Uma Família de Dois / Demain Tout Commence

Nota: ★☆☆☆

(Disponível no Now em setembro de 2021.)

Uma Família de Dois, no original Demain Tout Commence, é a refilmagem francesa, feita em 2016, de um filme mexicano de 2013, Não Aceitamos Devoluções/No se Aceptan Devoluciones. Tem o simpaticíssimo, sempre alto astral Omar Sy no elenco, e por isso resolvemos ver.

O original mexicano, não sei, não vi, não dá para saber. A refilmagem francesa é, na minha opinião, uma grande bobagem. Apesar de Omar Sy e da garotinha Gloria Colston, 12 anos de idade quando o filme foi lançado, uma absoluta gracinha.

O filme é dirigido por Hugo Gélin, ele também um dos autores do roteiro e dos diálogos. Gélin, jovem parisiense nascido em 1980, foi o produtor, em 2013, de A Gaiola Dourada, um belo filme sobre um casal de imigrantes portugueses que teve a sorte de morar em um dos bairros mais exclusivos de Paris, como funcionários do condomínio. Bem mais recentemente, dirigiu os três últimos episódios da segunda parte da série Lupin (2021), os de número 8 a 10.

Por ser do cara que dirigiu parte da maravilhosa série Lupin, por ter Omar Sy como protagonista, e também por causa de Gloria Colston, vou escrever um comentário sobre o filme. Se não fosse por isso, ele poderia ser solenemente ignorado.

Mas então vamos lá.

Há um descompasso, um desequilíbrio, uma desarmonia imensa entre o tema, a história, e a forma com que ela é contada.

Uma mistura indigesta de fantasia com o real

A base da trama – o tal do fulcro, o coração da matéria – é assim:

Uma jovem inglesa muito jovem, insegura, incerta sobre o que quer da vida, mãe de uma garotinha resultado de um caso passageiro com um francês bonitão, simpático, charmoso, Samuel (o papel de Omar Sy, claro), de repente aparece diante do pai da criança, entrega a ele o bebè e desaparece.

Chama-se Kristin (o papel de Clémence Poésy).

Vai voltar. Mãe que abandona filho é como pensamento ruim, como viciado: sempre volta.

Kristin vai voltar, depois que Samuel criou sozinho a filha durante 10 anos– e vai pedir a guarda.

Vão parar na Justiça.

O eventual leitor que não tiver visto o filme poderá, com toda razão, pensar em Kramer vs. Kramer. Claro: no belo, doloroso, emocionante drama dirigido por Robert Benton, Joanna abandona o garoto Billy com o pai, some, desaparece – para, um monte de tempo depois, reaparecer e pedir na Justiça a guarda do filho que o pai criou sozinho.

Briga de pais na Justiça pela guarda dos filhos é uma das coisas mais sérias, mais tristes, mais apavorantes que a humanidade foi capaz de inventar.

Este Demain Tout Commence não gira em torno da questão da briga na Justiça pela guarda da gracinha da menina Gloria – mas inclui isso aí.

E no entanto é uma comédia escrachada.

Vai aí, sim, um descompasso, um desequilíbrio, uma desarmonia imensa entre a história dramática e a comédia escrachada – mas esse não é o pior problema do filme.

O pior descompasso, desequilíbrio, desarmonia do filme é entre a realidade – na qual ele toca quando mostra essa coisa de a mãe voltar e querer a guarda, a ida à Justiça – e o tom obviamente fantástico que tem toda a narrativa.

Todo o relacionamento entre Samuel e a garotinha Gloria, assim como todo o fantástico sucesso dele como dublê de cinema, são coisas de fantasia, de mundo do faz-de-conta, de algo muito, mas muito longe deste insensato mundo real em que nos botaram para viver.

Tudo acontece na lógica da fantasia, do faz-de-conta.

Ou melhor: quase tudo. Porque há toques de realidade que invadem o mundo fantástico que Samuel cria – a volta de Kristin, o fato de ela querer a guarda, o fato de ela ir à Justiça. A doença fatal.

Muita gente elogia bastante o filme 

E então não combina. É filme descompassado, desequilibrado.

E, durante a longa parte em que ele mergulha na fantasia, no faz-de-conta, tudo me pareceu, em vez de interessante, gostoso, agradável… bobo. Bocó.

Apesar de todo esforço do time grande de roteiristas para criar coisas bacanas, bonitas, engraçadas, gostosas.

Na verdade, perceber todo o esforço dos roteiristas para criar um clima legal me deixou cansado. Exausto.

Ah, sim, é preciso registrar: não entendi o título original, Demain Tout Commence, amanhã tudo começa. Porque, afinal, mostra-se que não foi mais possível haver amanhã, não foi possível começar nada amanhã.

Bem, também não compreendi o título escolhido pelos exibidores brasileiros, Uma Família de Dois. A família de Samuel e Gloria jamais foi de dois, já que Samuel criava a presença da mãe ausente o tempo todo – e ainda havia Bernie, o produtor de cinema que salva a vida de Samuel e, como ele próprio diz, é tão pai ou mãe de Gloria quanto os pais biológicos.

Vixe, e aí ainda entra, aos 46 minutos do segundo tempo, a questão de ser pai biológico ou não.

Credo. Que grande desacerto é este filme.

Mas tudo isso é apenas minha opinião. Procuro outras. No IMDb, um leitor que se identifica como philipfalzer deu nota 8 em 10 ao filme: “Que delícia assistir a um filme em que a situação é o contrário de um dos grandes clichês do cinema americano. Protagonista preto com melhores condições para criar uma criança, em que a mãe, branca, seria a pessoa problemática. Isso é raro nos filmes de Hollywood. Obrigado, França! Drama cômico com bons atores e um texto simples, mas que nos faz pensar sobre nossas responsabilidades. Um filme muito bonito!”

Um outro eleitor do IMDb, johnpierrepatrick, deu nota 3 em 10: “Este filme usa estereótipos e clichês, é previsível e tenta apelar para nossas emoções sem qualquer sutileza. Uma perda de tempo. Não consigo acreditar que tantos votantes estejam dando notas altas para ele.”

No site AlloCiné, que tem tudo sobre o cinema francês, a cotação média dos críticos de jornais e revistas é de 3,2 em 5, enquanto a média dos leitores do site é de 4,1 em 5.

A revista A Voir, A Lire deu ao filme 2 estrelas em 5. A crítica começa assim:

“Segundo longa-metragem, após Comme des Frères, do jovem realizado Hugo Gélin, e refilmagem da comédia mexicana Ni repris, ni échangé, de Eugenio Derbez, Demain Tout Commence tem tudo de uma gentil comédia familiar. Contudo, antes de poder descobrir todo o sabor, ele fará você passar por todas as gesticulações e os sorrisos com os dentes do lado de fora de Omar Sy. É claro que, antes de tudo, o clown Omar está lá para nos servir seu número de animador público que fez sua fama. Faz mentiroso irresponsável que namora todas as mulheres. Com certeza, seus fãs ficarão encantados, mas os outros correrão o risco de ficar entediados. Até mesmo Clémentine Célarié (a atriz que interpreta Samantha, a patroa de Samuel no início da narrativa) acabará perdendo a paciência. A chegada da criança e o fato de ele ter que cuidar dela vão permitir que Omar brinque com mais nuances, revelando, para nossa alegria, outras facetas do seu talento, entre o humor e o pudor.”

E conclui assim:

“Brutalmente, um final inesperado mas dramático nos deixa num pathos excessivo e incompreensível. Desajeitado e terno, com um roteiro desordenado, este filme acabará por encantar o público familiar que atrai com seu frescor e dinamismo.”

O que vale é a garotinha Gloria Colston

Na minha opinião, o que vale neste filme “desajeitado e terno” é a descoberta desta garotinha Gloria Colston, uma americana nascida em 2004, que interpreta a filha do negro francês Samuel e da branca inglesa Kristin.

A garota que faria o papel de Gloria precisaria falar tão bem o inglês quanto o francês.

O AlloCiné reproduz um relato do diretor Hugo Gélin sobre Gloria:

“Anda estávamos escrevendo o roteiro, e logo no início de suas pesquisas, meu diretor de casting me enviou um link para o site pessoal da pequena Gloria Colston. Achei o seu vídeo genial. A mamãe de Gloria em seguida me enviou seus testes, que achou super naturais. Nós fizemos com que ela viesse à França e eu me apaixonei imediatamente por ela. Ela tem uma verdadeira personalidade e um olhar extraordinário. Ela ouve com profunda atenção o que falamos com ela.”

Gloria Colston. Espero ainda ouvir falar dessa menina.

Anotação em setembro de 2021

Uma Família de Dois/Demain Tout Commence

De Hugo Gélin, França-Inglaterra, 2016

Com Omar Sy (Samuel),

Gloria Colston (Gloria, a filha)

e Clémence Poésy (Kristin, a mãe de Gloria), Antoine Bertrand (Bernie, o produtor), Ashley Walters (Lowell, o americano namorado de Kristin), Clémentine Célarié (Samantha, a patroa de Samuel no início), Anna Cottis (Miss Appleton), Raphael von Blumenthal (Tom), Ben Homewood (assistente de direção), Raquel Cassidy (a professora de Gloria), Howard Crossley (o juiz), Anabel Lopez (Jenny)

Roteiro e diálogos Hugo Gélin, Jean-André Yerlès, Mathieu Oullion, com a colaboração de Igor Gotesman

Baseado no filme “Não Aceitamos Devoluções/No se Aceptan Devoluciones”, de Eugenio Derbez, roteiro Eugenio Derbez, Guillermo Ríos, Leticia López Margalli

Fotografia Nicolas Massart

Música Rob Simonsen

Montagem Valentin Féron, Grégoire Sivan

Casting Michael Laguens

Direção de arte Emmanuelle Duplay

No Now. Produção Stéphane Célérier, Philippe Rousselet, Mars Films, Vendôme Production, Poisson Rouge Pictures, TF1 Films Production.

Cor, 118 min (1h58)

*

 

Um comentário para “Uma Família de Dois / Demain Tout Commence”

  1. Olá Sérgio,
    Acredito que a motivação das boas notas das pessoas sejam pelo astral que o filme pretende trazer com relação a algo dificil e complicado, que é a questão do abandono parental, nesse caso o da mãe e que reflete nas ações e atitudes que o pai tem que tomar mediante a esse intenso e repentino acontecimento em sua desregrada vida. O filme original do Eugenio Derbez traz situações mais reais para tudo o que acontece e merece ser visto, exatamente para entender a mudança de visão e estilo que o diretor francês quis tomar.
    Quando assisti, achei realmente algumas situações fantasiosas, mas percebi que o filme tem essa pretensão para suavizar um tema espinhoso. Espero que assista o outro e traga sua resenha para que eu consiga ver seu ponto de vista novamente.
    Um abraço

    Junior Rodrigues

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