O Destino de uma Nação / Darkest Hour

Nota: ★★★½

Darkest Hour, no Brasil O Destino de uma Nação (2017), do jovem talentosérrimo Joe Wright, defende uma tese: a de que foi Winston Churchill que fez o Reino Unido lutar contra a Alemanha nazista. Foi obra dele – e ele teve que enfrentar dura oposição de muita gente que preferia tentar um acordo de paz com Adolf Hitler.

De maneira mais ampla, portanto, Darkest Hour defende a tese de que foi em boa parte por causa daquele homem que o nazismo acabou derrotado.

Assim, o título inventado pelos distribuidores brasileiros não só foge imbecilmente do sentido do original como também é incorreto, porque o que se definiu, naqueles apavorantes dias de maio de 1940 mostrados no filme, não foi o destino de uma nação – foi o destino do planeta. Da civilização.

O que o filme demonstra, a tese que o filme defende é que o mundo viveu ali – como dizem os títulos usados na França, na Itália, na Espanha, em Portugal – Les Heures Sombres, L’ora Più Buia, El Instante Más Oscuro, A Hora Mais Negra.

E saiu das trevas graças basicamente, principalmente a um homem.

Jamais foi questionada a importância de Winston Leonard Spencer-Churchill na História, nem foi subestimado seu papel decisivo na luta dos Aliados contra o Eixo na Segunda Guerra Mundial. De forma alguma. Diversos livros e filmes já mostraram isso. Para ficar apenas em exemplos bem recentes, a figura de Churchill é bem mostrada na primeira temporada da esplendorosa série The Crown, de 2016, e a retirada das forças aliadas de Dunquerque – episódio que tem importância fundamental no filme – foi retratada mais uma vez, ainda mais uma vez, em Dunkirk, extraordinária obra de Christopher Nolan lançada no mesmo ano de 2017.

Não é nada à toa – só para dar um pequeno exemplo – que tenham dado o nome de John Winston Lennon ao bebê nascido às 18h30 de 9 de outubro de 1940, no exato momento em que Liverpool sofria um cerrado bombardeio de aviões nazistas.

Nunca, no entanto, um filme havia demonstrado de forma tão absolutamente clara, patente, que foi Winston Churchill que tomou a decisão de não tentar nenhum tipo de acordo de paz com o nazismo.

E tomou a decisão quase sozinho, contra a vontade das maiores lideranças de seu próprio partido, o Conservador.

Quase – quase! – contra a vontade do próprio rei.

É um filme explosivo, forte, feérico, todo em tom maior

E Darkest Hour não defende a sua tese, não expõe seus argumentos de maneira suave, calma, em tom ameno, não. Muitíssimo ao contrário. Darkest Hour é um filme explosivo, forte, féerico, todo em tom maior. É um tour-de-force, uma proeza, uma façanha. Um show, uma apresentação de fogos de artifício.

O realizador inglês Joe Wright é jovem – nasceu em 1972, folgados 27 anos após a rendição dos nazistas –, tem talento saindo pelo ladrão, e por isso tem todo o direito de filmar como se estivesse soltando fogos de artifício.

Fiquei pensando, depois que o filme acabou, que Joe Wright parece ter feito propositadamente um filme para romper com cada um dos mandamentos do Dogma 95 dos realizadores dinamarqueses. O Dogma proibia música, trilha sonora – o filme abusa da trilha sonora de Dario Marianelli, o mesmo compositor que trabalhou com Joe Wright em Orgulho e Preconceito (2005), Desejo e Reparação/Atonement (2007), Anna Karenina (2012). Acordes soturnos, pesados, realçam, ao longo da narrativa, o tom tenebroso, apavorante dos fatos.

O Dogma proibia câmara que não fosse na mão – a câmara do diretor de fotografia Bruno Delbonnel faz todo tipo de movimento, todo tipo de estripulia – mas jamais está na mão. Move-se firme sobre rodinhas de trilhos. Roda a velocidade bem menor que o normal em algumas sequências de rua, de pessoas e veículos nas ruas de Londres – um slow motion maravilhosamente bem usado.

A câmara faz os zooms mais incríveis que pode haver, como, só para dar um exemplo, na sequência em que focaliza o chefe do regimento britânico em Calais, obrigado a enfrentar em absoluta desvantagem o ataque da infantaria e da aviação nazistas, a fim de retardar um pouco o ataque alemão à multidão de 300 mil soldados aliados presa mais ao Norte, em Dunquerque. Naquela sequência, a câmara vem focalizando o líder do destacamento, enquanto ele lê o telegrama enviado de Londres dizendo que ele não será retirado dali, deverá permanecer – e aí a câmara como que é puxada para o alto, como se estivesse presa num drone que se afasta do chão rapidamente. É um zoom estonteante, para que, ao final dele, o espectador veja, bem do alto, como se estivesse ele num drone, olhando diretamente para baixo, o terreno onde estão aqueles soldados britânicos sendo esmagados pelas bombas nazistas.

O Dogma dos dinamarqueses chatos diz: “São proibidos os truques fotográficos ou filtros”. E diz também: “Não se aceita nenhuma iluminação especial”. Pois Joe Wright e seu diretor de fotografia Bruno Delbonnel parece que fazem questão absoluta de usar todos os truques fotográficos, todos os filtros, todo tipo de iluminação especial que os técnicos inventaram ao longo destes 120 anos de História do cinema.

Eu poderia jurar que não há uma única tomada, ao longo dos 125 minutos de duração de Darkest Hour, filmada sem iluminação especial ou sem truques fotográficos e filtros.

Há sempre uma luz esquisita entrando por alguma janela e iluminando o rosto ou outra parte do corpo dos atores de uma maneira estranha, esquisita, artificial.

A iluminação, a fotografia de Darkest Hour foge do natural como o diabo da cruz, o vampiro da luz, Winston Churchill de uma conversação de paz com Herr Hitler ou seu lacaio italiano, il signore Mussolini – para usar o adjetivo que ele usa ao se referir ao ditador italiano.

O primeiro-ministro está desacreditado. Procura-se outro – e é a vez de Churchill

O escritor neo-zelandês Anthony McCarten, o autor dos roteiros de A Teoria de Tudo e deste filme aqui, concentrou toda a ação no mês de maio de 1940. Para realçar a lenta passagem do tempo, usam-se letreiros com o dia e o mês ao longo do filme, com corpo gigantesco, ocupando boa parte da tela. A primeira data que aparece é 9 de maio. Mais tarde, a palavra maio permanece, enquanto o número 10 vai expulsando o 9.

Um letreiro explica o contexto básico para o espectador, a situação naquele 9 de maio:

“Hitler invadiu Checoslováquia, Polônia, Dinamarca e Noruega. 3 milhões de soldados alemães estão agora na fronteira com a Bélgica prontos para conquistar o resto da Europa. Na Grâ-Bretanha, o Parlamento perdeu a fé em seu líder, Neville Chamberlain. A procura por um substituto já começou.”

E a ação começa numa sessão na Câmara dos Comuns – uma sessão agitadíssima, em que os nervos estão à flor da pele. O líder da oposição, Clement Atlee (David Schofield), do Partido Trabalhista, faz um discurso inflamadíssimo, pedindo a renúncia do primeiro-ministro Neville Chamberlain (interpretado por Ronald Pickup), do Partido Conservador.

Ele informa que a oposição aceita formar um governo de coalizão com o Partido Conservador – mas nunca, jamais, sob a liderança de Neville Chamberlain.

A câmara vai focalizando Chamberlain e seus colegas de bancada. Há então uma cadeira vazia, e, quando a câmara chega nela, alguém pergunta: – “Onde está Winston?” E um colega responde: – “Está garantindo que as digitais dele não estejam no local do crime”.

O nome de Churchill sequer é pronunciado = e seus partidários já dizem “não”

O roteiro de Anthony McCarten não poderia ser mais suavemente didático, de fácil compreensão para o espectador, nessa abertura. Depois da sessão tumultuada, cheia de gritos, no plenário da Câmara dos Comuns, vemos Neville Chamberlain e uma dezena de confrades do partido jantando. O primeiro-ministro avisa que no dia seguinte apresentará sua renúncia ao cargo, já que a oposição aceita participar de um gabinete de coalizão, mas não com ele.

Precisa-se de um nome, o nome do novo primeiro-ministro.

Alguém sugere Halifax. O visconde de Halifax (Stephen Dillane), amigo pessoal do rei George VI, era o ministro de Relações Exteriores – mas Halifax agradece aos companheiros, diz que ainda não é sua hora. E o próprio Chamberlain diz que só há um nome, entre os expoentes dos Tories, que seria aceito pelos trabalhistas.

O nome sequer é pronunciado, mas alguns dos presentes dizem; – “Não, não”, ou “Ah, não, ele não”.

E então temos a terceira sequência do filme – aquela em que conheceremos Winston Churchill.

As maravilhas do departamento de maquiagem – e do talento dos grandes atores. Gary Oldman está absolutamente irreconhecível. Em pouquíssimas sequências do filme em que seu rosto aparece em close-up consegui enxergar alguns traços do Gary Oldman tal qual a gente conhece de tantos filmes, de tantos belos papéis.

Para interpretar Winston Churchill, Gary Oldman transfigurou-se em Winston Churchill. Incorporou-o.

Houve, no entanto – ou pelo menos me pareceu ter havido –, um certo exagero naquilo. Talvez porque Gary Oldman tenha ficado excitado demais com a oportunidade, talvez porque Joe Wright, com toda sua juventude e entusiasmo, tenha ficado deslumbrado com o desempenho do grande ator, eles exageraram. O fato é que eles exageraram. O Winston Churchill de Gary Oldman ficou careteiro demais da conta, cheio de cacoetes demais da conta, falando com um vozeirão forçado demais da conta.

Cheguei até a pensar, por uns rápidos instantes, que aquele over do ovcr poderia atrapalhar o filme. Mas não chega a atrapalhar, não. Longe disso. E talvez afinal tenha sido implicância minha – é possível que não tenha sido algo tão exagerado assim. Gary Oldman, no final das contas, ganhou o Oscar, o Globo de Ouro, o Bafta, o prêmio do Sindicato de Atores por sua interpretação.

 Os homens de seu partido não queriam Churchill. O rei não queria Churchill

O Winston Churchill de Darkest Hour bebe uísque no café da manhã, acompanhado por bacon e ovos, fuma charutos antes do café da manhã e durante, fala comendo fonemas de uma maneira que é difícil compreender exatamente o que está dizendo, tem um jeito grosseiro de tratar os subalternos e um jeito agressivo de tratar os pares. É uma pessoa desagradável, intratável mesmo.

O rei George VI (uma bela interpretação do australiano Ben Mendelsohn) dirá que ele é uma figura que assusta. Dirá isso para o próprio primeiro-ministro.

Pior do que dizer que ele é uma pessoa assustadora, o rei demonstra que não confia no homem que Neville Chamberlain indica como seu sucessor no cargo de primeiro-ministro. O diálogo, quando o filme está com apenas 15 minutos, é fascinante – e foi, para mim, absolutamente surpreendente.

O rei pergunta: – “Por que não Halifax? Eu prefiro Halifax.”

Chamberlain: – “Eu também prefiro Halifax. Os lordes prefeririam Halifax.”

O rei: – “Então por que eu fui forçado a chamar Winston?”

Chamberlain: – “Porque ele é o único que a oposição aceitaria.”

O rei se levanta, visivelmente incomodado: – “O histórico dele é uma sucessão de catástrofes. Galípoli, 25 mil mortos. A política da Índia. A guerra civil russa. O padrão-ouro. A abdicação. E agora essa aventura na Noruega.”

Um diálogo fascinante: o rei não quer aquele homem como primeiro-ministro, mas o rei não governa – quem governa são os políticos. O rei apenas reina.

E surpreendente – ao menos para mim e para Mary. Não sabia que Churchill tinha um histórico que era uma sucessão de catástrofes – e terei que ler mais para saber sobre sua participação catastrófica nos episódios citados pelo rei George VI.

Um servidor entra na sala para dizer que Winston Churchill havia chegado ao palácio. Havia chegado antes da hora. Não era o primeiro-ministro que o rei queria; tinha um histórico de catástrofes – e não conseguia sequer ser pontual.

O primeiro encontro entre o rei George VI e Winston Churchill na condição de próximo primeiro-ministro da Grã-Bretanha que Darkest Hour mostra é uma sequência antológica.

O encontro é rápido, formal, esquisito, sem jeito. Os dois estão de pé. Eis a íntegra do diálogo (e é interessante que o IMDb, ao transcrever parte, tenha trocado a autoria de algumas das frases):

Churchill: – “Majestade.”

O rei: – “Senhor Churchill. (Uma pausa.) Creio que sabe por que o convidei para vir aqui hoje.”

Churchill: – “Simplesmente não consigo imaginar o motivo.”

Cada um dá um pequeníssimo risinho.

O rei: – “É meu dever convidar o senhor para assumir a posição de primeito-ministro deste Reino Unido. O senhor formará um governo?”

Churchill: – “Formarei.”

O rei então estende a mão direita para a frente. Winston Churchill dá vários passos até se aproximar do rei, e beija a mão.

O rei recolhe a mão e passa-a nas costas, como para tirar a saliva deixada ali.

Churchill: – “Acredito que iremos nos encontrar com regularidade.”

Havia décadas, séculos, que os reis recebiam o primeiro-ministro de plantão uma vez por semana.

O rei: – “Uma vez por semana, temo. Como é… Que tal para o senhor as segundas-feiras?”

Churchill: – “Hum… Vou me empenhar para estar disponível às segundas-feiras”.

O rei: – “Às 4?”

Churchill: – “Eu tiro um cochilo às 4.”

O rei, surpreso: – “Isso é permitido?”

Churchill: – “Não. Mas necessário. Trabalho até tarde.”

O rei, ainda surpreso: – “Então talvez no almoço.”

Churchill: – “Almoço? Às segundas? (Uma pausa.) Majestade.”

E ele começa a se afastar, andando de costas. Não se viram as costas para o monarca.

Era tentar um acordo de paz com Hitler ou aceitar a invasão nazista

O rei não o queria como primeiro-ministro. Neville Chamberlain, o líder do partido, e Halifax, o ministro das Relações Exteriores, não o queriam como primeiro-ministro.

Churchill forma, de imediato, um gabinete de guerra – e convida para participar dele, além dos chefes militares, os dois maiores inimigos dentro de seu próprio partido, Chamberlain e Halifax.

Todas as notícias dos fronts militares são ruins. A Bélgica está para cair. A França não parece oferecer grande resistência – a queda, tudo indica, é questão de semanas.

Halifax começa a pressionar para que sejam iniciadas conversações com Mussolini visando a um acordo de paz da Grã-Bretanha com a Alemanha.

Churchill parece estar miseravelmente solitário quando berra numa reunião do gabinete de guerra:

– “Não é possível conversar com um tigre quando sua cabeça está dentro da boca dele!”

Vem então a pior notícia de todas: 300 mil soldados das tropas aliadas, britânicos e franceses, estão reunidos na cidade litorânea francesa de Dunquerque; ali estava o total do contingente das forças britânicas. Diversas divisões do exército nazista, com seus tanques, os Panzers, e apoio dos aviões da Luftwaffe, estão se dirigindo para Dunquerque. Todo o exército britânico será dizimado em questão de dias – e não haverá ninguém para enfrentar as tropas alemãs que inevitavelmente desembarcarão na Grã-Bretanha.

Seria necessário retirar o mais rapidamente possível aqueles 300 mil soldados – mas a Marinha de guerra britânica simplesmente não tinha navios disponíveis suficientes para fazer uma retirada antes da chegada das forças nazistas.

Era iniciar conversações visando a um acordo de paz – ou a aniquilação do exército e em seguida a inevitável ocupação pela Alemanha das Ilhas Britânicas.

O rei tinha dúvidas se deveria levar sua família para o Canadá, para escapar do perigo.

Sequência impressionante: Churchill pede ajuida a Roosevelt. Suplica, implora

É quando há, lá pelo meio do filme, a sequência mais impressionante, mais apavorante, mais dolorosa deste filme extraordinário.

O primeiro-ministro do Reino Unido tranca-se então no banheiro montado para ele junto do local do gabinete de guerra, e faz uma ligação internacional.

O chefe de governo daquilo que havia sobrado do Império Britânico – o império que, até uns 50 anos antes era tão amplo que não havia momento algum de um dia inteiro em que o sol não estivesse brilhando sobre alguma de suas possessões – pede ajuda ao presidente dos Estados Unidos da América.

Mais, muito mais do que pede ajuda: suplica. Implora.

Do outro lado do oceano, Franklin Delano Roosevelt (com a voz do grande ator David Strathairn), o homem que havia chegado à Casa Branca em 1933, apenas 4 anos após o crack da Bolsa de Nova York, com o país afundado no horror da Grande Depressão, e então, em 1940, governava o país que já era a maior economia do mundo, responde com evasivas.

Os Estados Unidos eram um país neutro. Haviam assinado – diz Roosevelt a Churchill – compromisso de neutralidade que impedia de fornecer ajuda a algum dos lados em disputa.

“Now it’s the time for your tears”, diria Bob Dylan.

Qualquer americano de bom caráter e medianamente escolarizado, que tiver aprendido o básico sobre a Segunda Guerra Mundial, deveria chorar de tristeza ao ver essa sequência impressionante.

E é muito importante lembrar que o cinema bem que fez a sua parte, naqueles longos, infindáveis dois anos e três meses entre o começo da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, e a entrada, finalmente, dos Estados Unidos, apenas em dezembro de 1941, depois do ataque surpresa do Japão à base de Pearl Harbor, no Havaí.

Em Correspondente Estrangeiro, lançado em 1940, Alfred Hitchcock fez um apelo tão desesperado quanto o de Churchill no telefone a Roosevelt mostrado em Darkest Hour. O protagonista da história faz de Londres um discurso apavorante: – “Alô, América. Estou observando uma parte do mundo ir para os ares. Uma parte do mundo tão agradável quanto Vermont, Ohio, Califórnia e Illinois está rasgada, sangrando como um boi num abatedouro. (…) Esse barulho que vocês estão ouvindo não é estática, é a morte vindo para Londres. Sim, eles estão vindo para cá agora. Vocês podem ouvir as bombas caindo sobre as ruas e as casas. (…) “Alô, América, mantenham as luzes acesas. São as únicas luzes no mundo.”

Correspondente Estrangeiro somou-se a uma penca de outros filmes que fizeram propaganda pela participação militar dos Estados Unidos no conflito: Confissões de um Espião Nazista (1939), Tempestades d’Alma (1940), Um Yankee na R.A.F. (1941), O Homem que Quis Matar Hitler (1941), Sargento York (1941). E, naturalmente, o mais fundamental de todos, O Grande Ditador, de Charlie Chaplin, que estreou em Nova York outubro de 1940.

O governo da potência grande, rica, tinha os ouvidos fechados. Só quando navios americanos foram bombardeados e afundados e quase 2.500 pessoas foram mortas no Havaí os Estados Unidos perceberam que havia no mundo uma ameaça à civilização, à democracia.

Quando Churchill estava à beira da perda da razão, o rei deu seu apoio a ele

Tão impressionante, tão forte quanto a sequência que mostra Churchill implorando por ajuda a Roosevelt é uma em que, já perto do fim, o rei George VI chega, tarde da noite, à casa do primeiro-ministro.

Churchill estava um caco, à beira de um acesso de loucura, de perda da razão. Não via mais jeito de resistir: todos em torno dele apontavam como única saída o tal pedido de um acordo de paz – uma tentativa de conversa racional com o tigre que estava com a Grã-Bretanha dentro de sua bocarra.

E então o rei chega à sua casa, e entra no seu quarto.

É de chorar – mas desta vez não de tristeza, de desespero, como na sequência do telefonema para Franklin Roosevelt. Aí é para chorar de emoção pura.

E é essa sequência que explica e justifica o uso da palavra “quase”, numa frase lá em cima, no começo deste texto: “Quase – quase! – contra a vontade do próprio rei”.

Ao fim e ao cabo, Darkest Hour mostra que, na hora mais escura, o rei George VI deu seu apoio a Winston Churchill. O apoio fundamental, o que era necessário.

George VI não estava preparado para ser rei. Ainda bem que assumiu

Nem todo mundo sabe distinguir muito bem quem é quem, na família real inglesa. Claro: ninguém é obrigado a isso.

Assim, acho que não seria chover no molhado lembrar que George VI não havia sido preparado para ser rei. Era o segundo filho de George V, o neto da rainha Victoria que reinou de 1910 a 1936. Seu irmão primogênito é que herdou o trono do pai, com o nome de Edward VIII, e assumiu em 20 de janeiro de 1936, quando o nazismo já dominava a Alemanha e para os analistas uma guerra já parecia inevitável.

Ficaria demonstrado mais tarde que Edward VIII tinha relações perigosíssimas com o regime nazista – e isso é exemplarmente narrado na segunda temporada da série The Crown (2017).

Por causa de umas questões paralelas (para usar a expressão de Chico Buarque), especificamente a paixão por uma americana divorciada, Wallis Simpson, e a ferrenha oposição na sociedade britânica ao casamento com ela, Edward VIII abdicaria ao trono no mesmo ano em que assumiu, a 11 de dezembro de 1936, deixando a bola com o irmão mais novo.

O irmão mais novo (conforme é mostrado detalhada e maravilhosamente no filme O Discurso do Rei, de 2010), esse que assumiria como George VI, e teria pela frente toda a Segunda Guerra Mundial, era um homem tímido, fechado, simples – e gago.

Dizem os que crêem que Deus escreve certo por linhas tortas. Os ingleses, de resto, adoram dizer Deus salve o rei, Deus salve a rainha. Mas o fato é que o Reino Unido, e o mundo, a civilização, ganharam demais com a substituição de Edward VIII, aquele sujeito vaidoso a não mais poder, rempli de soi même, simpatizante do nazismo, pelo seu irmão mais novo.

Como bem mostram os historiadores todos, os filmes todos, Winston Churchill e George VI foram fundamentais para a vitória dos aliados sobre o nazismo.

Mesmo este Darkest Hour aqui, que, mais do que qualquer outro, afirma que foi Churchill o grande responsável, mesmo este filme aqui mostra a importância do rei George VI.

George VI assumiu no final de 1936, quando estava para começar a hora mais escura do período recente da História da humanidade. Enfrentou todo o período de trevas profundas, e entregou uma Grã-Bretanha em paz, em 1952, para sua filha e sucessora, a rainha Elizabeth II.

O filme contém alguns errinhos históricos – como o V de vitória na foto acima

Vejo no IMDb que o filme contém errinhos históricos.

Não está no IMDb, mas considerei um erro histórico, ou ao menos uma falha, uma lacuna, o fato de que em hora nenhuma do filme é mencionado o papel da União Soviética na Segunda Guerra Mundial. Afinal, depois das vacilações iniciais, depois do pacto de não agressão firmado entre os dois ditadores, Hitler e Stálin, a União Soviética entrou com tudo o que podia na guerra contra o nazismo. Era tão aliada quanto a França. A URSS foi tão importante para derrotar Hitler quanto o Reino Unido – e, ao fim do conflito, as conferências dos vencedores reuniriam Churchill, Roosevelt e Stálin. Assim, fiquei achando de fato que havia uma lacuna no filme por não haver referência alguma ao papel da União Soviética na guerra.

Foi uma conclusão de sujeito mal informado. Conforme Valdecir Tozzi me corrigiu em comentário publicado abaixo, a União Soviética só entrou na guerra contra o nazismo em 1941. Como a ação toda de Darkest Hour se passa em maio de 1940, não teria sentido algum falar da URSS.

O IMDb aponta erros pontuais. Por exemplo: Churchill só viria a usar o gesto do V de vitória com os dois dedos, o indicador e o médio, lá por meados de 1941. É errado, portanto, ele exibir o gesto no filme, que se passa em maio de 1940.

Não tem sentido também a sequência em que o discurso de Churchill na Câmara dos Comuns no final de maio de 1940 – o discurso que acaba mudando o curso dos acontecimentos – é transmitido ao vivo pelo rádio. Segundo aponta o IMDb, os discursos no Parlamento britânico só passaram a ser transmitidos ao vivo a partir dos anos 1970.

Esse discurso, o discurso do “nunca vamos nos render”, foi na verdade pronunciado no Parlamento no dia 4 de junho, depois do término da retirada de Dunquerque – a retirada, a fuga, a evacuação que viria a se demonstrar a mais gloriosa, mais triunfal de toda a História da humanidade. No filme, por motivos de criação dramática, o discurso foi pronunciado nos últimos dias de maio.

Mais um erro: Elizabeth Layton tornou-se secretária de Churchill em 1941. Por razões de dramatização, o roteiro botou Elizabeth Layton se apresentando na casa de Churchill para ser sua nova secretária no dia 9 de maio de 1940.

Estudantes de História, historiadores, gente séria, da academia, pode dizer que esses são erros graves.

Na minha opinião… bah! São errinhos bobos, coisa de somenos importância. Pequenas licenças poéticas, que não traem em nada o sentido da história, o que mostram os fatos.

Lily James, sortuda, faz a secretária. E Kristin Scott Thomas brilha

É importante registrar que o papel de Elizabeth Layton, a nova secretária de Churchill, foi para a garota Lily James, uma inglesinha do Surrey nascida em 1989 que muita gente conheceu como a Lady Rose MacClare de Downton Abbey – a priminha meio tontinha, meio liberal demais das filhas do conde e da condessa de Grantham.

Parece ter nascido com aquilo para a lua, essa Lily James. Foi a Cinderela do filme de Kenneth Brannagh de 2015, e, meu Deus do céu e também da terra, a Natasha Rostova de uma versão em minissérie inglesa para o Guerra e Paz de Liev Tolstói. É muita sorte para uma garota tão jovem.

Para o papel da mulher de Churchill, a simpática Clemmie, Joe Wright fez a escolha absolutamente certa: Kristin Scott Thomas está perfeita no papel. Kristin Scott Thomas e perfeição sont des mots qui vont três bien ensemble, como diria Paul McCartney.

O que me faz lembrar que a sequência, ainda no início do filme, em que Churchill tenta falar francês, com as autoridades do país, é uma maravilha. Um dos poucos momentos deste filme em que é permitido a gente sorrir.

Não há motivos para sorrir quando se está falando dos momentos mais negros da História.

Anotação em maio de 2018

O Destino de uma Nação/Darkest Hour

De Joe Wright, Inglaterra-EUA, 2017

Com Gary Oldman (Winston Churchill)

e Kristin Scott Thomas (Clemmie Churcill), Ben Mendelsohn (rei George VI), Lily James (Elizabeth Layton, a secretária), Ronald Pickup (Neville Chamberlain), Stephen Dillane (visconde Halifax), Nicholas Jones (John Simon), Samuel West (Anthony Eden), David Schofield (Clement Atlee),

Richard Lumsden (general Ismay), Malcolm Storry (general Ironside), Hilton McRae (Arthur Greenwood), Benjamin Whitrow ((Samuel Hoare),

Joe Armstrong (John Evans), Adrian Rawlins (comandante Dowding), David Strathairn (a voz do presidente Roosevelt)

Roteiro Anthony McCarten

Fotografia Bruno Delbonnel

Música Dario Marianelli

Montagem Valerio Bonelli

Casting Jina Jay

Produção Perfect World Pictures, Working Title Films.

Cor, 125 min (2h05)

***1/2

Título na França: Les Heures Sombres. Na Itália: L’ora Più Buia. Na Espanha: El Instante Más Oscuro. Em Portugal: A Hora Mais Negra.

2 Comentários

  1. Valdecir Tozzi
    Postado em 21 setembro 2018 às 1:45 pm | Permalink

    Boa tarde, Sérgio!
    Seguramente não referência à participação da URSS no filme porque a ação, como você disse, se passa em maio de 1940.
    O pacto de não-agressão germano-soviético estava em vigor, com a URSS cumprindo religiosamente seus compromissos com a Alemanha (em termos, de minérios e produtos agrícolas).
    A entrada da URSS na guerra contra a Alemanha se dá exatamente um anos depois, quando Hitler invadiu esse país e, de fato, a participação da URSS foi fundamental para quebrar o poderio nazista, mesmo que a um custo de 20 milhões de mortos (oficiais!).
    Portanto, a Inglaterra lutou sozinha contra o nazismo por um ano, suportando toda a carga da máquina de guerra alemã.
    Só mais um coisa: Roosevelt era bem ciente do perigo nazista, só que havia forte oposição interna contra o envolvimento americano em problemas europeus (o até então poderoso isolacionismo americano). À medida que o tempo passa, ele vai ajudando os ingleses no que podia e era permitido pela neutralidade americana, conseguindo, inclusive, a aprovação da Lei de Empréstimos e Arrendamentos, que possibilitou o fornecimento de todos tipo de ajuda aos britânicos, seja militar ou não.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 21 setembro 2018 às 1:53 pm | Permalink

    Olá, Valdecir!
    Muitíssimo obrigado pelo comentário e pelos excelentes esclarecimentos históricos. Que maravilha! Você é um grande conhecedor! Parabéns.
    Vou fazer ajustes ao texto depois de ler essas suas informações.
    Agradeço imensamente!
    Um grande abraço!
    Sérgio

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