7 Dias em Havana / 7 Dias en La Habana / 7 Jours à La Havanne

zzhavana1

Nota: ★★★☆

7 Dias em Havana é um filme muito bom, em termos puramente, especificamente artísticos. Mas, além disso, além de suas qualidades intrínsecas, é uma maravilhosa oportunidade de levar o espectador para ver histórias e cenários do dia-a-dia de Cuba hoje.

Ele nos leva para um fascinante passeio pelas ruas, pelas casas, pelos bares, pelas intimidades dos habitantes de Havana. E o mais fantástico é que o filme procura, insistentemente, mostrar a realidade cotidiana de pessoas comuns no último país comunista do Ocidente sem cair no maniqueísmo ideológico. Co-produção França-Espanha, com o apoio da entidade oficial cubana para o cinema, não é um filme pró-Fidel nem anti-Fidel. Faz um danado de um esforço para não ser um panfleto político, ideológico, num tema em que é quase impossível não tomar partido – e consegue.

zzhavana2

Os sete episódios que formam o filme, cada um dirigido por um realizador, mostra um país pobre, muito pobre, e um povo feliz, extrovertido, que gosta de música, sexo, bebida, conversa, dança. Um povo que tem extremo amor pela vida – e pela alegria.

A Havana que o filme mostra é exatamente como é Salvador, São Salvador, Bahia de Todos os Santos. Ou, talvez mais exatamente, como era a Bahia descrita nas obras de Jorge Amado, Dorival Caymmi e Caribé, a Bahia de até os anos 60, inicinho dos 70, antes da grandes transformações econômicas, antes de crescer demais.

Me lembrei demais da Salvador que conheci no finalzinho dos anos 60, a Salvador do casario belíssimo mas decadente, precisando desesperadamente de reforma, reparo, troca de fiação, de encanamento – ou, no mínimo, no mínimo, de um estoque brutal de latas de tinta.

O amigo que me recebeu na época para uma pequena temporada lá, num casarão lindo mas decrépito na Ladeira da Preguiça, debruçado sobre a belíssima Baía de Tous les Saints, usava muito a expressão “miséria festiva”. Dizia que a Bahia era assim: pobre, quase miserável, mas com gente feliz.

As populações levadas como escravas para Cuba foram das mesmas regiões africanas de onde saíram as que foram para a Bahia. Os deuses dos cubanos são os mesmos dos baianos. Lá como em Salvador as raças e as crenças se miscigenaram: a Virgem Maria convive na santa paz com Oxum e Iemanjá, como mostra o último segmento, Domingo – A Fonte. O candomblé manda, como mostra o segmento Sexta – O Ritual.

São igualinhas que nem, a Salvador do finalzinho dos anos 60 e a Havana mostrada neste filme de 2012.

zzhavana3

Os problemas são mostrados às claras – mas o que o filme quer é mostrar as pessoas

Não que 7 Dias em Havana fuja dos problemas. Não foge, não, de forma alguma. Bem ao contrário. Fala deles constantemente, exibe-os às claras. Mostra a falta de produtos básicos, de artigos de higiene pessoal a ovos, por exemplo (enquanto pelo rádio a propaganda oficial fala em recorde na produção de ovos). A falta de dinheiro, as duras dificuldades para tocar o dia-a-dia. A necessidade que até pessoas de formação universitária, uma psicóloga ou um engenheiro, têm de se virar com a venda clandestina de doces ou o trabalho de motorista para sobreviver. A necessidade sempre presente de se dar um jeitinho para fugir das regras rígidas estabelecidas pelo governo para todas as atividades. Os carros velhos que enguiçam sempre. As casas velhas, precisando desesperadamente de reparos, sem que haja dinheiro para isso. A existência, até bem pouco tempo atrás, de duas moedas diferentes, uma para os turistas, outra para os cidadãos cubanos.

Mais ainda: o filme mostra como é forte a coisa do turismo sexual, com homens e mulheres oferecendo sexo aos turistas em troca de algum dinheiro. E, sim, no Último Paraíso Comunista também há travestis, como em qualquer outro lugar do mundo.

E a vontade de muita gente de fugir da ilha, mesmo que enfrentando uma perigosa viagem no mar em pequenos botes.

Tudo isso está lá, às claras.

Mas a intenção – e isso fica perfeitamente claro também – não é tratar de ideologia. É focalizar as pessoas, sua vida, seu cotidiano.

E, se faltam dinheiro e artigos básicos, sobram alegria, joie de vivre, tesão, e, sobretudo, solidariedade, companheirismo.

E, se falta tudo para reformar aqueles prédios caindo aos pedaços, como é estupidamente bela aquela cidade debruçada no mar azul perfeito do Caribe.

No elenco, os mais conhecidos no Brasil são Jorge Perugorría, Daniel Brühl e Emir Kusturica

Entre os realizadores dos sete episódios, cada um focalizando um dia da semana, há um francês (Laurent Cantet), um espanhol (Julio Medem), um palestino (Elia Suleiman), dois argentinos (Pablo Trapero e Gaspar Noé), um porto-riquenho cidadão do mundo (Benicio Del Toro) e um cubano (Juan Carlos Tabío).

zzhavana6No elenco, predominam atores cubanos. Os nomes mais conhecidos pelo público brasileiro são o cubano Jorge Perugorría (na foto), o mezzo alemão, mezzo catalão Daniel Brühl e o diretor sérvio Emir Kusturica, que, como John Huston, gosta de trabalha como ator.

Embora eu seja ruim para fazer sinopses curtas (meu poder de síntese está cada vez mais próximo de zero), vou fazer uma tentativa, até para que eu mesmo tenha gravadas essas informações.

* Episódio Segunda – O Yuma, de Benicio Del Toro: Teddy, jovem ator americano (Josh Hutcherson), está em Cuba para fazer um curso de cinema. Ciceroneado por um jovem motorista (que se formou em engenharia na antiga União Soviética), ele procura um encontro amoroso – e não falta quem se ofereça.

* Episódio Terça – Jam Session, de Pablo Trapero: o celebrado realizador sérvio Emir Kusturica (interpretado pelo próprio, é claro), é o convidado de honra para um festival de cinema. Mas o grandalhão está numa fase ruim, em um período conflituoso com a mulher, com quem tenta sempre falar ao telefone: enche a cara, fica trêbado – mas vai se deleitar com uma jam session de que participa o seu motorista (Alexander Abreu), um surpreendentemente bom saxofonista.

* Episódio Quarta – A Tentação de Cecília, de Julio Medem: Leonardo (Daniel Brühl), um bem sucedido empresário espanhol, está em Cuba à cata de talentos musicais para levá-los a apresentações na Europa. Fica especialmente fascinado por Cecília (Melvis Estévez), uma jovem e linda cantora da noite. Oferece a ela não apenas a oportunidade de se apresentar na Europa, faturar um bom dinheiro – mas mudar-se de vez para lá, e casar com ele.

zzhavana8* Episódio Quinta – Diário de um iniciante, de Elia Suleiman (na foto): o respeitado realizador palestino Elia Suleiman (interpretado pelo próprio, que é também autor do argumento e do roteiro do episódio) espera a oportunidade de ter um encontro com Fidel Castro. O encontro é agendado para depois que o Comandante terminar seu discurso num comício. A questão é que o discurso não termina jamais.

* Episódio Sexta – Ritual, de Gaspar Noé: uma garotinha adolescente (Cristela de la Caridad Herrera) é seduzida por uma amiga (Dunia Matos). Quando os pais flagram as duas dormindo juntas, abraçadinhas, só de calcinha, submetem a filha a um ritual – que parece mais de magia negra do que do candomblé que conhecemos – de “purificação”.

* Episódio Sábado – Doce Amargo, de Juan Carlos Tabío: a psicóloga Mirta (Mirta Ibarra) tira um dia de folga no hospital em que trabalha para fazer uma grande quantidade de doces, encomendada por um babalaô. Enfrenta todo tipo de dificuldade – da falta de ovos à falta de energia elétrica no meio do processo, até a pouca cooperação do marido Daniel (o papel do grande Jorge Perugorría), que anda numa fase de beber demais.

* Episódio Domingo – A Fonte, de Laurent Cantet: a religiosíssima Marta (Nathalia Amore), que mistura cristianismo com candomblé como muito baiano, sonha que a Virgem Maria pediu a ela para construir, em seu apartamento, um pequeno altar com uma fonte. Marta exerce uma liderança fantástica sobre parentes e vizinhos, e bota uma tropa de umas 20 pessoas para construir o que a Virgem pediu, sob as bênçãos de Iemenjá e Oxum.

Alguns episódios são estilosos demais, para agradar jurados de festivais

Como todo filme formado por episódios, segmentos, escritos e dirigidos por diferentes pessoas, de estilos absolutamente distintos, 7 Dias em Havana é um filme irregular. O fantástico é que ele consegue, apesar disso, ter uma certa unidade, coisa raríssima em colchas de retalho como esta aqui. Personagens de um episódio aparecem em outros. Os temas se complementam.

Dois episódios são especialmente estilosos, daquele tipo que parece ter sido feito não para os seres humanos normais, e sim para agradar aos jurados de festivais e aquele povo de nariz empinado que diz gostar de “cinema de arte”. São os assinados pelo argentino Gaspar Noé, Ritual, e pelo palestino Elia Suleiman, Diário de um Iniciante.

zzhavana4Ritual (na foto) é todo pontuado por momentos de tela negra. Entre uma tomada e outra, faz-se o fade out, a imagem desaparece, e, em vez de vermos a tomada seguinte, vemos a tela negra por alguns segundos, até que, aí sim, fade in, e vem a nova tomada. É estiloso. É também um tanto cansativo, desnecessariamente repetitivo – mas é estiloso.

Elia Suleiman não gosta de movimentos de câmara. Se não estou enganado, não há uma única tomada no episódio Diário de um Iniciante em que a câmara faça um movimento, ainda que pequeno. Todas as tomadas são feitas com a câmara fixa num tripé.

A questão é que muitas das tomadas são de uma beleza visual extraordinária. Cada tomada parece um quadro, uma obra de arte. Cada enquadramento parece ter sido cuidadosamente planejado.

E há no segmento um senso de humor extremamente peculiar. É algo próximo do humor negro, mas sem exagero no negror. É tudo insólito, beirando o non-sense, o absurdo – exatamente como o realizador fez no seu inquietante, impressionante O Que Resta do Tempo, de 2009.

Para mim, os episódios de Julio Medem e Juan Carlos Tabío são os melhores

Na minha opinião, os episódios A Tentação de Cecília e Doce Amargo são, disparado, de longe, os melhores, os mais bem concebidos e executados.

zzhavana7Há um pequeno detalhe absolutamente fascinante no primeiro deles, o dirigido por Julio Medem. Cecília, a jovem cantora, tem a oportunidade de tomar um banho no hotel em que está hospedado o empresário espanhol Leonardo. É o Hotel Nacional, um dos melhores, se não o melhor de Havana, e a banheira é imaculadamente branca, e há xampu, sabonete. Horas depois, Cecília observa a banheira do apartamento decrépito em que vive com o atleta José (Leonardo Benítez). A banheira é suja, encardida, com aquele aspecto asqueroso. A câmara de Medem focaliza a banheira durante alguns segundos.

Medem é chegado a cenas explícitas de sexo, e aproveita para mostrar uma aqui, em que brilha a beleza da jovem Melvis Estévez. Não é daquele tipo de cena de sexo que parece à toa, sem sentido na narrativa. Funciona bem.

O veterano Juan Carlos Tabío, o único realizador cubano deste filme que, apesar de ser franco-espanhol, parece cubano até a raiz dos cabelos, também encheu seu episódio de pequenos detalhes do cotidiano. Aproveita para, en passant, como quem não quer nada, falar da miscigenação entre pessoas de pele clara e de pele escura – essa coisa maravilhosa que poucos lugares do mundo conseguiram obter com tanto sucesso quanto o Brasil e Cuba.

É um segmento belíssimo, todo extremamente bem costurado – e o final dele é de uma tristeza medonha.

Então, para resumir e encerrar: 7 Dias em Havana é um filme importante, fascinante. Deveria ser visto – de preferência com a mente aberta, sem pré-julgamentos – tanto por quem ainda mantém a fascinação pela revolução cubana quanto por quem considera o regime dos Castro uma ditadura abjeta. Mas, sobretudo, por quem gosta de bom cinema.

zzhavana5

Anotação em fevereiro de 2014

7 Dias em Havana/7 Dias en La Habana/7 Jours à La Havanne

De Benicio Del Toro, Laurent Cantet e outros cinco, França-Espanha, 2012.

Episódio Segunda – O Yuma

De Benicio Del Toro

Roteiro Leonardo Padura

Com Josh Hutcherson (Teddy), Alberto Espósito (Sabrina)

Episódio Terça – Jam Session

De Pablo Trapero

Roteiro Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre, Pablo Trapero

Com Emir Kusturika (ele mesmo), Alexander Abreu (motorista-músico)

Episódio Quarta – A tentação de Cecília

De Julio Medem

Roteiro Julio Medem, Leonardo Padura

Com Melvis Estévez (Cecília), Daniel Brühl (Leonardo), Leonardo Benítez (José)

Episódio Quinta – Diário de um iniciante

De Elia Suleiman

Roteiro Elia Suleiman

Com Elia Suleiman

Episódio Sexta – Ritual

De Gaspar Noé

Roteiro Gaspar Noé

Com Cristela de la Caridad Herrera (a garota), Dunia Matos (a amiga)

Episódio Sábado – Doce Amargo

De Juan Carlos Tabío

Roteiro Leonardo Padura

Com Mirta Ibarra (Mirta), Jorge Perugorría (Daniel), Melvis Estévez (Cecília), Beatriz Dorta (Yésica)

Episódio Domingo – A Fonte

De Laurent Cantet

Roteiro Laurent Cantet

Com Nathalia Amore (Marta), Andrés Vidal (Pedro), Alexis Vidal (Manolo)

Produção Chaocorp Distribution, Full House, Morena Films. DVD Imovision.

Cor, 129 min

***

4 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Chico & Rita em 19 dezembro 2014 às 2:48 pm

    […] cenas de Havana como mostradas em filmes mais recentes, feitos nos últimos 15, 20 anos, como 7 Dias em Havana, Habana Blues, Buena Vista Social Club e mesmo Morango e Chocolate e Guantanamera. Uma cidade linda […]

  2. […] sua segunda incursão a Cuba, após ter realizado um dos episódios de 7 Dias em Havana (2012), o diretor francês Laurent Cantet fez uma obra-prima, um filmaço. Retorno a Ítaca é um […]

  3. Por 50 Anos de Textos » Imprescindível Padura em 27 janeiro 2017 às 1:36 pm

    […] estatal da Espanha, e foi dirigida pelo espanhol Félix Viscarret. Mario Conde é interpretado por Jorge Perugorría, o ator que é assim o símbolo do cinema cubano das últimas décadas, um tanto como Ricardo […]

  4. […] dele – John Huston, Otto Preminger, Erich von Stroheim, para citar só alguns –, o sérvio Emir Kusturica gosta de se aventurar como ator. E, como os três citados, quando faz isso, brilha. A […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*