No Ritmo do Coração / CODA

Nota: ★★★★

(Disponível no Amazon Prime Video em 3/2022.)

Quando chegou à cerimônia do Oscar, em 27 de março de 2022, No Ritmo do Coração, no original CODA, já havia feito história como um dos filmes independentes mais aclamados e premiados dos últimos tempos. Entre sua estréia no Sundance Film Festival em janeiro de 2021 e a cerimônia do Oscar, colecionava nada menos de 56 prêmios, fora outras 136 indicações.

E prêmios importantes, alguns dos mais importantes que há, como o de melhor elenco do SAG, o Sindicato dos Atores, e o de melhor filme do PGA, o Sindicato dos Produtores. Os Baftas de melhor roteiro adaptado para a jovem Sian Heder, ela também a diretora do filme, e de ator coadjuvante para Troy Kotsur. No Sundance, os prêmios da audiência e do grande júri de melhor drama e o de melhor conjunto dado pelo júri.

Mas a consagração na 94ª cerimônia do Oscar transformou o filme em um absoluto fenômeno.

Levou as estatuetas mais cobiçadas do mundo do cinema em todas as três categorias para as quais foi indicado: a de ator coadjuvante para Troy Kotsur, a de roteiro adaptado para Sian Heder e a mais importante de todas, a de melhor filme do ano.

Até umas duas semanas antes da festa da Academia, era franco favorito ao prêmio de melhor filme Ataque dos Cães/The Power of the Dog, uma produção de cerca de US$ 40 milhões de dólares; a diretora é a consagradíssima neo-zelandesa Jane Campion, cujo O Piano, de 1993, teve oito indicações ao Oscar e levou três estatuetas. Tem no elenco grandes nomes, Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, e recebera a enormidade de 12 indicações.

Este No Ritmo do Coração, apesar de ser uma co-produção EUA-Canadá-França, a rigor é um filme independente, de orçamento baixo para os padrões americanos – cerca de US$ 10 milhões –, sem um único grande astro ou estrela. Um drama sobre uma família com três surdos, gente pobre, humilde, sem glamour.

Bateu o franco favorito Ataque dos Cães – e, de quebra, bateu também Belfast, do grande Kenneth Branagh, que seguramente deve ser um grande filme, o muitíssimo bem falado japonês Drive My Car, o incensado Duna de Denis Villeneuve, a refilmagem de West Side Story feita por Steven Spielberg. E ainda Não Olhe Para Cima, de Adam McKay, aquela absoluta maravilha.

Então é isso: é um filme que entrou para a História.

Para mim, para este espectador aqui, pessoalmente, No Ritmo do Coração tem lugar na história como o filme em que fiquei conhecendo Emilia Jones – e como o filme que me fez chorar, depois de muitos e muitos e muitos anos sem derramar uma lágrima.

Emilia Jones. Meu Deus, que talento!

A biografia dela no IMDb, o maior site enciclopédico sobre filmes que existe, começava assim, neste mês de março de 2022, antes da cerimônia do Oscar: “Emilia é mais conhecida por interpretar o papel principal de Ruby Rossi em CODA, que estreou no Sundance Film Festaval em 2021 e ganhou mais prêmios do que qualquer outro filme na história do Sundance.”

Se eu fosse o autor dos textos do IMDb, alteraria a sinopse do filme para algo como: “CODA passou para a História como um dos filmes independentes mais aplaudidos e premiados, inclusive com três Oscars – e por ter sido o primeiro a revelar o talento de Emilia Jones.”

A garota é a intérprete da família para o mundo

Ruby Rossi, a personagem que Emilia Jones interpreta, é a protagonista da história. Ela é uma CODA do título original – a sigla de child/children of deaf adults, filho/filhos de adultos surdos. Seus pais, Frank e Jackie, e seu irmão, Leo, são surdos, e, incapazes de ouvir, não aprenderam a falar. Quiseram os mistérios da genética que Ruby, a caçula, nascesse com a audição normal, assim como sua avó materna, que não aparece na tela, mas é mencionada algumas vezes.

Ruby aprendeu a falar com dificuldade, já que em casa não ouvia o som de palavras. Quando entrou na escola, falava de modo estranho, diferente – e as outras crianças reparavam muito nisso.

Agora uma bela moça de uns 17 anos, Ruby é a forma de contato de sua família com o mundo ao redor, a pessoa que vê o que eles dizem na linguagem de sinais, e vocaliza para o mundo o que foi dito.

Frank Rossi, o pai, é o papel de Troy Kotsur, o ator que viria a vencer o Oscar de coadjuvante. Jackie, a mãe, é interpretada por Marlle Matlin, a atriz mais conhecida do elenco, Oscar de melhor atriz por Filhos do Silêncio/Children of a Lesser God (1986). Leo, o irmão, é o papel de Daniel Durant – e todos esses três atores são de fato surdos.

Frank Rossi é pescador, assim como haviam sido seu pai e seu avô, e trabalha duro, duríssimo, no Angela Rose, seu barco de 17 metros entre a proa e a popa (“from the stern to the bow”, como dizia Caetano Veloso na bela “The Empty Boat”). Todo santo dia, o despertador toca às 3 horas da manhã no quarto de Ruby, e ela se levanta para acordar pai e irmão para irem os três pegar o Angela Rose e sair para o mar alto.

É bastante importante na história o fato de a família viver da pesca. Há toda uma parte da trama que mostra as duras condições de trabalho dos pescadores, e o fato de que eles, a família Rossi e todos os demais pescadores ali de Gloucester, Massachusetts, são obrigados a se sujeitar a vender o produto da pesca para uma única empresa, pertencente aos Salgado, Tony e Gio (John Fiore e Armen Garo, respectivamente), os quais estabelecem o preço.

E é interessante, fascinante mesmo ver que as condições de sobrevivência daquelas famílias ali do litoral de Massachusetts, um dos mais ricos Estados do país mais rico do mundo, nestes anos 2020, são bastante parecidas com as dos pescadores pobres, quase miseráveis, da Catânia, na paupérrima Sicília, pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial, mostradas no incensadíssimo La Terra Trema (1948), que o então jovem Luchino Visconti filmou com dinheiro do Partido Comunista Italiano e com a venda de quadros e jóias da condessa sua mãe.

Lá pela metade do filme, os Rossi acabam se insurgindo contra esse monopólio dos irmãos Salgado, com a ajuda de outros pescadores, e tudo isso é importante na história, no filme.

Mas o principal é Ruby. CODA é sobre Ruby.

Uma adolescente tímida, que sofre muito

Ruby é uma adolescente um tanto tímida, e muito distante da imensa maior parte das pessoas de sua idade, dos seus colegas de escola. Tem apenas uma grande amiga, colega de classe, Gertie (Amy Forsyth). Algumas colegas fazem bullying com ela, reclamam que ela chega à escola cheirando a peixe. Uma professora a trata mal por ela, exausta, dormir na carteira durante a aula.

Os Rossi não são miseráveis como as famílias de pescadores da Catânia em La Terra Trema, mas são pobres. Ruby acha que sua casa – que na realidade é ampla, e tem um bom quarto só para ela – é uma porcaria. Frank e Jackie, os pais, não facilitam muito as coisas para ela. Além de chamarem a atenção dos outros por serem surdos, têm comportamentos um tanto pouco usuais, como se pegarem apaixonadamente em público, ou botarem o rádio do carro a uma altura absurda. Numa sequência em que os pais vão pegá-la na escola, Ruby se mostra absolutamente envergonhada, embaraçada, enquanto todos os alunos da escola ficam prestando atenção ao carro do casal de surdos.

Numa sequência importante, Ruby dirá para Miles (Ferdia Walsh-Peelo), o garoto bonito da classe por quem ela tem grande atração: – “Você não pode imaginar o que é as pessoas rirem da sua família.”

Numa tirada esperta, a roteirista e diretora Sian Heder fez com que Miles, o rapaz bonito, “normal”, de família obviamente mais bem de vida que a de Ruby, tenha na verdade uma certa inveja dos Rossi – eles são pobres, mas são amorosos uns com os outros, são unidos, se respeitam, enquanto os pais dele, ao contrário, não se amam, vivem brigando.

O fato, porém, é que Ruby cresceu vendo as pessoas rindo de sua família. Convive na escola com garotas que reclamam do cheiro de peixe dela.

A coisa que ela mais ama na vida é a música, é cantar. Inscreve-se para o coral da escola – mas, quando o professor, Bernardo Villalobos, um tipo interessante, um mexicano fora dos padrões (o papel de Eugenio Derbez, na foto abaixo), pede para todos os inscritos cantarem “Parabéns a Você”, para que ele defina quem é tenor, quem é barítono, e assim por diante, e chega a vez de Ruby…

Ela é tomada pela vergonha, pela insegurança – e sai correndo da sala.

CODA é a refilmagem de uma produção francesa

A sequência em que Ruby não consegue cantar “Parabéns a Você” diante do professor e de seus colegas acontece quando CODA está ainda antes da metade de seus 111 minutos que passam depressa como sempre passa depressa o tempo durante os bons filmes.

E, já que finalmente cheguei ao fato fundamental da história – a ligação de Ruby com a música –, é bom lembrar que coda, em minúsculas, é um termo do universo musical.

Coda Parte final de um movimento, cujo propósito é servir de remate à peça”, explica o Dicionário de Música Zahar. “Em um movimento na forma sonata, por exemplo, segue-se à recapitulação e proporciona uma sensação conclusiva. Embora seja a palavra italiana que significa “cauda”, é considerada uma parte da estrutura musical, mais que um apêndice.”

CODA, filhos de adultos surdos. Coda, parte final de um movimento.          Um belo achado esse título que a diretora Sian Heder escolheu.

Como é um filme americano – uma co-produção EUA-Canadá-França, uma produção independente, mas a rigor um filme americano –, dá para o espectador imaginar, já quando Ruby, envergonhada, foge correndo da primeira aula do professor Bernardo Villalobos, que no final tudo tudo vai dar pé, como diz Gilberto Gil na sua versão para o português de “No Woman, No Cry” de Bob Marley.

Afinal de contas, como disse – com ironia, graça e brilho – a diretora francesa nascida no Mõnaco Danièle Thompson, através de uma personagem interpreta por Juliette Binoche em Fuso Horário do Amor/Décalage Horaire (2002), nos filmes americanos “os pobres ficam ricos, os ricos têm uma vida dura, os sem-documento encontram os documentos, as guerras terminam, os mortos voltam a viver e as putas se casam com milionários”.

Pois é. Só que este CODA é a refilmagem de uma co-produção França-Bélgica de 2014, La Famille Bélier – e, por todas as indicações, a história é uma adaptação bastante fiel do original.

Eu não tinha ouvido falar de A Família Bélier até ver este No Ritmo do Coração. Foi dirigido por Éric Lartigau, com base em um roteiro de Victoria Bedos e Stanislas Carré de Malberg, em cima de uma idéia original de Victoria Bedos, com adaptação do diretor Éric Lartigau e Thomas Bidegain.

Karin Viard interpreta a mãe, François Damiens interpreta o pai, Luca Gelbert, o filho e a garota Louanne Emera, a protagonista, a jovem que no original francês se chama Paula, leia-se Polá, delícia de nome. Leio, – nem tão surpreso assim, pois a gente se acostuma às imbecilidades do excesso do politicamente correto – que houve críticas aos realizadores de La Famille Bélier pelo fato de que apenas o ator Luca Gelberg é surdo na vida real.

Ah, meu, vai dar… Que absurdo!

Esse povo da patrulha radical do politicamente correto deve ter elogiado a refilmagem nesse ponto, já que os três surdos são representados por atores surdos.

Gostaria de falar de algumas semelhanças entre o filme original e esta refilmagem americana. Mas é bom avisar que – embora eu não vá contar propriamente o fim do filme, haverá informações aí que são spoilers para quem não tenha visto nenhum dos dois.

Então fica o aviso: quem não viu os filmes deve parar por aqui.

Atenção: a partir daqui há spoilers.

Gostaria, é claro, de ter a oportunidade de ver La Famille Bélier. Não sei se ele está em algum streaming que assino; vou procurar. Mas dá para a gente se informar na internet e até ver, no YouTube, algumas coisas do filme – inclusive a sequência climática em que Paula Bélier-Louanne Emera se apresenta diante da banca examinadora da escola de música.

A sequência do filme americano é bastante, mas bastante parecida com a do original francês. Exatamente como Paula Bélier-Louanne Emera, Ruby Rossi-Emilia Jones canta acompanhada apenas pelo piano – no filme americano, do piano do professor Bernardo Villalobos; seguramente, no filme francês o pianista é, como no americano, o professor dela.

Exatamente como no francês, no filme americano é ali pelo segunda estrofe que a garota passa a, ao mesmo tempo, simultaneamente, cantar e expressar na linguagem de sinais o que a letra está dizendo – e foi aí, nesse momento, que este velho cinéfilo aqui chorou quase feito uma criança, enquanto, ao meu lado, Mary se debulhava em lágrimas. Nela isso é comum – até beijo de novela a faria chorar, para citar Zeca Baleiro, caso ela visse novela. Comigo, não, isso não é de forma alguma comum, muito antes ao contrário. Não choro nunca – mas chorei quando Ruby Rossi-Emilia Jones, tendo percebido que sua família havia, sorrateira e desobedientemente, entrado no teatro, e sentado lá em cima, no segundo andar, começou a mostrar na língua de sinais o que dizia a letra da canção que ela cantava e eles não ouviam.

Exatamente como na refilmagem, no filme original os professores da banca examinadora, ao verem que a candidata a uma vaga está fazendo aquilo, olham para trás, para verificar se há alguém no teatro até então vazio, e aí se deparam com as três pessoas lá em cima.

Exatamente como no filme original, a jovem atriz que interpreta a protagonista do filme canta com sua própria voz – sem dublagem. É Emilia Jones que canta todas as músicas que Ruby Rossi canta, assim como é Lounne Emera que canta as músicas que Paula Bélier canta.

As jovens garotas cantam canções antigas

E aqui eu vou falar das canções. Não é propriamente uma tergiversação, diacho, já que a protagonista da história ama mais que tudo a música, tem o dom da música na garganta. Não é tergiversação – mas, quando se trata de música, diabo, eu costumo voar longe.

Como adaptar uma história francesa para uma realidade americana? É óbvio que as canções não podem ser as mesmas. As canções que emocionam a garota francesa Paula Bélier evidentemente, obviamente não são as canções que emocionam a garota americana Ruby Rossi. A canção que cada uma escolhe para cantar diante da banca examinadora não pode ser a mesma.

Pelo que deu para eu perceber, pelas informações disponíveis, pelos trechos do filme original que estão no YouTube, até nisso a refilmagem americana foi extremamente fiel ao francês, no espírito, no clima.

A canção que Paula Bélier apresenta diante da banca é “Je Vole”, de Michel Sardou, cantor, compositor e ator bissexto nascido em Paris em 1947. Um velhinho, portanto. Não tão velho quanto Georges Moustaki, o meu compositor francês preferido, de 1934, ou o grande ídolo de Moustaki, Georges Brassens, de 1921, ou Gilbert Bécaud, de 1927, ou Charles Trenet, o mais velho desses todos, de 1913. Mas da mesma geração de Françoise Hardy, que é de 1944, de Johnny Hallyday, de 1943, de Sylvie Vartan, de 1944. Os grandes nomes da música francesa que surgiram quando eu era garoto – bem próximos em idade dos grandes ídolos todos, de Bob Dylan a Chico Buarque, de John Lennon e Paul McCartney e George Harrison a Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, de Joan Baez a Nara Leão, Gal Costa, Maria Bethânia.

“Je Vole” é uma beleza de canção. Embora goste muito da chanson française, eu não a conhecia – mas é bem fácil perceber que ela foi muito  marcante para toda uma geração. Lançada em 1978, foi um grande sucesso. A letra é barra pesada – é como se fosse o bilhete de suicídio escrito por um adolescente para seus pais: “Mes chers parentes / Je pars / Je vous aime mais je pars / Vous n’aurez plus d’enfant / Ce soir / Je n’ m’enfuis pas, je vole / Comprenez bien, je vole, Sans fumée sans álcool, / Je vole je vole”. Meus queridos pais, eu parto. Eu amo vocês, mas eu parto. Vocês não terão mais seu filho nesta noite. Não estou fugindo, eu vôo. Entendam, eu vôo. Sem fumo, sem álcool, eu vôo, eu vôo.

Para o filme, a letra de Michel Sardou e Pierre Billon (a melodia é de Sardou) foi adaptada, para parecer que a narradora está apenas saindo de casa, indo morar um tempo longe dos pais – exatamente como a protagonista da história vai deixar os pais sem sua intérprete para mudar para uma cidade grande e estudar música.

É óbvio que não teria qualquer sentido uma garota americana cantar essa música, que não é nada conhecida no país. Teria que haver aqui, como a rigor tem que haver sempre, não uma tradução literal, mas uma adaptação. Teria que ser escolhida uma música muito conhecida dos americanos, e que fosse belíssima, fortíssima, importantíssima.

Isso, na verdade, é fácil.

Há talvez uma dezena de canções americanas belíssimas, fortíssimas, importantíssimas, compostas quando os pais de Ruby Rossi eram bem jovens – da mesma maneira com que “Je Vole” foi importante para as gerações que vieram antes de Paula Bélier.

A diretora Sian Heder fez a escolha perfeita. Não poderia haver canção mais marcante, mais emocionante, mais fundamental para ser apresentada diante da banca examinadora do Berklee College Music de Boston do que “Both Sides Now”, de Joni Mitchell.

A sequência em que a garotinha de uns 17 canta a canção que fecha o segundo álbum de Joni Mitchell, Clouds, lançado em 1969, é de uma beleza rara. É emocionante. É de fazer chorar frade de pedra.

Há muitos jovens que sabem, sim, o que é bom

Me estendo ainda mais um pouco sobre o tema música, canções.

Pode ter havido críticos que entortaram seus narizes empinados para o fato de Ruby, assim como sua antecessora francesa Paula, ter escolhido cantar uma canção mais antiga.

Ora – poderiam dizer jovens críticos com seus narizes empinadérrimos –, garotas de hoje em dia não conhecem músicas antigas. Não dão a menor importância para coisa alguma que veio antes de elas nascerem.

E no entanto não poderia haver avaliação mais falsa do que esta.

Há dezenas e dezenas e dezenas de exemplos de que os jovens não são tão idiotas, tão pouco informados, de tanto mau gosto quanto muita gente acredita.

Há um porrilhão imenso de jovens sensíveis, inteligentes, que sabem que a História do Cinema não começou com Quentin Tarantino e que há coisa melhor na música do que rap ou hip hop.

O YouTube está absolutamente cheio de provas disso. Nos últimos meses, tenho visto e revisto e revisto de novo este belo exemplo aqui: o grupo SYA, três jovens garotas aí na faixa dos 20 anos, cantando “Helplessly Hoping” exatamente como Crosby, Stills and Nash gravaram em seu disco de 1969. Mas é claro que é apenas um exemplo entre mil.

Some o som – e o espectador sente o que os pais sentem

Há outro momento absolutamente impressionante em No Ritmo do Coração. É uma coisa genial, brilhante – embora seja, ao mesmo tempo, um tanto óbvia, um tanto simples. Na verdade, penso agora, é uma daquelas coisas que são o ovo de Colombo – simples, óbvio, e ao mesmo tempo de fato genial, brilhante.

É quando há a apresentação do coral no teatro da escola para os pais dos alunos. Lá estão, no meio do platéia, os três surdos – pai, mãe e irmão de Ruby. A grande amiga dela, a simpática Gertie, que está namorando Leo, o irmão da garota, está sentada junto com eles – e é a única que ouve quem está cantando.

Não sei se o filme francês original tem exatamente isso, mas não importa tanto.

O fato é que, no meio do dueto de Ruby e Miles (eles cantam juntos, creio que é esta, “You’re All I Need To Get By”, de Nick Ashford- Valerie Simpson), o filme tira o som.

Passamos a ver o que está acontecendo exatamente como estão vendo o pai, a mãe e o irmão de Ruby.

Eles vêem que sua garota está lá no palco, em absoluto destaque, escolhida entre todas as alunas da escola para fazer um dueto. Eles olham em volta, eles vêem que as pessoas estão com expressões de quem está gostando, admirando, curtindo a apresentação.

Mas eles não têm a menor idéia do que exatamente está acontecendo.

Quando, mais tarde, a família chega em casa, Frank, o pai, pergunta para a filha: – “Essa canção que você cantou… É sobre o quê?”

Seres humanos que nasceram sem o dom da audição – ou também da fala, ou da visão.

Children of a Lesser God, o título do filme que deu a Marlee Matlin o Oscar de Melhor Atriz – o único Oscar de melhor atriz, até hoje, que eu saiba, para uma pessoa nascida sem um dos cinco sentidos. Filhos de um Deus menor.

“Deus sabe o que faz, e por isso a criança nasceu cega”, escreveu o contista mineiro Luiz Vilela, numa explosão de ódio que o mais indignado espanhol anti-religião assinaria com prazer.

Numa canção extraordinariamente bela, “The Dream Song”, que Ruby poderia perfeitamente ter cantado diante da banca examinadora, se “Both Sides Now” não fosse tão mais conhecida, Joan Baez escreveu versos que ficaram pipocando na minha cabeça enquanto rolava o filme:

“I had a dream (…) Oh what a dream, beyond the realm of why / Pretty little beings beneath the yawning sky / Speaking of God as though they could define / Music to the deaf and color to the blind / Or God to man”

Falando de Deus como se fosse possível definir música para os surdos, ou cor para os cegos. Ou Deus para os homens.

Anotação em março de 2022

No Ritmo do Coração/CODA

De Sian Heder, EUA-Canadá-França, 2021

Com Emilia Jones (Ruby Rossi)

e Troy Kotsur (Frank Rossi, o pai), Marlee Matlin (Jackie Rossi, a mãe), Daniel Durant (Leo Rossi, o irmão), Eugenio Derbez (Bernardo Villalobos, o professor), Ferdia Walsh-Peelo (Miles, o colega), Amy Forsyth (Gertie, a grande amiga),

e John Fiore (Tony Salgado), Armen Garo (Gio Salgado), Lonnie Farmer (Arthur), Kevin Chapman (Brady), Anilee List (garota do coral parecida com Adele), Stone Martin (garoto do coral parecido com Harry Potter), Stephen Caliskan (garoto alto do coral), Amanda Bradshaw (garota tímida do coral), Kayla Caulfield (garota desafinada do coral), Owen Burke (Jimmy), Lance Norris (Chubs), Jared Voss (John Kaufman), Emilia Faucher (Misha)

Roteiro Sian Heder

Baseado no filme “La Famille Belier”, roteiro e adaptação de Victoria Bedos & Stanislas Carré de Malberg & Éric Lartigau & Thomas Bidegain

Fotografia Paula Huidobro

Música Marius De Vries

Montagem Geraud Brisson

Casting Casting Deborah Aquila, Tricia Wood, Lisa Zagoria

Design de produção Diane Lederman

Produção Fabrice Gianfermi, Philippe Rousselet, Jérôme Seydoux, Patrick Wachsberger, Vendôme Pictures, Pathé Films, Picture Perfect Federation.

Cor, 111 min (1h51)

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