Surpresas Convencionais / The Dark Horse

Nota: ★☆☆☆

(Disponível no YouTube em 12/2021.)

Surpresas Convencionais, no original The Dark Horse, produção de estúdio pequeno de 1932, tem Bette Davis no elenco, uma Bette Davis então muito jovem e muito loura, com apenas 24 anos de idade – mas já no décimo dos 124 títulos de sua carreira gloriosa. Foi por ela que resolvi experimentar o filme pouco conhecido.

Bette Davis é o segundo nome do elenco. O protagonista da história, Hal Samsom Blake, um espertíssimo chefe de campanhas políticas, capaz de eleger qualquer um, literalmente qualquer um, é interpretado por Warren William (1894-1948), na época um galã de sucesso, que, no ano seguinte, 1933, faria o papel de Dave the Dude, o gângster de boa alma de Dama por um Dia/Lady for a Day, de Frank Capra.

(E é interessante lembrar que, quando o próprio Capra refez seu filme, em 1961, foi uma Bette Davis então já idosa que interpretou a Annie das Maçãs; Dave the Dude foi então feito por Glenn Ford.)

É uma comédia, uma sátira, uma danada de uma gozação da política americana, da política partidária e das eleições estaduais. A trama é uma bobagem sem fim – mas a rigor o filme é pior do que simplesmente uma bobagem. Ao ridicularizar completamente o processo eleitoral e chamar os eleitores de imbecis, este The Dark Horse é um ataque à política, aos partidos e, ao fim e ao cabo, à democracia.

A convenção escolhe um completo idiota

Dark horse. Eu não conhecia essa expressão. Nada a ver com cavalo escuro. Significa candidato surpresa, candidato inesperado. O Dictionary of English Language and Culture da Longman especifica que é uma expressão usada nos Estados Unidos, especialmente na política: “uma pessoa numa competição sobre quem pouco se sabe, e que surpreende os outros por vencer”. E dá um exemplo: “Tsongas foi o dark horse dos candidatos democratas”.

É exatamente isso. O filme começa com uma manchete de jornal que diz: “Convenção Progressista em impasse pelo terceiro dia consecutivo”. Uma multidão de delegados do Partido Progressista está reunida em um grande auditório para escolher o candidato ao governo do Estado – e tudo está empacado. Mr. Wilson e Mr. White, os dois pré-candidatos, estão empatadinhos, cada um com os votos de 200 convencionais.

Uma jovem loura, Kay Russell, é a secretária executiva que auxilia os trabalhos da mesa diretora da convenção – o papel de Bette Davis.

Um grupo de partidários de Mr. Wilson (ou seria de Mr. White? Tanto faz. Não importa) tem uma idéia: e se lançarmos um dark horse, um candidato surpresa, um desconhecido? Pode dar uma mexida na cabeça dos delegados, pode dividir os delegados comprometidos com a candidatura rival.

Escolhem uma pessoa ao acaso, um convencional totalmente desconhecido, um tal de Zachary Hicks – e o lançam seu nome.

Os rivais resolvem dar alguns votos para o sujeito desconhecido, para atrapalhar o jogo. E todos os delegados, dos dois lados, tanto de Wilson quanto de White, acabam elegendo o tal Zachary Hicks.

Acontece que Zachary Hicks é um total de um absoluto idiota – um dos sujeitos mais broncos, menos dotados de inteligência que já passaram pela face da Terra!

Esse pobre coitado é interpretado por Guy Kibbe (1882-1956, na foto abaixo), um ator que, naquele ano de 1932, estava portanto com 50 anos, era gorduchinho, careca, rosto redondo, uma carinha perfeita para fazer um sujeito bobo, sonso.

Para entreter o público, duas personagens femininas

Os caciques do partido percebem imediatamente que Hicks, tadinho, é mais burro que uma porta – mas àquela altura não mais o que fazer. Ele havia sido eleito na convenção estadual do partido.

A espertíssima, loura e jovem secretária Kay Russell oferece a solução à cúpula do partido. Há um homem, diz ela, Hal Samsom Blake, que é o melhor chefe de campanha política do país, o melhor marqueteiro que existe. Ele ainda não é conhecido nacionalmente, mas já chefiou campanhas vitoriosas em alguns Estados.
Os caciques, claro, ficam felicíssimos com a sugestão. Maravilha, maravilha. E como fazemos para falar com essa sumidade?

Bem, diz a bela Kay, neste momento ele está na cadeia, por não ter pago a pensão alimentícia da ex-mulher.

Hal Samsom Blake (o papel de Warren William) logo é contactado pelos chefes do partido. A dívida é paga, ele é libertado, contratado – e vai conhecer o candidato. Leva um choque diante da imponência da burrice de Hicks, mas não é homem de desistir. Vai preparar um plano para tornar o homem conhecido de toda a população, para transformá-lo num sujeito simpático, o tipo perfeito para governar o Estado.

Como política é um assunto um tanto árido, mesmo quando tratado com galhofa, os roteiristas botaram mulher no meio. Na verdade, duas. Hal Samsom Blake é apaixonadão por Kay Russell, e ela por ele – só que, esperta, inteligente, não acredita muito no cara. Sabe que ele é um gênio como marqueteiro político, mas um enroladão quando se trata de questões românticas. Haja visto a mulher com quem ele havia se casado.

A mulher, Maybelle, é interpretada por Vivienne Osborne (na foto abaixo), mulher de presença forte na tela, capaz de enfrentar o duelo com o talento da jovem Bette Davis.

Maybelle é uma danada de uma sanguessuga. Não larga do pé do ex-marido, faz tudo para tirar a grana dele – e, mais tarde, ao perceber que o próprio candidato, o bobão do Zachary Hicks, vai se engraçar por ela, topará uma jogada sórdida de um candidato rival.

Há boas piadas – e momentos bem ridículos

É, portanto, uma história bem bobinha. Mas não há como negar que há algumas boas piadas, alguns momentos bem engraçados – embora haja também momentos que, em vez de engraçados, são de um ridículo atroz, uma imbecilidade abaixo de qualquer nível aceitável. Como, para citar só um deles, quando Zachary Hicks, vestindo trajes íntimos, camiseta e ceroula, com um penhoar feminino por cima, se enrosca no arame farpado de uma cerca.

O roteiro é assinado por Joseph Jackson e Wilson Mizner, com base em história de Joseph Jackson, Courtney Terrett e Melville Crossman. O que não me diz nada, pois jamais tinha ouvido esses nomes na vida. Mas o espantoso, e fascinante, é a informação, dada pelo IMDb, de que Melville Crossman é o pseudônimo do lendário, famosérrrimo produtor Darryl F. Zanuck (1902-1979), “um dos chefões do sistema de estúdios de Hollywood”, como define o próprio IMDb.

Zanuck foi também o produtor do filme, embora seu nome não apareça em momento algum dos créditos.

A assinatura de Zanuck como produtor e em especial como co-autor da história torna esse filme obscuro algo mais importante do que eu havia achado a princípio.

E é preciso admitir também que a personagem dessa Kay Russell é algo muito, muito à frente de seu tempo. Colocar uma mulher, uma jovem mulher, como uma secretária executiva competente, que trabalha mais e melhor que meio mundo num partido político e num comitê de campanha, em pleno ano de 1932, é algo para se aplaudir, sem dúvida alguma.

Mesmo que a moral da história seja tão imoral – a política não presta, os partidos são um pavor, o povo é idiota e não sabe votar.
Gostaria ainda de fazer dois ou três pequenos registros. O primeiro é que o filme optou por não falar de nenhum dos dois grandes partidos que dominam a política americana, o Democrata e o Republicano. Eles não são citados hora alguma. O partido que se dividia entre os senhores Wilson e White e acaba escolhendo Zachary Hicks como candidato ao governo estadual é o Progressista. E o competidor de Hicks, um tal de William A. Underwood (Berton Churchill), é do Partido Conservador.

Não sei se houve ou há nos Estados Unidos um Partido Conservador. Mas recentemente fiquei sabendo que houve, sim, um Partido Progressista. Foi criado como uma cisão do Partido Republicano em 1912 pelo ex-presidente Theodore Roosevelt, para concorrer com seu velho amigo e aliado William Howard Taft, do Partido Republicano. Taft venceu. Essa história é contada na bela série O Hóspede Americano (2021), de Bruno Barreto.

O candidato olha ostensivamente para a bunda da moça!

Não se fala hora alguma no nome do Estado em que se passa a história – o que, naturalmente, é uma boa maneira de dizer que aquilo poderia acontecer praticamente em qualquer um dos Estados americanos. Mas, por algumas referências en passant, o filme dá a entender que é um Estado do Sul – o Sul mais atrasado, menos desenvolvido – e mais do Leste. Algo como Alabama, Mississipi, Georgia.

E, finalmente, uma nota sobre o título escolhido pelos exibidores brasileiros. Surpresas Convencionais me parece um título meio mandrake, meio difícil de se entender. Se algo é convencional, ou seja, “consagrado pelo uso, tradicional”, que é como meu Dicionário Unesp de Português Contemporâneo explica o adjetivo “convencional”, então não é surpreendente, não é uma surpresa. Mas é que, claro, o “convencionais” do título se refere à convenção partidária – e portanto, a rigor, o título faz todo sentido. Mas isso depois que o espectador fica sabendo que ele ser refere a uma convenção partidária, não é mesmo?

Um título sem dúvida meio mandrake. Poderiam perfeitamente ter escolhido “O Candidato Surpresa” – mas isso seria exigir muito dos tituladores das empresas distribuidoras no Brasil…

Leonard Maltin deu ao filme 2.5 estrelas em 4: “Animada paródia política com o idiota (Guy) Kibbee concorrendo a governador com a ajuda do gerente de campanha (Warren) William e da colega de trabalho (Bette) Davis.”

O livro The Warner Bros. Story cita uma deliciosa frase que há no filme sobre o cérebro do senhor Hicks, dita, creio, pelo protagonista, o chefe de campanha/marqueteiro Hal Samson Blake: “Ele é tão burro que cada vez que abre a boca ele subtrai um pouco da soma total do conhecimento humano”.

Realmente é uma delícia de frase – que poderia perfeitamente ser aplicada ao sujeito que 57 milhões de brasileiros elegeram presidente da República numa época especialmente dark da História.

The Dark Horse foi produzido pela First National Pictures, uma empresa que começou como união de exibidores, donos de salas de cinema, e depois se transformou também em estúdio. Ela foi comprada pela Warner Bros., o que explica a existência de um verbete sobre o filme no livro The Warner Bros. Story. O verbete afirma:

“Um típico filme B (a ausência de close-ups indicando a falta de tempo), ele trazia todas as marcas registradas da eficiente linha de produção do estúdio com relação às suas obras de menor prestígio. A direção de Alfred E. Green, auxiliada pela inteligente fotografia de Sol Polito e a montagem que não perdia um milímetro de trabalho (de Owen Marks) marcavam a trama (um original de Darryl Zanuck, aliás Melville Crossman, Joseph Jackson e Courtenay Terrett, com roteiro de Jackson e Wilson Mizner), tirando dela muita graça e algumas boas atuações de Kibbee, Warren William e Frank McHugh. Bette Davis e Vivienne Osborne davam o toque feminino.”

O original diz “female interest” – o interesse feminino. É a expressão usada para dizer que num filme é sempre necessário ter a presença de mulheres para garantir que ele seja visto pelas pessoas, homens ou mulheres.

O que me leva a um último registro.

Lá pelas tantas, o candidato a governador Zachary Hicks, que é burro a não mais poder mas gosta de mulheres, olha fascinado para a bunda e para as pernas da ex-senhora Hal Samson Blake, o papel dessa bela Vivienne Osborne. Ele olha fascinado e nada, mas nada, nada discretamente. E mais de uma vez.

Isso é porque o filme é de 1932.  “Pre Code”, como se diz lá. Tal “indecência” não seria possível em 1934, quando o Código Hays, o conjunto de normais morais adotado pelos estúdios de Hollywood, passou a vigorar com total rigor.

Anotação em dezembro de 2021

Surpresas Convencionais/The Dark Horse

De Alfred E. Green, EUA, 1932

Com Warren William (Hal Samson Blake),

Bette Davis (Kay Russell)

e Guy Kibbee (Zachary Hicks, o candidato), Vivienne Osborne (Maybelle Blake, a ex-mulher de Hal), Frank McHugh (Joe, o braço direito de Hal), Sam Hardy (Mr. Black, o candidato oponente), Harry Holman (Mr. Jones), Charles Sellon (Mr. Green), Robert Emmett O’Connor (o xerife), Berton Churchill (William A. Underwood, o candidato oponente), Robert Warwick (Mr. Clark)

Roteiro Joseph Jackson, Wilson Mizner

Baseado em história de Joseph Jackson, Courtenay Terrett e Darryl F. Zanuck (sob o pseudônimo de Melville Crossman)

Fotografia Sol Polito

Montagem George Marks

Direção de arte Jack Okey

No YouTube. Produção Darryl F. Zanuck (não creditado), First National Pictures. Distribuição Warner Bros.

P&B, 75 min (1h15)

6/12/2021.

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