggie Smith é inglesa de Essex, Kathy Bates é americana do Tennessee. Laura Linney é americana de Nova York, mas no caso dela até poderia se justificar sua escolha, já que sua personagem, Chrissie, emigrou adolescente para os Estados Unidos e viveu lá 40 anos… Não acho, de forma alguma, que só mulheres possam dirigir filmes sobre mulheres, ou negros fazer filmes sobre negros. De forma alguma. Meryl Streep já interpretou gloriosamente uma australiana, uma polonesa, uma inglesa, por exemplo… Mas, diacho, com tanta atriz irlandesa competente…
Agnes O’Casey, a bela jovem que interpreta a quarta das personagens centrais deste O Clube dos Milagres, Dolly, nasceu em Londres, de ascendência irlandesa. Um de seus bisavôs foi Sean O’Casey (1880-1964), dramaturgo conhecido como um dos primeiros a escrever sobre as classes trabalhadoras de Dublin.

Atenção: aqui vai um spoiler. Spoiler. Spoiler.
No mesmo ano deste O Clube dos Milagrees, Agnes O’Casey teve um papel pequeno mas importante no maravilhoso Pequenas Coisas como Esta, um drama sobre as infames Magdalene laundries, os conventos de freiras católicas que recebiam moças solteiras grávidas, as submetiam a trabalho semelhante ao escravo e vendiam seus filhos para famílias abastadas, em geral para o exterior.
Esse tema é abordado em vários filmes sobre a Irlanda. Não tem como evitá-lo.
E aqui vai um spoiler. O eventual leitor que ainda não viu o filme e conseguiu chegar até aqui deve parar de ler.
O motivo pelo qual, lá atrás, em 1927, a então adolescente Chrissie saiu de Ballygar e emigrou para o outro lado do Atlântico foi fugir das Magdalene laundries. Namorada de Declan, e solteira, ela estava grávida.
Maureen, a mãe dela, amiga-irmã de Lily, a mãe de Declan, provavelmente não faria esse absurdo de entregar a filha para as freiras. Mas, na dúvida…
Anotação em julho de 2025
O Clube dos Milagres/The Miracle Club
De Thaddeus O’Sullivan, Irlanda-Reino Unido, 2023
Com Maggie Smith (Lily Fox),
Laura Linney (Chrissie Ahearn),
Kathy Bates (Eileen Dunne),
Agnes O’Casey (Dolly Hennessy),
Stephen Rea (Frank Dunne, o marido de Eileen), Mark O’Halloran (padre Dermot Byrne), Eric D. Smith (Daniel Hennessy, o garotinho filho de Dolly), Mark McKenna (George Hennessy, o marido de Dolly), Niall Buggy (Tommy Fox, o marido de Dolly), Hazel Doupe (Cathy Dunne, uma das filhas de Eileen e Frank), Brenda Fricker (a voz de Maureen, a mãe de Chrissie). Lesley Conroy (uma freira)
Roteiro Jimmy Smallhorne & Timothy Prager & Joshua D. Maurer
Baseado em história de Jimmy Smallhorne
Fotografia John Conroy
Música Edmund Butt
Montagem Alex Mackie
Desenho de produção John Hand
Casting Maureen Hughes
Produção Larry Bass, Aaron Farrell, John P Gleeson, Oisín O’Neill, Alixandre Witlin, Zephyr Films, City Films Entertainment, Ingenious Media, Embankment Films, BCP Asset Management, Hianlo, City Films I, ShinAwil Productions
Cor, 90 min (1h30)
**1/2
