The Crown

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Nota: ★★★★

The Crown é um brilho, uma maravilha, um primor. Embora não tenha passado em sala de cinema, nas telas gigantescas – é uma produção original da Netflix, para distribuição via streaming, essa absoluta modernidade que pula portanto as salas e até mesmo os meios físicos, DVD e Blu-ray –, é cinema da melhor qualidade. Cinema para cinéfilo nenhum botar defeito.

É a perfeição em todos os aspectos artesanais – fotografia, trilha sonora, direção de arte, vestuário, montagem. Que montagem! Em diversas ocasiões nos dez episódios da série, cada um com cerca de 50 minutos, me deu vontade de ficar de pé e aplaudir como na ópera a montagem ágil, inteligente, ousada, que em momentos de clímax mistura diversos acontecimentos simultâneos, como Francis Ford Coppola realizou em trechos decisivos dos dois primeiros The Godfather.

Interpretações sólidas, soberbas, na medida exata – ninguém overact, exagera, faz careta.

Magníficos planos gerais, aqueles que pegam toda uma vasta paisagem. Planos gerais do campo inglês, de promontórios escoceses, de savanas ugandenses, dos palácios da família real, de praias, de montanhas. Um espetáculo para os olhos.

Diálogos fantásticos, impressionantes, que dá vontade de ouvir de novo, e de novo, e mais uma vez, para fruir melhor a beleza, a seriedade, a profundidade.

Uma trama espantosamente fascinante, cativante, emocionante – e que ao mesmo tempo faz pensar. Pathos, pathos a dar com o pau: paixão, catástrofe, sofrimento, emoção.

É o relato – o mais fiel possível à realidade, pelo que se pode perceber – dos últimos anos do reinado de George VI da Grã-Bretanha e do início do reinado de Elizabeth II, entre 1947 e 1955. E já seria uma trama fantástica se a série se ativesse apenas à família dos monarcas, seu dia-a-dia, porque o que não falta à família real inglesa é emoção, episódios e mais episódios carregados de drama.

Mas The Crown é muito mais que isso. É um afresco amplo, geral e irrestrito que mostra em detalhes como se dá o relacionamento entre a monarquia e o governo, como funcionam as instituições na mais sólida, duradoura, civilizada democracia do mundo.

É, de fato, uma lição de civilidade e de democracia, envolta em belo cinema.

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Um duelo de titãs, um enfrentamento de gigantes: a jovem rainha e o grande herói

The Crown mostra um duelo de titãs, um enfrentamento de gigantes, uma batalha de placas tectônicas. De um lado, uma jovem ainda inexperiente, de apenas 26 anos de idade – a rainha Elizabeth II, que em fevereiro de 1952 acabava de assumir o trono após a morte de seu pai, George VI. Do outro, um velho herói, um dos maiores estadistas que já houve, o homem que resistiu ao nazismo, um dos líderes que o derrotaram, Winston Leonard Spencer-Churchill.

Churchill é representado pelo americano John Lithgow, que está muitíssimo bem caracterizado como o estadista, com o corpo curvado, quase como um corcunda, passos instáveis – mas imensa agilidade na oratória. Eu diria que este o papel da vida desse bom ator.

Para o papel central da jovem Elizabeth II, os produtores e o criador da série, Peter Morgan, escolheram Claire Foy, uma jovem inglesa nascida em 1984, que estava, portanto, com 32 em 2016, ano de lançamento da série. Em 2008, Claire Foy interpretou o papel título numa outra suntuosa série britânica, Little Dorrit, baseado em Charles Dickens; é uma boa atriz. Não tem um rosto muito parecido com o da monarca que interpreta, mas esse detalhe é compensado pela recriação cuidadosíssima das roupas, dos cabelos, dos ambientes.

O primeiro grande embate entre os dois acontece no quarto episódio. Relata-se ali uma série fantástica, fascinante, interessantíssima de acontecimentos da história da Grã-Bretanha, que, creio eu, até aposto, é pouco conhecida hoje. Ou, no mínimo, menos conhecida do que deveria.

Entre os dias 5 e 9 de dezembro de 1952, abateu-se sobre boa parte da Inglaterra um nevoeiro denso, muitíssimo mais denso do que o normal e tão falado fog londrino. Um desses fenômenos meteorológicos raros, mas que acontecem, e, quando acontecem, provocam danos sérios.

O pessoal do serviço meteorológico inglês percebeu com antecedência a gravidade do fenômeno, mesmo em 1952, quando ainda não existia tanta tecnologia, ainda não havia satélites orbitando o planeta e remetendo dados para as instituições científicas.

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Quando o nevoeiro chegou, Churchill enfrentava oposição até de seus pares

O episódio começa mostrando isso: uma funcionária colhe os dados, leva para seu superior, o superior dela se assusta, leva para o superior dele, e assim sucessivamente, até que o chefe do serviço meteorológico da Grã-Bretanha decide que o primeiro-ministro deve ser avisado. Ele diz que não adiantará nada, que o primeiro-ministro não vai sequer ler o informe, mas é absolutamente necessário que o serviço se proteja, tenha a comprovação de que avisou o que tinha que avisar.

Era o segundo mandato de Churchill como primeiro-ministro. Ele havia sido o chefe de governo entre 1940 e 1945, praticamente todo o tempo que durou a Segunda Guerra Mundial. Após a derrota final do nazismo, deixou o número 10 da Downing Street adorado pela imensa maioria da população.

Entre 1945 e 1951, Churchill havia sido o líder da oposição ao primeiro-ministro do Partido Trabalhista Clement Atlee, em 1951, havia reassumido o cargo de primeiro-ministro. Já era, então, um homem idoso: nascido em 1874, estava com 77 anos. E não tinha uma saúde de ferro, ao contrário de muitas pessoas de 77 anos ou mais hoje em dia: era um fumante inveterado de charutos, e bebia mais álcool do que seria o aconselhável mesmo para um garotão de 25 anos.

Em dezembro de 1952, quando estava para se abater sobre Londres e boa parte da ilha o nevoeiro denso, pesado, que transformava o dia em noite, a oposição a Churchill era intensa até mesmo em seu próprio partido, o Conservador. Seu ministro de Relações Exteriores, Anthony Eden (o papel do sempre ótimo Jeremy Northam), conspirava contra ele, era parte do grupo majoritário que achava que o velho estava velho demais, tinha perdido o pulso, e deveria ser afastado do cargo.

Tudo isso, todos esses acontecimentos históricos são mostrados perfeitamente, de maneira claríssima, nos primeiros episódios de The Crown.

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A jovem rainha chama o veterano primeiro-ministro para uma dura cobrança

Churchill já havia assumido de novo a chefia de governo quando, em 6 de fevereiro de 1952, morreu o rei George VI – o soberano que havia sido o chefe de Estado da Grã-Bretanha ao longo de toda a Segunda Guerra, o soberano que tinha para o povo inglês a mesma imagem de heroísmo de Churchill. Haviam sido, os dois, o rei e o primeiro-ministro, os responsáveis por manter a Grã-Bretanha firme, forte, unida, resistindo aos bombardeios nazistas e, a partir de 1944, a grande responsável, junto com os Estados Unidos e a União Soviética, por enfim derrotar o nazismo.

E então havia assumido o trono a filha de George VI, a garota que ele, Churchill, chamava, gozando, tirando sarro, de Shirley Temple. Sim, claro, Shirley Temple, a atriz mirim de Hollywood que todos adoravam, a criaturinha linda de cabelos encaracolados, criancinha fofa, a imagem da inocência – ou do despreparo para assumir a coroa do Império Britânico.

Quando, no dia 5 de dezembro de 1952, chegou o nevoeiro, Churchill – como se para dar razão aos adversários – não percebeu a importância do que estava acontecendo.

Não tomou medida alguma para prevenir os efeitos do fenômeno climático.

Pior ainda: pouco antes, para dar uma demonstração de que a economia ia bem, havia dado ordem para que as usinas termelétricas do país funcionassem a toda. Usinas termelétricas mandam para o ar gases letais. Nevoeiro espesso impede a dispersão de gases letais.

Os hospitais ficaram apinhados de gente, num absoluto caos. Os aeroportos deixaram de funcionar, o trânsito parou, os trens passaram a sair e chegar com atraso, o metrô passou a falhar, o número de acidentes atingiu proporções nunca vistas. Na época, estimou-se que de 3.500 a 4.000 pessoas morrem nos quatro dias em que o nevoeiro deixou o país às escuras 24 horas por dia. Contas mais acuradas, feitas mais tarde, elevaram o total de vítimas fatais para 12 mil.

Só no final do terceiro dia de caos e pânico caiu a ficha na cabeça de Churchill de que era preciso tomar, de imediato, todo tipo de providência possível e imaginável. A essa altura, ele já havia sido chamado ao Palácio de Buckinham para uma audiência especial com a rainha.

E então se dá o duelo de titãs, o enfrentamento de gigantes, a batalha de placas tectônicas: de um lado, a rainha recém assumida, ainda sequer coroada. Shirley Temple. De outro, o imenso estadista, o grande herói Winston Churchill.

Eu já estava bastante impressionado com os três primeiros episódios de The Crown, mas, diante desse quarto, o que tem o título de “Ato de Deus”, e conta esse episódio do nevoeiro, da não reação de Churchill diante da catástrofe, e do duelo entre ele e a jovem rainha Elizabeth II, me derreti completamente.

A série é uma absoluta maravilha.

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Uma jovem de menos de 30 anos dando bronca num quase octogenário herói nacional!

Revelar como se dá exatamente o embate entre a rainha e o primeiro-ministro no episódio dramático do nevoeiro seria, creio, um spoiler. Mas dá para adiantar que não há nele um vencedor e um vencido – deu-se um empate.

E aqui há um pequeno show do roteiro. Vemos Churchill chegar para a audiência que a rainha havia convocado. Vemos os dois se encarando no início da audiência – mas não vemos o que vem a seguir, porque aí há um corte, e em seguida vemos a rainha contando como foi a conversa dela com Churchill para o marido, Philip (Matt Smith), e o próprio Churchill contando a versão dele para sua mulher, Clementine (Harriet Walter). E percebemos que o velho leão havia saído do embate começando a admirar a jovenzinha que antes chamava de Shirley Temple.

No episódio 7, que tem o título de “Scientia Potentia Est”, saber é poder, há um novo embate entre os dois, ainda mais grave que o outro. Churchill tem um derrame – relativamente pequeno, não muito grave, mas é obrigado a ficar de cama durante alguns dias, e a faltar à audiência semanal com a rainha, sempre realizada às terças-feiras. Usa como desculpa um resfriado.

Mas advém um segundo derrame, e na terça-feira seguinte ele também não comparece à audiência no Palácio de Buckingham.

A rainha toma conhecimento da insatisfação generalizada dentro do próprio Partido Conservador, dentro do próprio ministério, com o fato de Churchill estar com a saúde abalada mas se recusar a renunciar ao cargo. Finalmente, chega a ela a informação de que não é resfriado, e sim dois derrames.

Fica, então, dividida entre a vontade de interferir e a necessidade de seguir fielmente os preceitos da Constituição, que mandam que os monarcas não intervenham diretamente nas decisões do governo. Acaba se decidindo por chamar o presidente do Partido Conservador e o próprio Churchill ao palácio, tão logo ele se restabelece. E dá neles uma bronca dura – com elegância, tato, mas muita firmeza, apoiada em determinados trechos da Constituição.

Uma jovem de menos de 30 anos dar um pito, uma bronca, uma chamada naquele senhor quase octogenário, herói da pátria, o homem que derrotou o nazismo!

É espetacular.

Mais tarde, no episódio 9, o penúltimo da série, quando Churchill finalmente se rende às evidências de que não tem mais forças físicas para o cargo e avisa a rainha que vai renunciar (ele deixaria o governo em abril de 12955), Elizabeth II pensa em fazer um gesto para homenageá-lo. E propõe um jantar de gala dentro do número 10 da Downing Street, a residência oficial e local de trabalho dos primeiros-ministros britânicos. Lá, faz um discurso absolutamente maravilhoso de elogio ao velho leão que o leva às lágrimas – a ele e seguramente também aos espectadores mais sensíveis.

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Foi um casamento por amor. Philip, um estrangeiro, não era benquisto pela família

Realcei muito, aqui, o relacionamento entre a rainha Elizabeth II e Winston Churchill porque é sem dúvida um dos pontos altos da série. Porque é especialmente fascinante ver a relação entre os dois e, através dela, a forma com que os monarcas britânicos se relacionam com a política, com o governo, com a administração do país.

Mas sobram na série muitas outras tramas e subtramas atrativas.

Não sei, claro, como é com o eventual leitor, mas eu sou absolutamente fascinando – assim como zilhões de pessoas mundo afora – pelas histórias da família real britânica. Não é à toa que Shakespeare escreveu tantas peças sobre reis britânicos, e que o cinema faça tantos filmes sobre eles.

Apesar de ter visto tantos filmes, e de ter lido bastante sobre a monarquia daquelas ilhas fascinantes, eu não sabia nada das origens do príncipe Philip, o duque de Edimburgo, o marido da rainha.

O primeiro episódio da série começa com o rei George VI (uma interpretação brilhante de Jared Harris) dando ao então jovem Philip o título de cidadão britânico, como preparação para seu casamento com Elizabeth. Letreiros vão nos informando sobre as datas – estamos aí em 1947; ela estava com 21 anos, ele, com 26.

O primeiro episódio deixa claro que Philip não era o marido que George VI gostaria que sua primogênita tivesse. Na verdade, havia grande oposição a Philip entre membros da família real e do governo. Philip era nobre – mas era um estrangeiro. Nasceu na Grécia, descendente das famílias reais da Grécia e da Dinamarca – a casa dos Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg. Para que fosse declarado cidadão britânico, ele teve que, na mesma cerimônia mostrada na abertura da série, abrir mão de todos os seus títulos de nobreza gregos e dinamarqueses.

Foi, pelo que mostra a série, um casamento por amor: Elizabeth havia se apaixonado por ele, e lutou para que os pais aceitassem que ela se casasse com um não-britânico.

É impressionante a semelhança física do ator Matt Smith com o jovem príncipe Philip que a gente vê nas fotografias.

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O pai de Elizabeth se tornou rei porque o irmão mais velho abdicou

George VI, nascido Albert Frederick Arthur George (1895-1952), tinha virado rei por acaso. Seu irmão mais velho, Edward VIII, reinou por menos de um ano, de janeiro a dezembro de 1936, quando abdicou do trono para viver sua paixão com a americana Wallis Simpson, que estava na época se divorciando do segundo marido.

Na série, o rei que abdicou, tio de Elizabeth, é interpretado por Alex Jennings, e aparece em vários dos episódios. Wallis Simpson é feita por Lia Williams (na foto acima), e a semelhança da atriz com a verdadeira Wallis é impressionante. (A história de amor do rei que abdicou e da americana divorciada é o tema de W.E. – O Romance do Século, de 2011, dirigido, com muita competência, por Madonna.)

O irmão mais novo, Albert, que a família chamava de Bertie, não só não havia se preparado para ser rei como era tremendamente tímido, inseguro – e gago. O maravilhoso filme O Discurso do Rei (2010), de Tom Hooper, mostra a dura batalha de Albert para vencer a gagueira e poder discursar para seus súditos.

Assumiu, com o nome de George VI, o trono do que era então o maior império do mundo num momento delicadíssimo da história da humanidade – em 1936, o nazismo dominava a Alemanha e dava sinais de que uma guerra tão terrível quanto a de 1914-1918 seria inevitável. E era um momento também delicadíssimo internamente, com o escândalo da renúncia do irmão chocando o país e dando munição para os críticos da monarquia.

Venceu a gagueira, lutou a vida inteira contra a insegurança e a timidez, e fez um belo reinado.

A série mostra George VI como um homem de bem, de bom caráter. De saúde frágil, porém. Assim como a mãe, a rainha Mary (Eileen Atkins), e a segunda filha, a princesa Margaret (Vanessa Kirby), era um fumante compulsivo, exagerado, e teve um câncer de pulmão. Quando morreu, em fevereiro de 1952, tinha apenas 57 anos.

Elizabeth estava em viagem oficial, com Philip, pelos países da Commonwealth, a comunidade das diversas nações colonizadas pelos britânicos. Quando recebe a notícia da morte, estava no interior do Quênia, num parque, vendo elefantes, girafas, hipopótamos.

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Elizabeth se ressentiria muito de não ter tido uma educação formal mais ampla

A série mostra bem e com grande ênfase, que, como era filha não do primogênito do rei, e sim do segundo filho, e portanto estava, quando criança, distante na linha sucessória, Elizabeth não foi treinada, educada, na infância, para assumir a coroa. Tinha dez anos de idade quando o tio abdicou ao trono. Flashbacks mostrarão Elizabeth ainda criança (interpretada por Verity Russell, uma garotinha extremamente parecida com a atriz Claire Foy que faz Elizabeth jovem adulta), estudando francês com uma tutora, no palácio, e Constituição e história britânica com o vice-reitor Eton College.

A falta de uma educação mais acurada, mais ampla, de um bom curso superior, vai incomodar profundamente a jovem rainha. No episódio 7, aquele do segundo grande embate dela com Churchill, Elizabeth reclama duramente com a mãe por não ter tido uma educação maior, mais abrangente – ao que a mãe, a rainha Elizabeth (Victoria Hamilton, na foto acima), retruca que ela aprendeu o que era necessário para ser rainha, não para ser uma cientista.

Nesse episódio 7, ela pede a seus auxiliares que encontrem um tutor para ajudá-la a aprimorar seus conhecimentos. Scientia Potentia Est.

A série mostra a rainha Elizabeth, a viúva do rei George VI, a rainha mãe (que morreria em 2002, aos 101 anos de idade), de uma forma um tanto dúbia, na minha opinião. Às vezes ela parece uma pessoa sem muita personalidade, sem muita cultura – a jovem Elizabeth costumava pedir orientações, conselhos, à avó, a rainha Mary, e não à própria mãe. Em outras ocasiões, no entanto, ela aparece como uma pessoa forte, firme, corajosa.

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A série mostra muitas rusgas do casal. Philip não se contentava com o papel decorativo

A série não tem medo de mostrar houve muitas rusgas entre Elizabeth e Philip. Philip é mostrado como um jovem cheio de energia, que não conseguia se contentar em ser apenas o consorte, o marido da rainha, uma figura decorativa. E que lutava para impor sua presença e suas vontades.

Queria, por exemplo, que os filhos do casal – Charles, o primogênito, de 1948, Anna, a segunda, de 1950, aparecem diversas vezes na série, criancinhas – se chamassem Mountbatten, o sobrenome que ele adotou, tirado dos seus avós maternos. Seria um absurdo para os princípios da monarquia – e Elizabeth decide manter a tradição e manter o nome da casa de Windsor como sobrenome dos filhos.

Philip queria diversas inovações na cerimônia de coroação – que só aconteceu um ano e meio depois de Elizabeth ter assumido o cargo e as funções de rainha, em junho de 1953. Depois de ouvir ponderações de várias pessoas, Elizabeth dispensou boa parte das inovações que o marido queria. Uma delas, no entanto, permitiu: a cerimônia, na Westminster Abbey, a grande catedral da religião anglicana, bem próxima do Parlamento, foi transmitida pela TV.

São mostrados também os duros embates entre Elizabeth e a irmã mais nova, a princesa Margaret. Margaret era um tipo de pessoa que queria brilhar, se exibir, se mostrar – algo que não está no cânone do que a família real deve fazer.

Bem cedo, apaixonou-se por um capitão da Força Aérea lotado como auxiliar no Palácio, chamado Peter Townsend (Ben Miles, na foto abaixo). Plebeu, e casado, depois divorciado. Contra sua própria vontade, Elizabeth autoriza que o governo nomeie Peter Townsend para um cargo na embaixada em Bruxelas, para afastá-lo de Margaret e das manchetes dos tabloides sensacionalistas.

E mais tarde, quando o gabinete e os arcebispos da Igreja Anglicana insistem em que Margaret, mesmo após fazer 25 anos, não pode se casar com um homem divorciado, Elizabeth luta contra si própria, sua vontade de ajudar a irmã, seu próprio juramento feito ainda ao pai de que as duas irmãs nunca fariam nada para prejudicar a outra, para não contrariar as tradições, os costumes, o cânone.

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Elizabeth II defende a monarquia, mesmo que à custa da infelicidade da família

A série mostra diversos exemplos de que Elizabeth, sempre que ficava em dúvida entre inovar, fazer algo diferente do que manda a tradição, e, ao contrário, seguir os cânones estabelecidos séculos atrás pela monarquia, acabava acatando a segunda opção.

Como ela diz para uma amargurada, ressentida Margaret no décimo episódio, ela coloca o dever acima até mesmo da família.

Essa característica da jovem Elizabeth II – a de estudar as opções, ouvir conselhos, ouvir outras opiniões, e, ao fim, não ir contra as tradições, e sim optar por segui-las – é bastante realçada ao longo dos dez episódios da série.

E essa característica talvez explique, ou certamente explica, a rigidez, a inflexibilidade, a dureza que ela demonstraria em vários acontecimentos relacionados à sua nora, a bela, fascinante, adorada mulher do primogênito Charles, Diana Spencer, a princesa de Gales – que foram muitíssimo bem mostrados no filme A Rainha (2006), do grande Stephen Frears, em que ela foi interpretada, brilhantemente, por Helen Mirren.

O que série mostra é bem isso: a rainha foi cada vez mais entendendo que seu dever era proteger a instituição da monarquia. Mesmo que muitas vezes às custas da infelicidade de sua família – o marido, a irmã, o filho, a nora. Algo que ela vem fazendo há 64 anos – completados agora em 2016, o ano do lançamento desta bela série – com a maior competência.

O que deve por sua vez explicar por que Elizabeth Alexandra Mary é tão bem amada pelo povo inglês.

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O criador da série é um especialista em filmes sobre fatos reais – e em Elizabeth II

Peter Morgan, o criador da série e um dos vários produtores executivos, escreveu, ele próprio, sozinho, o roteiro de todos os dez episódios. Não é algo comum: em geral, as séries têm vários roteiristas. Como acontece em geral nas séries, vários foram os diretores dos episódios. O mais conhecido deles é o ótimo Stephen Daldry, o realizador de Billy Elliot (2000), As Horas (2002), O Leitor (2008) e Tão Forte e Tão Perto (2011).

Morgan, um inglês nascido em 1963, tem quase 30 títulos na sua filmografia como roteirista – vários muito bons, e vários baseados em fatos reais. São dele os roteiros de Longford (2006), Frost/Nixon (2008), O Último Rei da Escócia (2006) e também do já citado A Rainha (2006). Ele é o autor, também, de uma peça de teatro, The Audience, sobre as audiências semanais da rainha com seus primeiros-ministros, desde Churchill até David Cameron, que deixou o número 10 da Downing Street neste ano de 2016; na peça, Helen Mirren interpretou novamente a rainha.

O que demonstra que, além de competente autor de textos baseados em fatos reais, Peter Morgan é um entendido, um expert em Elizabeth-II-logia, essa rica área da História contemporânea.

Estima-se que os 10 capítulos de The Crown tenham custado US$ 156 milhões. É muito dinheiro. Claro, há blockbusters dos grandes estúdios de Hollywood que custam muito mais que isso – os filmes de personagens da Marvel, da DC Comics, com super-heróis, Super-Homem, Batman, Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, essas coisas.

Isto aqui é muito diferente. Isto aqui é cinema para adultos, para gente que sabe um pouco de História e quer saber mais – cinema para quem quer tentar entender o mundo, e não escapar dele, fugir dele para lugares remotos, inexistentes, de pura fantasia, como os dos Game of Thrones da vida.

A Netflix colocou os dez episódios da série à disposição dos assinantes em 4 de novembro de 2016. Vimos a série no mesmo mês do lançamento, algo bem raro para mim. Já se sabe que haverá uma segunda temporada, cuja produção começou antes mesmo do lançamento da primeira. Não se fala ainda se haverá uma terceira – mas quem há de duvidar? Afinal, estes dez primeiros episódios mostraram a rainha Elizabeth II em ação diante de dois primeiros-ministros, de 1952 a 1955. Falta mostrar outros 11 primeiro-ministros, e mais 60 anos.

Anotação em novembro de 2016

The Crown

De: Peter Morgan, criador, roteirista, produtor-executivo, EUA-Inglaterra, 2016.

Diretores: Stephen Daldry, Philip Martin, Benjamin Caron, Julian Jarrold

Com Claire Foy (rainha Elizabeth II) Matt Smith (Philip, duque de Edinburgo), John Lithgow (Winston Churchill)

e Jeremy Northam (Anthony Eden), Jared Harris (rei George VI, o pai de Elizabeth), Vanessa Kirby (princesa Margaret, irmã de Elizabeth), Eileen Atkins (rainha Mary, a mãe de George VI), Victoria Hamilton  (rainha Elizabeth, a rainha mãe), Alex Jennings (David, duque de Windsor, o rei que abdicou), Ben Miles (capitão Peter Townsend), Pip Torrens (Tommy Lascelles), Harriet Walter (Clementine Churchill), Kate Phillips (Venetia Scott, a novata na Downing Street), Harry Hadden-Paton (Martin Charteris), Nicholas Rowe (Jock Colville), Simon Chandler (Clement Attlee), Ronald Pickup (o arcebispo de Canterbury), Lia Williams (Wallis Simpson), Alan Williams (professor Hogg), Patrick Ryecart (duque de Norfolk), Verity Russell (Elizabeth criança), Beau Gadsdon (Margaret criança),  Stephen Dillane (Graham Sutherland, o pintor), Clive Francis (Lord Salisbury), Amir Boutrous (Gamal Abdel Nasser)

Roteiro Peter Morgan

Fotografia Ole Bratt Birkeland, Adriano Goldman

Música Rupert Gregson-Williams, Hans Zimmer

Casting Robert Sterne, Nina Gold

Produção Netflix, Left Bank Pictures, Sony Pictures Television Production UK.

Cor, cerca de 500 min

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5 Comentários

  1. Fernando
    Postado em 17 novembro 2016 às 2:20 pm | Permalink

    Olá Sérgio! É com prazer que faço meu segundo comentário em seu incrível site (é por falta de tempo que não venho com mais frequência, mas sempre que posso leio suas ótimas resenhas). Anteriormente comentei o ótimo filme francês de 1981, “A Filha da Minha Mulher”, com Patrick Dewaere e Ariel Besse.

    Assisti “The Crown” e como você, fiquei maravilhado com a nova – e mais cara – produção original da Netflix. A sua resenha é completíssima, refinada como a série, não tenho a acrescentar.

    Li que a ideia dos produtores da série é narrar os eventos da vida de Sua Majestade até os dias de hoje em 5 temporadas (parece que haverá uma reformulação do elenco á partir da 3ª temporada, entrando atores mais velhos para interpretar os principais personagens).

    É uma pena que o grande público, as massas, não apreciem a produção da forma que ela merece.

    A atuação de John Lithgow é realmente sensacional. Através do que aprendi nos livros eu já tinha um enorme respeito por Sir Winston Churchill. Após assistir a série, meu respeito por essa figura histórica só aumentou! Gostaria de ver o ator americano premiado por este papel tão importante.

    Um grande abraço á você e a todos os seus leitores!

  2. Dana
    Postado em 18 novembro 2016 às 2:28 pm | Permalink

    A “coroa” não é tanto atores famosos. É incomum para uma série de TV britânica desta magnitude. Embora eu saiba Matt Smith – Eu assisti seus filmes “Womb” e “Orgulho e Preconceito e Zumbis” ( http://filmesdublado.online/10-orgulho-e-preconceito-e-zumbis-2016.html ). É maravilhoso!

  3. Celia
    Postado em 12 Janeiro 2017 às 8:52 pm | Permalink

    Olá Sérgio!
    Que delicia ler seus textos! Que facilidade que vc tem de expor suas ideias e conhecimentos!
    Como vc, amei essa série! Maravilhosa! Sou fã de filmes e séries inglesas!
    Abraços

  4. RICARDO
    Postado em 24 Abril 2017 às 3:31 pm | Permalink

    Ótima série, e ótima resenha, parabéns! Só uma correção: quem a chamava de Shirley Temple era o tio, e não Churchill.

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 24 Abril 2017 às 3:39 pm | Permalink

    Olá, Ricardo. Agradeço pelo seu comentário!
    Sim, o tio, o rei que abdicou, a chamava de Shirley Temple. Mas, numa conversa com sua mulher, Churchill também usa o apelido dado pelo tio. Tenho certeza quase absoluta disso.
    Bem, de novo, muito obrigado.
    Sérgio

4 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Textos » Meryl defende a luz em 10 Janeiro 2017 às 12:39 pm

    […] série de TV drama por seu trabalho como a Rainha Elizabeth II na primeira temporada do magnífico The Crown. Claire Foy fez o discurso de agradecimento menos glamouroso, menos estelar, mais simplório, mais […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Aliados / Allied em 11 julho 2017 às 1:35 am

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  4. […] sequência seguinte, Tony está num restaurante com Margaret (Harriet Walter, na foto acima), sua ex-mulher, a mãe de sua filha Susie, contando sobre aqueles acontecimentos […]

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