Minhas Tardes com Margueritte / La Tête en Friche

Nota: ★★★☆

Anotação em 2011: Em Minhas Tardes com Margueritte/La Tête en Friche, um filme belo, sensível, Jean Becker reincide no tema amizade, conversas entre pessoas de diferentes classes e idades, o aprendizado com a pessoa que é diferente, o crescimento a partir daí.

Tema velho, batido, surrado. Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito, diz Fernando Brant através da melodia e da voz de Milton. Amigo é pra essas coisas, dizem Aldir Blanc e Silvio Silva Jr. A amizade sincera é um santo remédio, é um abrigo seguro, diz Renato Teixeira. É conversando que a gente se entende, diz Caetano, no meio da zoeira de sons de Araçá Azul.

La voce dell’uomo, quando parla, io l’ascolto, diz Sergio Endrigo.

Tema velho, batido, surrado – e fundamental, dos mais importantes da vida.

Ainda bem que Becker voltou a ele, e nos presenteou com mais um belo filme.

Ele reincide. Em Conversas com Meu Jardineiro/Dialogue avec mon Jardinier, de 2007, um homem bem de vida, pintor respeitado (o papel de Daniel Auteil), em crise com a vida em Paris, com o casamento que está acabando, volta para sua antiga casa no interior, e contrata para cuidar de seu jardim um antigo colega de escola básica (Jean Pierre Darroussin). Embora tenham em comum o fato de terem estudado juntos quando crianças, são pessoas de universos completamente diferentes. O jardineiro é bem mais pobre, bem mais simples, bem menos educado, culto. O pintor é urbanóide, intelectualizado. O jardineiro é simples, direto; o pintor é complicado, angustiado. Este vai aprender muito com aquele.

E, ao escrever isso, me vem à cabeça que o encontro dos dois homens tão díspares que Becker mostrou em Conversas com Meu Jardineiro se parece bastante com o encontro do intelectual escritor inglês complicado, angustiado (o papel de Alan Bates), com o homem simples, do povo, Zorba, o Grego (Anthony Quinn). Nos dois filmes, nos dois encontros, quem aprende mais é o intelectualizado, urbanóide; quem ensina é o homem do povo. E aí não consigo me conter e lembro do diálogo brilhante, talvez o mais marcante do filme de Michael Cacoyannis. Diante da perda de uma amiga, Zorba questiona Basil: por que essas coisas acontecem? – e o intelectual diz que não sabe. Zorba insiste: mas esses livros todos que você lê não trazem a resposta? Então para que servem todos esses livros? E Basil: eles falam sobre a angústia dos homens que, como você faz essas perguntas. E Zorba: Pois eu cuspo na angústia.

Um homem iletrado, bronco, e uma velha senhora culta, lida

Em Minhas Tardes com Margueritte, o encontro é entre um homem inculto, quase iletrado, com uma senhora nonagenária educada, culta, que já leu milhares de livros que expressam as angústias e as alegrias dos homens. Germain (o papel de Gérard Depardieu, cada vez mais imenso, o barrigão proporcional ao tamanho do narigão, um perfeito Obélix, que aliás ele já interpretou três vezes) não conseguiu sequer terminar o ensino básico. Tinha problemas com o aprendizado, e por isso era motivo de chacota do professor, dos companheiros de classe, e de insultos da própria mãe (interpretada, quando já idosa, por Claire Maurier, e por Anne Le Guernec quando jovem), uma mulher imbecil, egoísta, nada resolvida, amarga, que passou a vida jogando na cara do filho que ele não tinha sido desejado, que era um estorvo.

Germain ainda hoje – na época da ação, é claro – é alvo de gozação dos amigos e conhecidos, por ser bronco, um tanto tapado, quase (apenas quase) limítrofe em termos de inteligência. No entanto, não se deu mal na vida; não tem um trabalho fixo, garantido, bem pago, mas faz diversos pequenos trabalhos braçais, planta legumes e verduras que vende na feira da sua pequena cidade da região de Poitou-Charentes, sudoeste da França, um tanto acima de Bordeaux. É um homem comum que se vira, e se vira razoavelmente bem; mora num trailer no quintal da casa ocupada há décadas por sua mãe, e tem a sorte de ser amado por Annette (Sophie Guillemin, na foto abaixo), uma jovem bela, alegre e simples, motorista de ônbus na cidade. Bebe suas taças de vinho no bar da amiga Francine (Maurane), junto com um grupo de velhos amigos.

Por puro acaso, vai conhecer, numa praça da cidade, num banco diante do local onde 19 pombos ciscam, Margueritte – com dois tês, conforme ela especifica já no primeiro encontro.

Margueritte (interpretada, com o maior brilho, por Gisèle Casadesus), mais de 90 anos, está vivendo numa casa de repouso para idosos ali na cidade. É magrinha, bem magrinha, frágil, mas lépida, fagueira. Trabalhou na área de saúde, foi uma pesquisadora; é o oposto exato – em termos de conhecimento intelectual – do iletrado Germain. Leu muito, e continua lendo. Lerá livros para Germain – começando por A Peste, de Camus. Dará de presente para ele um grande Petit Larousse (muito parecido com a edição velhíssima que tenho).

Germain aprenderá muito com Margueritte, a ponto de os amigos do bar o estranharem. Mas a amizade é uma via de duas mãos…

O filme de Jean Becker, cheio de lugares comuns, nos ensina mais uma vez que não é preciso temer os lugares comuns – quer lugar comum mais comum que a vida?, perguntava, num de seus belos contos, o escritor Luiz Vilela.

Pois então, como a amizade é uma via de duas mãos, a educada Margueritte também aprenderá com o bronco Germain.

Um Depardieu muito à vontade. E Gisèle Casadesus é um absoluto encanto

É um belo filme. Simples, honesto, sensível. Depardieu está muito à vontade no papel do sujeito grandalhão, bronco e bom – é uma espécie de Obélix, embora sem a força descomunal, esse Germain, e então Depardieu o interpreta com a naturalidade de quem não precisa interpretar.

E essa senhorinha Gisèle Casadesus… Que maravilha. Nunca tinha ouvido falar dela. Nasceu em Paris em 1914 (apenas cinco anos depois da minha mãe), tem uma filmografia de 77 títulos. Começou no cinema em 1934, e parece que, nos créditos de seu primeiro filme, L’Aventurier, já aparecia como “Gisèle Casadesus, de la Comédie Française”. Aos 20 anos, ela já pertencia à vetusta, exigentérrima Comédie Française! Dos atores muito conhecidos do cinema francês, só me lembro de outro que começou tão cedo na Comédie Française, a bela, maravilhosa Annie Girardot.

As pessoas e os filmes sabem se falar sem intermediários

Jean Becker dividiu o roteiro de seu filme com Jean-Loup Dabadie; o roteiro se baseia em um livro publicado em 2009 por Marie-Sabine Roger, uma escritora nascida em 1957, em Bordeaux, e que, pelo jeito, escreve tantos livros quanto Gérard Depardieu faz filmes. Como escreve, a moça – montanhas de novelas e romances para adolescentes, histórias de aventuras e fantasias, e também obras para adultos, como La Tête en Friche, que Becker resolveu filmar.

La Tête en Friche parece ser algo como “a cabeça inculta”. Perto de “a cabeça terreno baldio”.

Talvez por ser um filme tão simples, com esse tom despretensioso, La Tête en Friche não recebeu prêmios nos bilhões de festivais e mostras de cinema que existem mundo afora. Mas, se não faz a cabeça “culta” do povo de nariz empinado da Mostra de Cinema, parece agradar às pessoas. Aparentemente, tem tido razoável sucesso de público por onde passa – e o único prêmio que recebeu, segundo o IMDb, foi o do público, no Newport Beach Film Festival. Em julho de 2011, continuava em cartaz em São Paulo – em salas que normalmente são usadas para a Mostra –, dois meses após a estréia.

O cinema, assim como a música popular, tem disso: ele prescinde da crítica. Não é preciso ter críticas boas para que as pessoas descubram os filmes. As pessoas e os filmes sabem se falar diretamente, sem intermediários. Exatamente como o pintor e seu jardineiro, como Basil e Zorba, como Germain e Margueritte.

Minhas Tardes com Margueritte/La Tête en Friche

De Jean Becker, França, 2010

Com Gérard Depardieu (Germain Chazes), Gisèle Casadesus (Margueritte), Maurane (Francine), Sophie Guillemin (Annette), Claire Maurier (a mãe), Anne Le Guernec (a mãe quando jovem), Patrick Bouchitey (Landremont), Jean-François Stévenin (Jojo), François-Xavier Demaison (Gardini)

Roteiro Jean Becker e Jean-Loup Dabadie

Baseado no livro La Tête en Friche, de Marie-Sabine Roger

Fotografia Arthur Cloquet

Música Laurent Voulzy

Produção ICE3, K.J.B. Production, France 3 Cinéma, Studio Canal, DD Productions, Canal+. Estreou em SP 27/5/2011.

Cor, 82 min

***

2 Comentários

  1. Postado em 26 agosto 2011 às 1:35 am | Permalink

    Assisti na semana passada. Um filme encantador. Grande atuação de Gisèle Casadesus (que eu não conhecia) e do veterano Depardieu.
    Um filme para ser lembrado.

  2. Postado em 5 dezembro 2011 às 5:52 pm | Permalink

    Oi, Sérgio, mas q filme terno e bonito, vc tem razão, a coisa mais preciosa no mundo são os bons amigos q fazemos pois eles, na minha opinião, são a família q escolhemos. E a mim, como a vc,o filme deve ter tocado especialmente, pois o q une o bronco e a erudita são os livros, q parecem ser tão preciosos p vc como para mim. Para mim,pelo menos, são um caso de amor antigo!
    E q sensibilidade do Gremain ao perceber a catástrofe na vida da senhora com a perda iminente da visão, pois para a Margueritte os livros são a única coisa q resta de bom, são a sua vida. E que ato bonito ao final, será q estou dando um spoiler? Quem ainda não viu, não continue a ler o comentário: Germain sequestra a sennhora daquele antro em q o sobrinho a colocou para levá-la com ele e, afinal, dividem um sanduíche.Lindo, lindo, lindo!
    Guenia Bunchaft
    http://www.sospesquisaerorschach.com.br

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  2. […] veterano Jean Becker insiste e não desiste do tema que tem abordado sempre em seus últimos filmes. Felizmente. É um […]

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