Anatomia de um Crime / Anatomy of a Murder

Nota: ★★★★

Anatomia de um Crime é um filmaço. Daquela excelsa categoria dos filmes perfeitos, em que não falta nada, não sobra nada, tudo se encaixa milimetricamente. É um dos melhores thrillers de tribunal que já foram feitos.

Tem importância histórica: lançado em 1959, era ousadíssimo para a época. Os Estados Unidos mal saíam do período de trevas do macarthismo, e o diretor Otto Preminger, ao enfrentar de peito e palavras abertas uma história que envolvia estupro, ajudou a lançar uma pá de cal sobre o Código Hays, o conjunto de regras rígidas de autocensura imposto ao cinema pelos grandes estúdios nos anos 1930.

Hoje, fala-se com absoluta tranquilidade de tudo o que envolve sexo, mas, na época, era inadmissível. Pois Preminger avançou sinal: foi o primeiro filme americano em que se pronunciou a palavra panties – calcinha. E a palavra aparece não uma vez, mas dezenas e dezenas de vezes, já que era peça importante no julgamento que ocupa boa parte da ação.

Tem importância histórica, mas não é uma peça de museu. Meio século depois de ter sido feito, o filme não envelheceu nada. Mantém intacta sua força, seu vigor. E, como todo grande filme, agrada a cada nova revisão; não dá para ficar cansado de ver e rever Anatomia de um Crime. Revimos agora para eu fazer esta anotação; depois chequei – tínhamos visto o filme em 1997, 2000 e 2006. Em 2006, anotei apenas uma frase: “Eis aí um filme daquela espécie rara, que se torna melhor a cada revisão”.

É a pura verdade. É um filme que se torna melhor a cada revisão.

Um ritmo tranquilo, maneiro, tomadas longas

Uma das coisas que mais me encantaram ao revê-lo agora foi o ritmo. Comparado aos filmes de hoje do cinemão comercial, Anatomia de um Crime tem ritmo lento, quase, como diria minha amiga Andrea Maura, tai chi chuan.

Claro, vai aí um bom exagero. Não é que o filme seja paradão. Não é isso. Mas as coisas, os fatos, as pessoas, vão sendo apresentadas em um ritmo deliciosamente tranquilo, maneiro. Ou, como diria Walter Franco, com aquele jeito zen dele, “a 60 minutos por hora, sem pressa nem demora”.

Tem 160 minutos. Duas horas e 40 minutos. Mas a gente nem nota que sua duração é quase o dobro de muitos dos filmes atuais. Na verdade, é daqueles filmes tão bons que, quando se aproximam do fim, deixam o espectador chateado: pô, mas já tá acabando?

Um ritmo tranquilo, maneiro. Tomadas longas. Alguns diálogos que não são fundamentais para a história – mas que servem perfeitamente para que o espectador conheça os personagens, seu caráter, seu jeito de encarar a vida, o mundo.

Ai, ai. Não gosto de saudosismo, mas a verdade dos fatos é que o cinema era muito melhor, antes de aderir às explicitudes todas e à estética pós-MTV de tomadas curtíssimas, montadas a uma velocidade frenética.

Um advogado que tem pouco trabalho, e gosta de pesca, música e cachaça

Ritmo tranquilo – mas não que o filme perca tempo. Com 15 minutos de projeção – que incluem créditos iniciais belíssimos, assinados pelo mestre Saul Bass, um inteligente grafismo sobre a anatomia humana, os pedaços do corpo, ao som da trilha composta por Duke Ellington –, já foram apresentados os personagens principais e a base da história.

Paul Biegler (James Stewart, aos 51 anos, 25 de carreira) é um advogado de uma cidadezinha bem pequena do Michigan, Iron City. Solteirão, trabalhou dez anos como promotor, até ser sacaneado por um colega, Mitch (Brooks West), que então assumiu o cargo. Como a cidade é pequena, Paul tem pouco trabalho – um ou outro divórcio, algumas cobranças de caloteiros. Passa a maior parte do tempo pescando num lago próximo à cidade. À noite, recebe em sua casa – confortável, porém modesta, onde também funciona seu escritório – o velho amigo Parnell McCarthy (Arthur O’Connell), ele também advogado, mas já aposentado. Bebem bourbon, conversam e lêem livros de Direito, acórdãos de tribunais, anais da Suprema Corte. Tem uma vida tranquila e gostos simples: adora um uísque, charutos, cigarros e jazz. Tem uma grande coleção de LPs de jazz, e toca piano, bastante direitinho.

Quando a ação começa, Paul está voltando para casa depois de dias pescando. Sua secretária, Maida (Eve Arden), uma figuraça, havia deixado um recado, dizendo que ele fora procurado por uma tal sra. Manion. Como estivera fora, não ficara sabendo que, numa cidade vizinha, Thunder Bay, tinha havido um homicídio. Parnell contará para ele – e para o espectador – os fatos principais do caso. (Na foto acima, James Stewart, Arthur O’Connell e Eve Arden.)

Um sujeito chamado Barney Quill, dono de um bar e um hotel em Thunder Bay, teria estuprado a sra. Manion, Laura Manion (Lee Remick, na foto acima). O marido dela, Frederick Manion, tenente do Exército, que estava estacionado numa base na região, foi atrás de Barney Quill e despejou cinco tiros nele. Estava agora preso na cadeia do condado. Laura, a mulher dele, tinha ligado para pedir a Paul que se encarregasse de sua defesa.

Laura aparece no escritório de Paul no dia seguinte. E muito rapidamente o espectador percebe muito sobre quem é a mulher. Jovem, muito bonita (Lee Remick tem olhos azuis faiscantes, dos mais belos do cinema), gostosa, é plenamente consciente de sua beleza e exibe o corpo em roupas ousadas, provocantes. É um tipinho fútil, vazio, que parece estar se oferecendo ao primeiro homem que encontrar. Uma mulher vulgar.

Com exatos 15 minutos de filme, Paul vai à cadeia para sua primeira conversa com o tenente Manion (Ben Gazzara). Assim como sua mulher, Manion se mostra muito rapidamente ao espectador. É uma figura em tudo por tudo desprezível. Tem temperamento quente, é um sujeito violento, cheio de si, arrogante, presunçoso – e tem um ciúme doentio da mulher bonita e gostosa cujo maior interesse na vida é atrair a atenção de todos os homens que passarem à sua frente.

Atores em interpretações maravilhosas, diálogos afiadíssimos, preciosos

James Stewart, Lee Remick, Ben Gazzara, Arthur O’Connell, Eve Arden – e também Joseph N. Welch, no papel do juiz Weaver, que conduzirá o julgamento do tenente assassino, e George C. Scott, que interpreta Claude Dancer, um experiente e presunçoso advogado que vem de uma cidade grande para auxiliar o promotor Mitch. Todos esses atores estão não menos que brilhantes. É um show de interpretações maravilhosas.

Os diálogos são afiadíssimos, preciosos.

Bem no início da ação, por exemplo, quando vemos o encontro de Paul com seu velho amigo Parnell – e já sabemos que este último bebe além da conta –, há um diálogo que qualquer escritor gostaria de assinar. Parnell bate o olho no saco de papel marrom que Paul havia trazido da pescaria e deixado em cima de um móvel. É óbvio que lá dentro há uma garrafa de bebida.

Parnell: – “O que tem no saco de papel marrom?”

Paul (mexendo nos peixes que trouxe da pescaria): – “Pode ser um replho.”

Parnell: – “Aposto que não seria.”

Paul: – “Você é um homem muito desconfiado.”

Parnell: – “Verdade, sou um homem eternamente desconfiado… e/ou fascinado pelo conteúdo de sacos de papel marrons. Posso dar uma olhada?”

Paul: – “Faça isso, doutor, faça isso. E, depois que der uma olhada, pode destampar o que você encontrar.”

Parnell (depois de verificar que a garrafa de uísque estava pela metade): – “Você andou lutando contra esse soldado. Você andou bebendo sozinho, Paulie. Não gosto disso.”

Paul (sentado diante do piano, começando a tocar): – “Jogue fora a pedra, doutor. Você vive numa casa de vidro.”

Parnell: – “Minhas janelas foram arrebentadas faz tempo, então eu posso dizer o que quiser.”

***

Pouco depois, quando Paul desliga o telefone após falar pela primeira vez com Laura Manion, combinando o encontro para o dia seguinte, Parnell conta para o amigo o que saiu nos jornais a respeito do assassinato de Barney Quill pelo tenente Manion. O relato termina assim:

– “O tenente vai até o bar de Quill e acerta o sr. Quill umas cinco vezes, o que leva o sr. Quill a rapidamente morrer de envenenamento por chumbo.”

***

Depois que Paul tem a primeira conversa com o tenente, na cadeia, Parnell pergunta a ele: – “Você deu ao tenente uma Lição Conhecida?”

Paul: – “Se você quer saber se eu o ensinei a contar uma história mentirosa, não.”

Parnell: – “Talvez você seja puro demais, Paul. Puro demais para as naturais impurezas da lei.”

“Guarde esse rebolado para o seu marido ver – se e quando eu conseguir tirá-lo da cadeia”

Bem mais tarde, quando estamos com 52 minutos de filme, há uma seqüência maravilhosa em um bar, que mostra perfeitamente o caráter de Paul e o caráter de Laura Manion. Há uma banda tocando um jazz dançante; Paul está sentado ao piano ao lado do pianista da banda, os dois tocando juntos no mesmo piano. A pessoa que interpreta o pianista é ninguém menos que Duke Ellington, The Duke em pessoa, fazendo ali uma ponta no filme para o qual compôs a trilha sonora.

Entre os casais dançando na pista está Laura Manion, sorridente, soltinha, feliz da vida, com uma calça comprida de pano leve que acentua sua bunda redondinha.

É Laura que vê o advogado do marido. Brinca com ele, e continua dançando, livre, leve e solta. Paul fecha a cara, pede desculpas ao pianista, levanta-se, vai atrás dela, arrasta-a para fora do bar. Quer saber por que ela não foi visitar o marido na cadeia nos dois últimos dias. Ela se espanta: ué, tem que visitar o marido todos os dias? Ah, então tá, vou lá amanhã, tudo bem?

 

 

O calmo Paul perde a paciência:

– “Até que o julgamento termine, você vai ser uma dona de casa bem comportada, com óculos de aro antigos, e você vai ficar longe dos homens, dos bares e de bebida e de máquinas de fliperama…”

(Antes de ser estuprada por Barney Quill, Laura estivera jogando fliperama com ele no bar, e, segundo testemunhas, requebrando muito.)

– “… e você vai usar saia e sapatos de salto baixo e uma cinta. Especialmente uma cinta. Olhe, Laura, creia, eu normalmente não reclamo de um belo rebolado, mas guarde esse rebolado para o seu marido ver – se e quando eu conseguir tirá-lo da cadeia.”

Juiz, advogado e promotor discutem em voz baixa: há outra palavra para designar calcinha?

A menção à cinta (girdle, em inglês; aprendi com o filme, mas claro que amanhã já não me lembro mais), assim como todo o comportamento de Laura Manion, devem ter enfurecido os conservadores, os carolas, os caretas – e aqueles eram tempos conservadores, carolas e caretas. Mas pior ainda seriam as seguidas menções à calcinha de Laura Manion.

A história que ela conta é que Barney Quill se ofereceu para dar carona a ela, quando ela, tarde da noite, decidiu voltar para seu trailer, onde o tenente Manion estava dormindo. Antes que chegassem ao trailer, ele a atacou. A calcinha dela foi arrancada e rasgada por Barney Quill. A polícia vasculharia toda a área, mas a calcinha não foi encontrada.

Paul leva bastante tempo para trazer à baila, durante o julgamento, o estupro de Laura. A promotoria fazia de tudo para que o assunto não fosse abordado. Quando, finalmente, o advogado consegue fazer com que o juiz admita a discussão sobre o estupro, este chama Paul e os dois promotores para uma conferência em voz baixa, para que não fossem ouvidos pelos jurados e espectadores do julgamento. O diálogo – de grande importância na história do abrandamento da censura – é o seguinte:

Juiz Weaver: – “Sr. Biegler, o senhor finalmente colocou o estupro dentro do caso, e penso que todos os detalhes agora devem ficar claros para o júri. Exatamente a que roupa de baixo o senhor se referiu agora há pouco?”

Paul: – “Calcinha, Meritíssimo.”

Juiz Weaver: – “Você acha que esse tema voltará a aparecer?”

Paul: – “Sim, senhor.”

Juiz Weaver: – “Há uma certa conotação ligeira ligada à palavra ‘calcinha’. Podemos achar outro nome para ela?”

Promotor Mitch: – “Nunca ouvi minha mulher chamar isso de qualquer outra palavra.”

Juiz Weaver: “Senhor Biegler?”

Paul: – “Sou solteiro, Meritíssimo.”

Juiz Weaver: – “Grande ajuda. Senhor Dancer?

Dancer: – “Quando estive no exterior durante a Guerra, Meritíssimo, aprendi uma palavra francesa. Mas tema que ela possa ser levemente sugestiva.”

Juiz Weaver: – “A maioria das palavras francesas é.”

***

Que maravilha: ao final de um diálogo que entraria para a história, incrustraram uma pitada da velha relação de amor e ódio que une e separa Estados Unidos e Europa!

A história de Joseph N. Welch, que interpreta o juiz, daria um filme

O senhor que faz o papel do juiz Weaver, Joseph N. Welch (1890-1960, na foto abaixo), é um caso à parte. Mereceria um filme sobre sua vida. Tem uma atuação brilhante como o juiz calmo, dócil, gentil, mas afiado feito peixeira de baiano. O roteirista Wendell Mayes criou para Welch se apresentar aos habitantes de Iron City e ao espectador uma delícia de introdução:

– “Um juiz é muito parecido com qualquer outro. A única diferença pode estar no estado de suas digestões ou sua propensão para dormir na poltrona. De minha parte, posso digerir ferro. E mesmo se parecer às vezes estar tirando uma soneca, vocês vão descobrir que posso facilmente ser acordado, particularmente se for instigado por um bom advogado com uma citação interessante da lei.”

A atuação de Joseph N. Welch como o juiz Weaver é uma maravilha – mas o cara não era ator. Era advogado; foi o principal advogado do Exército americano durante as investigações macarthistas sobre a infiltração de comunistas entre soldados e oficiais. Lá pelas tantas, durante uma das audiências do que passou à História como as Audiências Exército-McCarthy, Joseph N. Welch virou-se para o senador Joseph McCarthy, o sujeito que enxergava comunista comendo criancinha em qualquer lugar, e disse o seguinte:

– “O senhor já foi longe demais. O senhor não tem senso de decência? Finalmente, não sobrou para o senhor nenhum senso de decência?”

Consta que o papel do juiz Weaver foi oferecido a Spencer Tracy e Burl Ives. Quis a sorte que nenhum deles acabou fazendo o papel, que ficou para a interpretação brilhante desse homem íntegro, decente.

A história se baseia num caso real; o advogado de defesa transformou-a num livro

O autor do livro Anatomy of a Murder, publicado em 1958, apenas um ano antes de o filme ser feito e lançado, também é uma história à parte. Ele também mereceria um filme sobre sua vida.

O livro leva a assinatura de Robert Traver. Este é também o nome que aparece nos créditos iniciais do filme. Era o pseudônimo de John D. Voelker (1903-1991), ele mesmo um advogado e depois magistrado que chegou à Suprema Corte do Estado de Michigan.

O livro, por sua vez, foi inspirado em um caso real. Em 1952, um tenente do Exército foi acusado de matar um homem que teria estuprado sua mulher. O advogado de defesa no julgamento desse tenente foi o próprio Voelker. O sucesso do livro em que ele romanceou o caso real do qual participou foi tão grande que ele se aposentou da Suprema Corte de Michigan para se dedicar a escrever e a pescar – exatamente como Paul Biegler, o personagem do livro e do filme, Voelker era um apaixonado por pesca.

A realização dos grandes filmes em geral tem também belas histórias. Além das histórias de Joseph N. Welch e John D. Voelker, há também o caso da escolha da atriz para interpretar Laura Manion.

Consta que o papel foi oferecido a Lana Turner, uma das maiores atrizes do cinema americano da época. Lana aceitou o papel, mas impôs uma condição: ela só usaria roupas desenhadas especialmente para ela por seu figurinista, Jean Louis, nome conhecido da alta costura. A Columbia estava disposta a aceitar a exigência da estrela – afinal, Lana era garantia de bilheteria -, mas o diretor Otto Preminger argumentou que não seria possível: o tipo de roupas que Jean Louis desenhava não tinha nada a ver com as que Laura Manion teria que usar, roupas mais simples, mais baratas, mais provocantes, mais abertamente sensuais. Lana Turner então bateu o pezinho e disse que não aceitaria mais o papel.

Sorte de Preminger, sorte do filme, sorte dos espectadores. Lana Turner é bela, gostosa, sensual – basta lembrar dela virando a cabeça e ferrando a vida do pobre coitado do protagonista de O Destino Bate à Sua Porta, de 1946. Só que estávamos em 1959; Lana estava com 38 anos, jovem ainda, mas Laura precisaria ser bem mais jovem.

Lee Remick estava no estupor dos 24 aninhos. Tinha feito apenas dois filmes – Um Rosto na Multidão/A Face in the Crowd, de Elia Kazan, em 1957, e O Mercador de Almas/The Long, Hot Summer, de Martin Ritt, em 1958.

Há registro de que o papel teria sido ofertado a Jayne Mansfield, e recusado. Ainda bem. Os peitos de Jayne Mansfield seriam grandes demais para Laura Manion.

Na TV americana, o filme teve 13 intervalos comerciais; Preminger levou o caso à Justiça

Outras historinhas sobre o filme:

O pai de James Stewart ficou tão ofendido pelo filme, que chamava de “sujo”, que fez publicar um anúncio no jornal de sua cidade sugerindo que as pessoas não vissem a obra.

Na época do lançamento, o filme teve sua exibição proibida em Chicago. Chicago, uma das maiores metrópoles do país!

Calcinha não era a única palavra chocante do filme. Havia também “bitch” (puta), “contraceptive”, “penetration”, “rape (estupro)”, “slut” (outra palavra para puta) e “sperm”.

Na cena em que Paul Biegler-James Stewart vai visitar a gerente do bar de Barney Quill, Mary Pilant (Kathryn Grant), um funcionário está lendo Exodus, o calhamaço de Leon Uris. Um ano depois, Otto Preminger dirigiria o filme baseado no livro.

Vários anos após a estréia nos cinemas, a Columbia e sua subsidiária Screen Gems venderam Anatomia de um Crime para a TV, dentro de um pacote de 60 filmes. Ao exibir o filme em Nova York, a rede ABC interrompeu o filme 13 vezes, com 36 comerciais. Otto Preminger entrou na justiça contra o estúdio; o caso rendeu muita publicidade, mas o diretor perdeu a ação.

Anatomia de um Crime teve sete indicações ao Oscar: filme, ator para James Stewart, ator coadjuvante para Arthur O’Connell e George C. Scott, roteiro adaptado para Wendell Mayes, fotografia em preto-e-branco para Sam Leavitt e montagem para Louis R. Loeffler. Não levou nenhum.

Além dos Oscars, teve 11 outras indicações, e ganhou sete prêmios, entre eles um Grammy para a trilha sonora de Duke Ellington.

“Uma dissecação incisiva, amarga, dura e inteligente do sistema legal americano”

Leonard Maltin deu cotação máxima, 4 estrelas: “Longo, emocionante drama de tribunal; ousado quando lançado, mais domado agora. O grande elenco está ótimo: O’Connell como o advogado bêbado estimulado por Stewart, Joseph Welch como juiz (Welch era o famoso advogado presente às audiências do macarthismo que depois virou juiz na vida real), Scott como o advogado da promotoria. Mas Stewart eleva-se acima de todos como o inteligente, largadão mas esperto advogado de defesa.”

O livro 1001 Filmes para Ver Antes de Morrer diz que o filme, que gerou controvérsia na época do lançamento, “continua sendo uma dissecação incisiva, amarga, dura e inteligente do sistema legal americano”. “Desde o impressionante desenho dos créditos iniciais de Saul Bass (também presentes no cartaz) até a trilha jazzística de Duke Ellington, Anatomia de um Crime faz uma abordagem sofisticada incomum para um filme hollywoodiano do seu período. Radicalmente, se recusa a mostrar o assassinato ou qualquer das cenas relatadas no tribunal, deixando nas nossas mãos decidir, juntamente com o júri, se o rabugento e indiferente tenente Frederich Manion (Ben Gazzara) foi ou não vítima de um ‘impulso irresistível’ equivalente à loucura quando matou a tiros Barney Quill.”

E conclui: “Simplesmente o melhor filme de tribunal já feito”.

Eu não chegaria a isso. Mas que é um dos melhores, não há dúvida alguma.

Um absoluto brilho de filme.

Anotação em dezembro de 2011

Anatomia de um Crime/Anatomy of a Murder

De Otto Preminger, EUA, 1959

Com James Stewart (Paul Biegler), Lee Remick (Laura Manion), Ben Gazzara (tenente Frederick Manion), Arthur O’Connell (Parnell McCarthy), Eve Arden (Maida), Kathryn Grant (Mary Pilant), Joseph N. Welch (juiz Weaver), Brooks West (Mitch Lodwick), George C. Scott (Claude Dancer), Murray Hamilton (Alphonse Paquette), Ken Lynch (sargento Durgo), Duke Ellington (Pie-eye)

Roteiro Wendell Mayes

Baseado no livro de Robert Traver (pseudônimo do juiz John D. Voelker).

Fotografia Sam Leavitt

Música Duke Ellington

Montagem Louis Loeffler

Produção Otto Preminger, Columbia Pictures. DVD Columbia.

P&B, 160 min

R, ****

6 Comentários

  1. Rafael Noronha
    Postado em 4 fevereiro 2012 às 10:10 pm | Permalink

    Filmaço!
    Considero entre os melhores filmes de tribunal que já vi, junto com Testemunha de Acusacao e 12 homens e uma sentenca!

    Abraco!

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 4 fevereiro 2012 às 10:47 pm | Permalink

    Bingo, caro Rafael! Anatomia de um Crime, Testemunha de Acusação, 12 Homens e uma Sentença – e O Veredicto, que você esqueceu! Nossa mãe do céu, que filmaços, não?
    Um abraço.
    Sérgio

  3. Postado em 6 fevereiro 2012 às 1:15 am | Permalink

    Como o comentário que eu ia fazer o rafael já fez, vou só acrescentar que sinto falta de créditos como esses, inteligentes e provocantes.

  4. Carla
    Postado em 10 fevereiro 2012 às 4:01 pm | Permalink

    Eu ainda não consegui assistir na íntegra; mas o que vi, me prendeu. E como fã de James Stewart, gostando dos filmes de Preminger (Laura, O Rio das Almas Perdidas) espero vê-lo inteiro algum dia.

  5. Hierofante1970
    Postado em 8 abril 2014 às 10:58 am | Permalink

    Simplesmente um filmaço para assistir pelo menos um vez por ano, todos os atores estão ótimos são duas horas e quarenta de puro deleite. E sua crítica sobre o filme está excelente.

  6. José Luís
    Postado em 3 dezembro 2014 às 9:19 pm | Permalink

    Há muitos anos que eu esperava ver este filme. Finalmente consegui vê-lo hoje e fiquei maravilhado. É realmente uma obra-prima. Excelente crónica caro Sérgio!

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