
(Disponível no YouTube em 12/2025.)
Em vários de seus belos e sensíveis filmes, como Mulheres da Noite (1948), Oharu, a Vida de uma Cortesã (1952),) e A Rua da Vergonha (1956), Kenji Mizoguchi fez as platéias examinarem a situação das mulheres na sociedade japonesa. É assim também em A Música de Gion, de 1953, apenas oito anos, portanto, após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, o país ainda se reconstruindo após os bombardeios.
O filme mostra mulheres de três gerações diferentes, todas ligadas ao mundo das gueixas – esse universo um tanto estranho, bastante difícil de ser compreendido por nós, ocidentais.
A Música de Gion mostra também que mesmo no Japão havia homens – e até mesmo mulheres – com dificuldade para entender e aceitar o fato de que as gueixas satisfazem todos os pedidos dos homens – mas não exatamente todos, porque não são prostitutas.
A bela, experiente, requisitada gueixa Miyoharu (o papel de Michiyo Kogure), uma das três mulheres de gerações diferentes que são as protagonistas da história, uma hora lá diz: – “Uma mentira de uma gueixa não é uma mentira real. É a pedra angular da nossa profissão. Nós não divertimos nossos clientes ao concordar com todos os seus pedidos?”

A jovem pede à amiga da mãe que a ensine a ser gueixa
A segunda protagonista da história é uma jovem de apenas 16 anos, Eiko (o papel de Ayako Wakao), que, na primeira sequência do filme, chega à casa de Miyoharu para pedir a ela que a guie na vida, que a ensine a ser gueixa.
Eiko é filha de uma gueixa que era amicíssima de Miyoharu, e havia morrido muito cedo. O pai da garota, um tal Sawamoto (Eitarō Shindō), era, antigamente, um frequentador das casas de chá em que Miyoharu e sua amiga prestavam serviços. Não havia se casado com a mulher que engravidou, nem assumiu a guarda da filha quando a mãe morreu – e assim Eiko havia sido criada por um tio, de quem ela não gostava.
Saíra da casa do tio e se apresentava a Miyoharu como sua única esperança na vida.
Fazer o que, né? Coração bom, boa pessoa, a gueixa recebe a filha da amiga em sua casa. E a coloca em uma escola de formação de gueixas.
Arcar com a formação de uma gueixa – o filme mostra clarissimamente – é algo caríssimo. Pagar pelo curso, e depois, sobretudo, comprar todas as vestimentas, os produtos de beleza, para fazer sua iniciação custaria uma fortuna. Fala-se em 300 mil ienes – em 1953. Não tenho a menor idéia de quanto seria isso hoje, nem em ienes, nem em dólares, e não interessa – o fato é que era uma fortuna, e Miyoharu se vê obrigada a pedir o dinheiro emprestado à dona da casa de chá que a contrata sempre para prestar serviços, madame Okimi (Chieko Naniwa).
Madame Okimi, naturalmente, é bem mais velha que Miyoharu – é a mulher da geração mais velha das três focalizadas na história.
Veremos que Madame Okimi, mulher de velha geração, de bem antes da guerra, tem aquela visão distorcida, errônea, de que uma gueixa deve satisfazer a todas as vontades dos fregueses, desde que eles paguem muitíssimo bem. Todas, sem exceção.

A gueixa é uma artista que entretém convidados em festas
Costumo dizer que a China não é um país – é um outro planeta, completamente diferente do nosso. Kate Wolf, aquela compositora e cantora maravilhosa, excepcional, que foi embora cedo demais, parece concordar comigo. Em uma de suas belas letras, para expressar a infinidade da complexidade das mulheres, ela diz que “na China ou no coração de uma mulher há lugares que ninguém conhece”.
Em termos de área, o Japão é uma merrequinha comparado à China, mas, como a vizinha e sempre inimiga, em muitas coisas parece um planeta à parte, cheio de coisas que ninguém entende.
Assim que terminamos de ver este belo filme, Mary foi à Wikipedia. O verbete “Gueixa” da maravilhosa enciclopédia gratuita é absolutamente gigantesco. Há trocentos detalhes, firulas, exceções – se o eventualmente leitor tiver interesse, está aqui, ó: https://pt.wikipedia.org/wiki/Gueixa. Transcrevo o início, o resumo, o lead sumário:
“Uma gueixa (芸者? ), pronuncia-se [gueisha], é uma artista tradicional japonesa cujas funções consistem em entreter em festas, reuniões ou banquetes, sejam exclusivamente femininos ou masculinos, ou mistos. Seu aprendizado geralmente começa na idade de quinze anos, ou às vezes em idades anteriores. Na região de Kinki, os termos geiko (芸妓? ) e, para aprendiz de gueixa, maiko (舞妓? ) são usados desde a Restauração Meiji. As gueixas eram bastante comuns nos séculos 18 e 19. Hoje eles ainda existem, mas seu número diminuiu.”
“Geisha, a member of a professional class of women in Japan…” começa o artigo na minha velhíssima edição da douta Encyclopedia Britannica, pela qual paguei, ali por 1976 ou 1977, em suaves prestações, o preço de um Fusca. Perdão pela tergiversação. Lá vai o início do verbete da Britannica:
“Membro de uma classe profissional de mulheres no Japão cuja ocupação é entreter homens, especialmente em festas de homens de negócio em restaurantes públicos. É um equívoco considerar as gueixas como prostitutas. A palavra gueixa significa literalmente ‘pessoa das artes’, e muitas delas cantam, dançam ou tocam instrumentos musicais, embora a maioria seja adepta apenas da arte de conversação. A ´principal função da gueixa na sociedade é fornecer uma atmosfera de elegância e alegria. As mulheres usualmente se vestem de forma exótica e têm maneiras delicadas, e conhecem não apenas o passado e sua elegância mas também as fofocas do momento.”

“Elas fazem parte do legado cultural do Japão”
Não sei que tipo de autoridade têm os redatores da enciclopédia gratuita e da enciclopédia que custava o mesmo que o Fusca para falar a respeito da cultura japonesa. Mas fiquei fascinado com o que diz uma professora do curso de gueixas no filme do grande Kenzi Mizoguchi.
“Os estrangeiros que visitam nosso país consideram que o Monte Fujiyama e as gueixas são os emblemas representativos do Japão. Entre elas, as mais belas e apreciadas são as jovens aprendizes do bairro de Gion, aqui em Kyoto. Elas são consideradas autênticas obras de arte. São jovens dançarinas de Gion, as gueixas. São o orgulho do país, como o teatro e a cerimônia do chá. Fazem parte do legado cultural do Japão. Por isso vocês devem se aplicar nos estudos todos os dias, com orgulho e dignidade, porque vocês serão os símbolos da beleza japonesa.”
E aí me permito aqui uma nova tergiversação.
É fascinante como Hollywood demonstrou fascinação pelo Japão e, em especial, pelas gueixas, logo depois que os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, em agosto de 1945, acelerando a rendição do Império Japonês e o final da Segunda Guerra. E a fascinação continuou ao longo das décadas seguintes. Alguns poucos títulos:
Casa de Bambu (1956).
Casa de Chá do Luar de Agosto (1956),
O Bárbaro e a Gueixa (1958),
Minha Doce Gueixa (1962),
Memórias de uma Gueixa (2005).

Dois clientes que confundem gueixas com prostitutas
Madame Okimi, a poderosa dona de uma casa de chá, empresta a Miyoharu os 300 mil ienes para os gastos com a garota Eiko. Algum tempo depois, encarrega as duas – a gueixa e a jovem aprendiz que já está àquela altura pronta para começar a trabalhar – de entreter dois clientes importantes dela, o empresário Kusuda (Seizaburō Kawazu) e o funcionário público Kanzaki (Kanji Koshiba).
Há, na relação entre os dois homens, elementos que levam o espectador a entender que tem corrupção ali. Kusuda tenta de todas as maneiras agradar ao funcionário Kanzaki, seguramente na esperança de que ele mexa pauzinhos para que o empresário ganhe um grande contrato do governo. A denúncia da corrupção me pareceu bem clara no filme – mas ela não é um elemento fundamental. O que mais importa é que o empresário sente uma forte atração pela garotinha Eiko, enquanto o funcionário se encanta absolutamente com a gueixa Miyoharu.
E Madame Okimi fará tudo para que as duas cedam ao avanço dos dois homens.
Esse, me parece, é o ponto que Kenji Mizoguchi mais quer realçar. O fato de que tanto os dois homens quanto uma mulher mais velha acham que as gueixas têm que fazer tudo, inclusive sexo, para agradar aos clientes.

“Uma mulher que diverte, entretém, mas não é submissa”
A Música de Gion se baseia em um romance de Matsutarō Kawaguchi (1899-1985), que foi autor de contos, romances, peças e roteiros para o cinema. Ele e o diretor Kenji Mizoguchi estabeleceram uma parceria ainda nos anos 1930, quando o escritor escreveu o roteiro de Crisântemos Tardios, em inglês The Story of the Last Chrysanthemums (1939), baseado em obra de outro escritor, Shôfû Muramatsu, sobre o mundo do teatro kabuki.
Mizoguchi filmou quatro obras de Kawaguchi além deste A Música de Gion: Ayen kyo (1937), Os Amantes Crucificados (1954) Contos da Lua Vaga (1953) e A Imperatriz Yang Kwei Fei (1955).
Interessante: embora o próprio Kawaguchi fosse também roteirista, não foi ele próprio que fez o roteiro deste A Música de Gion, e sim outro colaborador do diretor Mizoguchi em outros filmes, Yoshikata Yoda. Esse Yoda, por sua vez, escreveu os roteiros de cerca de 130 filmes, entre 1931 e 1989.
Em 2008, o New York Times incluiu A Geisha (como o filme foi chamado nos Estados Unidos) em sua lista de “Os Melhores Filmes de Todos os Tempos”. O famoso crítico do jornal Vincent Canby chamou A Geisha de “incrivelmente belo” e “compassivo mas completamente desprovido de sentimentalismo”.
Michael E. Grost, um estudioso da obra do cineasta, autor de The Films of Kenji Mizoguchi, escreveu: “O estilo visual de Mizoguchi é soberbo ao longo do filme, com cada cena envolvendo uma composição elaborada. (…) As cenas de rua enfatizam profundas perspectivas. Essas imagens profundas, de uma perspectiva da Renascença, evocam emoções que se estendem até o infinito, um sentido de passagem através do espaço. Há uma qualidade emocionante no estilo visual.”
Eis um trecho do que diz o Guide des Films de Jean Tulard sobre Les Musiciens de Gion, como o filme foi chamado na França: “Essa obra nos mostra a evolução dos costumes no pós-guerra através dos retratos de uma gueixa tradicional e de uma gueixa moderna. Mizoguchi testemunha a compaixão por essas mulheres (um mundo que era muito familiar a ele). Ao perigo que representa a deterioração pelo dinheiro, elas vão opor seu senso do dever e o verdadeiro significado de sua profissão. Mizoguchi as mostra como mulheres determinadas. Ele desenvolve a concepção que Eiko faz de sua profissão, uma mulher que diverte, entretém, e não é submissa, ao contrário do que deseja o homem. Quanto a Miyoharu, ela aceita se sacrificar para salvaguardar Eiko de um compromisso degradante. E termina por considerar Eiko como sua própria filha.”
É isso aí. Kenji Mizoguchi é grande, e este A Música de Gion é um belo filme.
Anotação em dezembro de 2025
A Música de Gion/Gion Bayashi
De Kenji Mizoguchim, Japão, 1953
Com Michiyo Kogure (Miyoharu, a gueixa),
Ayako Wakao (Eiko/Miyoei, a aprendiz de gueixa),
Chieko Naniwa (Okimi, a influente dona de salão de chá),
Seizaburō Kawazu (Kusuda, o empresário), Eitarō Shindō (Sawamoto, o pai de Eiko), Ichirō Sugai (Saeki, empregado de Miyoharu), Kanji Koshiba (Kanzaki, o servidor público corrupto), Sumao Ishihara (Kōkichi), Saburō Date (Imanishi), Haruo Tanaka (Ogawa, o cliente rejeitado), Kikue Mōri (instrutora na escola de gueixas), Midori Komatsu (O-ume), Emiko Yanagi (Kaname)
Roteiro Yoshikata Yoda
Baseado no romance de Matsutarô Kawaguchi
Fotografia Kazuo Miyagawa
Música Ichirô Saitô
Montagem Mitsuzô Miyata
Direção de arte Kazumi Koike
Produção Hisakazu Tsuji, Daiei Studios.
P&B, 85 min (1h25)
***1/2
Título nos EUA: “A Geisha”. Na França: “Les Musiciens de Gion”. Em Portugal: “Festa em Gion”.
